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Mulheres: O gênero nos une, a classe nos divide
Nesses últimos trinta anos,
muita literatura foi produzida sobre o tema, em especial na
Inglaterra, Estados Unidos, Espanha, Itália e França. Os catálogos
das grandes editoras e os programas de congressos, conferências
e cursos universitários o confirmam, assim com a pluralidade de
posições teóricas existentes. Tanto que já se fala em teoria
feminista, que fundamenta toda uma área chamada estudos de gênero. Dentro dos marcos do
capitalismo, esses estudos são importantes porque tornam cada
vez mais visível a desigualdade da mulher e, em alguns países,
sobretudo nos países imperialistas, essa produção acadêmica
de fato conseguiu ampliar os espaços da mulher na sociedade. No
entanto, é preciso polemizar com essa postura porque, ao
centrar a opressão da mulher na desigualdade de gênero,
restringe sua luta aos marcos do capitalismo – tornando-a uma
luta por reformas dentro do sistema capitalista – e ignora o
problema de classe, levando a uma política de buscar unir todas
as mulheres, independente da posição que ocupam no modo de
produção. Gênero e autonomismo
O que significa falar em gênero?
Recentemente, por ocasião da Marcha Mundial das Mulheres 2000,
a conhecida feminista inglesa Juliet Mitchell foi muito
assediada pela mídia e numa dessas entrevistas, explicando como
se tornou feminista, declarou que foi um choque para ela
descobrir, “já na universidade, que o mundo era organizado ao
redor das diferenças de gênero; que havia, por exemplo, 1
mulher para cada 12 homens em Oxford”.2 A
pesquisadora espanhola Maria de Jesús Izquierdo reconta a história
da história da humanidade, desde a divisão sexual do trabalho,
afirmando que desembocou no que ela chama “gêneros
sociais”: A desigualdade das mulheres é
um processo que começa com a divisão sexual do trabalho e se
consolida com a constituição dos gêneros sociais: se você é
mulher, tem de fazer determinadas coisas, se é homem, outras. O
passo seguinte é considerar femininas as atividades feitas
pelas mulheres e masculinas aquelas feitas pelos homens. O
terceiro passo é diferenciar o tratamento recebido (respeito,
reconhecimento, meios de vida, estilo de vida) pelas pessoas que
realizam atividades femininas e os que realizam atividades
masculinas. Nesse momento dizemos que têm caráter de gênero,
as pessoas, independentemente de qual seja seu sexo, são
tratadas segundo um padrão específico, o de gênero.3 Note-se que ela fala em gêneros
sociais, uma terminologia que insinua uma gênese para a
sociedade capitalista diferente da que se conhece até então; dá
a entender que a constituição social se faz em torno dos gêneros,
e não em torno das classes sociais, que foram deixadas de lado.
O passo seguinte é mostrar que a sociedade se estrutura em gêneros.
“O que estrutura a sociedade é o gênero”, porque
praticamente todos os âmbitos da vida têm o caráter de um ou
outro gênero, e que a sociedade viria abaixo ou mudaria seus
fundamentos se se rompesse com as posições de gênero. Para
ela, o aspecto fundamental da estrutura de gêneros é a
inter-relação entre a posição social do “ganhador de pão”
e a da “dona-de-casa”, pois “a maior parte das atividades
está organizada dando por assentado que em toda casa há uma
dona-de-casa. Os homens não estão
submetidos à tensão estrutural entre o trabalho doméstico e o
trabalho remunerado. As mulheres sim. Mantêm uma dedicação
parcial tanto no trabalho remunerado como no doméstico, e vivem
por isso, uma grande frustração, mal-estar, insatisfação. Não
mudam de posição na estrutura social, mas “meio ocupam”
duas posições ao mesmo tempo. Daí ela conclui que, ainda que
as mulheres não estivessem discriminadas no trabalho, teriam
poucas possibilidades de serem promovidas, porque não é possível
que rendam tanto quanto os homens. O peso da estrutura da
sociedade sobre a mulher é tão importante que torna isso
impossível. Virgínia Vargas e Wicky Meyen
definem o gênero como parte de um sistema: Definiremos o sistema sexo/gênero
como o conjunto de atitudes mediantes as quais a sociedade
transforma a sexualidade biológica em produtos de atividade
humana e através da qual estas necessidades são satisfeitas. Não
é então só uma relação entre mulheres e homens, mas um
elemento constitutivo das relações sociais em geral que se
expressa em símbolos, normas, organização política e social
e nas subjetividades pessoais e sociais. As duas pesquisadoras vão mais
além e concluem que as mulheres não podem ser reduzidas à sua
condição de gênero, porque, em cada indivíduo convivem
diferentes posições subjetivas; cada agente social está
inscrito em uma multiplicidade de relações sociais: de produção,
de raça, de nacionalidade, etnicidade, gênero, sexo, etc, cada
uma dessas relações específicas não podem ser reduzidas nem
unidas às outras. E cada uma delas determinam diferentes
subjetividades. Dessa forma, criam um mundo
aparentemente complexo, onde tudo se relaciona e onde não
existe uma hierarquia das coisas, como se as relações de produção
e as de raça, sexo, gênero, nacionalidade etc estivessem no
mesmo nível, sem que uma determinasse a outra. Daí traçam a
política que ficou conhecida como autonomismo. “A autonomia,
dizem, é uma forma de gerar um espaço de manobra para as
mulheres e de iniciar um processo de crescimento pessoal e
coletivo que assegure o questionamento às diferentes formas que
assume sua subordinação, assim como a capacidade de
desenvolver controle e poder sobre suas vidas, suas organizações
e sobre seus contextos sociais, econômicos, políticos e
culturais específicos”. Seria a organização autônoma das
mulheres para lutarem por seus direitos e abrirem espaço na
sociedade. Essa idéia do autonomismo é enganosa porque, se bem
é um fato que as mulheres, quando se sentem oprimidas, buscam
se juntar a outras mulheres, isso não significa que sua luta
contra a opressão vai se resolver apenas por essa via. Essa
luta só vai produzir algum fruto se se somar à luta do
conjunto dos trabalhadores para enfrentar o capital. Sem buscar
alterar profundamente a organização social e econômica sobre
a qual se assenta a opressão feminina, a luta das mulheres
tende a girar em torno de si mesma. Essa concepção do autonomismo
e dos gêneros como estruturantes da sociedade foi sendo construída
em oposição a uma visão marxista sobre o problema da mulher,
considerada reducionista e economicista. Virginia Guzmán, do
Centro da Mulher Peruana Flora Tristán, argumenta que a
subordinação feminina é um problema diferente do problema das
relações de classe. Ela ataca as feministas marxistas, por
considerarem que “todos os processos sociais são conseqüências
ou epifenômenos de uma estrutura econômica – expressiva de
uma sociedade de classes dependente do capitalismo mundial -. Os
sujeitos sociais portadores da mudança estavam hierarquizados
somente por sua posição de classe”.4 Essa acusação
visa a demonstrar que agora as mulheres têm uma visão “mais
completa e global” de sua condição, e não mais uma visão
reducionista, “apenas” classista do problema, porque o que
estrutura a sociedade não são mais as classes sociais, como
afirma o marxismo, mas os gêneros. De fato, quando se fala em
opressão da mulher não se pode utilizar apenas categorias econômicas.
