Incêndio na área portuária de Santos não é uma fatalidade

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Incêndio atinge tanques do terminal da Ultracargo em Santos

A causa do incêndio embora nem a empresa ULTRACAGO, nem a Prefeitura de Santos admitam, trata-se de descaso e falta de investimentos em Segurança do Trabalho e Manutenção Industrial

Uma grande tragédia ambiental está ocorrendo em Alemoa – Porto de Santos, apesar da CETESB e Prefeitura de Santos até agora não confirmarem oficialmente. São quatro dias de incêndio nos tanques da empresa ULTRACARGO. Seis tanques foram atingidos, sendo que dois continuam em chamas.

O sexto tanque atingido, continha seis milhões de litros de combustível (gasolina). O fogo no tanque só acaba quando o combustível acabar. Os trabalhos dos bombeiros é impedir que outros tanques sejam atingidos, inclusive porque existem produtos químicos explosivos armazenados em tanques da ULTRACARGO.

Nos primeiros dias do incêndio as autoridades municipais enviaram por mensagem de voz a seguinte informação aos telefones residenciais dos moradores: “A Prefeitura de Santos informa que o incêndio no bairro Alemoa está estável e sob controle do Corpo de Bombeiros, que conta com total apoio da Prefeitura. Cetesb segue monitorando permanentemente a qualidade do ar em toda a Cidade. Sem riscos à população”.

Entretanto, a verdade é que diversos danos ambientais já eram percebidos pela população da região da Baixada Santista, especialmente moradores dos bairros Piratininga e São Manoel, em Santos.

As pessoas estão sob tensão constante, uma trilha de fumaça preta é visível sobre o local. Se percebe muita sujeira na área externa das residências, como pontos pretos pelos quintais e calçadas. Partículas em suspensão no ar caem ininterruptamente no bairro e dão a impressão de uma garoa bem fina.

Nesta segunda feira (6), a CETESB confirmou que a qualidade do ar está ruim, principalmente para as pessoas que moram ou trabalham nas proximidades do incêndio. Isso significa que, principalmente para pessoas que tem problemas de saúde, como respiratórios ou cardíacos, ou ainda idosos e crianças, respirar esse ar pode comprometer muito a saúde. E ainda, o mau cheiro, por causa da morte dos animais no Rio Cubatão, já chega no Bairro Casqueiro, em Cubatão.

Os danos ambientais comprovados pelo órgão ambiental tratam-se da mortandade de milhares de peixes em diversos pontos de Santos, Guarujá, Cubatão e São Vicente. No Canal do Estuário boiam peixes como paratis, bagres, espadas, corvinas e manjubas, além de outros animais como cobras. A Serra do Mar também sofrerá danos como morte de espécies animais e vegetais, o órgão ambiental não dimensiona os danos.


Chuva ácida também está prevista para os próximos dias devido à elevada concentração de poluentes dispersos no ar devido a fumaça. A chuva ácida pode ocasionar problemas na pele, além da morte de espécies animais e vegetais. Agora, moradores estão recebendo avisos oficiais, por telefone e visitas as casas, sobre a possibilidade de evacuação. Munícipes relatam ter atendido a uma ligação avisando que a situação do incêndio se encontra estável e que existe um plano de emergência para a saída deles, se necessário. O Prefeito Paulo Alexandre Barbosa afirma que a cidade está totalmente preparada caso seja necessário a evacuação.

Afirmação duvidosa, já que Santos é uma ilha e as únicas saídas são pela Anchieta, Imigrantes, centro da cidade, sentido São Vicente, ou balsa. E quem é morador sabe: basta um feriado para que as vias fiquem travadas por horas por causa do trânsito. Caso a situação saia do controle e haja uma explosão de grandes proporções, o pânico e desespero das pessoas ao tentarem sair da região causará um verdadeiro caos.

A região da Baixada Santista, em especial Santos e Cubatão, concentra um enorme polo petroquímico com diversas empresas químicas de fabricação e transporte de combustíveis e outros produtos químicos altamente perigosos e letais. As pessoas nunca receberam qualquer tipo de treinamento para esse tipo de ocorrência, a não ser poucos empregados dessas empresas. Não estão disponíveis mecanismos de proteção à saúde como equipamentos como máscaras, óculos, ou estrutura de atendimento especializada com enfermagem ou hospitais de pronto atendimento em número e especialização suficientes para tragédias como essas.

Basta ver o último acidente ocorrido em Cubatão no dia 23 de janeiro na empresa Anglo american. A emissão de ácido sulfúrico na empresa afetou milhares de trabalhadores, levando 80 pessoas para atendimento médico emergencial, com danos à saúde. A área foi evacuada de forma desordenada e tardia.

No momento, o Corpo de Bombeiros atua em 41 tanques dos 58 que existem na Ultracargo. Já foi dito que houve o aquecimento de outros tanques e por isso as chamas se propagaram, embora estejam jogando água. Outros tanques apresentam fissuras, o que possibilita a entrada de oxigênio, propiciando novos incêndios.

Com essas informações podemos concluir que a causa do incêndio embora nem a empresa ULTRACAGO, nem a Prefeitura de Santos admitam, trata-se de descaso e falta de investimentos em Segurança do Trabalho e Manutenção Industrial.

Isso é bastante comum em empresas privatizadas, em que o lucro está acima da segurança e da vida. Buscando dar condições para que as empresas se tornem cada vez mais lucrativas, o governo está para aprovar no congresso a PL 4330/2004 que permite a terceirização de todas as atividades fins de uma empresa. Como no caso de empresas como a Ultracargo, a privatização e terceirização significam investir menos em salário e formação de seus empregados e a redução dos custos com material e manutenção com cortes no orçamento que seria destinado a mecanismos de controle e combate a emergências ambientais ou de acidentes.

Todas as tragédias ambientais ou grandes acidentes envolvendo segurança industrial poderiam ter sido evitados ou seus efeitos minimizados. Assim que ocorre o acidente é necessária a mobilização de maior número possível de recursos materiais e humanos para combater o acidente e controlar seus efeitos. Mas o que se vê na prática é que as autoridades subdimensionam o problema, infelizmente porque essas pessoas não são especializadas, e não levam em conta o que os profissionais da área diagnosticam. Demora muito tempo até que assumam a real dimensão do problema e autorizem os recursos necessários. Tudo isso em nome da retenção de custos e também para evitar que o nome da empresa seja “manchado”. 

Atitude comum dos capitalistas gananciosos, banqueiros e empresários, desconsiderando a saúde e a vida das pessoas, especialmente porque quem mais sofre com as consequências são os mais pobres. Para nós, do PSTU, somada à necessária luta pela primeirização da força de trabalho dessas empresas e pela estatização, a salvação para o meio ambiente está necessariamente na construção de uma outra sociedade, uma sociedade livre da ganância pelo lucro, uma sociedade socialista.