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Israel: cinco décadas de pilhagem e limpeza étnica
Cecília Toledo Esse “reconhecimento” por
parte da história oficial é um tanto quanto tardio se levamos
em conta que outros autores, em especial os marxistas, já
haviam, exaustivamente, contado a história real do sionismo e
desmascarado uma das mais monumentais falsificações históricas
já feitas até hoje. Entre esses historiadores marxistas
destacam-se o militante revolucionário Abraham Leon, morto nas
câmaras de gás de Auschwitz aos 26 anos, e autor do importante
livro A Questão Judia, e Ralh Schoenman, que escreveu a História
Oculta do Sionismo, um relato detalhado e que não deixa dúvidas
sobre a ocupação judia da Palestina. No entanto, esse
reconhecimento é mais uma demonstração de que a situação é
tão grave e o avanço da Intifada tão forte que até
importantes historiadores israelenses já estão admitindo que a
ideologia “da terra sem povo” é pura invencionice, e negam
a torrente de mentiras que os sionistas vêm pregando há décadas
e que serviram para iludir muita gente. Judeus: um povo-classe nas
sociedades pre-capitalistas Abraham León parte da proposta
de Marx para demonstrar que a suposta originalidade do povo
judeu tem causas materiais e históricas, sem qualquer relação
com Jeová ou uma pseudo “essência” racial imutável, como
supõem tanto os anti-semitas quanto os sionistas. Segundo Marx,
para entender a questão judia, “não devemos buscar o segredo
do judeu em sua religião, mas o segredo da religião no judeu
real” 3. Partir da religião, como normalmente se
costuma fazer, não explica a questão judia; para entendê-la
é preciso entender o judeu em seu papel econômico e social. León vai em busca das origens
do povo judeu e chega à importante e rica noção de
povo-classe. Nas sociedades pre-capitalistas, os judeus foram
uma classe social, um povo-classe4, como são, entre
outros povos, os ciganos. Os judeus representavam as formas
“pré-históricas” do capital, tanto no mundo antigo como no
mundo feudal. No feudalismo, as transações com dinheiro
ocorriam relativamente à margem do modo de produção, já que
essas sociedades eram produtoras de valores de uso e não de
troca. Por ser uma atividade marginal, era exercida por
“estrangeiros”, por povos-comerciantes, como os fenícios,
os judeus e os lombardos. Esses eram povos-classe que, como
dizia Marx, existiam nos poros da sociedade produtora de valores
de uso. Assim, os judeus são a sobrevivência de uma velha
classe mercantil e financeira pre-capitalista. Sobre essas relações
materiais dos judeus se assentava uma superestrutura
institucional e ideológica: autoridades comunitárias, uma
religião “especial” e o mito de considerar-se descendentes
do primitivo povo hebreu que habitava a Palestina no início de
nossa era. Essa superestrutura ajudava a manter a coesão do
povo-classe mas, ao mesmo tempo, falsificava a verdadeira
natureza de sua existência. É o fenômeno da falsa consciência,
comum a todas as ideologias. E explica porque não há unidade
racial entre os judeus. Oculto sob esse manto ideológico-religioso,
ocorria o fenômeno da incorporação de indivíduos ou grupos
inteiros ao povo-classe. Isso explica que tenha existido judeus
de “raça” mongólica no Daghestão, judeus negros (os
falasha) na Etiópia, judeus árabes no Islã e judeus de origem
eslava na Europa Oriental. Isso prova que a descendência comum
de Abraham ou dos habitantes da Palestina no início de nossa
era é puro mito. Com o desenvolvimento do
capitalismo, a velha classe comercial pre-capitalista judia foi
perdendo as bases materiais de sua existência como povo-classe.
Na Europa Ocidental, especialmente na Inglaterra, os judeus começam
a assimilar-se de forma natural. Mas antes que esse processo
atingisse a Europa Oriental, de capitalismo mais atrasado,
entramos na etapa imperialista do capitalismo, de decomposição
no mundo todo. Os judeus, tanto na Europa
Ocidental quanto Oriental, passaram a enfrentar uma situação
dramática. Ao colocar a solução do problema judeu nos termos
na luta pelo socialismo, o marxismo começou a exercer uma
grande atração sobre as massas judias. Seu caminho era
fundir-se com a classe trabalhadora em suas lutas contra o
capitalismo, porque para as massas judias miseráveis de Varsóvia
ou de Kiev, o caminho seguido por seus correligionários mais
afortunados da Inglaterra ou da França, da assimilação como
burgueses nos marcos do capitalismo, já estava fechado para
elas. Na Rússia, enquanto o império zarista alentava os
choques entre russos e polacos ou ucranianos, ou destes contra
os judeus, e enquanto o Império Austro-Húngaro fazia o mesmo
no mosaico de povos que dominava, os marxistas revolucionários
chamavam a unidade de todos os trabalhadores (de qualquer língua,
nacionalidade ou “raça”) para lutar contra esses regimes e
contra toda a burguesia imperialista européia. Por isso, muitos operários,
estudantes e intelectuais de origem judia ingressaram nas
fileiras socialistas e se assimilaram aos trabalhadores de seus
países. Mas o velho povo-classe, nas condições do capitalismo
moderno, era cada vez menos homogêneo. E assim também famílias
ricas, como os Rothschild e outros milionários se ligaram à
burguesia imperialista dos diversos países europeus. E, entre
as saídas burguesas para o problema judeu apontadas por esses
setores, a mais importante é o sionismo. Outra saída
reformista foi proposta por aqueles que ficaram conhecidos como
bundistas. O que foi o bundismo Os bundistas eram membros do
Bund, a União Geral de Operários Judeus da Lituânia, Polônia
e Rússia, fundada em 1897. Surgiram na Rússia como um setor da
social-democracia, tanto que, no início, fez parte do Partido
Operário Social-Democrata Russo, mas quando este se dividiu, o
Bund se colocou contra os bolcheviques5. A base social do Bund era
constituída por setores de artesãos, semiproletários ou operários
de pequenas oficinas, especialmente da indústria de vestuário.