A opressão é um conjunto de atitudes que envolvem também
categorias psicológicas, emocionais, culturais e ideológicas.
A correspondência entre estas e a estrutura econômica da
sociedade é muito complexa e varia de acordo com as épocas
históricas. Desde que Marx escreveu O Capital, descrevendo as
leis gerais que regem o modo de produção capitalista, muitas
outras ciências se desenvolveram, entre elas a psicanálise,
sem falar na antropologia e na sociologia, que ajudaram a lançar
luz sobre o problema da superestrutura ideológica da sociedade
e sua relação com a estrutura de produção. No entanto, todas
elas, em sua busca por uma resposta aos problemas que afligem os
homens em momentos históricos determinados, sempre tiveram de
voltar os olhos para o que ocorria nas condições materiais de
vida. Não é uma relação mecânica, não há uma correspondência
direta e universal entre uma e outra. As leis econômicas
determinam as leis ideológicas em última instância. No
entanto, nós não partimos das inúmeras formas de opressão
(da mulher, do negro, dos idosos, dos homossexuais, dos
imigrantes etc) para explicar as leis gerais da sociedade, mas o
contrário. Seria fazer o mesmo que tentaram os filósofos
reacionários da época de Marx e Engels, demonstrar
teoricamente que era impossível conhecer a realidade objetiva,
reduzindo a missão da ciência a “analisar as sensações”.
É preciso partir da concepção materialista da história, tal
como a colocou Marx: “(...) determinados indivíduos
que se dedicam de um determinado modo à produção, contraem
entre si estas relações sociais e políticas determinadas. A
observação empírica tem necessariamente que ressaltar em cada
caso concreto, empiricamente e sem nenhum tipo de ocultamento ou
especulação, a relação existente entre a estrutura social e
política e a produção. A estrutura social e o Estado brotam
constantemente do processo de vida de determinados indivíduos;
mas desses indivíduos, não como possam se apresentar diante da
imaginação própria ou alheia, mas tal e como realmente são;
ou seja, tal e como atuam e como produzem materialmente e,
portanto, tal e como desenvolvem suas atividades sob
determinados limites, premissas e condições materiais,
independentes de sua vontade.”5 Por mais complexos que fossem
os problemas psicológicos de seus pacientes, Freud buscava sua
explicação última nas relações concretas entre os homens,
no mundo objetivo; não tinha outro caminho. Ele deu o nome de
introjeção ao processo psíquico por meio do qual nossa consciência
é formada, o processo de tomar algo que está fora de nós e
inculcá-lo dentro de nós. Para Freud, todo sonho era a realização
de um desejo que tinha uma ou outra relação com as condições
concretas de vida. Assim, demonstrava que nessa multiplicidade
de relações sociais nas quais estamos inseridos há uma
hierarquia, umas determinam as outras. Para Marx, as relações
de produção eram as determinantes. Na produção social da própria
existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias,
independentes de sua vontade; estas relações de produção
correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas
forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de
produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base
real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política
e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência.
O modo de produção da vida material condiciona o processo de
vida social, política e intelectual6. Gênero, construção
cultural
Quando se fala em gênero
feminino e gênero masculino não se fala mais em algo inerente
aos seres humanos; não se está tratando do ser genérico, mas
do ser histórico, aquele que é constituído historicamente7.
São construções culturais derivadas das diferenças sexuais
existentes entre homens e mulheres. As idéias do que seja
feminino e masculino com as quais convivemos no dia a dia foram
se construindo e se transformando ao longo da história. Os gêneros
guardam pouca relação com o sexo porque, como explica a
psicanalista Emilce Bleichmar, se definem na etapa edipiana (a
superação do Complexo de Édipo), quando se passa da biologia
para a cultura. O Complexo de Édipo, conforme formulado por
Freud, requer determinados pressupostos que só se encontram nas
famílias nucleares, características das sociedades
capitalistas modernas. As famílias nucleares são típicas do
patriarcado e se foram constituindo por razões econômicas,
mais que culturais. O que é feminino e o que é masculino também
são comportamentos simbólicos típicos das sociedades
patriarcais e assentadas no modo de produção capitalista. O
modo de produção dominante determina, em última instância, a
superestrutura cultural. Não é uma relação mecânica, mas
dialética, um embate constante entre a psique humana e sua relação
social e econômica, que vai conformando os comportamentos
humanos. Assim, podemos concluir que os
gêneros, se guardam pouca relação com o sexo, guardam muita
relação com as classes sociais, com a localização da família
no modo de produção dominante. A sociedade capitalista está
estruturada sobre a divisão dos homens e mulheres segundo a função
que cumprem na produção geral de bens. Está dividida entre
aqueles que produzem e aqueles que se apropriam do trabalho
alheio. É dessa estrutura central que, em última instância,
decorrem as ideologias e construções culturais, como os gêneros.
