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É a natureza humana uma barreira ao
socialismo?
John Molyneux
Nota do tradutor
Este texto tenta responder à idéia amplamente presente no senso comum e na
ideologia dominante de que qualquer tentativa de transformação da sociedade
atual estaria fadada ao fracasso, por causa da natureza egoísta e avarenta do
ser humano. Como observa o próprio autor trata-se da mais "comum e
contundente das objeções feitas ao socialismo (…) diante da qual muitos políticos
e intelectuais recuam".
John Molyneux escreve sobre o tema com clareza e simplicidade, evitando porém
os simplismos. Certamente muitos de seus argumentos mereceriam ser aprofundados.
Mas Molyneux consegue plenamente o seu objetivo: fornecer uma arma para a luta
de idéias e, portanto, para a luta política cotidiana.
Nestes tempos em que o capitalismo, na quarta-feira de cinzas da euforia pós-queda
do muro de Berlim, passa por uma crise inesperada e de desdobramentos ainda
imprevisíveis, atingindo em cheio os Tigres da Ásia que até há pouco tempo
eram a menina-dos-olhos dos defensores do capital, o debate sobre a necessidade
e a possibilidade de uma autêntica sociedade socialista - não as caricaturas
grotescas dos regimes de Stalin ou Mao - é mais atual do que nunca.
Trata-se de retomar a ofensiva contra o
capitalismo, na prática e no plano das idéias. Este texto, sem dúvida, é uma
contribuição para essa luta.
O argumento anti-socialista
O socialismo é um belo ideal, mas é irrealizável. Não se pode mudar a
natureza humana! Esta é a mais comum e contundente de todas as objeções
feitas ao socialismo. É o primeiro argumento que aparece no local de trabalho,
na rua ou no bar. É o argumento diante do qual muitos intelectuais e políticos
recuam. Também é um argumento aceito por muitos que gostariam sinceramente de
ver uma sociedade melhor, mas não conseguem acreditar que isso seja possível.
É inclusive aceito por gente que se considera socialista.
O efeito resultante é o abandono do ideal socialista em troca de uma reforma
superficial do sistema. É a renuncia de tentar mudá-lo a fundo. O argumento da
natureza humana pode parecer muito útil aos que se opõem ao socialismo, pois
é curto, preciso e incisivo. Uma resposta de uma só frase que aparentemente
encerra a discussão, e que traz junto outros tópicos: "sempre deverá
haver gente governando", "as pessoas são naturalmente egoístas",
"sempre haverá quem queira ter mais que os outros", "as revoluções
sempre acabam mal e conduzem à tirania".
O argumento se alimenta da velha idéia cristã segundo a qual todos nascemos
com o pecado original herdado através de gerações, desde Adão e Eva no
jardim do Éden. A noção de que há uma falha elementar na natureza humana que
torna impossível a genuína igualdade e a cooperação entre as pessoas parece
proporcionar uma explicação perfeita para muitos dos males do mundo, como o
racismo e o sexismo. Questões políticas específicas como a degeneração da
revolução russa na ditadura de Stalin, e o fracasso aparente do socialismo na
Europa do leste e na China são atribuídas à natureza humana.
Essas idéias parecem comprovadas pela experiência pessoal de praticamente todo
mundo. Quem já não viu alguém competindo desesperadamente em busca de uma
promoção, ou não se decepcionou com um amigo? Essas experiências ajudaram a
elevar o argumento da natureza humana à categoria de "senso comum".
Entretanto, veremos por que ele é completamente falso.
A natureza humana se transforma
Por quê se diz que a natureza humana sempre fará o
socialismo impossível? Argumenta-se que há uma série de características, de
formas de comportamento e de atitudes básicas que são comuns a todos ou
praticamente a todos os seres humanos, e que estes são incompatíveis com a
conquista de uma sociedade sem classes, baseada na propriedade comum e no
controle coletivo.
Em particular, se sustenta que a maioria das pessoas seja inerentemente insaciável
e ambiciosa. De tal maneira que querem mais do que lhes corresponderia em uma
repartição justa de bens materiais, e aspiram ao domínio sobre os demais.
Qualquer exame de como se comportam as pessoas em nossa sociedade nos mostra que
tal argumento está equivocado. Certamente há muitos exemplos de avareza e ambição.
Basta pensar nos inumeráveis políticos e magnatas corruptos como Fernando
Collor, João Alves, Paulo Maluf, Odebrecht .