Era um vasto setor com um pé no velho gueto e outro no
proletariado industrial moderno. Isto se refletia na ideologia
do Bund que, por um lado se reivindicava marxista e revolucionário
e, de outro, negava o internacionalismo ao levantar barreiras
entre os operários de distintas nacionalidades. Com a bandeira
de defender a cultura nacional, pregava que os operários judeus
deviam organizar-se de forma separada dos operários russo,
poloneses etc. Assim, acabava por fazer o jogo da burguesia, ao
dividir os trabalhadores de cada fábrica ou cidade segundo sua
origem nacional ou “racial”. Esse caráter contraditório,
reflexo de uma contradição real de sua base social,
determinava que, apesar de sua capitulação ao nacionalismo
burguês, o Bund não propunha que os trabalhadores judeus se
separassem da luta de classe e se unissem à burguesia judia
para ir colonizar a Palestina ou algum outro território. Quem
fez isso foram os sionistas. O surgimento do sionismo Também em 1897, quando surgiu
o Bund, realizou-se em Basiléia, Suíça, o Congresso de Fundação
da Organização Sionista6. O pano de fundo da irrupção
do movimento sionista foi a rápida capitalização da economia
russa depois da reforma de 1863, que tornou insustentável a
situação das massas judias das pequenas cidades. No Ocidente,
as classes médias, trituradas pela concentração capitalista,
começam a se voltar contra o elemento judeu, cuja competição
agrava sua situação.7 Em meio a esse clima, surge na
Rússia a Associação dos Amantes de Sion e é publicado o
livro de León Pinsker, A Auto-emancipação, preconizando o
retorno à Palestina como única solução possível para os
judeus. Logo depois, um jornalista judeu de Budapest, Teodoro
Herzl, escreve O Estado Judeu, que até hoje é considerado o
evangelho do movimento sionista, segundo Abraham Leon.8
Na França, o barão de Rothschild, junto com outros magnatas
judeus, se opõe à chegada em massa de imigrantes judeus nos países
ocidentais e começa a apoiar a obra de colonização judia da
Palestina. “A seus ‘irmãos desafortunados’ a voltar ao país
de seus ‘antepassados’, ou seja, a ir o mais longe possível,
nada tinha de desagradável para a burguesia judia do Ocidente,
que temia, com razão, o crescimento do anti-semitismo”, diz
León. Assim, ainda que a Organização Sionista passasse a
disputar a mesma clientela que o Bund e inclusive o socialismo
revolucionário, seu caráter de classe era marcadamente
distinto: aparecia como o programa de um setor da grande
burguesia judia, que terminaria sendo dominante dentro dela. No princípio, o sionismo
aparece como uma reação da pequena burguesia judia, duramente
golpeada pela crescente onda de anti-semitismo, tendo que se
bandear de um país a outro, que quer atingir a Terra prometida
a todo custo para livrar-se dessa situação. No entanto, o
sionismo procura assentar-se em uma explicação religiosa para
justificar sua existência. No ano 70 da era cristã, os judeus
teriam sido expulsos de Jerusalém, ocupada pelos invasores
romanos. Como na Bíblia, Jerusalém era considerada a pátria
dos judeus, eles teriam sido expatriados; foi a famosa diáspora,
que espalhou os judeus pelos quatro cantos do mundo. Voltando a Marx, para entender
a questão judia é preciso partir das condições materiais de
vida do judeu e não da religião, das fantasias e ideologias
criadas ao longo da história. “Enquanto que o sionismo é,
realmente, produto da última fase do capitalismo, ou seja, do
capitalismo que começa a se descompor, se vangloria de ter sua
origem em um passado mais que bimilenário. E se bem o sionismo
é essencialmente uma reação contra a crise do judaísmo
gerada pela combinação do desmoronamento do feudalismo com a
decadência do capitalismo, afirma ser uma reação contra a
situação existente desde a queda de Jerusalém, no ano 70 da
era cristã”, diz A.León. Mas o próprio surgimento do
movimento sionista refuta essas pretensões. “Como crer que o
remédio a um mal existente há dois mil anos só tenha sido
encontrado no final do século XIX? O sionismo vê a queda de
Jerusalém como causa da dispersão e por conseguinte, a origem
de todos os males do judeus no passado, no presente e no futuro.
