Horas de insurreição no Capão Redondo

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Na periferia o povo sofre demais
E ainda leva como animais
Fome, sede, desemprego
Violência de ambos os lado o medo
Como não bastace os problemas daqui
Agente não deve mas tem que fugir
Pra você não esqueça
Os homi cresce o olho só nos manos da periferia
Atraso o lado de quem ta correria
Que porra mano é melhor ficar ligado
Ligeiro com a lei pra não vira finado

(Ndee Naldinho)

No final de semana passado, dois jovens foram assassinados pela polícia. Um fato que passa longe de ser isolado. Segundo o Levantamento do Núcleo de Estudos da Violência da USP de 2014, o Capão Redondo ocupava o 17º lugar na lista de distritos onde ser preto e pobre é sinônimo de ser alvo da polícia. Mas dessa vez isso não ficaria impune. Cansados de terem que enterrar seus filhos e irmãos, e ainda terem que ver a polícia os tratando como “bandidos” nos jornais sensacionalistas, como se isso justificasse tirar a vida de jovens, trabalhadores do Vaz de Lima organizaram um ato de denúncia à violência policial na última segunda-feira, dia 11. O ato ocorreu quase que simultaneamente em outros pontos da Zona Sul.

A Polícia Militar, na tentativa de impedir o ato pacífico, atirou arbitrariamente bombas de efeito moral e gás de pimenta na população com o objetivo de dissolver a manifestação que criticava a ação truculenta da polícia nas periferias. Os trabalhadores, cansados de terem suas vidas recheadas de truculência policial, reagiram coletivamente aos ataques da polícia com apenas o que tinham em mãos. Incendiaram uma caçamba para que, enquanto a polícia tentasse ir apagá-la, o restante dos manifestantes pudesse escapar de da Tropa de Choque, que age nas periferias como verdadeiros cães de guarda raivosos dos interesses dos ricos.

Em poucos minutos, as ruas de alguns bairros próximos foram tomadas rapidamente contra a truculência da polícia. Alguns ônibus foram incendiados como forma de chamar a atenção da população de que muitos poderiam nem voltar sãos e salvos para suas casas. Dito e feito. Muitas escolas da região receberam o comunicado “informal” da PM para liberarem os estudantes mais cedo, pois segundo eles, haveria toque de recolher. O sentimento de terror atingiu estudantes e trabalhadores que tiveram que ir para suas casas mais cedo correndo, pois sabiam que a partir das 22 horas qualquer um poderia se tornar alvo fácil para uma horda de trogloditas fardados.

Os toques de recolher na periferia ocorrem quase que freqüentemente sem aviso prévio, pois basta um grupo de policiais decidir exterminar um grupo de jovens que não haverá qualquer questionamento no dia seguinte nos jornais. E se houver, o velho jargão de “morreu em um conflito entre policiais e bandidos” é rapidamente comprado pela grande imprensa. Só “esquecem” de dizer que para haver conflito, ambas as partes têm que estar com armas equivalentes, mas o que ocorre na verdade são verdadeiras chacinas já que as vítimas, para a polícia, tem como única arma a cor da pele que as caracteriza como suspeito padrão.

Em São Paulo, com a unidade PT-PSDB, a PM tem autorização para matar
O Brasil, segundo dados da Anistia Internacional, é o país onde mais se mata no mundo em comparação a países em guerras civis, tendo como principais alvos jovens entre 15 a 29 anos, sendo que destes 77% são negros. O quadro piora quando observamos dados da UFSCAR sobre a Violência Policial nas periferias. Destas vítimas, 61% das mortes são causadas pela polícia, 79% envolvidos são brancos e 96% incorporam a Polícia Militar. O que presenciamos é uma verdadeira chacina a céu aberto onde os assassinos, em sua maioria, usam fardas e são protegidos pelo Estado.