Mas há também pessoas que arriscam suas vidas pelos outros: oito metalúrgicos
foram assassinados pelo exército durante a greve de Volta Redonda em 1988; em
1989 estudantes e trabalhadores permaneceram firmes na praça de Tiananmen (na
China) diante dos tanques que os ameaçavam. Além disso encontramos exemplos na
vida cotidiana: pais que dedicam suas vidas para cuidar de seus filhos
deficientes, trabalhadores que, desinteressadamente, optam por trabalhar em
serviços sociais quando poderiam ganhar salários melhores em escritórios ou
fabricas, a atitude generosa de muitas pessoas diante da pobreza e das
necessidades sociais...
Quando se tratam temas como a assistência sanitária gratuita, os mendigos, as
aposentadorias na terceira idade e as ajudas aos pobres, a opinião pública é
majoritariamente generosa e caridosa. Enquanto a moral dos políticos aparece
cada dia mais suja há gente disposta a lutar com uma atitude de desinteresse e
solidariedade.
Inclusive quando os governos planejam as guerras imperialistas mais cruentas e
vorazes, estão conscientes de que para conseguir o apoio do público eles têm
que vendê-las proclamando um motivo decente.
Os britânicos justificaram sua intervenção na Primeira Guerra Mundial
declarando que iriam resgatar a desvalida Bélgica. A mesma desculpa serviu como
pretexto na Guerra do Golfo. Desta vez foi o desvalido Kuwait, quando o que
realmente estava em jogo era o petróleo.
Não citamos estes exemplos com a intenção de demonstrar que a natureza humana
seja inatamente generosa. Mas queremos deixar claro que é absurdo dizer que as
pessoas são inatamente avarentas, especialmente quando falamos da sociedade
capitalista, onde cada passo anima a avareza, a competição e a ambição.
De fato, uma pessoa não é inatamente boa o má. Uma pessoa é, ao mesmo tempo
egoísta e generosa, covarde e corajosa, exigente e coibida. Há indivíduos que
sacrificariam tudo por suas famílias mas não levantariam um dedo por sus
vizinhos. Há outros que doam generosamente para obras de caridade, mas fazem
seus filhos passar privações. Algumas pessoas têm uma simpatia sem limites
pelos animais, mas têm pouca consideração com os seres humanos, enquanto
outras fazem tudo ao contrário.
Tudo depende das circunstâncias. Depende de se a gente se sente vulnerável e
ameaçada ou forte e segura de si mesma. Depende das atitudes com as quais uma
pessoa tenha crescido e se formado ao longo de sua vida. Em poucas palavras, as
pessoas mudam quando suas condições de vida e experiências mudam. Se isto é
válido para os indivíduos, a história mostra que o é inclusive ainda mais
para as sociedades e as classes sociais. O exemplo da Revolução Russa, cujo
resultado parece comprovar a inalterabilidade da natureza humana, na verdade
demonstra o contrário.
Durante séculos o povo russo sofreu e foi oprimido pela tirania dos czares. Era
a terra da mais profunda ignorância e superstição, das atitudes mais
atrasadas em relação às mulheres e do anti-semitismo más forte. Um
observador superficial poderia pensar que existia algo profundo na natureza do
povo russo que lhe permitia suportar essa situação (diferentemente dos
"amantes da liberdade" da Europa ocidental, por exemplo).
Em 1905 e com mais força ainda em 1917, esse mesmo povo russo se sublevou
contra o czarismo. Fizeram greves e manifestações, lutaram e se insurgiram;
fizeram a maior revolução da história da humanidade.
Esta revolução pretendia mudar o mundo: tomou as fábricas, repartiu a terra
aos camponeses, livrou a Rússia da guerra imperialista, concedeu o direito à
autodeterminação das minorias nacionais, decretou a completa igualdade legal
da mulher, elegeu um judeu (Leon Trotski) como presidente de seu principal
conselho operário e o colocou à cabeça de seus exércitos revolucionários.
Ao nosso observador lhe pareceria ver agora a natureza do povo russo queimando
com ardor selvagem, outra vez muito diferente da moderada natureza européia.
Nos anos 20 e 30, a revolução foi abatida pela burocracia estalinista que
esmagou operários e camponeses, condenou milhões de pessoas à fome e outras
tantas milhões à morte nos campos de trabalho forçado na Sibéria. Agora o
nosso expert do caráter russo veria tudo como a confirmação da tendência
inata russa à tirania.
