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As Classes
Sociais e a Luta de Classes
Todos
sabemos, pela própria experiência cotidiana, que nossa sociedade está
repleta de contradições; que quando uns vivem muito bem, desfrutando
de todo luxo e mordomias, os outros não têm sequer a alimentação
básica diária; e que esta divisão econômica e social acaba por
afetar todos os ramos da vida: a justiça, o lazer, o acesso à cultura,
etc. Muito embora os patrões e o governo, com auxílio de seus
ideólogos, de sua propaganda e da Igreja, tentem nos fazer crer que
"somos todos iguais" e "temos todos os mesmos
direitos", a simples observação da vida em torno de nós revela
que isto não passa de uma farsa. A sociedade não está composta por
"irmãos" com "direitos iguais", mas sim por grupos
de homens com diferentes aspirações, grupos que travam entre si
constantes combates em defesa de seus interesses específicos: são as
classes sociais.
Segundo Lênin, chamamos "classes sociais aos
grupos de homens que se diferenciam entre si pelo lugar que ocupam num
sistema historicamente definido de produção social, pela sua relação
(a maior parte das vezes fixada e consagrada pelas leis) com os meios de
produção, pelo seu papel na organização social do trabalho e,
portanto, pelos modos de obtenção pela importância da parte das
riquezas sociais de que dispõem" (Escritos, t. 29, p. 425). Assim,
as diferentes aspirações dessas classes nascem dos diferentes lugares
que elas ocupam no processo produtivo, na produção e distribuição
dos bens materiais. É a propriedade privada dos meios de produção (as
máquinas, as terras, as fábricas, etc.) e dos meios de troca (os
bancos, as companhias financeiras, o comércio, etc.) que constitui a
base econômica (e portanto material) dessa divisão de nossa sociedade
em classes. É desta fonte que decorre o fato de certas classes serem
dominantes e outras dominadas, umas exploradoras e outras exploradas.
Todas as demais diferenças entre as classes se originam de uma primeira
diferenciação fundamental: a situação de cada uma delas em relação
aos meios de produção e de troca.
Em todas as sociedades organizadas a partir de
relações de exploração apresentam-se dois grupos sociais
antagônicos ou classes fundamentais: escravos e amos, servos e senhores
feudais, operários e patrões. No modo de produção capitalista sob o
qual vivemos, as classes antagônicas ou principais são a burguesia e a
classe operária (ou classe proletária). A burguesia é a proprietária
dos meios de produção e de troca, enquanto a classe operária somente
possui sua energia para trabalhar, sua força de trabalho, a qual é
obrigada a vender aos patrões em troca de salário.
Mas entre a burguesia e a classe operária não há um vácuo. Como as
sociedades de classes que a antecederam, na sociedade burguesa também
existem outras classes ou frações de classes, que se movem entre as
duas classes fundamentais, oscilando entre uma e outra.
Entre a burguesia e a classe operária há uma
pequena-burguesia ou "classe média", um setor muito numeroso
que abrange desde o dono de uma pequena oficina, de um armazém, o
camponês, o pequeno produtor, até setores super-explorados... Ao
contrário da burguesia e da classe operária que têm papéis diretos e
iguais na produção social, dentro da pequena-burguesia se misturam
múltiplos papéis; não é, portanto, uma classe política e
socialmente homogênea. Enquanto constituída por proprietários
privados a pequena-burguesia aproxima-se da burguesia, e enquanto
representantes de camadas sociais que vivem de seu trabalho e são
explorados pela grande burguesia, liga-se aos operários. É esta
situação ambígua que explica a posição hesitante da
pequena-burguesia na luta de classes.
Na luta pelo fim da exploração capitalista, a classe
operária -sob a direção do partido revolucionário dos trabalhadores
(marxista-revolucionário) - luta para ganhar a hegemonia política
sobre os mais amplos setores das massas exploradas - não apenas
operárias, mas também a pequena-burguesia urbana e rural, que compõem
a maioria absoluta da população do país -, ganhando-as para as
tarefas revolucionárias.
A luta da esmagadora maioria da humanidade contra os
seus opressores começou desde o aparecimento das classes, com o advento
do escravismo. A resistência dos trabalhadores à opressão e à
exploração representa a grande força motriz da história. A história
da sociedade capitalista é a história de uma luta encarniçada entre
proletários e burgueses. A implacável exploração dos países
coloniais e dependentes pelos imperialistas pôs em movimento uma
poderosa vaga de lutas anti-imperialistas e de libertação nacional.
A luta de classes, ou seja, o confronto (aberto ou
dissimulado) que se produz entre as classes antagônicas (em favor de
seus interesses enquanto classe), se revestiu de diferentes formas e
atingiu graus diferentes no desenvolvimento histórico da sociedade. O
marxismo parte do princípio de que não se pode sequer descrever a vida
social e suas mudanças através da história sem levar em conta as
contradições antagônicas entre explorados e exploradores, já que
"a história de todas as sociedades até nossos dias não foi
senão a história da luta de classes". (Marx e Engels,
"Manifesto Comunista"). Esta tese, formulada pelos fundadores
do socialismo científico em 1848, constitui a base da concepção
materialista da história.
A luta de classes provém de uma forma de produção
(a produção baseada na exploração do homem pelo homem) que divide a
sociedade em grupos opostos, antagônicos; e destes, um realiza o
processo concreto de produção (o escravo, o servo, o operário
assalariado), enquanto o outro (o proprietário de escravos, o senhor
feudal, o patrão capitalista) usufrui de uma parte do produto sem Ter
de trabalhar para produzir.
A luta econômica, a luta ideológica e a luta política
são formas assumidas pela luta de classes, que, embora com o mesmo
sentido, apresentam-na de maneiras distintas. A luta econômica é o
confronto que se produz entre as classes antagônicas no nível da
estrutura econômica da sociedade, ou como define Lênin "é a luta
coletiva dos operários contra os patrões a fim de conseguir
condições vantajosas de venda de sua força de trabalho, melhorar as
condições de vida e de trabalho dos operários" (Que Fazer?). A
luta ideológica é travada entre a ideologia burguesa e todas as suas
manifestações, e a ideologia proletária, cientificamente elaborada,
baseada na teoria marxista. A luta política é o ataque frontal que se
produz entre as classes em sua luta pelo poder político, isto é, em
luta por apoderar-se do Estado. Estas diferentes formas de conflito não
existem, todavia, separados uns dos outros, mas fundidos em uma unidade
que constitui a luta de classes propriamente dita, cujo aspecto
culminante é a revolução social.
(Iniciação
ao Marxismo - Cadernos do Marxismo Revolucionário, escrito por Francisco
Cavalcante)
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