Tem razão Maria de Jesús Izquierdo quando diz que todos os âmbitos
sociais têm um caráter de um ou de outro gênero. Mas não é
isso o que estrutura a sociedade; ela não se assenta sobre essa
divisão, e não vai se derrubar se essa divisão acabar, se
trabalhar com máquinas passar a ser considerado feminino e
cuidar de crianças, masculino. Jamais as sociedades, em
qualquer época histórica, se estruturaram sobre construções
culturais. Estas são derivadas de um determinado modo de produção,
a maneira com a qual os homens se relacionam para produzir seus
meios materiais de vida. E, como já lembrou Marx, as ideologias
servem para justificar determinadas relações de produção, e
as ideologias dominantes são as da classe dominante, porque ela
e somente ela detém os mecanismos para tornar dominante sua
ideologia, sua cultura. Desde que não afetem a
estrutura da sociedade, não alterem o modo de produção
dominante, as construções culturais se modificam. Nos anos 20,
falar em sexo era proibido; hoje em dia, só se fala nisso na
televisão. Até poucos anos atrás, mulher dirigir automóvel
ou sentar-se num bar e pedir uma cerveja era malvisto. Hoje,
nada disso causa surpresa. Operar máquinas era um trabalho
masculino; hoje é preciso dizer que já não tem uma definição
tão clara, apesar de a maioria dos operadores de máquinas
serem homens. Ser professora sempre foi considerado uma profissão
feminina. Hoje, por diversos motivos que não cabe discutir
aqui, alguns dos melhores professores são homens. São muitas
as transformações operadas na cultura, e elas sempre ocorrem
no âmbito das relações humanas quando se opera alguma
transformação nas condições materiais de vida, no modo de
produção da riqueza. A divisão sexual do trabalho
é apenas simbolicamente assentada em uma suposta divisão entre
gêneros. As mulheres da classe trabalhadora sofrem, antes de
tudo, uma discriminação entre classes - relação desigual
entre elas e as mulheres burguesas, ou entre elas e toda a
burguesia - do que uma discriminação entre gêneros (que
ocorreria no âmbito de sua própria classe). Inclusive, a
discriminação de gênero que a mulher trabalhadora sofre no âmbito
de sua própria classe é imposta a partir da classe dominante. No interior das classes
sociais, a questão de gênero é definida pelo papel que essa
classe cumpre no modo de produção. Há uma distorção
importante nessa premissa, que é o fato de a noção de gênero
ser definida a partir da classe dominante. Trabalhar fora era, há
poucos anos, considerado masculino. A mulher era exército de
reserva. Se na classe burguesa isso não gerava mais que
problemas psicológicos para a mulher, na classe trabalhadora
esse preconceito era sinal de aumento da miséria, sobretudo
quando o marido ficava desempregado. Assim, a situação econômica
impôs uma ruptura na ideologia dominante. O que se operou foi
uma transformação nessa ideologia, imposta pelas condições
de vida: a crise econômica empurra a mulher para o trabalho
remunerado. Por outro lado, a mulher
trabalhadora continua relegada ao trabalho pré-capitalista.
Aqui guarda um vínculo forte com o passado, já que a mulher
primordial foi a trabalhadora pré-capitalista por excelência.
Seja na condição de dona de casa, seja na de trabalhadora
assalariada, especialmente na prestação de serviços. As que
conseguem integrar o setor formal ou hegemônico, exercem
atividades em condições ainda mais subalternas que as
masculinas: recebem salários mais baixos, em postos inferiores
na hierarquia do trabalho e em tarefas mais desqualificadas8. Pertencer a uma classe social
determinada é o que define a qualificação de gênero, e isso
é assim porque os homens e mulheres, quando podem, se movem
pelo que lhes é decisivo na vida, e não pelo que é
determinado pela cultura. A partir do momento em que as
representações inconscientes são produzidas pelos homens
inseridos em uma situação de vida determinada, apenas a
transformação dessa situação de vida poderá conduzir, ainda
que lentamente, a qualquer transformação dessas representações
inconscientes. Nas Teses sobre Feuerbach,
escritas em 1845, Marx já havia visto que essas idéias e
representações não existem de forma autônoma. A produção das idéias e a
consciência está diretamente entrelaçada com a atividade
material e o trato material dos homens, como a linguagem da vida
real. A formação das idéias, o pensamento, o trato espiritual
dos homens se apresentam aqui ainda como emanação direta de
seu comportamento material. E o mesmo ocorre com a produção
espiritual, tal e como se manifesta na linguagem da política,
das leis, da moral, da religião, da metafísica etc, de um
povo. Os homens são os produtores de suas representações, de
suas idéias, mas se trata de homens reais e ativos tal e como
se acham condicionados por um determinado desenvolvimento de
suas forças produtivas.9 Daí não ser a liberação da
mulher algo da esfera da representação, do espiritual, da
moral, mas algo material, histórico. Não se pode liberar a
mulher da dominação enquanto ela não esteja em condições de
garantir plenamente suas condições materiais de vida. E se não
enfrentar o capital, sua luta será utópica, porque não mudará
a lei de ferro que mantém a mulher atrelada ao papel
tradicionalmente destinado a ela pelo modo de produção
capitalista: o de garantir o trabalho doméstico e assim baixar
o custo da reprodução da força de trabalho. Por isso esse
sistema é uma camisa de força para a mulher, e por mais que a
mulher consiga “abrir espaços”, não passarão de
conquistas passageiras enquanto não derrubar essa lei de ferro
sob a qual o sistema se assenta. Em nível mais geral, não se
pode liberar os homens da dominação, e os sexos do conflito em
que estão inseridos enquanto não se liberarem dos conflitos
que o sistema econômico cria entre propriedade privada e
trabalho assalariado. A desigualdade entre os gêneros
como criação cultural só pode ser formulada enquanto tal em
uma sociedade onde existem dominados e dominantes, e a mulher
cumpre uma função social e econômica enquanto ser dominado.
Restringir o problema a uma questão de gênero pode mascarar os
determinantes econômicos que separam homens e mulheres das
diferentes classes, além de diluir as diferenças que existem
entre as mulheres burguesas e proletárias. A questão de gênero
se manifesta de forma distinta em cada classe social e tratar de
forma globalizante essa questão mascara esse fato, transmite a
idéia de que todas as mulheres estão unidas por igual problemática.
Apesar de todas sofrerem com a problemática de gênero, sofrem
de forma diferente e as saídas para elas são diferentes, de
acordo com a classe social a que pertençam. As saídas para as
opressões de distintas ordens no capitalismo não são
individuais, mas coletivas, e como tal dependem diretamente das
transformações operadas na estrutura econômica da sociedade. O gênero é uma construção
social burguesa, é ideologia da classe dominante. Não foram os
trabalhadores que definiram o que é masculino e o que é
feminino. Foi a burguesia, no seu processo de afirmação
enquanto classe que precisava gerir um modo de produção
sentado na exploração de massas e massas de lumpens que
vagavam pelas cidades e camponeses despojados de suas terras que
depois vieram a se constituir enquanto classe operária. O gênero,
portanto, é uma construção social própria do capitalismo, e
tem uma essência opressora, de buscar ressaltar as diferenças
entre as pessoas, em especial as diferenças que são naturais e
contra as quais ninguém pode fazer nada. Como o fato de ser
mulher e gerar filhos, por exemplo. O gênero, enquanto construção
social, se assenta, portanto, em algo que é da natureza, que não
é cultural. A origem da opressão
Um ponto chave nessa discussão
é a origem da opressão da mulher. E existem distintas formas
de abordar isso. O feminismo acadêmico divide a teoria
feminista em três grandes perspectivas ou enfoques: a teoria
feminista liberal, a teoria feminista marxista e socialista e a
teoria feminista radical.10 Para as feministas
liberais, a causa principal da opressão da mulher é a injusta
discriminação – legal e de outros tipos – a que está
sujeita, que a priva do direito à auto-realização e à busca
de seu próprio interesse, um direito que deve ser considerado
idêntico ao do homem. Por isso, ao criticar as normas e
costumes sexuais contemporâneos, as liberais usam quase
exclusivamente conceitos de liberdade e igualdade. Suas
propostas políticas para mudar a situação de subordinação
da mulher consistem em alcançar a igualdade com os homens.