Na realidade a "natureza" do povo russo - suas atitudes coletivas,
psicologia e formas de comportamento, as quais de qualquer modo diferiam segundo
as classes sociais - mudou profundamente, com as transformações das circunstâncias
concretas.
O longo reinado dos czares com a sua psicologia servilista se apoiava no extremo
atraso da economia russa. A queda do czar e o apogeu do entusiasmo revolucionário
teve suas raízes no desenvolvimento do capitalismo russo, com uma débil classe
capitalista diante de uma poderosa classe trabalhadora capaz de agrupar junto a
ela as massas camponesas.
O colapso da revolução, a vitória do estalinismo e o aparente regresso à
apatia, resignação e docilidade, foi um produto do isolamento, do fracasso da
revolução européia e a destruição quase total da classe trabalhadora russa
na terrível guerra civil de 1918-1921.
Quando mudaram as circunstâncias mudou a "natureza". Podemos extrair
esta conclusão do estudo de 20 anos da história russa, e podemos chegar também
a ela estudando a história da humanidade.
Formas de comportamento que são aceitas como naturais e eternas por sociedades
particulares em períodos históricos particulares, são rechaçadas como
completamente "anti-naturais" por outras sociedades em outros períodos.
Para a maioria no século XVII a escravidão negra parecia uma regra
perfeitamente natural: procedia da inferioridade natural inerente dos negros. Até
a metade do século XIX, entretanto, a escravidão passaria a ser vista por uma
ampla maioria como uma violação da natureza humana. Nos EUA esses dois pontos
de vista sobre a natureza e os direitos dos negros coexistiram: um predominava
no norte e o outro no sul.
Para o índio norte-americano a propriedade privada da terra era anti-natural.
Para o latifundiário do século XVIII era o direito humano mais básico. Para
os gregos antigos, a homossexualidade era a forma de amor sublime. Para os
vitorianos ingleses era degradante. Para o hindu tradicional os matrimônios de
conveniência foram norma durante séculos. Para a maioria da sociedade
ocidental atual é algo anti-natural. Modificar as condições sociais é
modificar a "natureza humana".
Poderíamos dar muitos outros exemplos. Fica assim manifesto a natureza
cambiante das atitudes humanas, da moralidade e do comportamento, e o papel
determinante da cultura na vida humana; o que se aprende socialmente é muito
mais do que o herdado geneticamente. Vemos também como a cultura evolui
seguindo as mudanças das circunstâncias materiais.
Que é a natureza humana?
As pessoas mudam quando mudam suas circunstâncias. Mas
isso significa que não exista em absoluto uma "natureza humana"? Às
vezes os socialistas se vêem tentados a apoiar esta afirmação como uma
maneira rápida de combater o argumento anti-socialista.
Mas é muito problemático negar absolutamente a existência de uma
"natureza humana".
Em primeiro lugar isso poderia dar a entender que os seres humanos são
totalmente manipuláveis, que um regime totalitário que controle completamente
os meios de comunicação e a educação infantil seria capaz de fazer o que
quisesse das pessoas, e que portanto eliminaria qualquer possibilidade de
revolta. É evidente que isto não é assim. Nem na Alemanha de Hitler nem na Rússia
de Stalin - os dois regimes mais totalitários que já existiram - se pôde
suprimir toda resistência ou todo pensamento. Inclusive nos campos de concentração,
houve resistência.
Existe sempre um limite para o poder do Estado de lavar o cérebro, e esse
limite se alcança quando, entre outras coisas, a opressão do Estado entra em
conflito com as necessidades básicas das pessoas.
Em segundo lugar, sugerir que não existe a natureza humana implica que não há
características comuns compartidas pelos seres humanos que os diferenciem de
outros animais. Isto não é, obviamente, assim. Se fosse assim não seria possível
falar nem de espécie humana nem de história humana.
Então que se pode dizer sobre a natureza humana? Devemos começar falando de
biologia?
Está claro que os seres humanos são uma espécie biológica distinta, que
possui um código genético específico. Esse código genético determina a
estrutura física básica dos seres humanos.
