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Nossa
concepção de transição ao Socialismo
Texto extraído de "Teses programáticas para a revolução
proletária" programa de fundação do
PSTU
Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado
41) O nosso objetivo estratégico é a revolução
comunista mundial. Dizia Trotsky: "A base material do
comunismo deve consistir num desenvolvimento do poder econômico
do homem de tal modo que o trabalho produtivo, deixando de ser
uma carga incômoda, não tenha necessidade de qualquer
coação, nem tenha outros controles além dos
da educação, do hábito, da opinião
pública, como hoje ocorre em uma família sem dificuldades
econômicas. É necessário, para falar francamente,
uma grande dose de estupidez para considerar como utópica
uma perspectiva, em definitivo tão modesta."(A
Revolução Traída)
Uma vez tomado o poder, não se pode passar imediatamente
ao comunismo, no qual as relações seriam determinadas
pelas normas clássicas de Marx : "de cada um segundo
suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades ".
A insuficiência no desenvolvimento das forças produtivas,
a herança material e cultural ainda não o permitem.
A necessidade de desenvolver as forças produtivas ainda
vai obrigar a distribuir os bens de acordo com a quantidade e
qualidade do trabalho.
O socialismo, estágio inferior do comunismo, em que a repartição
ainda será determinada pelo salário, para ser alcançado
implica num grau de desenvolvimento das forças produtivas
superior ao do capitalismo avançado, e no início
da desaparição do estado. É muito importante
definir então as linhas gerais do que entendemos que deve
ser a transição desde a tomada do poder até
o socialismo.
Os três princípios gerais dos quais derivamos todos
os demais são:
a) a luta pelo socialismo necessariamente é uma luta mundial;
b) é o proletariado enquanto classe que deve dirigir o
estado;
c) o partido, por ser o elemento consciente e dirigente na tomada
do poder, é o fio condutor da luta pela revolução
internacional e da transição para o socialismo.
42) A luta pelo socialismo necessariamente
é uma luta a nível internacional. Não se
pode alcançar o desenvolvimento das forças produtivas
necessárias para se chegar ao socialismo através
de recursos econômicos somente de um país, por mais
extenso e rico que seja. A economia é mundial, e é
desta base que devemos partir para a compreensão de nossas
tarefas. Necessariamente a sorte da revolução em
um país estará determinada pela extensão
ou não do processo revolucionário na arena internacional.
É por isso que o internacionalismo proletário não
é um elemento a mais em nosso s princípios. Trata-se
de um elemento decisivo para a construção da revolução.
43) O proletariado deve exercer o poder
através de um novo tipo de estado. O objetivo central dos
revolucionários durante a transição ao socialismo
é fazer com que o proletariado exerça, efetivamente,
o poder, só assim é possível apontar em direção
a revolução socialista mundial e ao desaparecimento
do estado.
Analisando a primeira experiência soviética é
preciso dizer que não se trata de uma tarefa simples. Não
se trata aqui do partido exercer o poder em nome do proletariado
mas, ao contrário, do proletariado, através de seus
organismos, desde a base junto com sua vanguarda, exerça
a gestão do Estado. Para que isto possa acontecer é
fundamental o papel do partido revolucionário, mas isto
não quer dizer que a gestão do partido seja sinônimo
do exercício do poder pela classe.
Isto só é possível através da criação
de um outro tipo de estado, cuja estrutura deve ser radicalmente
diferente daquela do Estado burguês.
44)Esse Estado será um Estado
"tipo comuna", um Estado Proletário, que seja
a expressão do proletariado organizado em classe dominante.
Nesse sentido, enquanto Estado de uma classe, continuará
mantendo a condição de instrumento de ditadura de
classe, mas desta feita de uma classe que representa os interesses
e objetivos históricos da esmagadora maioria da sociedade,
o proletariado. Será o que Marx denomina ditadura do proletariado.