Afirmam que não basta a igualdade formal, mas a igualdade autêntica,
que só se poderá alcançar com a reestruturação da
sociedade, quando homens e mulheres compartilhem, tanto na
esfera pública quanto privada, as responsabilidades até então
divididas conforme o sexo. O feminismo radical toma como a
causa principal da opressão da mulher o patriarcado, “um
conflito sexual transhistórico que os homens resolveram até o
momento a seu favor, controlando os corpos, a sexualidade e os
processos reprodutivos das mulheres”.11 Apesar de
menos influente que o feminismo liberal, a teoria feminista
radical vem exercendo atração sobre as feministas descontentes
com o liberalismo. É um fenômeno cujas raízes podem ser
buscadas no movimento de liberação das mulheres do final dos
anos 70 e a new left norte-americana, de inspiração
parcialmente marxista. Apesar da grande heterogeneidade de posições
que se abarcam sobre esse rótulo, todas têm em comum a
preocupação com a biologia reprodutiva humana; a concepção
de que a biologia feminina é básica para a divisão sexual do
trabalho, que se assenta na subordinação da mulher, e o papel
relevante que atribuem à cultura e a socialização, já que
“a mulher não nasce mulher, mas se faz mulher”. Em conseqüência, as
feministas radicais consideram que a opressão das mulheres não
pode ser erradicada reformando-se as leis e fazendo com que
homens e mulheres compartilhem por igual as responsabilidades
que antes eram divididas em função do sexo, como postulam as
feministas liberais, nem compartilhando em pé de igualdade as
instituições políticas e econômicas, como defendem as
feministas socialistas. É preciso uma reconstrução radical da
sexualidade. Isto explica porque muitas de suas políticas
pretendem identificar os aspectos da construção social da
feminilidade que servem para perpetuar a dominação masculina:
a maternidade forçada e diversas formas de escravidão sexual,
incluindo o assédio e a pornografia. Quanto às propostas de atuação,
costumam defender formas de separatismo entre homens e mulheres.
Apesar de a defesa das organizações políticas separadas, pelo
menos em forma temporária, ser compartilhada por todas as
correntes, as radicais vêem estas como único caminho para
alcançar a liberação das mulheres. Se diferenciam das demais
correntes por dar ênfase ao compromisso feminista. As feministas radicais buscam
uma resposta universal à pergunta de por que as mulheres estão
submetidas aos homens, e afirmam que a natureza é a única
causa do domínio dos homens. A versão mais conhecida desse
argumento está no livro A Dialética do Sexo, de S. Firestone.
Ao mesmo tempo em que ataca a separação liberal entre público
e privado, ela se mantém dentro do marco do individualismo
abstrato. Reduz a história da relação entre natureza e
cultura, ou entre privado e público, a uma oposição entre
feminino e masculino. Afirma que a origem do dualismo reside na
“própria biologia e na procriação”, uma desigualdade
natural ou original que é a base da opressão da mulher e fonte
de poder e ainda mobiliza milhões de mulheres no mundo inteiro
contra a opressão masculino. Os homens, ao confinar as mulheres
ao espaço da reprodução (à natureza), se liberaram a si
mesmos para “os negócios do mundo”, e dessa forma criaram e
controlaram a cultura. A solução proposta consiste em eliminar
as diferenças naturais (desigualdades) entre os sexos,
introduzindo a reprodução artificial. Então, a “natureza”
e a esfera privada da família ficariam abolidas e os indivíduos,
de todas as idades, agiriam como iguais no espaço público. A raiz da opressão
É claro que existem diferenças
biológicas entre homens e mulheres. No entanto, não é isso o
que determina a desigualdade entre eles no capitalismo. A estratégia
do capital é justamente aproveitar-se de uma diferença natural
para manter a mulher submetida e melhor explorar seu papel na
sociedade. O mesmo faz com os negros, os imigrantes, os idosos. Assim, por identificar que a
raiz da opressão da mulher é econômica e não ideológica ou
cultural, o marxismo foi o único que conseguiu dar uma resposta
concreta ao problema. A linha divisória estabelecida por Marx e
Engels desde o Manifesto é a que existe entre o socialismo utópico
e o socialismo científico. Os socialistas utópicos pré-marxistas,
também defendiam a emancipação da mulher. Mas sua defesa se
assentava sobre princípios morais e desejos abstratos, não
sobre uma compreensão das leis da história e da luta de
classes. O marxismo proporcionou, pela primeira vez, uma base
materialista científica para a emancipação feminina. A mulher
não nasceu oprimida; sua opressão e exploração é também
anterior ao capitalismo. Ela coincide, na história, com o
surgimento da opressão e exploração do conjunto dos homens e
mulheres que trabalham. O capitalismo acirrou essa opressão,
encontrando novas formas de exploração ao assentar-se sob
classes sociais distintas. O marxismo apenas expôs as raízes
dessa opressão, sua relação com um sistema de produção
baseado na propriedade privada e com uma sociedade dividida em
classes, na qual todas as relações são relações de
propriedade. Por ter compreendido que a
opressão da mulher tem uma raiz econômica (porque do que se
trata aqui é de descobrir a raiz do problema e não suas derivações
culturais e psicológicas), o marxismo pôde apontar o caminho
para conseguir sua liberação: a abolição da propriedade
privada, única forma de proporcionar as bases materiais
para transferir à sociedade em seu conjunto as
responsabilidades domésticas e familiares que recaem sobre os
ombros da mulher. Livres dessas cargas, dizia Marx, as massas de
mulheres poderão romper os grilhões da servidão doméstica e
cultivar suas plenas capacidades como membros criativos e
produtivos da sociedade, e não apenas reprodutivos.