É claro que esta natureza biológica não é fixa nem eterna. Mas a escala
temporal da evolução é extremadamente lenta e de uma ordem completamente
diferente da escala temporal do desenvolvimento histórico. Biologicamente os
seres humanos de hoje em dia não são substancialmente diferentes dos seres
humanos de 10.000 o até 20.000 anos atrás. Mas para o tema que nos ocupa, a
possibilidade do socialismo, a natureza física do ser humano pode ser
considerada como constante.
Essa natureza física dota a os seres humanos de certas necessidades e
capacidades comuns que são a base da natureza humana.
As necessidades mais fundamentais e indiscutíveis são o ar, a comida e a água,
e a seguir o vestuário, a moradia e o calor. Existe a necessidade de sono, de
algum tipo de cuidado para com os filhos (já que os seres humanos, ao contrário
de outras espécies animais, tardam vários anos para terem a mínima
auto-suficiência), da sexualidade para propagar a espécie, etc.As capacidades
incluem os cinco sentidos, um cérebro grande, a possibilidade de andar reto,
uma mão que
permite operações precisas, cordas vocais que permitem a fala, etc. Pode-se
objetar que nem todos possuem essas capacidades - alguns nascem cegos, surdos ou
deficientes de várias maneiras - mas estas são exceções específicas.
Estas necessidades e capacidades, compartilhadas por todas as pessoas em todas
as sociedades de todos os tempos durante os últimos 20-30.000 anos constituem
os primeiros elementos definidores da natureza humana.
Contudo, é a maneira particular em que essas capacidades são usadas para
satisfazer as necessidades que diferencia os seres humanos de todas as outras
espécies. Os seres humanos satisfazem suas necessidades trabalhando juntos para
produzir sistematicamente os meios de subsistência.
Os animais, certamente, também trabalham: os esquilos acumulam nozes, os leões
caçam, os castores constróem represas, os pássaros constróem ninhos, as
formigas constróem moradas, alguns símios chegam a aprender a utilizar paus
como ferramentas, etc.
Mas o trabalho humano se converteu gradualmente em algo qualitativamente mais
avançado. A produção sistemática e consciente de ferramentas - os meios de
produção - incrementou enormemente o poder produtivo do trabalho.
Enquanto o trabalho animal permanece predominantemente instintivo e portanto
repetitivo durante gerações, o trabalho humano é aprendido e desenvolvido. A
princípio lentamente, mas alcança uma rapidez progressiva.
O trabalho animal deixa o meio praticamente inalterado ou modifica-o apenas
superficialmente, mas o ser humano transforma-o progressivamente.
O caráter social do trabalho possui também uma importância fundamental. Foi o
filósofo grego Aristóteles, quem caraterizou o homem como um "animal
social", e de fato os seres humanos sempre viveram em grupos, nunca como
indivíduos isolados.
Da mesma maneira seu trabalho sempre foi social e cooperativo desde o princípio
dos tempos. Por exemplo, quando os seres humanos da Idade da pedra saíam para
as grandes caçadas, iam coletivamente em bandos ou grupo nômades.
Com toda probabilidade foi esse trabalho de colaboração que determinou outra
característica básica dos seres humanos, o desenvolvimento da linguagem. Todas
as sociedades humanas conhecidas alcançaram um nível de complexidade lingüística
considerável. O idioma é decisivo no desenvolvimento da consciência social.
Através dela a cultura pode ser aprendida e transmitida de geração em geração.
Podemos agora resumir as principais características da natureza humana. Os
seres humanos são uma espécie biologicamente distinta com certas necessidades
básicas comuns que se satisfazem através do trabalho social coletivo, o qual
conduz ao desenvolvimento da linguagem, da consciência social e da cultura.
O ponto chave nesta definição de natureza humana é que ao mesmo tempo em que
afirma algumas continuidades importantes, também apresenta um elemento dinâmico
na forma do trabalho social.
Quando os seres humanos transformam seu ambiente também se transformam a si
mesmos e as suas relações com os demais; ao exercitar sua capacidade para
satisfazer suas necessidades, suas capacidades se incrementam e se desenvolvem:
"com o comer vem o apetite", como disse Marx. Quando certas
necessidades básicas estão satisfeitas, essas necessidades se ampliam e
aparecem outras novas. A necessidade de comer como tal se converte em uma
necessidade de comer com uma certa qualidade. A necessidade de vestir-se se
transforma de uma necessidade de cobrir-se de peles a uma necessidade de
adquirir dinheiro para comprar roupas nas lojas.