“A fonte de todas as desgraças do povo judeu está na perda
de sua pátria histórica e sua dispersão em todos os países”,
declara a delegação “marxista” do Poalé-Sión no Comitê
holando-escandinavo9. Essa história dos judeus, como
é contada pelos sionistas, trata de criar o pano de fundo para
justificar a ocupação da Palestina. Assim, depois da violenta
dispersão dos judeus por obra dos romanos, os judeus não
quiseram assimilar-se. Imbuídos de sua “coesão nacional”,
“de um sentimento ético superior” e de “uma indestrutível
crença em um Deus único”, teriam resistido a todas as
tentativas de assimilação.10 O que não é verdade,
já que, como vimos anteriormente, houve ao longo desses dois
mil anos inúmeros casos de assimilação. Mas, de acordo com a
histórica construída pelos sionistas, isso jamais teria
ocorrido; a única esperança dos judeus durante esses dias
sombrios que duraram dois mil anos era retornar à antiga pátria. Segundo A.León, nunca o
sionismo havia se colocado essa questão de forma séria. Por
que, pergunta, durante esses dois mil anos jamais tentaram
voltar realmente a essa pátria? Por que foi necessário esperar
até o fim do século XIX para que Herzl os convencesse dessa
necessidade? Por que todos os seus predecessores eram tratados
como falsos messias? Para responder a essas incômodas
perguntas, o sionismo recorre aos mitos. “Enquanto as massas
acreditaram que deviam esperar na Diáspora até a chegada do
Messias, foi preciso sofrer em silêncio”, diz Zitlovski.11
No entanto, como diz León, essa explicação não explica nada.
Se trata precisamente de saber por que as massas judias
acreditavam que deviam esperar o Messias para poder ‘regressar
à sua pátria’. Como a religião é um reflexo ideológico
dos interesses sociais, a partir do final do século XIX ela
começou a deixar de ser um obstáculo para o avanço do
sionismo e a se transformar numa cortina de fumaça para seu
expansionismo, servindo para encobrir e justificar todas as suas
mazelas. Essas concepções idealistas
do sionismo são inseparáveis do dogma do anti-semitismo
eterno, ou seja, de que passe o que passe, os judeus serão
sempre perseguidos. Dessa forma, o sionismo transpõe o
anti-semitismo moderno para toda a história, economizando o
trabalho de investigar as diversas formas de anti-semitismo e
suas causas, e inclusive omitindo o fato de que em diversas épocas
históricas os judeus não foram oprimidos, mas opressores, como
membros da classe dominante. “Na verdade, a ideologia
sionista, como toda ideologia, não é senão o reflexo
desfigurado dos interesses de uma classe. É a ideologia da
pequena burguesia judia, oprimida entre o feudalismo em ruínas
e o capitalismo em decadência, sintetiza A.León. Ele ressalta
um fato justo, ou seja, que a refutação das fantasias ideológicas
do sionismo não refuta, naturalmente, as necessidades reais que
o fizeram nascer. É o moderno anti-semitismo e não o mítico
anti-semitismo “eterno” o melhor agitador em favor do
sionismo. Assim a questão fundamental é saber em que medida o
sionismo é capaz de resolver não “o eterno problema judeu”
mas a questão judia na época da decadência capitalista. O defensores do sionismo o
comparam com os demais movimentos nacionais. Mas o movimento
nacional da burguesia européia é conseqüência do
desenvolvimento capitalista; reflete a vontade da burguesia de
criar as bases nacionais da produção, de abolir os resquícios
feudais. Mas no século XIX, época do florescimento dos
nacionalismos, a burguesia judia, longe de ser sionista, era
profundamente assimilacionista. O processo econômico que fez
surgir as nações modernas lançava as bases para a integração
da burguesia judia na nação burguesa. Só quando o processo de
formação das nações chega ao fim, quando as forças
produtivas deixam de crescer, premidas pelas fronteiras
nacionais, surge o processo de expulsão dos judeus da sociedade
capitalista e o moderno anti-semitismo. A eliminação do judaísmo
acompanha a decadência do capitalismo. Longe de ser um produto
do desenvolvimento das forças produtivas, o sionismo é
justamente a conseqüência da total paralisia desse
desenvolvimento, da petrificação do capitalismo, nas palavras
de A Leon. Assim, enquanto o movimento nacional é um produto do
período ascendente do capitalismo, o sionismo é fruto da era
imperialista. A tragédia judia do século XX é uma conseqüência
direta da decadência do capitalismo.12 Com toda razão, A.León lembra
que justamente aí está o principal obstáculo para a realização
do sionismo, a chave para se compreender a crise que vive a
Palestina desde a fundação do Estado de Israel. A decadência
capitalista, base do crescimento do sionismo, é também a causa
da impossibilidade de sua realização. A burguesia judia se vê
obrigada a criar um Estado nacional e assegurar as condições
para o desenvolvimento de suas forças produtivas justamente na
época em que as condições para isso desapareceram há muito
tempo. A decadência do capitalismo, se por um lado colocou de
forma tão aguda a questão judia, por outro torna impossível
sua solução pela via sionista. E não há nada de assombroso
nisso, diz Leon. Não se pode suprimir um mal sem destruir suas
causas. O sionismo quer resolver a questão judia sem destruir o
capitalismo, principal fonte dos sofrimentos dos judeus”.13 Isso remarca, como ferro em
brasa, o caráter de classe do movimento sionista. É certo que
os pioneiros da colonização da Palestina eram artesãos,
pequenos comerciantes pobres, pessoas sem grandes posses. Dessa
forma, tratou-se de criar uma imagem “plebéia” e até
“operária” e “socialista” ao sionismo. Seus defensores,
principalmente os que se dizem de esquerda, aceitam a idéia de
que o movimento sionista não era um fator progressivo na política
européia, mas argumentam que isso era secundário frente a um
fato essencial: o sionismo seria o movimento de liberação
nacional do povo judeu. E do “povo mais pobre”, daí ser uma
“causa justa”. É claro que não estava nos
planos de Rothschild e da grande burguesia judia irem
pessoalmente à Palestina cultivar a terra. O que fizeram foi um
impulsionar um movimento para confinar os judeus mais pobres na
Terra Santa e, com isso, afastá-los da luta de classes na
Europa e dos partidos de esquerda, e, por outro lado,
livrarem-se, eles em primeiro lugar, da fúria antisemita que
crescia a olhos vistos. Outro objetivo desse movimento
impulsionado pela burguesia judia era transferir essas massas
para fora da Europa para constituir um Estado Judeu num ponto
estratégico, em meio à maiores reservas de petróleo do mundo,
ameaçadas pelo ascenso das massas árabes. Por isso, o Estado
de Israel se tornou um enclave do imperialismo na região, o
gendarme do mundo árabe. Uma região “vazia” Segundo os sionistas, a
Palestina era uma região praticamente vazia. “Vastas regiões
do país permaneciam inexploradas e pertenciam a senhores
feudais ausentes. Estavam infestadas de malária e, além de
algumas barracas de beduínos dispersas, estavam desabitadas e,
por isso, disponíveis”.14 Nas vizinhanças da
Terra Santa havia apenas alguns núcleos heterogêneos, muçulmanos,
chequizes, maronitas, cristãos e gregos ortodoxos. Foi para uma
terra sem povo que lentamente, no final do século passado, se
começou a encaminhar um povo sem terra”.15 Vive-se a época da expansão
colonial da Europa na Ásia e África. É nesse marco histórico
se inicia o sionismo. E a Palestina, longe de ser uma terra
vazia e sem dono, estava ocupada por outro povo, o povo árabe.