Gênero e mercado de
trabalho
Apesar de o capitalismo se
aproveitar das diferenciações de gênero, essa não é a causa
primordial da opressão da mulher. Ela apenas agrava a situação
da mulher trabalhadora e pobre. A situação social das mulheres
se caracteriza pela desigualdade e, no fundo de qualquer um dos
aspectos em que se manifesta essa desigualdade está o trabalho,
porque está relacionada diretamente com a forma como a mulher
trabalhadora concilia sua condição de reprodutora do capital e
de força de trabalho. No estudo “Mudança Tecnológica
e Gênero no Brasil”, Alice Rangel de Paiva aborda os impactos
da nova tecnologia microeletrônica sobre a divisão e a
organização do trabalho. Segundo a autora, o estudo das
qualificações, das trajetórias ocupacionais e das formas de
gestão passa pela articulação da problemática da divisão
sexual do trabalho com a categoria gênero, que lhe confere a
dimensão histórico-social essencial para um real
aprofundamento da questão. A autora parte da análise das
transformações operadas no trabalho feminino a partir dos anos
80. Houve uma incorporação maciça de mulheres no mercado de
trabalho brasileiro (a taxa de atividade feminina cresceu de
33,6% em 1979 para 38,7% em 1989), enquanto a taxa de atividade
dos homens se mantinha praticamente estável no mesmo período.
Esse movimento estaria acoplado a uma nítida terceirização da
economia e a um sensível aumento de assalariamento do emprego
urbano que se dá, no entanto, de forma bastante precária, uma
vez que diminui ao longo da década o número de assalariados
com carteira de trabalho assinada. Entre as mulheres, apenas 55%
das assalariadas têm carteira assinada no Brasil. A autora busca analisar esse
período de “modernização da estrutura industrial
brasileira” do ponto de vista da divisão sexual do trabalho
porque, segundo ela, se a classe operária tem dois sexos, a
mudança tecnológica só pode ser entendida a partir de uma
perspectiva de gênero. Aqui fica claro, portanto, que
a autora descarta uma perspectiva de classe para analisar a
mudança tecnológica. Mas, segundo a perspectiva de gênero, no
nosso entender a autora não consegue dar resposta ao problema
de por que a mulher continuou sendo discriminada no mercado de
trabalho com a modernização da estrutura industrial. E isso se
deve, justamente, por não ter adotado uma perspectiva de
classe. Alice Rangel afirma que a idéia
largamente difundida nos anos 60 de que as novas tecnologias
microeletrônicas, ao eliminarem trabalhos pesados e sujos,
iriam permitir uma maior igualdade entre homens e mulheres no
mercado de trabalho foi sendo desmentida ao longo das duas décadas
seguintes, diante da constatação irrefutável das diferenças
que mantinham o fosso entre o trabalho qualificado dos homens e
o trabalho desqualificado das mulheres. Ela tem razão, mas essa
constatação deve ser compreendida do ponto de vista da exploração
do conjunto dos trabalhadores, porque as novas tecnologias
servem aos interesses do capital e não para aliviar a exploração
da classe. Elas eliminam trabalhos pesados e sujos, e com isso
empregam mais mulheres, mas não a preocupação de interferir
na desigualdade de gênero e sim obedecendo a lógica do
capital, ou seja, a busca de reduzir custos e aumentar o
rendimento do capital fixo. Alice Rangel dá outro
argumento que só reforça isso: A feminização crescente da
força de trabalho européia e americana neste final de século
não foi acompanhada da sonhada igualdade no emprego.
Especialmente na indústria de transformação, os guetos
ocupacionais masculinos e femininos foram de fato reforçados. Para ela, isso mostra que a
utilização de mão-de-obra feminina não se explica por
imperativos técnicos. Se não é por imperativos técnicos, ou
seja, a suposta capacidade de a mulher para lidar com alta
tecnologia, então tampouco se explica por uma questão de gênero,
porque a informatização, por exemplo, criou novos postos de
trabalho para mulheres, sobretudo num gueto tradicionalmente
feminino, como é o setor bancário. Assim, a mulher não ficou
totalmente alijada da alta tecnologia e, no entanto, isso não
trouxe maior igualdade para ela no mercado de trabalho. Se fosse
por uma questão de gênero, isso não se explicaria, porque a
mulher e o homem se igualam na maioria dos trabalhos. Prova
disso é a própria revolução industrial, quando o advento da
máquina a vapor levou à incorporação em massa da mulher nas
fábricas. O capital confiscou a mão-de-obra feminina para
fazer a máquina render mais; nas grandes concentrações fabris
trabalhavam, lado a lado, homens e mulheres. Ela era
superexplorada devido à dupla jornada e recebia salário
inferior porque na família patriarcal o salário da mulher é
visto como complementar ao do homem. Além disso, Ricardo Antunes
lembra que “na divisão sexual do trabalho operada pelo
capital dentro do espaço fabril geralmente as atividades de
concepção ou aquelas baseadas em capital intensivo (as de alta
tecnologia) são preenchidas pelo trabalho masculino, enquanto
aquelas dotadas de menor qualificação, mais elementares e
muitas vezes fundadas em trabalho intensivo, são destinadas às
mulheres trabalhadoras (e, muito freqüentemente também aos
trabalhadores/as imigrantes e negros/as)”.12
Portanto, esses postos onde a exploração da mão-de-obra é
maior não se destinam só às mulheres, mas também aos homens
imigrantes e homens negros. Ou seja, aos setores mais oprimidos
e “desqualificados” da classe trabalhadora. O capital qualifica a classe
trabalhadora de acordo com seus interesses e suas necessidades,
a cada momento, não de acordo com os interesses do trabalhador.