No momento em que a forma de produção muda também muda a organização da
sociedade. Quando passamos da caça e a coleta à agricultura e desta à
manufatura e a indústria, passamos também do pequeno clã nômade à aldeia,
à cidade e à nação moderna. No processo o comportamento e as atitudes se
transformam radicalmente. Como disse Marx no Manifesto Comunista:
"com cada modificação nas condições de vida,
nas relações sociais, na existência social, mudam
também as idéias, as noções e as concepções, em uma palavra, a consciência
do homem". Não
só a natureza humana não é imutável, mas também a capacidade para a mudança
e o
desenvolvimento é uma parte essencial da natureza humana. Esse é um dos pontos
chave que
distingue os seres humanos dos demais animais.
Um a questão final: essa natureza que acabamos de descrever é fundamentalmente
boa ou má? Nem uma coisa nem outra. O significado básico de "bom" é
o daquilo que serve à natureza humana para satisfazer suas necessidades e
facilitar seu desenvolvimento. O significado básico de "mau" é
aquilo que dificulta o desenvolvimento da natureza humana e a satisfação de
suas necessidades.
Esta é a razão de que a consideração de "bom" e "mau" se
transforme segundo os períodos históricos. As circunstâncias mudam, as
necessidades das pessoas mudam e também a sua moralidade. O mesmo sucede com as
distintas classes sociais em cada momento histórico: suas condições de vida
diferem, seus interesses são opostos e portanto desenvolvem moralidade
diferentes.
Capitalismo e natureza humana
Como todas as coisas, o sistema econômico capitalista
está sempre mudando. O capitalismo de hoje é muito diferente do capitalismo da
época de Karl Marx e Dom Pedro II.
Quando Marx escreveu o Manifesto Comunista em 1848, o capitalismo estava
estabelecido plenamente apenas em parte da Europa ocidental e no norte da América.
Hoje domina o mundo inteiro. Em 1848 as principais unidades de produção
capitalista eram fábricas de pequena dimensão em mãos de indivíduos ou famílias.
Hoje o capitalismo está dominado por multinacionais gigantes como a Exxon, Ford
ou IBM.
Quando Engels escreveu As condições da classe trabalhadora inglesa em 1844, os
trabalhadores de Manchester, inclusive as crianças, trabalhavam entre 12 e 14
horas diárias por uns míseros trocados. Viviam em casas que eram pouco mais
que buracos no chão. Hoje os trabalhadores melhoraram sua situação
consideravelmente, mas condições de trabalho e de vida tão ruins ou piores se
podem encontrar na China, Índia ou no Brasil.
Apesar destas e de outras mudanças, podemos assinalar algumas características
fundamentais que definem o sistema econômico capitalista:
1. Os meios de produção chaves ( como fábricas, terra, maquinário e
transporte) são propriedade ou são controlados efetivamente por uma pequena
minoria da população: os capitalistas.
2. O acesso ao controle e à propriedade dos meios de produção está vedado
para a grande de maioria da população e assim as pessoas se vêem obrigadas a
vender a sua capacidade de trabalho, conhecida como força de trabalho, aos
capitalistas. Ademais são obrigadas a vendê-la em condições que permitam aos
capitalistas extrair um excedente ou lucro em seu proveito.
3. Os meios de produção estão distribuídos entre diferentes capitalistas
(indivíduos, grupos ou Estados capitalistas), e isto provoca a concorrência
entre eles. A causa da concorrência é o lucro. A concorrência contínua pelo
lucro leva os controladores de cada unidade capitalista a explorar ao máximo os
seus trabalhadores.
Os partidários do capitalismo argumentam sempre que de alguma maneira isso
corresponde à "natureza humana". Havia um elemento de verdade nesse
argumento quando o capitalismo emergiu como um sistema que oferecia uma
capacidade maior do que o sistema anterior, o feudalismo, para satisfazer as
necessidades básicas de alimentação e alojamento. Mas atualmente isso não
passa de um absurdo.
Em primeiro lugar é absurdo dizer que é "natural" ou
"instintivo" que as pessoas se comportem de uma maneira capitalista
quando se chegou ao capitalismo somente após 2 milhões de anos de evolução
humana. Nem o intercâmbio de mercadorias em geral nem a compra e venda da força
de trabalho (a característica central do capitalismo) aparecem em parte alguma
nas primeiras fases da história humana.