Falar em ditadura do proletariado significa a luta pela mais ampla
democracia do conjunto da massa trabalhadora, e a coerção
necessária para derrotar a resistência contra-revolucionária
da burguesia e do imperialismo.
A forma básica em que se estrutura esse Estado é
o Conselho Operário (soviets), alicerçado na base
de toda a sociedade, nas fábricas, locais de trabalho,
bairros etc. O objetivo fundamental é veicular a atividade
quotidiana das massas aos problemas fundamentais do estado, da
economia etc. É evitar que a administração
destas questões seja privilégio de uma burocracia
isolada das massas.
Nesse sentido, é uma República dos Conselhos Operários.
Os princípios democráticos sobre os quais se organiza
e funciona devem ser os mesmos que caracterizam as experiências
da Comuna de Paris e dos primeiros anos da Rússia soviética:
elegibilidade de todos os cargos públicos e revogabilidade
de qualquer mandato; os salários pagos aos mandatários
e a qualquer funcionário não podem superar o salário
médio pago a um operário.
A democracia dos soviets (ou de qualquer outra forma através
da qual as massas se organizarem para exercer o poder) implica
numa participação continua e ativa da população
no governo. Ao invés de uma democracia indireta, em que
as massas votam a cada 3 ou 4 anos, de forma individual, em um
representante que terá toda a liberdade para fazer o que
quiser até as próximas eleições, os
soviets organizam a participação quotidiana, no
local de trabalho, elegendo representantes que estarão
junto aos trabalhadores todo o tempo, podendo ser revogados a
qualquer momento.
Os conselhos decidem também e implementam diretamente os
assuntos locais, superando a distinção entre o legislativo
e o executivo da democracia burguesa. Não se exclui a possibilidade
de utilização do recurso a métodos plebiscitários
quando assim se considerar necessário.
45) A ditadura do proletariado será
"a forma mais ampla da democracia", porque permitirá
aos trabalhadores e a toda humanidade superar os limites da vida
praticamente animal de luta pela sobrevivência cotidiana,
dando acesso democrático a todos meios de comunicação
(rádio, televisão, editoras, jornais etc.) e à
cultura, liberando parte do tempo da humanidade para atividades
de lazer e aprimoramento intelectual. Assim serão construídas
as bases efetivas para o crescimento dos homens e mulheres, não
somente no plano da produção, mas em toda a vida
material e intelectual da nova sociedade.
46) O estado Proletário, enquanto expressão da auto-organização
operária, é um Estado baseado na mais ampla liberdade
de organização e expressão para todos as
correntes e partidos políticos. Por conseguinte, a estrutura
do Estado Proletário não pode jamais se confundir
com a estrutura de qualquer partido, por maior que seja sua hegemonia
no interior da classe e dos órgãos do poder operário.
Para isto é essencial que garanta também a mais
plena liberdade de organização, pensamento e expressão
do pensamento a todas aquelas correntes, individuais e partidos
que respeitarem os princípios da legalidade proletária.
Uma ampla liberdade cultural é fundamental para a efervescência
criativa nas artes.
Não se restringirão as liberdades de culto religioso.
As igrejas perderão suas grandes extensões de terras,
e empresas, como todos os grandes proprietários, mas se
garantirá o mais absoluto respeito às crenças
religiosas.
No movimento operário se deve garantir não só
a mais ampla democracia no interior dos conselhos, como também
a existência de organismos independentes de qualquer controle
estatal, como os sindicatos. A existência de sindicatos
livres e independentes do estado é fundamental para a existência
da democracia operária. No mesmo sentido, o direito de
greve deve ser plenamente garantido.
A todos, inclusive aos partidos burgueses que tenham apoio entre
a massa trabalhadora, devem ser garantidas as liberdades democráticas
de associações, reunião e expressão
de suas posições, desde que não defendam
a luta armada contra o regime. Serão os soviets os que
definirão sobre a legalidade ou ilegalidade dos partidos.