Isso era um problema para a burguesia judia européia, tanto que
Herzl nem menciona a palavra “árabe” em seu livro, apesar
de saber, obviamente, da existência dos árabes. Essa falsificação,
escondida durante tantos anos, não resiste mais à evidência
dos fatos e, principalmente, ao recrudescimento da luta
palestina, obrigando até mesmo os historiadores oficiais de
Israel a reconhecer que aquela “não era uma terra sem
povo”. Esse foi o papel reservado aos
desesperados judeus da Europa Oriental: servir de ponta de lança
dos planos colonizadores da burguesia imperialista, em especial
os Estados Unidos, interessados em criar uma cabeça de lança
no Oriente Médio. Com um discurso filantrópico, a expansão
colonial usava as massas miseráveis de judeus para seus fins
nada louváveis. Quem poderia se opor a que os pobres judeus saíssem
da escuridão dos guetos para o sol da Palestina? Infelizmente,
essa troca, por mais benéfica que tivesse sido para eles, foi
feita às custas dos árabes, massacrados e, estes sim, expulsos
de sua terra de fato, e não por obra e graça de uma história
bíblica. Declaração Balfour: a
segunda etapa do sionismo A política de Teodoro Herzl, o
pai do sionismo, e seus sucessores foi a de aproveitar-se do
processo de expansão colonial imperialista para ocupar a
Palestina. Para isso, precisava que alguma potência
imperialista abraçasse a causa sionista. Assim, sua atividade
principal foram as gestões perante as diversas potências européias,
buscando insertar o sionismo como parte de sua política
colonial. Esse apoio veio, em primeiro lugar, da Inglaterra, um
império que, desde meados do século, se expandia a todo vapor. As gestões de Herzl em Londres
foram bem acolhidas, mas havia um problema objetivo: a Palestina
estava em mãos da Turquia. A Inglaterra então oferece a Herzl
colonizar a Uganda ou o Sinai egípcio, mas essa possibilidade não
se concretiza. Havia um segundo problema objetivo: o sionismo não
era muito forte entre as massas judias. Os que queriam emigrar,
o faziam massivamente para a América; tanto que uma das opções
discutidas foi a constituição do Estado sionista na Argentina.
Pouquíssimos judeus iam para a Palestina. E uma boa parte dos
que ficavam eram antisionistas, ou estavam sob a influência dos
partidos de esquerda. Com a I Guerra Mundial, chegara
a hora da repartição da Turquia. Para apressá-la, a
Inglaterra se serve do movimento nacional dos árabes que havia
começado a despertar. E, por outro lado, firma um acordo com a
França, de repartição da zona, além de assinar a chamada
Declaração Balfour (2/11/1917), que ficou conhecida como a
“aliança de casamento” entre o sionismo e o imperialismo
inglês. Assim começava a segunda etapa
do sionismo, que culminaria com a criação do Estado de Israel.
Além de dar aos ingleses um valioso auxiliar para estabelecer
um futuro protetorado em Palestina, a Declaração Balfour
colocava em mãos inglesas uma poderosa arma para liquidar o
movimento nacional árabe, fortalecer a política de guerra do
imperialismo britânico e sua luta contra a Revolução Russa. O caminho em direção a Israel
estava sendo traçado com as seguintes características: 1) por
uma declaração unilateral de uma grande potência
imperialista; 2) essa declaração impunha o destino de uma região
da Ásia que jamais havia pertencido à Inglaterra, que dava de
presente a Lorde Rothschild o território de uma nação alheia;
3 não levava em conta os desejos do povo palestino, que era 93%
árabe em 1917. Esses 93% eram reduzidos à condição de não-judeus,
confinados em um “lar nacional judeu”, ou seja tratados como
estrangeiros em sua própria terra. O mandato britânico
(1918-1948) No final da I Guerra Mundial,
os Aliados (Inglaterra, França, Itália e EUA) criaram a
Sociedade das Nações, antecessora da atual ONU, que
“outorgou” à Inglaterra o mandato sobre a Palestina. Mas
naqueles tempos as coisas não corriam muito tranqüilas para o
imperialismo. Havia surgido, pela primeira vez na história, um
Estado Operário, a URSS que se opunha à expansão colonialista
e em todo o mundo colonial começava uma grande onda de lutas
antiimperialistas. Dentro do mundo árabe, o
Oriente Médio concentrou as lutas mais importantes contra os
imperialismos inglês e francês. A Palestina foi o eixo dessa
luta, especialmente durante a insurreição de 1936/39, que começou
com uma greve geral que durou seis meses e, para ser sufocada,
exigiu a metade dos efetivos de todo o exército britânico, um
dos mais poderosos do mundo nesse momento. Centenas e centenas
de palestinos foram mortos, detidos e condenados à forca ou a
longas penas de prisão. Em 1939, o povo palestino estava
derrotado. Essa é a chave para entender a relativa facilidade
com que em 1947/48 foi instalado aí o Estado de Israel. 16 A ocupação, explica Jon
Rothschild, se deu em base a três pilares do movimento
sionista: kibush hakarka (conquista da terra), kibush haavoda
(conquista do trabalho) e t’ozteret haaretz (produto da terra)17.
