Juntos fazemos a diferença

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Entrevistamos Fedo Bacourt, coordenador da União Social dos Imigrantes Haitiano (USIH), entidade filiada à CSP-Conlutas, que nos falou sobre a dura vida dos imigrantes em nosso país, o racismo e a xenofobia, a ocupação iniciada pelos governos petistas, o porquê, agora, muitos haitianos estão deixando o Brasil e a necessidade dos imigrantes de se organizarem

Quais foram os motivos para você imigrar para o Brasil?
Fedo – Cheguei ao Brasil há três anos, com a esperança de melhorar minha vida. Pensava em atuar como professor de Línguas e de História, como no Haiti, mas a única oportunidade que se abriu, como para muitos homens haitianos, foi na construção civil, como ajudante e, depois, apontador. Isso dói no coração. Além de não atuar na minha área, estou desempregado há quatro meses e até hoje não recebi meus direitos trabalhistas.

Por que você acha que os haitianos não conseguem emprego de acordo com as suas qualificações?
Quando chegamos aqui, não estávamos nessa crise que fechou muitas empresas, atingindo muitos brasileiros. No nosso caso, além de sermos estrangeiros, também somos negros. E sofremos muito com isto. O Haiti é um país negro e não convivíamos com o racismo que vemos aqui cotidianamente. Por tudo isso, muitos de nós estão deixando o Brasil.

Quais s„o os destinos dos haitianos que estão saindo do Brasil?
O principal destino é os Estados Unidos. Muitos retornam pro Haiti, outros vão para o Chile, Guiana Francesa ou República Dominicana. Na Guiana, há problemas em relação à documentação, porém é um país de negros e não enfrentamos o racismo que sofremos aqui. Já na Repúblicana Dominicana, mesmo havendo racismo, é possível trabalhar no turismo.

E para as mulheres haitianas, quais são os principais desafios?
No começo, o acesso à saúde era o principal problema, mas agora o desafio é conseguir emprego. Elas geralmente não falam português e acabam sendo usadas pela maioria das empresas. Trabalham ser carteira assinada e são demitidas sem receber direitos. Muitas só conseguem trabalhar nos setores de limpeza ou como ajudantes de cozinha.

O que você acha da Minustah (Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti) e da ocupação de seu país por tropas lideradas pelo Brasil desde 2004?
A Minustah é liderada pelo Brasil, mas são os Estados Unidos que realmente chefiam e tiram proveito dessa intervenção militar. É como se o governo brasileiro fosse uma marionete nas mãos dos Estados Unidos. Eles dizem que estão lá pra estabelecer a paz e dar segurança ao povo, mas ninguém viu nada disto até agora! Militares armados são pessoas preparadas para a guerra. Eles atuam para oprimir o povo, estupram nossos jovens e roubam os poucos bens do povo. Na verdade, são forças armadas para a proteção dos bens dos Estados Unidos, dos países imperialistas e de gente como Bill Clinton, George Bush e Bill Gates, que têm terras e empresas no país.

Qual a relação do drama dos haitianos, a ocupação militar e a Revolução de 1804, a primeira revolução negra triunfante do mundo?
Desde a libertação de 1804, o Haiti paga um alto preço pela sua ousadia revolucionária e pelo fato de também termos ajudado na libertação de outros países, como a Venezuela. As grandes potências não querem que o Haiti cresça. Hoje, o Haiti é dos países em piores condições na América Latina, para não dizer do mundo inteiro. Para que sejamos livres é necessário colocar os opressores pra fora do Haiti para que nós mesmos possamos decidir sobre nossos destinos. Como diz a bandeira haitiana, é preciso que o povo se una para ser livre.

Qual a sua mensagem para todos os imigrantes haitianos?
A nossa luta é bem grande, especialmente por não estarmos no nosso país e, hoje, sermos negros imigrantes. Mas não vamos desistir, pois somos seres humanos e temos que ter direitos iguais na educação, na saúde, no trabalho etc., independente do lugar e do país em que estejamos. Como também dizemos no Haiti. Juntos fazemos a diferença: ensemble, nous faisons la différence!

Ajude a USIH e os Imigrantes haitianos!
Hoje, a União Social dos Imigrantes Haitianos (USIH) conseguiu uma sede no centro de São Paulo, mas, em contrapartida, precisa reformá-la até o fim do ano. Caso contrário, poderão perdê-la e ainda arcar com custos. Eles precisam, no mínimo, de R$ 30 mil. Contribua com a campanha através da Vakinha.

 

Por João Pedro Mendonça, da Secretaria de Negros e Negras do PSTU-SP