Pelo contrário, a história demonstra que as pessoas se viram obrigadas a
vender sua força de trabalho e a trabalhar para um empresário somente quando
se viram privadas pela força de qualquer possibilidade de ganhar a vida
trabalhando para si mesmas.
A emergência de uma classe com riqueza suficiente para investir na indústria e
comprar a força de trabalho em grande escala exigiu um processo brutal que Marx
chamou de "acumulação primitiva de capital". Essa acumulação se
fez às custas da escravidão de milhões de africanos e seu transporte às Américas,
o genocídio de uma grande parte da população indígena das Américas central
e do sul, a espoliação e empobrecimento da Índia e do extremo Oriente e de
outras inumeráveis barbaridades.
Ademais, para o capitalismo e a classe capitalista estabelecerem seu domínio
tiveram que desenvolver uma série de lutas revolucionárias violentas e guerras
civis contra a antiga aristocracia feudal. Isso incluiu a decapitação de reis
na França e Inglaterra. Portanto podemos dizer que não há nada de
"natural" no desenvolvimento do capitalismo.
Tampouco é certo que o capitalismo faça do interesse dos indivíduo as força
motivadora da produção. A força motivadora da produção capitalista é o
lucro. Mas os lucros só existem para uma pequena minoria da sociedade que
possui o capital. Para a grande maioria dos indivíduos o capitalismo representa
a negação de seus interesses. Por esse motivo os capitalistas sempre estão
instando os trabalhadores a não serem egoístas. Os empresários sempre tentam
fazer leis que restringem a capacidade dos trabalhadores para perseguir seus próprio
interesses através de seus sindicatos.
Longe de ser uma expressão da natureza humana, o capitalismo toma e distorce
profundamente a característica mais distintiva e importante da natureza humana
- a capacidade para o trabalho.
O capitalismo torna o trabalho alheio ao trabalhador, utiliza a força de
trabalho como uma mercadoria para ser comprada e explorada. Em vez de ser o meio
através do qual os seres humanos transformam conscientemente a natureza para
satisfazer as necessidades coletivas e individuais, o trabalho se transforma
simplesmente no meio necessário para ganhar o dinheiro que lhes permita a
sobrevivência social.
Os trabalhadores perdem todo controle sobre seu próprio trabalho, o qual se vê
reduzido a uma tarefa pesada, vazia, entorpecedora, que destrói física e
psicologicamente o trabalhador. O resultado é que a maioria das pessoas, com
raras exceções, passam 40 ou 50 anos de suas vidas em um trabalho que odeiam,
que apenas toleram e que lhes inflige um cansaço e um dano muito profundos.
O capitalismo até mesmo nega a possibilidade de trabalho a um grande número de
pessoas e as jogam nas ruas quando o seu trabalho deixa de produzir lucros
suficientes. Assim algo que está na essência do ser humano, já desde aqueles
caçadores-coletores - a oportunidade de participar em um trabalho social útil
- é hoje negado a milhões de pessoas.
A alienação do trabalho não afeta apenas o âmbito do trabalho, também
influi em toda as relações sociais. As relações entre os próprios
trabalhadores, entre pais e filhos, homens e mulheres, as relações amorosas e
sexuais se vêem também distorcidas.
As pessoas se tratam entre si como objetos e mercadorias que se usam e se
manipulam. O sexo se transforma em mercadoria e é utilizado para vender outras
mercadorias. Freqüentemente os indivíduos mais oprimidos e alienados buscam
compensar no local de trabalho ou na sociedade em geral a sua falta de poder e
opressão abusando de outros ainda mais vulneráveis.
Nada disso é natural, nem é produto da natureza humana. É o produto de um
sistema que viola a natureza humana.
Finalmente, o capitalismo resulta atrozmente inadequado para a satisfação das
necessidades básicas dos seres humanos: a necessidade de água, comida, vestuário
e alojamento. Cada ano a produção de alimentos supera o crescimento da população
e são acumulados enormes "lagos de vinho" e "montanhas de
bifes". Contudo, centenas de milhões de pessoas passam fome e dezenas de
milhões morrem de fome. Multidões de pessoas sofrem e morrem de enfermidades
que são facilmente preveníveis. Nos países ricos do Ocidente existem recursos
para construir hotéis e escritórios de luxo. E no entanto muitas pessoas se
amontoam nas calçadas das ruas porque não têm uma cama para dormir.