A ação da polícia do governador que roubou verba da merenda em São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), não causa mais surpresa a ninguém. Essa mesma instituição acumula em seu histórico inúmeros crimes contra a população pobre e negra que faria qualquer tirano em uma ditadura sentir inveja. Basta lembrar que a mesma estrutura da Polícia Militar de hoje, é a de 1992 quando a sangue frio matou 111 presos no Carandiru (sob o governo do assassino Fleury); ou até mesmo a que invadiu em 2012 a ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos, ainda pela madrugada, violando todos os direitos humanos da população pobre que, diante da ausência de programas de fato que resolvam o problema da moradia, são obrigados a ocuparem terrenos abandonados para terem um teto para seus familiares.

E agora, para piorar, conta com um importante aliado: o Governo Federal do PT, que aprovou a Lei Antiterrorismo, que na prática legitimará as ações da polícia em defesa de uma suposta “garantia à ordem e ao bem estar da população”, colocando quem se manifestar na prisão de 12 a 30 anos. Um duro ataque na medida em que se aprofunda a crise econômica e os trabalhadores não verão outro meio para lutar contra a miséria que não se mobilizar. Covardia, esse é o nome que no mínimo caberia na definição dessa Lei.

Com isso, não podemos ter dúvida alguma de que tanto PT, representado por Dilma e Lula, tanto PSDB, representado por Aécio e Alckmin, continuarão com sua aliança para exterminar qualquer início de insurreição popular para garantir os interesses dos de cima, que são os ricos, empresários, banqueiros e latifundiários.

Construir um pólo de luta independente dos patrões e governos de plantão
Os trabalhadores e a juventude estão cansados de tudo isso. Diferente do que alguns setores da esquerda defendem, como o PSOL, a classe trabalhadora não tem nenhuma confiança nos governantes de plantão, e por isso não se comovem com as “lágrimas de crocodilo” do PT, que depois de tantos anos de traição (a lista é grande), vem agora com o conto do vigário dizer que haverá um golpe. Segundo o Data Popular, o impeachment é visto pela classe mais explorada e oprimida como uma briga entre “os ricos”, onde o seu resultado se limitará a quem assinará o ajuste fiscal em defesa dos empresários e banqueiros.

A única saída para a classe trabalhadora é construir um terceiro campo, independente dos patrões e governantes de plantão. Para isso, chamamos “Fora Todos Eles!”, pois acreditamos que não é só a Dilma que tem que cair. Junto com o PT que traiu os trabalhadores, tem que ir junto o PMDB dos corruptos Cunha, Calheiros e Temer, e também o PSDB de Aécio e do ladrão de merenda Alckmin. É necessário que todos que estão aí, caiam. Para que isso ocorra, é necessário construirmos uma Greve Geral, que pare toda a produção e coloque os patrões e políticos corruptos contra a parede. E por isso convocamos “Eleições Gerais, já!”, em todas as esferas políticas (deputados, senadores, governadores e presidência), com um sistema eleitoral onde os corruptos envolvidos na Lava Jato não participem.

A construção desse terceiro campo seria baseado em conselhos populares, onde nos organizaríamos democraticamente em comissões de locais de trabalho e moradia para decidirmos os rumos do país. Principalmente o modelo de segurança pública que queremos, que não passa nem perto do que temos. A desmilitarização da PM, que é a mudança na estrutura interna da instituição a tornando mais democrática, é o primeiro passo para colocarmos fim a essa força armada antidemocrática e racista. Se os ricos podem escolher quem fará sua segurança, por que nós não podemos? E ela seria eleita nos bairros, com mandatos revogáveis, tendo como objetivo a defesa de nossos interesses de classe.

Venha junto com a gente construir um pólo de lutas nos bairros, com “Comissões pelo Fora Todos Eles!”, organizados nos locais de trabalho e moradia. Um pólo que expulse os senhores da Casa Grande (que são representados pelos grandes empresários) e seus capatazes (PT, PSDB, PP, PMDB, DEM). Para isso, necessitamos de uma insurreição popular que nos dirija rumo à uma Greve Geral!