47) No entanto, esta garantia de direitos não implica em
que, uma vez transgredida esta legalidade, os trabalhadores organizados
nos Conselhos não tenham o direito, e mesmo o dever, de
exercer a coerção e a repressão. Em uma situação
onde os inimigos da classe ultrapassem os limites da expressão
de suas posições e da luta democráticas no
interior dos organismos de poder do proletariado, passem a utilizar
o terrorismo ou recorram à guerra civil, aliados ou não
ao imperialismo, é natural e plenamente lícito que
o proletariado recorra a medidas repressivas para fazer valer
os direitos e deliberação da maioria.
É necessário Ter em conta que o imperialismo continuará
dominando a nível mundial e apoiando qualquer tentativa
burguesa para armar a contra revolução. A repressão
da burguesia e seus agentes é uma expressão legítima
da ditadura do proletariado, de um estado que exerce contra a
resistência furiosa da contra revolução.
A nossa norma programática deve ser a mais ampla liberdade
como objetivo para o estado novo. Mais isto não se sobrepõe
à evolução concreta da luta de classes que
vai fazer aparecer a outra característica do novo estado,
o seu caráter de ditadura de uma classe contra outra, agora
da maioria contra a minoria. A partir daí, os direitos
democráticos da burguesia e seus representantes podem e
devem ser restringidos ou abolidos.
Os que querem assegurar a imunidade contra a burocratização
do estado restringindo a possibilidade de que o mesmo se defenda
e utilize a violência física contra a burguesia e
seus agentes nada mais fazem do que negar a violência revolucionária.
O stalinismo utilizou a violência, a repressão, essencialmente
contra os trabalhadores e não contra a burguesia.
Isto, porém, exige que a própria aplicação
de medidas provocadas pelo inimigo seja controlada diretamente
pelo órgãos do poder proletário, os Conselhos
e a decisão de aplicar, manter ou aprofundar deve caber
a eles. A repressão ou o terror devem ser medidas tomadas
em função dos interesses dos, e pelos proletários
organizados.
48)O novo estado operário revolucionário associa
portanto dois conteúdos diferentes e inter-relacionados
entre si. Por um lado, é uma democracia muito mais ampla
do que qualquer democracia burguesa, porque permite às
amplas massas condições para decidir sobre as grandes
questões de estado, assim como para participar cotidianamente
na gestão do mesmo. Por outro lado, o novo estado tem de
exercer a violência necessária para se manter contra
a burguesia, o imperialismo e seus agentes.
É este o duplo conteúdo da ditadura do proletariado.
E é uma de nossas tarefas centrais o resgate desta proposta
em seu conteúdo verdadeiro. O stalinismo, durante décadas,
manchou esta definição programática central,
confundindo-a propositalmente com a ditadura de uma burocracia
contra o proletariado.
A social-democracia se utiliza da aberração stalinista
para tentar varrer do movimento operário a discussão
desta tarefa fundamental, sem a qual não existe possibilidade
de exercício do poder pelo proletariado.
Não estamos perante um simples nome que se pode trocar,
como os bolcheviques deixaram a denominação de social-democratas
após a traição da social-democracia na I
Guerra Mundial, passando a se chamar comunistas. Ditadura do proletariado
é mais que um nome, é uma definição
programática central.
49) A construção de um estado revolucionário
do proletariado tem um caráter transitório, na medida
em que seu próprio objetivo é a dissolução
em direção ao comunismo. Reivindicamos a compreensão
comum a Lenin e aos bolcheviques de que o Estado deve começar
a se dissolver logo após a tomada do poder. Mas isto não
deve ser entendido como a desaparição rápida
ou imediata do estado. Para que o estado desapareça, é
necessário que desapareça junto a dominação
de classe e a luta pela existência individual.