Este se desemprega conforme sua força de trabalho atenda ou não
ao interesse do capital naquele momento, conforme o mercado o
absorva ou o descarte. O que é trabalho “feminino” e
“masculino” é definido a partir da necessidade do capital
de auferir mais lucro e se utiliza da força de trabalho disponível,
utilizando-se inclusive de suas diferenciações internas (entre
sexo, idade, cor etc) para este ou aquele emprego, aumentando
seu rendimento. A opressão da mulher, do negro, do imigrante
tem a ver, portanto, com uma lógica superior, que determina
todas as demais: a necessidade do capital de reproduzir-se
continuamente. O emprego de novas tecnologias servem aos
interesses do capital nessa empreitada, e não para aliviar a
exploração da classe trabalhadora de conjunto. Os
trabalhadores não detêm o controle sobre seu uso, e quanto
mais elas são empregadas, mais agravam a falta de controle que
ele tem sobre sua própria força de trabalho. Por isso,
aprofundam a exploração e a divisão sexual do trabalho. É claro que nesse mecanismo,
os setores mais discriminados da classe trabalhadora sofrem
graus especiais de exploração, de onde o capital tira um lucro
extra. Por isso, o capital não se preocupa com aliviar essa
discriminação; se em alguns momentos faz adaptações na
tecnologia empregada para que seja operada por mulheres, o faz
no sentido de extrair mais lucratividade do capital fixo, e não
por uma suposta busca por igualdade entre a mulher e o homem. É
o que ocorre nas Zonas Francas, como a de Manaus, no norte do
Brasil, por exemplo, que emprega mais de 30% de mulheres no
setor de produção, e se assemelham às zonas francas
industriais asiáticas e a do México, consideradas como “indústrias
maquiladoras”. Como nessas outras Zonas Francas, na de Manaus
predominam as atividades intensivas em mão-de-obra e, como
informa a pesquisadora Edila Ferreira, são extremamente
desgastantes da acuidade visual e equilíbrio motor. As indústrias
empregam força de trabalho jovem, abundante, barata e não-especializada,
recebem incentivos fiscais que incluem a isenção de impostos,
instalam-se num local privilegiado, a 8 km do centro de Manaus,
dispondo já de ruas asfaltadas, iluminação pública, sistema
de água e esgoto, telefone e telex, enfim toda a infraestrutura
necessária para a instalação da moderna tecnologia
internacional. O setor privilegiado aí é o eletroeletrônico,
com o maior número de empresas implantadas e cuja mão-de-obra
é 75% feminina e, dentro da divisão internacional do trabalho,
realizam a montagem final do produto com partes produzidas em
outros países. A pesquisadora Edila Ferreira
entrevistou gerentes de empresas de Manaus, e as respostas
desses gerentes mostram 1) como o capital se aproveita do
problema de gênero para melhor explorar a mulher como força de
trabalho, 2) como a opressão está a serviço da exploração e
3) como a opressão não existe em si mesma, deslocada do modo
de produção e da divisão social em classes. Vejamos alguns
desses depoimentos: Damos preferência ao trabalho
feminino por ser a mulher mais submissa e mais cativa; é mais fácil
de se submeter à monotonia do trabalho de montagem do que o
homem (gerente de produção de indústria eletroeletrônica). Homem nenhum se submete a um
trabalho monótono e repetitivo deste, de passar o dia inteiro a
soldar pequenas pontas de fios. Isto é um trabalho que só a
paciência das mulheres permite fazer (chefe de pessoal de indústria
de televisores). O trabalho é feminino porque
é serviço manual. Para a mulher, é mais prático. Elas ficam
naquele servicinho mesmo. Os homens procuram logo se tornar
operador (chefe de produção de fábrica de compensados). Esses relatos comparam a mulher
e o homem e mostram que, contraditoriamente ao que parece, o
capital dá preferência ao homem e não à mulher como força
de trabalho; aceita a mulher porque o homem está mais sob pressão
(como disse um gerente, “se eu tivesse trezentos homens em vez
de mulheres, os problemas seriam bem maiores”). Mas sobretudo
do que se aproveita o capital é da abundância de mão-de-obra
disponível. Essa relação é a que determina como, quando e em
que grau o empregador dá preferência ao homem ou à mulher. Dá
preferência a uma força de trabalho que seja submissa;
independente do sexo. E isso tem a ver também com a correlação
de forças entre as classes num determinado momento, que vai
determinar se a força de trabalho está disposta a aceitar ou
rejeitar o grau de exploração que é imposto. Ao nosso ver,
esse é o determinante nas relações de produção e não as
questões relativas às diferenças sexuais e de gênero. Em
momentos de crise, o capital apela para o que de mais
desqualificado existe entre a força de trabalho, porque o que
tem a oferecer é um trabalho repetitivo, sem qualificação
alguma, e precisa baixar o preço da mão-de-obra para compensar
o que tem de retorno. A partir dessa situação concreta surgem
os estereótipos de gênero ou se aproveitam os estereótipos já
existentes. Ocorre o mesmo em relação à
hierarquia salarial. No ramo de confecções, por exemplo, o
corte da fazenda é a única função dentro da produção que
é desempenhada por homens, e justificada como uma tarefa
pesada, necessitando de firmeza nos movimentos. O salário pode
ser até três vezes maior que o das mulheres. Enquanto as
mulheres só podem atingir no máximo um salário e meio,
aquelas consideradas profissionais, o cortador pode ultrapassar
três salários mínimos. Cortar fazenda sempre foi uma tarefa
historicamente feminina (diríamos, então, de gênero feminino)
mas aqui não está sendo desvalorizada por isso. Pelo contrário.
Passa a ser atribuída ao homem devido à carga de
responsabilidade que exige, com a qual a mulher, supostamente, não
poderia arcar. Nas indústrias de montagem de televisores de
Manaus, a embalagem é uma atividade masculina e melhor
remunerada (20% a mais que as outras), não só por exigir maior
esforço físico, mas também por ser considerado um trabalho de
maior responsabilidade. Em geral, os setores de ponta da
economia tendem a absorver força de trabalho masculina,
independente do gênero do trabalho, justamente porque se
considera a mulher menos responsável. É o que ocorre, por
exemplo, com a indústria têxtil, que tradicionalmente emprega
maioria de mulheres, mas quando é o ramo de produção
importante em um país, como no caso da Venezuela, por exemplo,
emprega maioria de homens. Em todos esses casos, o gênero
da tarefa não foi levado em conta para baixar o salário, mas a
sua importância na linha de produção. A mulher fica com as
tarefas de menor importância, porque é considerada menos
“responsável” e isso serve para aumentar a exploração do
conjunto dos trabalhadores, baixando os custos da folha de
pagamento. A qualificação é outra
construção social, definida de acordo com os interesses da
burguesia e não da classe trabalhadora. Lembremos a afirmação
de Marx de que o homem é versátil por natureza13, e
pode aprender e desenvolver uma infinidade de tarefas. O
capitalismo, além de criar a subdivisão do trabalho, concede
prêmios a especialidades parciais e unilaterais, e produz uma
camada de trabalhadores não-qualificados, elevando a ausência
de qualificação a um novo tipo de especialidade. Marx
reconhecia que uma certa divisão de trabalho era necessária na
sociedade industrial, mas não uma divisão em especialidades tão
estreita e permanente que impedisse o desenvolvimento total do
indivíduo14. A mulher genérica é versátil
por natureza. No entanto, a sociedade de classes a conforma
segundo os interesses do capital. Ser operadora de máquina,
exercer as tarefas mais mecânicas e repetitivas, não assumir
cargos que exijam decisão e responsabilidade, enfim, ser um
trabalhador não-qualificado: essa é a especialidade da mulher
no capitalismo. E isso se faz em nome do gênero, para que ela não
abandone as tarefas de reprodução da mão-de-obra no lar, de
onde o capital extrai uma parte de mais-valia; continue se
ocupando das tarefas domésticas, com as quais supre as deficiências
do Estado em relação aos serviços públicos, receba salários
precários e sirva de mão-de-obra barata e descartável. Essas
mazelas, que têm relação direta com o gênero feminino, não
têm nele a sua explicação concreta. Isso tudo ocorre porque não
existe pleno emprego para todos, e o capital precisa se
administrar. Se aproveita desses dados culturais e os aprofunda
na direção que lhe interessa, para pôr e dispor da mão-de-obra. Uma chaga do capitalismo
Como toda questão cultural, a
desigualdade entre os gêneros não é igual em todo o mundo.