Nada disso é natural, e nem é algo imposto pela natureza humana. Os chamados
"primitivos" do Kalahari são capazes de obter uma dieta melhor caçando
e coletando em zonas semidesérticas do que os milhões que morrem da fome
provocada pelo mercado ou que mal vivem nas margens das grandes cidades do
mundo. Os Inuit no polo norte são capazes de construir refúgios de gelo mais
aconchegantes e cálidos do que a gente que faz leitos de papelão e jornais
para dormir nas calçadas do centro de São Paulo.
Estas barbaridades ocorrem porque o capitalismo determina que a prioridade de
cobrir as necessidades vitais dependa do poder aquisitivo, ao mesmo tempo em que
priva um grande número de pessoas desse poder aquisitivo
Em sua busca incansável de lucros, o capitalismo contamina o ar e a água e
ameaça o meio ambiente que permite e sustenta a vida humana.
Socialismo e natureza humana
Se do ponto de vista da natureza humana o capitalismo
demonstra claramente sua bancarrota, o que podemos dizer desse mesmo ponto de
vista do socialismo?
Se aceitamos a existência de ao menos uma natureza humana básica, não será
possível que nela esteja enraizada profundamente alguma característica que
impossibilite a conquista de uma sociedade autogovernada e sem classes na qual
todos sejam iguais e livres? Existe por acaso um desejo fundamental de poder,
uma necessidade de domínio que condena a sociedade à eterna divisão entre
governantes e governados? É possível que a existência de desigualdades físicas
naturais entre indivíduos constitua um obstáculo à igualdade social?
Podemos dar uma resposta objetiva e simples a estas e outras questões
semelhantes: durante dezenas de milhares de anos, para não dizer centenas de
milhares, os seres humanos viveram em sociedades sem propriedade privada, divisões
de classe, governantes ou Estados.
O testemunho arqueológico mostra que as primeiras ferramentas feitas a mão - a
pedra de sílex - datam de algo ao redor de 2.5 milhões de anos. Desde então
até o desenvolvimento da agricultura há dez mil anos viveram primeiro como
coletores ocasionais, e depois como caçadores e coletores organizados em
pequenos grupos nômades na maioria dos casos.
Durante esse período não se cultivava a terra, não existia a cerâmica, nem
qualquer meio de transporte. Não era possível para a comunidade nem para os
indivíduos que a compunham acumular um excedente de produtos além do necessário
para a subsistência diária.
Ao não existir tal excedente, não pode existir tampouco divisão alguma da
sociedade em classes, nem estamento ou casta vivendo do trabalho dos demais.
Tampouco pode existir um Estado com governantes permanentes que dispusessem de
corpos especiais de homens armados à sua disposição para manter o poder.
Todos estavam envolvidos na produção do necessário para a subsistência.
Assim durante 99% do tempo em que os seres humanos têm habitado o planeta
viveram em comunidades sem classes.
A existência de sociedades sem classes não é apenas um assunto de estudo
arqueológico ou de dedução lógica. Povos de caçadores, coletores
sobreviveram até pouco tempo com uma forma de vida similar, de tal maneira que
puderam ser estudados por antropólogos modernos.
Um bom exemplo são os !Kung San do Kalahari no sul de África que foram
estudados de perto por antropólogos, especialmente pelo norte-americano Richard
Lee.
Os !Kung vivem no deserto do Kalahari há pelo menos dez mil anos. Vivem em
pequenos grupos de cerca de trinta pessoas, e translada seus acampamentos a cada
par de semanas. Acumulam muitas poucas cosas materiais, unicamente o que podem
levar com eles quando se mudam. Possuem, entretanto, uma rica cultura oral. Um
conhecimento profundo de seu meio ambiente lhes permite conseguir um nível de
vida diário razoável. A comida caçada ou coletada é compartilhada
coletivamente pela comunidade. Lee escreve:
O ato de compartilhar impregna profundamente o comportamento e os valores dos
!Kung,
dentro da família e entre as famílias. Assim como o princípio de lucro e
racionalidade é
consubstancial à ética capitalista, o de repartir o é à conduta social em
sociedades coletoras.
Os !Kung são muito igualitários. Não só não
possuem uma divisão entre ricos e pobres, como também não possuem chefes ou líderes.
Uma vez Richard Lee perguntou se os !Kung tinham líderes. "É claro que
temos líderes," responderam, "na verdade somos todos líderes, cada
um de nós é um líder sobre si mesmo."