Ou seja, será necessário que o proletariado não
mais tenha necessidade de atuar enquanto classe dominante, o que
significa a vitória mundial da revolução
socialista contra o imperialismo e os setores remanescentes das
classes dominantes. A desaparição do estado operário
em um país em que se tome o poder estará assim ligada
em primeiro lugar ao desenvolvimento da luta de classes a nível
mundial. A idéia idílica de que se pode chegar à
desaparição do estado em um pais isolado é
apenas mais uma reedição do socialismo num país
só, agora em versão utópica.
Será necessário também que o desenvolvimento
das forças produtivas torne desnecessária a existência
de outros tipos de controle além da simples opinião
pública. Isto pressupõe um alto grau de desenvolvimento
econômico e cultural, o que também está ligado
á sorte do processo revolucionário mundial. Enquanto
o imperialismo dominar a economia mundial, ocorrerão pressões
sobre o novo estado operário, e mecanismos de defesa necessários.
Tampouco pode ser entendido que não existirá nenhum
tipo de burocracia nestas primeiras fases do estado. O baixo nível
cultural e técnico das massas obriga a utilização
de especialistas em vários terrenos. O que diferencia um
estado revolucionário neste caso não é a
existência ou não de burocratas, mas a existência
ou não de controle sobre ela desde a base do proletariado
organizado.
Em que sentido então o estado começa a desaparecer
logo após a tomada do poder? De acordo com o programa dos
bolcheviques de 1919:
"Trabalhar neste campo está estreitamente ligado ao
objetivo histórico principal do poder soviético,
ou seja, avançar em direção à abolição
final do estado, o que deve consistir no seguinte: primeiro, todo
membro dos soviets deve, sem falhas, fazer alguma tarefa administrativa
do estado; segundo, estas tarefas devem ser constantemente mudadas
de tal maneira que abarquem todos os aspectos da administração
e de seus ramos; e terceiro, literalmente toda a população
trabalhadora deve ser estimulada a uma participação
independente na administração do estado por meio
de uma série de medidas, graduais que sejam cuidadosamente
selecionadas e aplicadas com firmeza"
O estado começa a desaparecer pela incorporação
dos trabalhadores às tarefas do estado, desde o controle
da distribuição, da justiça, da constituição
de milícias armadas etc. O desenvolvimento deste processo
dependerá da evolução concreta da luta de
classes mundial e nacional, bem como da economia. Os bolcheviques
foram obrigados, por exemplo, a passar das milícias a um
exército centralizado para defender o estado na guerra
civil. O estado não será abolido por decreto, mas
irá se extinguindo junto ao desaparição das
desigualdades materiais e a luta de classes, como parte de um
processo mundial.
50) O proletariado é a única classes que pode encarar
o desafio histórico de um poder que se propõe a
auto-extinguir-se, em função de sua relação
coletiva com a produção, e por sua homogeneidade
enquanto classes relativamente superior às outras classes.
O desenvolvimento tecnológico, aos contrário do
que afirmam alguns, joga a favor desta tarefa histórica,
na medida em que possibilita um maior desenvolvimento das forças
produtivas. A universalização do trabalho assalariado
joga a favor da revolução mundial. Mas seria um
equívoco imaginar a transição e o exercício
do poder pelo proletariado como um caminho simples, sem contradições.
Nada mais falso.
51) O proletariado, ao contrário da burguesia, não
se prepara para o poder antes de exercê-lo. A burguesia,
antes da revolução burguesa, já controlava
a economia. Durante dezenas e mesmo centenas de anos, teve uma
preparação cultural e técnica para sua hegemonia
sobre o conjunto da sociedade. Tem e teve `a sua disposição
intelectuais e técnicos que se movem no mesmo quadro ideológico,
para obter vantagens materiais superiores às dos outros
trabalhadores.
O proletariado não controla a economia até chegar
ao poder, e só a partir daí pode fazê-lo.
Ao assumir o poder, carrega um enorme atraso cultural e técnico.