Nos países imperialistas é mais atenuada, porque a mulher fez
mais conquistas. A França acaba de votar uma série de leis
para reduzir a desigualdade de oportunidades para a mulher no
mercado de trabalho, e a Inglaterra votou a remuneração do
trabalho doméstico. Para que essas concessões fossem feitas,
aprofundou-se a opressão e a exploração da mulher nos países
dependentes. Há mais desigualdade de gênero
quanto mais dependente é o país e mais explorada a mulher.
Quanto maior a exploração, maior a barbárie, e barbárie
significa para a mulher violência e costumes religiosos retrógrados.
Na África, costumes selvagens, como a mutilação do clitóris,
sobrevivem sem grandes chances de abalo, mesmo com as furiosas
campanhas feministas de denúncia. Nos países muçulmanos, como
o Afeganistão, a Arábia Saudita, o Paquistão, as leis
seculares do Corão estão em pleno vigor, e as mulheres sendo
assassinadas a pedradas por seus maridos ou irmãos. A miséria
espantosa em países como Bangladesh, por exemplo, impede à
mulher até mesmo um direito natural, que é o de ser mãe, já
que a fome a torna impotente para gerar filhos. Na China, com a
restauração capitalista, as mulheres, que chegaram a ser as
mais emancipadas do mundo, sofreram grandes derrotas. E hoje no
campo chinês ocorre o maior número de suicídios de mulheres
por enforcamento ou envenenamento do mundo. Com a volta do
capitalismo também voltou um costume ancestral de seqüestro de
mulheres para trabalharem como prostitutas. A restauração
capitalista é o que explica a volta, em Cuba, da degradação
feminina. A ilha voltou a ser como nos tempos de Batista, um
paraíso para turistas estrangeiros se divertirem com as
prostitutas, na maioria jovens com diploma universitário, que não
encontram emprego. Só a luta de classes explica esses fatos. O desemprego crônico, que
havia sido superado nos estados operários, agora se agrava a
cada dia em todo o mundo. O emprego é crucial para a emancipação
da mulher, ou para se traçar qualquer “política de gênero”.
O trabalho, a oportunidade de desfrutar de um emprego com
direitos trabalhistas, um salário digno, creche e outros benefícios
é fundamental para qualquer trabalhador, em especial para a
mulher. É a pedra de toque para sua independência e sua
liberdade, para que ela consiga minimizar a opressão, a violência
e a miséria. Basta observar como no Afeganistão, talvez o caso
mais extremo de atentado aos direitos da mulher, uma das
primeiras proibições para elas por parte do governo Taleban
foi ao trabalho. O desemprego estrutural é um
retrocesso na emancipação feminina. Uma mulher que trabalha,
que pode alcançar certa independência, não é tão fácil de
se submeter quanto uma mulher que permanece trancada em casa,
encerrada no núcleo familiar, sem perspectivas de vida. Nos países
pobres, uma mulher que encontre um emprego pode aumentar em
muito seu grau de independência, de poder decisório, e ter
acesso à educação, à formação profissional. A diferença,
simplesmente, entre saber ler e escrever ou não saber, pode ser
decisiva. Do ponto de vista da classe trabalhadora, uma mulher
que trabalha é uma mulher que pode participar do sindicato e
dos movimentos políticos, e pode se localizar no seio de sua
classe. Isso significa um ganho para a classe trabalhadora. Se
algo se avançou no terreno dos direitos da mulher, isso se
deveu em grande parte ao fato de que elas se incorporaram cada
vez mais ao mercado de trabalho. Nos países dependentes, a
entrada da mulher no mercado de trabalho não significa maior
igualdade nem maiores direitos. O capital vem conseguindo
transformar esse passo fundamental da mulher em direção à sua
emancipação em uma forma de aprofundar a sua exploração. A
maior parte das trabalhadoras que se incorporam ao mercado de
trabalho o fazem em setores informais, precários, e são alvos
fáceis da superexploração capitalista, acumulando o trabalho
doméstico. As novas tecnologias aprofundam a divisão sexual do
trabalho. Além disso, a opressão feminina torna-se ainda mais
injusta quando se lembra que seu trabalho não é acessório ou
complementar ao do homem, mas é imprescindível para a economia
e a sobrevivência de milhões de famílias. Segundo a OIT, o
trabalho das mulheres é a principal fonte de ingressos para 30%
dos lares do mundo. Na Europa, 60% das trabalhadoras aporta a
metade ou mais dos ingressos do grupo familiar. Na Índia, 60
milhões de pessoas vivem em lares mantidos unicamente por
mulheres. Na América Latina, metade de toda a produção agrícola
sai de mãos femininas. Portanto, garantir trabalho
para a mulher é uma reivindicação fundamental para garantir a
emancipação feminina. O direito ao trabalho remunerado é
inalienável não só para os homens, mas também para as
mulheres. A autonomia de uma pessoa é impossível se ela carece
de ingressos próprios. Como diz Maria Jesús Benito15,
enfrentar o problema pela raiz implica enfrentar o fato de que
obter um emprego é uma necessidade, não um desejo. A crítica
ao princípio de igualdade de oportunidades deve necessariamente
vir acompanhada de uma exigência, que toda mulher adulta sem
emprego remunerado deve ser contabilizada nas estatísticas de
desempregados e não declarada como dona de casa. É uma forma
de encobrir o desemprego feminino, extremamente alto em todos os
países. Não é a desigualdade de gênero
que explica isso. É a desigualdade de classe. A mulher não tem
emprego porque não há emprego para a classe trabalhadora de
conjunto. Num sistema baseado no sucateamento da classe
trabalhadora, seus setores mais oprimidos são os mais afetados.
Os estudos de gênero vêem aí o problema central.
Referindo-se, por exemplo, à fome na África, dizem que apesar
de a mulher ter um papel primordial na produção agrícola,
produzindo 80% dos alimentos de base, recebe somente 10% dos
ingressos gerados na agricultura e controla apenas 1% da terra.