Sintetizando as lições de seu estudo sobre os !Kung e seu conhecimento de
outras sociedades caçadoras e coletoras Richard Lee escreve:
"O fato de que a repartição comunitária de
recursos alimentícios tenha sido observada
diretamente em anos recentes entre os !Kung e em dezenas de outros grupos de
coletores
constitui um achado que não deveria ser subestimado. Sua universalidade
significa um forte
suporte à teoria de Marx e Engels sobre uma fase de comunismo primitivo que
precedeu a
aparição do Estado e a divisão da sociedade em classes... Uma verdadeira vida
comunal é
freqüentemente descartada como um ideal utópico aceitável em teoria mas
inalcançável na
prática. Mas o estudo destas comunidades coletoras evidencia o contrário. Uma
maneira de
viver igualitária não só é possível mas de fato existiu em muitos lugares
do mundo e durante
longos períodos de tempo."
Com isso não se pretende sugerir que as pessoas dessas
sociedades se encontrem em "um estado de natureza socialista" ou que a
natureza humana é "essencialmente socialista". Isso seria
simplesmente o reverso do argumento anti-socialista, repetindo o mesmo erro básico.
Na realidade o tipo de vida dos caçadores coletores foi o resultado de uma
longa evolução cultural, e muitas de suas características principais,
inclusive a de compartilhar, tiveram que ser socialmente aprendidas e reforçadas
culturalmente.
Como Richard Lee comenta apropriadamente: "cada bebê humano nasce dotado
da capacidade de compartilhar e da capacidade de ser egoísta". Contudo, a
evidência antropológica demonstra sim que a natureza humana e o socialismo não
são de forma alguma incompatíveis.
O socialismo moderno promete muito mais que a simples compatibilidade com a
natureza humana. O socialismo de hoje não significa um regresso às condições
do comunismo primitivo, mas um avanço enorme baseado nas conquistas tecnológicas
alcançadas em milhares de anos de sociedade de classes.
O comunismo primitivo esteve baseado na ausência de qualquer excedente
acumulado. O socialismo moderno se baseia no fato de que as forças produtivas
foram desenvolvidas até um ponto em que há suficiente excedente para assegurar
uma vida digna para todos sem que as pessoas devam consumir sua existência em
um trabalho penoso.
Socialismo hoje significa tomar posse da imensa riqueza, da capacidade produtiva
e da ciência e tecnologia monopolizadas atualmente pelas multinacionais, pelos
capitalistas riquíssimos e seus Estados, submetendo-as a um controle democrático
e coletivo em escala internacional.
Isto asseguraria a alimentação, e o vestuário para todo o mundo e o fim da
pobreza e da fome. Nesse processo se uniria a raça humana, se acabaria com a
exploração, com os antagonismos nacionais, com a guerra, o racismo e a opressão
sexual, ao desaparecer as circunstâncias materiais que os sustentam.
As pessoas realizariam o controle coletivo de seu próprio trabalho e dos
produtos de seu trabalho. Assim se superaria a alienação e a distorção da
natureza humana que tem persistido ao largo de milhares de anos de escravidão e
servidão, e que culminou no trabalho capitalista assalariado.
Assim se transformariam e libertariam as relações pessoais e sociais; se
produziria um ambiente adequado para satisfazer as necessidades humanas e
facilitar o desenvolvimento humano. Seria possível planificar racionalmente os
efeitos da atividade humana sobre a natureza e portanto por fim à destruição
incontrolada do meio ambiente.
Uma característica fundamental da espécie humana é a criatividade artística.
A gravação mais antiga do mundo tem 300.000 anos. Cada sociedade humana possui
sua própria música e dança.
Sob o capitalismo, como sob todas as sociedades de classe, a atividade artística
é um campo reservado para uns poucos privilegiados. A criatividade da maioria
se vê frustrada e esmagada. O socialismo liberará esta criatividade com a
generalização da educação e do acesso ao tempo livre, restaurando assim o
elemento artístico na produção. E isto dará lugar a um grande florescimento
cultural.
Assim, o socialismo não só satisfará as necessidades materiais básicas
comuns a todos os seres humanos, mas também trará consigo um desenvolvimento,
enriquecimento e engrandecimento da natureza humana. Isso não só é possível,
como é necessário. E vale a pena lutar por ele.
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