Ao contrário da burguesia, que controla diretamente as
sua fábricas, o proletariado necessita da mediação
e centralização do estado para exercer o controle
operário. Os especialistas que podem ser utilizados pelo
proletariado na gestão da economia e da sociedade sempre
vão apresentar tensões com a coletividade e maiores
possibilidades de burocratização. O controle da
economia mundial pela burguesia vai ser uma fonte de pressões
sobre um estado operário recém construído.
52) Transição para o socialismo não é
igual à mera estatização. A expropriação
da propriedade burguesa e a estatização dos meios
de produção inscrevem-se entre as primeiras medidas
do proletariado ao assumir o poder. A expropriação
da burguesia corresponde, em primeiro lugar, a uma exigência
do próprio processo de socialização das produção,
superando a dicotomia entre produção social e apropriação
individual. Em segundo lugar, significa colocar nas mãos
do proletariado, organizado enquanto classe dominante através
dos Conselhos, a propriedade dos meios de produção,
de forma a superar a anarquia da produção e permitir
o planejamento socialista.
Mas a socialização dos meios de produção
e a planificação socialista da economia não
podem ser confundidos com mera estatização dos meios
de produção e o direcionamento "planificado"
burocraticamente a partir do topo. As ilusões que foram
alimentadas durante décadas nos chamados "socialismos
realmente existentes" contribuíram para consolidar
essa visão equivocada que, além de igualar socialismo
à fórmula estatização + planificação,
confunde propriedade social com propriedade estatal, e planificação
socialista com ditames e metas "baixadas" pelo estado
por decreto.
53) A planificação socialista da economia não
pode, porém, existir sem autêntico estado Proletário.
Ela é uma regulamentação racional da economia
com vistas à satisfação das necessidades
sociais, o desenvolvimento das forças produtivas, o crescimento
econômico, a superação das desigualdades econômicas
e sociais, visando a realização do comunismo.
Os únicos que podem determinar com clareza as reais necessidades
e exigências sociais são os trabalhadores, pois eles
são ao mesmo tempo produtores e consumidores. Um tal processo
requer necessariamente a existência da mais ampla democracia
para todo o proletariado e os despossuídos, isto é,
exige um estado que seja a expressão estatal da auto-organização
do proletariado.
O mesmo ocorre no tocante ao desenvolvimento das forças
produtivas e o incremento da produção. A planificação
deve ser essencialmente a definição coletiva dos
trabalhadores sobre metas centrais da economia. O critério
para o estabelecimento das metas é sempre determinado pelas
necessidades sociais, pela busca constante da melhoria dos padrões
da vida social e pelas necessidades da revolução
mundial e da transição ao comunismo. Os planos serão
hipóteses amplas de trabalho a serem corrigidas em sua
própria implementação, com as correções
que vierem da realidade, através da participação
dos trabalhadores e das respostas concretas da economia.
54) O plano econômico deve estar a serviço da extensão
da revolução mundial e de que a classe possa exercer
efetivamente o poder. Isto significa um claro referencial político
para o planejamento econômico. A luta pelo aumento da produtividade
do trabalho deve estar a serviço, em primeiro lugar, da
melhoria do nível de vida material do proletariado. Trotsky
se referia isso dizendo que o "socialismo que não
melhorar a situação material das massas não
merece ser chamado por esse nome". A opção
da burocracia stalinista em dedicar ¾ da produção
aos bens de capital e não aos bens de consumo das massas
teve a ver com o fato de que os burocratas podiam usufruir de
todos os bens de consumo que quisessem. Sem uma melhoria real
do nível de vida não existe possibilidade de consolidação
a longo prazo do estado operário. Da mesma maneira é
necessário pensar na manutenção da aliança
que permitiu a luta pelo poder, com a necessidade de satisfazer
as necessidades do campesinato e das massas urbanas.
55) O crescimento econômico no período de transição
por outro lado, não pode ser concebido apenas em termos
quantitativos, de aumento de volume de produção.
