Mariana: um trailer do fim do mundo

47

A equipe do Opinião Socialista esteve em Bento Rodrigues, distrito de Mariana (MG) destruído pela lama da Barragem Fundão da mineradora Samarco. A próxima edição do jornal terá uma reportagem especial sobre a tragédia. Confira abaixo o relato de um dos integrantes da equipe sobre a viagem.

Quando chegamos em Mariana (MG), nossa primeira missão foi visitar umas das pousadas que abrigavam os moradores do subdistrito de Bento Rodrigues, atingidos pelo rompimento da Barragem Fundão da mineradora Samarco. As entrevistas foram emocionantes, foi difícil não deixar cair ciscos em nossos olhos. A cena me lembrou bastante a desocupação  do Pinheirinho. Famílias inteiras em corredores com a esperança de um futuro prometido pela empresa, o sonho de uma casa nova, o sonho de uma nova vida!

Muitos eram pequenos agricultores, utilizavam da terra para sobreviver. Plantavam banana, melancia, mamão, feijão, tomate. Dona Maria,72, tinha uma horta e vendia seus legumes para as empresas da região. Dona Joana, 56, fazia parte de uma cooperativa que processava pimenta em geleia, pimenta em conserva. Essa cooperativa chegava a exportar.

Driely Fonseca, 18, moradora de Bento Rodrigues, perdeu uma prima de 5 anos e um tio de 42. “Foi tudo muito rápido, eu estava na casa de um amigo quando um caminhão que estava descarregando legumes passou avisando para todo mundo sair da cidade, dizendo que a barragem tinha rompido. No primeiro momento fiquei sem acreditar, saí da casa e vi a água se aproximando e tomando conta da igreja. Imediatamente liguei para minha mãe que retirou toda a minha família. Esse moço do caminhão levou praticamente toda a minha rua.”

 

Tudo era lama!
Nossa segunda etapa foi tentar ir até o subdistrito de Bento Rodrigues. Não achávamos que iríamos chegar tão perto. A informação que nos passaram é que a cidade estava sitiada pela Polícia Militar e o Exército. Falavam que apenas os moradores credenciados poderiam entrar. Pegamos um carro e fomos pela estrada velha de barro, achávamos que pudessem ter ao menos barreiras. Mas a primeira barreira que encontramos foi a natural, tivemos de abandonar o carro e continuar o trajeto caminhando, porém, não era uma caminhada simples. Caminhamos aproximadamente 2 km por cima da lama.

A estrada acabou e tinha algo que nos separava da cidade destruída pela barragem: o rio Gualaxo, misturado com lama, rejeito (resto de minério e produtos químicos utilizados para o beneficiamento do minério de ferro como amido e soda cáustica) e animais mortos. Aproximando-se das margens do rio, um de nossos fotógrafos, Paollo Rodajna, se afastou para tirar uma foto e foi surpreendido por um colchão de lama. Afundou mais de um metro, mas foi resgatado pela equipe.

Para atravessar o rio tivemos que improvisar uma ponte com pedaços de madeira que estavam no local. Depois de atravessar o rio, um novo obstáculo: escalar uma montanha de lama. Chegar até a cidade não era mais uma vontade, era um dever. Como uma imprensa operária, queríamos mostrar o que a grande mídia tentou esconder. Olhávamos para trás e sentíamos aquela sensação de quando subimos em uma arvore: “a volta vai ser pior.”

O fim do mundo, pensamos, deve se parecer com aquelas imagens que víamos naquele momento. Ao entrar no que restou da cidade, víamos uma grande cratera. Cenas de um filme pós-apocalíptico. O silêncio reinava e se misturava com latidos angustiantes de cachorros famintos à procura de seus donos, era de arrepiar!

Dividimo-nos, e eu entrei no resto de uma casa que ainda tinham quatro paredes e, onde devia estar o teto, estava um carro que provavelmente foi arremessado pela força da água. Nessa casa encontrei roupas de crianças e um arranjo de flores pendurado na parede. Estávamos em quatro e nos primeiros 30 minutos não trocamos uma palavra. Agora entendo Fábio, 36, quando ele falou que não tinha condições de voltar no distrito Bento Rodrigues. “O mais triste não é estar morando fora de casa, o mais triste é ir até lá ver a casa destruída.”

 

Não foi um acidente! 

A empresa tem 100% de culpa e tem de arcar com todos os custos, morais e materiais dos moradores. Entrevistando Fátima (41), moradora de Bento Rodrigues e esposa de Rogerio (39), funcionário de uma terceirizada da Samarco, ela relatou que o marido falou que existia um boato de um possível problema na barragem, alertado inclusive para a chefia da empresa pelos próprios funcionários.  Fica claro que a Mineradora Samarco, não estava nem ai para o suposto acidente.

O diretor do sindicato Valerio Vieira, informou que existe um grande risco de mais duas barragens, pertencentes à empresa Samarco, romperem.  Entre os dias 6 e 8 de novembro, bombeiros, técnicos e especialistas, foram até o local e identificaram fissura, infiltração e rachaduras. Porém, a empresa continuava afirmando que não existia problema nenhum nas duas barragens. Mas no dia 16, em declaração pública, contrariando seus depoimentos passados, afirma que existem problemas graves e que podem causar o rompimento das barragens e que obras haviam sido iniciadas para resolver isso.

Poderia ter sido evitado?

O subdistrito de Bento Rodrigues não contava com nenhum esquema de segurança. “Não tinha nenhum tipo de alarme, eu tive que sair gritando”, desabafa Dona Joana. O DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral) conta apenas com 200 fiscais em todo Brasil. Apenas quatro deles no estado de Minas Gerais para fiscalizar 317 represas de rejeitos. De todas essas barragens, 95 não contam com o Plano nacional de Segurança de Barragens e, portanto não são fiscalizadas e nem sequer a empresa tem previsão de contratação.

A equipe está voltando para São Paulo com um grande sentimento de indignação. Esperamos que esses trabalhadores que perderam suas casas consigam um local digno para tocar suas vidas. Se isso não acontecer, estaremos de volta para contar o fim dessa historia.