Trata-se, realmente, de uma disparidade. No entanto, não é uma
situação que afeta apenas a mulher e tampouco a África. O
homem trabalhador agrícola na África tampouco detém o
controle da terra e de seus ingressos. Sua situação estará,
talvez, um pouco melhor que a da mulher, mas não se pode
afirmar que o homem trabalhador agrícola controla a terra e
seus ingressos, e a mulher não. Quem controla toda a terra é o
latifúndio, os grandes proprietários. Esse é o inimigo
principal de mulheres e homens trabalhadores africanos. Se
tomamos o caso dos trabalhadores agrícolas no Brasil, a situação
não é muito diferente da África, e aqui tampouco se pode
afirmar que os homens detêm o controle da terra e seus
ingressos, e a mulher não. A divisão primordial, decisiva, se
dá entre classes possuidoras e despossuídas, e não entre
homens e mulheres despossuídos. Não se pode negar que haja um
descompasso entre homens e mulheres da classe trabalhadora, e
que a exploração se soma à opressão, sacrificando ainda mais
a mulher. No entanto, aqui se trata de buscar o caminho para a
solução de um problema que afeta a ambos, homens e mulheres
trabalhadores, e esse caminho é o do enfrentamento com a
burguesia, cujo programa inclui as bandeiras específicas da
mulher, como legalização do aborto, salário igual para
trabalho igual e outras. No entanto, isso não significa
que se a burguesia deixasse de se aproveitar dessas
desigualdades, a situação da classe trabalhadora de conjunto
estaria resolvida. Basta lembrar que na sociedade machista,
patriarcal e branca em que vivemos, nem os homens conseguem
emprego e melhores condições de vida, que dirá as mulheres,
os negros, os homossexuais! Por isso, é um erro centrar a política
nesse aspecto, exigir uma “política de gênero”. Essas são
reivindicações democráticas, que advêm de uma contradição
estrutural da sociedade: o capitalismo não avança mais, as forças
produtivas não se desenvolvem e, por isso, não há espaço
para concessões democráticas. É o choque das forças
produtivas com as relações de produção, que só pode ser
resolvido pela revolução socialista, que liberará as forças
produtivas para que a sociedade avance e as questões democráticas
encontrem um caminho de resolução. As políticas de gênero, ao não
se assentarem na classe trabalhadora, têm de se assentar em
alguma coisa. Por isso, são sempre direcionadas aos governos
burgueses, aos organismos do imperialismo, ONU e FMI, como fazem
as organizações que agora dirigem a Marcha das Mulheres 2000.
Têm sempre à frente uma primeira-dama ou uma ONG que apelam
para sua “essência feminina”, sua iniciativa pessoal para
sair dos dilemas, o “jeitinho feminino” de resolver os
conflitos. A política de gênero pede à
mulher que vote em mulher, não importa quem seja. O objetivo é
aumentar a representação feminina no Parlamento. Tudo se passa
como se não existissem mulheres burguesas e proletárias,
interesses burgueses e proletários, como se um Parlamento
majoritariamente feminino votasse apenas políticas favoráveis
à população. Como se votar em Margareth Thatcher, em
Madeleine Albraight ou Hillary Clinton fosse ajudar a mulher a
alcançar sua liberação. O mesmo ocorre em todos os
documentos de mulheres da CUT, principal central sindical no
Brasil, e do PT (Partido dos Trabalhadores), onde a palavra
classe foi literalmente substituída pela palavra gênero. O que
é um erro em todas as frentes, porque cada vez que cresce o
conflito, que aumenta a opressão contra a mulher, isso estimula
as mulheres a tomarem consciência de pertencerem a uma classe
social definida, com interesses e princípios opostos à classe
dominante, e não a tomarem consciência de pertencerem ao sexo
feminino, ou ao gênero feminino. Cada vez que faz um aborto, a
mulher trabalhadora se sente violando a lei, uma lei que não
beneficia a ela, mas apenas à mulher burguesa. Cada vez que
busca trabalho fixo e só encontra trabalho precário, ela
objetivamente se sente identificada com a classe dos
desempregados, e não a uma suposta consciência de pertencer ao
gênero feminino. Os golpes contra a mulher a jogam contra o
governo, contra a injustiça social, contra um modo de vida
desumano. E não contra os homens de forma genérica. Por isso,
é um crime o que fazem as ativistas que exigem a autonomia das
mulheres, porque, ao invés de desenvolverem a consciência da
mulher trabalhadora contra o sistema, a desenvolvem contra os
homens. O fim do capitalismo e da divisão
da sociedade em classes com certeza permitirá que a mulher
desenvolva plenamente suas potencialidades latentes, já que terá
o controle de sua força de trabalho e sua qualificação não
visará a outro interesse que o seu e o do conjunto da
humanidade. O fim da sociedade em classes poderá conformar a
mulher como um ser histórico diferente, participante da produção
social como qualquer trabalhador. Para Alice Rangel, a explicação
para a situação da mulher no mercado de trabalho passa pela
articulação da problemática da divisão sexual do trabalho
com a categoria gênero. Para nós, nenhuma explicação é possível
se não se articula a problemática da divisão sexual do
trabalho com a relação entre as classes. Para Maria de Jesús
Izquierdo, a sociedade se estrutura em gêneros. Para nós,
marxistas, ela se estrutura em classes sociais, e todos os
problemas sociais têm um caráter de classe, porque se
relacionam com a estrutura econômica da sociedade. E isso não é discurso, é a
realidade que nos está mostrando todos os dias. Opressão
feminina é desemprego, é prostituição, é degradação, é
violência, é morte por aborto sem assistência médica, é
tristeza, frustração, dor. Tudo isso tem um nome: capitalismo.
Nos estados operários, havia sido erradicado, e volta a
aparecer, com a restauração capitalista. Por isso, o problema da mulher
trabalhadora não é ser mulher, é viver num regime
capitalista. Ela não precisa rejeitar sua feminilidade, nem sua
função de maternidade. Ela não precisa ver no homem um adversário.
O que ela precisa é reconhecer sua própria força e unir-se -
como mulher, com todas as suas potencialidades - à sua classe
para lutar pelo fim da sociedade capitalista, que é a
verdadeira raiz de sua opressão. Temos de fazer com que a
mulher que, no seu dia a dia, se enfrenta, objetivamente, com os
entraves do capitalismo – a fome, a miséria, o desemprego, a
opressão sexual, a humilhação - tome consciência de quem é
seu real adversário. E se disponha a fazer um chamado a seus
companheiros de classe para lutarem juntos contra o capitalismo.
Esse será o primeiro passo para que ela se transforme como ser
histórico e possa construir uma sociedade socialista, em
igualdade com o homem, onde todos os resquícios de opressão
sejam atirados na lata de lixo da história. |
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