“Detrás dessas sonoras palavras havia uma dura realidade.
Conquista da terra significava que toda a terra possível fosse
adquirida (legalmente ou não) dos árabes, e que nenhuma terra
de judeus fosse vendida ou de alguma maneira retornasse aos árabes.
Conquista do trabalho significava que nas fábricas e terras de
judeus dava-se preferência aos trabalhadores judeus. O
trabalhador árabe era boicotado. De fato, a Histadrut, que hoje
se diz a Central Operária em Israel, foi criada para impor o
boicote aos trabalhadores árabes. Produto da terra significava
praticar o boicote à produção árabe por parte dos
colonizadores judeus, e manter somente a compra de produtos das
terras ou negócios judeus”.18 Essa política de ocupação
– da qual os sionistas faziam propaganda dizendo que era uma
política “socialista”, que visava ajudar os trabalhadores e
pobres judeus – significou a desgraça para o povo palestino,
porque foi imposta sobre a terra que eles ocupavam. Apesar de
serem minoria no início (depois cresceram muito), os sionistas
tinham um poder econômico muito maior que os árabes, além de
contar com o apoio do imperialismo. Isso lhes deu força para
cair arrasando o povo árabe da Palestina, que ficaram reduzidos
a trabalhadores sem trabalho e camponeses sem terra. Muito
estranho esse tipo de socialismo, que ataca os trabalhadores.
“O árabes eram expulsos ou boicotados nas empresas de
propriedade sionista ou de capital estrangeiro (concessões),
que geralmente eram administradas por gerentes sionistas. Cerca
de 53% das empresas eram concessões e 40% de propriedade
sionista, sendo que apenas 6% eram de propriedade de árabes
(dados de 1939). Assim, ficava um mercado de trabalho
super-reduzido para os trabalhadores árabes. Outro tanto ocorria com o
t’ozteret haaretz (produto da terra), uma política que
significava o boicote à força, praticado por bandos armados da
Histadrut, de todo produto árabe, uma repressão que não
poupava nem mesmo os judeus que ousassem adquirir algum alimento
produzido por mãos árabes. Alijados da terra, do trabalho
e da possibilidade de comercializar seus produtos, os palestinos
se tornaram uma massa marginalizada e pronta para ser expulsa de
suas terras. A resistência palestina, em forma de guerrilha, é
praticamente esmagada em 1939 pelo Exército Britânico e a
Haganá, o exército extra-oficial formado pelo sionismo, num
ataque conjunto para mostrar “quem manda na Palestina”.
Nessa época, tinha início a Segunda Guerra Mundial e os
sionistas estavam preocupados com o destino da Inglaterra, seu
imperialismo protetor, diante de uma nova repartição do mundo
em zonas de influência. Queriam garantir para a Palestina a
proteção imperialista, já que tudo indicava que os EUA e não
mais a Inglaterra seriam daí em diante o grande senhor do
mundo. A suposta luta antiimperialista alardeada pelo sionismo
era, simplesmente, o desejo de passar de um sócio menos forte
para outro mais poderoso. Isso foi expresso com clareza por Ben
Gurion: “Nossa maior preocupação
era a sorte que seria reservada à Palestina depois da guerra. Já
estava claro que os ingleses não conservariam seu Mandato. Se
se tinha todas as razões para crer que Hitler seria vencido,
era evidente que a Grã Bretanha, mesmo vitoriosa, sairia muito
debilitada do conflito. Por isso, eu não tinha dúvidas de que
o centro de gravidade de nossas forças deveria passar do Reino
Unido para a América do Norte, que estava em vias de assumir o
primeiro lugar no mundo”. 19 Sob a órbita norte-americana,
o sionismo começou a dar passos largos em direção à criação
do Estado de Israel. Ao final da guerra, as grandes potências,
através da ONU, não só fizeram vistas grossas à ocupação e
massacre do povo palestino, como deram o status legal à situação
colonial criada durante a dominação britânica. Em base a uma
proposta de partilha da Palestina feita durante o Mandato inglês20
e que incendiou a revolta em todo o mundo árabe, em 29 de
novembro de 1947 vota-se a divisão do país em dois estados: um
sionista e outro árabe. Novamente, sem qualquer consulta ao
povo palestino e com o aval da burocracia soviética, que enviou
armas e aviões para ajudar o imperialismo a massacrar os árabes.
Afogada em um banho de sangue a resistência palestina, é
proclamado o Estado de Israel, em maio de 1948. Israel: a tragédia
palestina Em 1947 havia 630 mil judeus e
um milhão e trezentos mil árabes palestinos21.