A transição exige um aumento significativo do nível
de produtividade da economia. É esse o principal indicador
do grau de desenvolvimento das forças produtivas. E a exigência
de uma economia intensiva decorre da própria situação
objetiva em que se encontrará qualquer estado Proletário
durante o período de transição. Um eventual
"bloco "dos Estados Proletários estará
sob a pressão constante do capitalismo mundial, uma vez
que continuará sendo parte da economia mundial. A necessidade
de elevar sua produtividade , colocando-o num patamar próximo
ou equivalente ao dos países capitalistas mais avançados,
é decorrência desse fato, uma vez que a economia
do período de transição (na qual subsiste
a lei do valor) não poderá estar imune às
modificações do tempo de trabalho socialmente necessário
a nível mundial.
56) A elevação da produtividade do trabalho tem
como conseqüência a própria libertação
do proletariado da escravidão e da alienação
do trabalho, para permitir sua libertação integral,
a elevação de seu nível cultural e o acesso
ao lazer e, simultaneamente, potenciá-lo para exercer efetivamente
seu papel de gestor da nova sociedade. Só reduzindo o tempo
dedicado por cada operário ao trabalho ( como conseqüência
da elevação da produtividade) é que ele terá
condições de dedicar parcelas de seu tempo ao lazer,
à cultura e também às atividades de gestão
e controle da sociedade e da produção. Dizer que
no Estado Operário o proletariado enquanto classe está
no poder não é uma questão somente de existirem
formas de poder (Conselhos) que permitem isso. Ë também
necessário que os proletários disponham de tempo
para se dedicar a estudar, a adquirir cultura, isto é,
a se armar efetivamente para exercer o poder. A existência
de um maior tempo livre é fundamental para que os trabalhadores
possam, se incorporar às funções de administração,
justiça, defesa etc. Não existe a possibilidade
de que alguém trabalhe 12 ou 14 horas por dia, faça
um "Sábado comunista', e no Domingo se dedique a administrar
o estado.
57) A elevação do nível cultural e técnico
dos trabalhadores é estratégica para a manutenção
do exercício do poder pela classe. O controle operário
da produção não se limita a definições
políticas (que são fundamentais), mas exige um conhecimento
técnico fundamental para que esta tarefa não fique
a cargo simplesmente de especialistas. O mesmo problema vai existir
com a justiça, ou o controle da distribuição.
Nos períodos iniciais sempre vai haver a necessidade dos
especialistas, pela defasagem cultural e técnica existentes.
Mas terão de ser controlados politicamente pela base e
estrategicamente supridos pela capacitação técnica
do conjunto da população.
58) A luta para que a classe exerça o poder é também
uma luta contra as pressões burocratizantes do estado.
A existência determina a consciência. Esta definição
marxista precisa ser observada atentamente e fazer parte de uma
política contra as pressões burocratizantes do estado.
Um excelente ativista operário, ao passar a cumprir uma
tarefa profissional no parelho do estado, deixa de ser um operário
e passa a refletir pressões que advêm do próprio
aparelho.
Existe uma contradição evidente entre a necessidade
que tem o proletariado de um estado para a transição
ao socialismo (ou seja ao "não estado"), e as
pressões burocratizantes que existem a partir do próprio
aparelho do estado.
Não se pode "resolver" esta contradição
negando a necessidade do estado operário para a transição.
Ou negando-a de um outro modo, deixando de ver as pressões
burocratizantes do parelho do estado, ou a importância de
se ter um programa em relação a elas. Longe de nós
querer criar normas apriorísticas que ignorem a complexidade
da luta de classes. Mas é necessário reconhecer
o problema e propor contra medidas gerais, sempre reconhecendo
que estarão subordinadas às determinações
da luta de classes. Lenin passou os últimos anos de sua
vida alertando para o fato de que a ditadura do proletariado tinha
se transformado em uma ditadura para o proletariado exercida por
uma ínfima minoria.
59) A primeira medida contra as pressões burocratizantes,
e a mais geral, é a política para elevar as massas
como um todo às tarefas de administração.
É possível combinar a simplificação
das tarefas de administração (utilizando técnicas
mais modernas para fazê-lo) e a ampliação
do tempo livre e do nível cultural das massas para buscar
incorporar de forma sistemática setores inteiros delas
na tarefas de defesa, justiça e administração.
60) A Segunda é assegurar a livre eleição
e revogabilidade a qualquer momento de todos os funcionários.
A isto é preciso agregar as necessidades de rodízio
permanente destes funcionários, para que seja exercida
uma contrra-pressão permanente da classe à pressão
do parelho.
61) A terceira é definir rigidamente que os especialistas
e funcionários terão remunerações
não superiores aos de um operário especializado.
A permanência de uma burocracia se faz inevitável
em um estado operário em função do atraso
econômico, cultural e técnico herdado do capitalismo,
mas é fundamental garantir que esses funcionários
estejam sob o controle das massas organizadas, e trabalhar com
a estratégia de ir reduzindo-os, à medida que se
incorporam os setores da população à administração
do estado.
62) A separação entre partido e o estado. O estado
exerce uma pressão enorme sobre o partido revolucionário.
Pela atração material, pelo prestígio e poder
de seus dirigentes, por suas relações com a burguesia
mundial e, principalmente, pelo simples fato de que passa a dirigir
a economia. O peso objetivo do aparelho do estado é incomparavelmente
superior ao do partido.
Essas duas instituições - estado e partido - só
podem caminhar no sentido da revolução se o partido
revolucionário está apoiado em um processo objetivo
de mobilização e/ou participação do
proletariado. Caso isso não ocorra, por qualquer motivo,
nesta combinação de fator político revolucionário
- o partido - com o elemento social - o proletariado -, o partido
revolucionário vai tender a ser sugado pelo parelho de
estado.
A fusão entre aparato do partido e o estado é o
atestado de óbito do partido revolucionário e, de
imediato, também do caráter revolucionário
dos estado. Ou o proletariado participa enquanto classe do exercício
do poder, ou o partido e o estado estão destinados à
burocratização.
Temos no Brasil uma pequena mostra do que significa a pressão
de uma instituição muito menor (os sindicatos) sobre
o partido revolucionário. Estas experiências tão
negativa nos leva à crise ou à destruição
do partido , à burocratização dos sindicatos
etc. Acreditamos que a comparação não é
abusiva: se evidentemente não somos o partido bolchevique
russo, é verdade também que os sindicatos não
têm o peso de um estado.
O partido revolucionário deve ter a coluna vertebral de
seus quadros estruturados na base proletária e não
no aparato do estado. Como o objetivo do partido é fazer
com que o proletariado exerça o poder, é desde ai
que se poderá levar esta batalha. Evidentemente que uma
combinação com as tarefas de estado terá
de ser feita, e mais uma vez subordinados estas definições
às exigências da luta de classes. Mas voltamos a
lembrar que não estamos falando de uma medida que pode
melhorar a construção de um estado operário,
mas da sua própria sobrevivência enquanto estado
revolucionário.
63) O partido tem um papel central e insubstituível. As
afirmações anteriores poderiam ser interpretadas
como uma tendência a diminuição do papel do
partido revolucionário na transição ao socialismo.
Nada mais equivocado. Sem o partido revolucionário, a transição
ao socialismo é impossível, e vai terminar na restauração
do capitalismo ou na burocratização mais rápida
do estado operário.
A experiência de todos estes anos demonstrou que a existência
de um partido revolucionário como o que foi estruturado
pelos bolcheviques na Rússia é uma condição
imprescindível para que o proletariado tome o poder. Da
mesma forma, e talvez com maiores motivos, o partido revolucionário
é absolutamente fundamental para que o proletariado exerça
esse poder.