Assim, no momento em que as Nações Unidas dividem a Palestina,
os judeus eram minoria (31% da população). Essa divisão,
promovida pelas principais potências imperialista com o apoio
de Stalin, deu 54% da terra fértil ao movimento sionista. Mas,
antes de que se formasse o Estado de Israel, o Irgun e as
Haganah (organizações paramilitares israelenses) já haviam se
apoderado das três quartas partes da terra e expulsado seus
habitantes. Assim, dos 475 povoados palestinos que havia em
1948, 385 foram completamente arrasados, reduzidos a cinzas e os
90 que ficaram tiveram suas terras confiscadas. Esse processo
ficou conhecido como a “judaização” da Palestina. Raphael Eitan, então chefe do
Estado Maior das Forças Armadas israelenses, não podia ser
mais claro quando disse que “Declaramos abertamente que os árabes
não têm qualquer direito a um só centímetro de Eretz Israel.
Os de bom coração, os moderados, devem saber que as câmaras
de gás de Adolf Hitler serão como brincadeira de criança. O
único que entendem e entenderão é a força. Utilizaremos a
força mais decisiva, até que os palestinos se aproximem de nós
de joelhos”.22 David Ben Gurion, em um
discurso pronunciado em 13 de outubro de 1936, formulava assim a
estratégia sionista: “Quando nos tornemos uma força com peso
depois da criação do estado, aboliremos a partição e nos
expandiremos a toda Palestina. O estado será somente uma etapa
na realização do sionismo, e sua tarefa é preparar o terreno
para nossa expansão. O estado terá que preservar a ordem, não
com palavras, mas com metralhadoras”.23 E, de fato, assim foi feito.
Entre 29 de novembro de 1947, data da divisão da Palestina pela
ONU e 15 de maio de 1948, quando foi formalmente proclamado o
Estado de Israel, o exército sionista e as milícias
paramilitares se apoderaram de 75% da Palestina, expulsando do
país 780 mil árabes. Os que ficaram foram vítimas de perseguições
selvagens e uma carnificina só comparada ao holocausto nazista. Assim começou a tragédia
palestina que dura até hoje. Roubo, puro e simples, das
terras e dos negócios dos árabes É preciso entender o alcance e
as conseqüências dessa política assassina por parte do
sionismo. No território ocupado por Israel depois da partilha
havia 950 mil árabes palestinos, vivendo em cerca de 500
povoados e em todas as grandes cidades, entre elas Tiberíades,
Safed, Nasaré, Shafa Amr, Acre, Haifa, Yaffa, Lidda, Ramle,
Jerusalém, Majdal (Ashquelon), Isdud (Ashdod) e Beersheba. Em
menos de seis meses sobraram apenas 138 mil pessoas. A grande
maioria dos palestinos haviam sido assassinados, expulsos pela
força ou fugido aterrorizados diante dos bandos assassinos das
unidades do exército israelense. Em discurso pronunciado para
uma platéia de estudantes do Instituto de Tecnologia de Israel,
Moshe Dayan, herói da “guerra dos seis dias”, não se
preocupou em esconder o fato de que Israel fora fundada sobre
uma tenebrosa falsificação histórica: “Viemos aqui, a um país
que estava povoado por árabes, e estamos construindo aqui um
estado hebreu, judeu. No lugar dos povoados árabes levantamos
povoados judeus. Vocês nem sequer sabem os nomes desses
povoados, e não os reprovo por isso, porque esses livros de
geografia já não existem. Nem os livros, nem os povos existem
mais. Nahalal surgiu no lugar ocupado antes por Mahalul, Gevat
no lugar de Jibta, Sarid no lugar de Hanifas e Kafr Yehoushu’a
no lugar de Tel Shamam. Não há um só assentamento que não
tenha sido construído no lugar que um antigo povoado árabe”.24 Com isso, grandes extensões de
terra foram confiscadas ao amparo da Lei de Propriedades de
Ausentes, ditada em 1950 em Israel. Até 1947, os judeus possuíam
6% da terra da Palestina. Quando surge formalmente o Estado de
Israel, o Fundo Nacional Judeu calcula que tenha se apoderado de
90% da terra. O valor das propriedades roubadas aos árabes era
superior a 300 milhões de dólares, em cálculos da época. Se
multiplicamos essa cifra pelo valor atual do dólar, cai a máscara:
Israel tem pouco a ver com Jeová ou a terra santa, e muito a
ver com a pirataria e a pilhagem. A ocupação das propriedades
palestinas era indispensável para que o Estado de Israel fosse
viável. Entre 1948 e 1953 foram criados 370 povoados e
assentamentos judeus, sendo 350 deles em propriedades de
“ausentes”. Em 1954, calculava-se que 35% dos judeus de
Israel viviam em propriedades confiscadas de “ausentes” e
250 mil novos imigrantes se haviam estabelecido em áreas
urbanas das quais os palestinos haviam sido expulsos. Dez mil empresas e comércios
foram entregues a colonos judeus. Se na zona urbana, o saque foi
generalizado, no campo a usurpação corria solta. Todas as
plantações de limão dos palestinos foram confiscadas; cobriam
mais de 240 mil dunums (correspondentes a 21.200 hectares). Até
1951, um milhão de caixas de limões colhidos de propriedades
arrebatadas dos árabes – o que correspondia a 10% de todas as
divisas de exportação – estavam em mãos israelenses. Nesse
mesmo ano, 95% das plantações de oliveiras de Israel eram
feitas em terra palestina ocupada. As azeitonas que produziam
representavam o terceiro produto mais exportado por Israel,
depois dos limões e dos diamantes. Um terço da produção de
pedra provinha de 52 pedreiras palestinas usurpadas. As terras