Isto é assim porque em primeiro lugar a revolução
mundial continuará sendo a prioridade número um
do novo estado operário. A necessidade do partido revolucionário
- e para sermos mais precisos, de uma Internacional - é
imprescindível para este fim. Como afirmamos, sem a revolução
mundial inevitavelmente o estado operário se burocratizará
ou haverá restauração capitalista.
Em segundo lugar, a tomada do poder não acaba com a luta
de classes no país. Seja pela luta direta contra a burguesia
e seus aliados internos, seja pelas pressões de outras
classes (campesinatos, pequena burguesia urbana) que podem se
aliar ao proletariado na luta pelo poder, mas continuam defendendo
seus interesses próprios e diferenciados.
Em terceiro lugar, o partido revolucionário é imprescindível
para a luta contra a burocratização do estado. Sem
uma vanguarda organizada e consciente de seus objetivos estratégicos
e programáticos não se pode lutar contra as inevitáveis
pressões burocratizantes e nacionalistas que virão
do aparelho de estado. A separação entre o partido
e o estado neste sentido é uma medida fundamental para
proteger o partido destas pressões, e não para diminuir
o peso do partido revolucionário na transição.
Em quarto lugar, o partido revolucionário não abdica
de sua condição de dirigente da classe no que diz
respeito à condução do estado. Sem substituir
a classe, que é quem dirige os destinos do país
através dos organismo soviéticos, o partido tem
papel de primeira grandeza, por ser a fração mais
consciente do proletariado, que tem a obrigação
de estar na vanguarda da elaboração de planos e
diretrizes e apresenta-los aos organismos da classe.
Isto não significa que o partido "passe por cima "
da classe e dos seus organismos de estado. As propostas, planos
e diretrizes que o partido defender, sejam econômicos, políticas
ou militares, devem ser aprovados nos organismos de poder de classe.
A experiência do partido bolchevique leva ao que muitos
duvidem da importância fundamental do partido na transição.
É verdade que o partido bolchevique foi capaz de tomar
o poder, mas foi derrotado frente à burocratização
stalinista. Isto se deveu a fatores históricos (derrota
da revolução européia, atraso econômico
e social da Rússia), como já vimos. Mas a importância
do partido revolucionário na luta contra as pressões
burocratizantes se revela até mesmo na derrota do partido
bolchevique: para que a burocracia stalinista pudesse tomar o
poder, foi necessário que liquidasse o partido revolucionário,
dizimando fisicamente, acabando socialmente com toda uma geração
de vanguarda que participou da luta pelo poder. Só se manteve
uma fração ultra-minoritária, já burocratizada,
no aparelho.
A lição que tiramos dos processos do leste europeu
é categórica: sem partido revolucionário
é impossível a extensão da revolução
a nível mundial e a transição ao socialismo.
64)Uma vez mais: a revolução mundial é a
estratégia. Ainda que depois de tomado o poder apliquemos
todo este programa, a não extensão da revolução
inevitavelmente nos levará à burocratização
do novo estado ou à restauração do capitalismo.
Também seria um erro não adotar um programa para
que a classe efetivamente se incorpore à gestão
do estado, só esperando que a extensão da revolução
salve nosso estado. As pressões burocratizantes, oriundas
do atraso, também levariam à derrota e ao retrocesso
do internacionalismo.
Afirmamos a unidade destes dois elementos - a extensão
da revolução e o exercício do poder pelo
proletariado. Um não existe sem o outro. A nossa estratégia
é a revolução mundial e, por isso, mesmo
a tomada do poder em um país tem um sentido tático
perante esta estratégia. A única maneira de continuar
com ela é através do exercício efetivo do
poder pelo proletariado. Da mesma maneira, os avanços obtidos
a nível nacional neste estado serão fundamentais
para que o proletariado de outros países caminhe para a
revolução.
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