confiscadas dos árabes iam parar num Fundo Nacional Judeu,
criado em 1954 pelo governo israelense. Como lembra Schoenman, a
mitologia sionista pretende passar a idéia de que o espírito
de sacrifício, de abnegação no trabalho e de perícia dos
judeus transformaram a terra desértica, descuidada por seus
anteriores guardiães árabes – nômades e primitivos –
fazendo florescer o deserto. As plantações palestinas, a indústria,
a madeira, as fábricas, casas e fazendas foram espoliadas e
saqueadas depois de uma conquista sangrenta: “o barco do
estado é um barco pirata, a bandeira que carrega é a caveira
com dois ossos cruzados.”25 Racismo contra o trabalhador
árabe Mas Israel não é só isso. A
sua é uma história que começou com uma grande espoliação e
isso obrigou o país a continuá-la, mais e mais. O barco da
espoliação nunca encontrou um porto seguro. Essa viagem
macabra continuou em frente, espoliando também o mercado de
trabalho dos árabes, tanto no campo quanto nas cidades. Esse
processo de judaização do trabalho se assentou em uma
ideologia racista contra o trabalhador árabe. No campo, qualquer relação do
homem com a terra era regida por uma lei racista: “O arrendatário
deve ser judeu e tem de aceitar realizar todas as atividades
relacionadas com o cultivo da terra somente com mão-de-obra
judia”. 26 Portanto, a terra não pode ser
arrendada por um não-judeu, nem subarrendada, vendida,
hipotecada, dada ou cedida a um não-judeu. Os não-judeus não
podem ser empregados na terra e nem em qualquer trabalho
relacionado com o cultivo. Em Israel, as terras estatais,
que estão nas mãos do Fundo Nacional Judeu, são consideradas
“terra nacional”, o que significa terra judia. A contratação
de trabalhadores não-judeus é ilegal. Devido a escassez de
operários agrícolas judeus, e dado que os palestinos ganham um
salário menor que os trabalhadores judeus, alguns agricultores
judeus (como Ariel Sharon) contratam mão-de-obra árabe,
violando explicitamente a lei. Schoenman ressalta que Israel
emprega todas as expressões normais em um sentido racista. O
“povo” significa somente os judeus. Um “imigrante” ou um
“colono” só pode ser um judeu. Um assentamento significa um
assentamento só para judeus. A terra nacional significa terra
judia, não terra israelense.27 Dessa maneira, a lei
e os direitos, as garantias e o direito ao trabalho ou à
propriedade correspondem somente aos judeus. A cidadania ou
nacionalidade israelense corresponde estritamente aos judeus em
todas as aplicações específicas de seu significa e jurisdição.
Como a definição de judeu se baseia inteiramente num preceito
religioso ortodoxo, gerações de ascendência materna judia é
o pré-requisito para gozar do direito de propriedade, de
emprego e de proteção legal. Atualmente, 93% da terra do
chamado Estado de Israel é administrada pelo Fundo Nacional
Judeu, sendo que para ter o direito a viver na terra, arrendá-la
ou trabalhar nela, a pessoa tem de demonstrar que tem pelo menos
três gerações de ascendência materna judia. O sionismo, o fascismo e os
judeus Se é importante que a história
oficial comece a reconhecer que a Palestina não era uma terra
sem povo, é preciso também esclarecer outro aspecto tão sórdido
quanto esse que envolve a criação do Estado de Israel.
Trata-se da relação do sionismo com os próprios judeus e com
o nazi-fascismo. O caráter racista do movimento
sionista tem sua face mais abominável na relação que sempre
manteve com os próprios judeus. Ralph Schoenman lembra que
“os fundadores do sionismo estavam desesperados por combater o
anti-semitismo e, paradoxalmente, consideravam os próprios
anti-semitas como aliados, porque compartiam o desejo de
arrancar os judeus dos países em que viviam. Passo a passo,
assimilaram os valores do ódio aos judeus e o anti-semitismo,
chegando, o movimento sionista, a olhar os próprios
anti-semitas como seus mais fiéis padrinhos e protetores”.28
Ele cita inclusive uma carta que Theodor Herzl enviou ao Conde
Von Plehve, autor dos piores pogroms na Rússia – os pogroms
de Kishinev – com a seguinte proposta: “Ajude-me a conseguir
o quanto antes a terra (Palestina) e a revolta (contra a dominação
zarista) acabará. Von Plehve concordou e começou a financiar o
movimento sionista Trata-se, na verdade, de um
pedido de colaboração entre a burguesia sionista e as classes
dominantes de outros países para combater os judeus de
esquerda, que se incorporavam aos partidos revolucionários.
Nesse sentido, o sionismo, em sua colaboração com o fascismo,
cumpriu um papel sórdido, pois jogava com os sentimentos
religiosos dos judeus para massacrar os que fossem de esquerda.
O movimento juvenil sionista Betar serviu de bucha de canhão
para Mussolini formando esquadrões com camisas negras. Quando
Menajem Beguin se tornou chefe do Betar, trocou suas camisas
negras pelas beges, como usavam os bandos de Hitler; era o
uniforme que Beguin e os membros do Betar usavam em todas as
assembléias e concentrações. A estratégia do sionismo foi
recrutar os europeus que odiavam os judeus e alinhar-se com os
movimentos e regimes mais perversos, para que apoiassem a criação
de uma colônia sionista na Palestina. E essa estratégia
incluiu o nazismo. A Federação Sionista da Alemanha enviou um
memorando de apoio ao Partido Nazista em 21 de junho de 1933.
Dizia: “... um renascimento da vida nacional como o que ocorre
na vida alemã... deve ocorrer também no grupo nacional judeu.
Sobre as base de um novo estado (nazi) que estabeleceu o princípio
da raça, desejamos enquadrar nossa comunidade na estrutura de
conjunto de maneira que também para nós, na esfera a nós
designada, possa desenvolver uma atividade frutífera pela Pátria...”.29 Longe de repudiar essa política,
o Congresso da Organização Sionista Mundial, de 1933, derrotou
por 240 votos contra 43 uma resolução que chamava a atuar
contra Hitler. Durante esse mesmo congresso, Hitler anunciou um
acordo comercial com o Banco Anglopalestino da Organização
Sionista Mundial (OSM), que significava o rompimento do boicote
judeu ao regime nazista em um momento em que a economia alemã
era extremamente crítica. A OSM rompeu o boicote judeu e se
tornou a principal distribuidora de produtos nazis em todo o
Oriente Médio e Norte da Europa. Fundaram na Palestina o
Ha’avara, banco destinado a receber dinheiro da burguesia
judia-alemã, com o qual se adquiriu grande quantidade de
produtos nazis. Traindo a Resistência Um dos reflexos mais sórdidos
dessa política foi a ação do sionismo em relação à resistência
judaica contra os massacres de judeus na Europa. Em julho de
1944, o dirigente judeu eslovaco, rabino Dov Michael
Weissmandel, escreveu aos funcionários sionistas encarregados
das “organizações de resgate”, propondo uma série de
medidas para salvar os judeus de Auschwitz. Ofereceu mapas
exatos das ferrovias e planejou o bombardeio das linhas que
levavam aos crematórios. Pediu que bombardeassem os fornos de
Auschwitz, que lançassem de pára-quedas munição para 80 mil
presos e bombas para explodir o campo e pôr fim à cremação
de 13 mil judeus por dia. Caso os aliados se recusassem a
colaborar, Weissmandel propunha que os sionistas, que dispunham
de fundos e organização, comprassem aviões, recrutassem
voluntários e fizessem a operação. Weissmandel não era o único a
pedir isso. No final dos anos 40 e durante os anos 40,
porta-vozes judeus da Europa pediram socorro, campanhas públicas,
resistência organizada, manifestações para obrigar os
governos aliados a colaborar. Mas sempre se deparavam com o silêncio
sionista ou mesmo com sua sabotagem ativa. O rabino Weissmandel, em julho
de 1944, um ano antes de terminar a guerra, enviou aos sionistas
uma carta de protesto, publicada em parte em História Oculta do
Sionismo, de Schoenman: “Por que não fizeram nada até agora?
Quem é o culpado por esta terrível negligência? Não são vocês
os culpados, irmãos judeus, que têm a maior sorte do mundo, a
liberdade? Enviamos a vocês esta mensagem especial: informamos
que ontem os alemães iniciaram a deportação de judeus da
Hungria. Os que foram para Auschwitz serão mortos com gás
cianido. Essa é a ordem do dia de Auschwitz desde ontem: A cada
dia serão asfixiados doze mil judeus – homens, mulheres e
crianças, anciãos, crianças de peito, doentes ou não. E vocês, nossos irmãos aí na
Palestina, e de todos os países livres, e vocês, ministros de
todos os reinos, por que mantêm silêncio diante desse grande
assassinato? Silenciam enquanto assassinam milhares, já são
seis milhões de judeus? Silenciam agora, quando dezenas de
milhares estão sendo assassinados ou esperam na fila da morte?
Seus corações destroçados pedem socorro, choram por vossa
crueldade. São brutais, vocês também são
assassinos, pelo sangue frio do silêncio com que olham, porque
estão sentados com os braços cruzados sem fazer nada, apesar
de que nesse mesmo instante poderiam deter ou postergar o
assassinato de judeus. Vocês, nossos irmãos, filhos
de Israel, estão loucos? Não sabem o inferno que nos rodeia?
Para quem guardam seu dinheiro? Assassinos! Loucos! Quem faz
caridade aqui, vocês, que soltam uns centavos daí, de suas
casas seguras, ou nós, que entregamos nosso sangue neste
inferno?” Nenhum dirigente sionista
apoiou esta petição, nem os governos ocidentais bombardearam
um único campo de concentração. A colaboração entre o
sionismo e o fascismo fez com que o primeiro traísse a resistência
e voltasse as costas para o operativo que resultou na morte de
pelo menos 6 milhões de judeus. Hoje, quando se lembra mais um
aniversário do holocausto, é preciso dizer com toda clareza
que o sionismo não lutou de fato para impedi-lo. E, mesmo
assim, o utiliza como álibi para massacrar os palestinos. Algo
tão indignante que a jornalista israelense Amira Hass, do
jornal Haaretz, chegou a exortar os sobreviventes do Holocausto
e seus descendentes a não interpretarem o assassinato de seu
povo e o de suas famílias na Europa como um eterno aval para
suprimir e expropriar o povo palestino e para apresentá-lo como
o inimigo que substituiu os alemães 30. De fato. Está na hora de
Israel deixar de usar o holocausto como justificativa para
oprimir e perseguir os palestinos, fazendo com eles o mesmo que
os alemães fizeram com os judeus. |
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