Haitiano fala sobre protestos e atual situação do seu país

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Didier Dominique

Blog do PSTU Vale entrevista Didier Dominique, dirigente da organização haitiana Batay Ouvriye, que fala sobre os recentes protestos no seu país

Há pouco meses de completar dez anos de presença no Haiti, o governo Dilma envia, no próximo dia 18 de novembro, mais um contingente de soldados ao país mais pobre das Américas. Da região do Vale do Paraíba, 168 soldados de Caçapava e Lorena integrarão o novo grupo de 1.200 militares que deverão ficar no país por sete meses.

A missão foi criada em abril de 2004 com a alegação oficial de “restaurar a ordem” após a deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide. Contudo, o mandato inicial de seis meses foi sendo seguidamente renovado, mesmo após a realização de duas eleições presidenciais, sob a justificativa de fortalecer as instituições democráticas, garantir a segurança da população e ajudar na reconstrução do país após o terremoto em 2010.

Contudo, não foi o que ocorreu. O Haiti continua sendo um dos países mais pobres do mundo e segue o drama de mais de 350 mil haitianos desabrigados após o terremoto que devastou o país há três anos. Milhares de pessoas continuam vivendo em acampamentos improvisados e em condições insalubres.

A epidemia de cólera, levada ao país por soldados nepaleses, atingiu mais de 680 mil pessoas e matou 8,3 mil, desde 2010. Por conta disso, uma ação exige da ONU uma indenização bilionária. Isso sem contar as várias denúncias contra a Minustah (Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti) por estupro, prostituição e violação dos direitos humanos.

O Brasil segue no comando da Minustah desde o seu início e os gastos do governo brasileiro ultrapassaram os R$ 3 bilhões entre 2004 e 2012. Somente com adicionais salariais, o governo gastou R$ 689 milhões.

Protestos agitam o país
Nas últimas semanas, protestos tomaram as ruas de Porto Princípe e Cap-Haitien contra a fome e o desemprego e para exigir a demissão do presidente Michel Martelly.
O blog PSTU Vale entrevistou Didier Dominique, dirigente da organização haitiana Batay Ouvriye, sobre a atual situação no país.

PSTU Vale – Qual o motivo dos protestos ocorridos nas últimas semanas no Haiti?
Didier Dominique – Os recentes protestos são por várias razões. Podemos resumir em três: contra o alto custo de vida, o salário mínimo insuficiente e a falta de respostas concretas do governo sobre a falta de emprego, saúde (a cólera voltou a atacar fortemente), educação, transporte, mas especialmente de habitação, já que nada foi resolvido em relação aos acampamentos após o terremoto.

Um segundo motivo, mais político (e menos numeroso), atacou o governo por sua má gestão “democrática”. Gritam contra a ditadura (duvalierista que retorna). Aliás, existem vários desvios no governo (prisão de parlamentares com imunidade, morte de um juiz responsável por uma denúncia contra a família presidencial, falta de publicação de leis votadas no Parlamento, altos gastos da presidência, amigos e próximos do presidente que fazem extravagâncias de todos os tipos, drogas e contrabando etc). Estas manifestações pedem um ajuste na política do governo.
O último, por parte do partido Lavalas, acusam o mesmo, mas claramente denunciam Martelly e seu substituto por um caminho democrático.

PSTU Vale – Como está a situação dos refugiados após o terremoto de 2010?
Didier Dominique – A situação dos refugiados é muito ruim. A burguesia e o Estado não só queimaram os grandes acampamentos (durante a noite e sem aviso prévio) para recuperar suas terras, como têm enviado os refugiados para locais sem água, transporte, escola próxima, hospital e muito menos eletricidade. Tudo isso é expressão do desenvolvimento urbano imperialista que pretende construir suas futuras zonas francas. O problema do uso do solo urbano é explosivo no momento. Há muita resistência, de nossa parte e de outros, mas a repressão é inimaginável no sentido de que nada pode acontecer sem qualquer recurso legal.

PSTU Vale – Que papel segue cumprindo as tropas da ONU?
Didier Dominique – As tropas da ONU desempenham o mesmo papel que sempre desempenharam, mas de forma mais oculta. A polícia nacional já está praticamente formada e aparece muito. Porém, a verdadeira salvaguarda do governo e da burguesia ainda é a Minustah. Recentemente, Martelly disse: “apesar de tudo não tenho problemas: a Minustah está comigo”. Porém, já se fala que o governo uruguaio condiciona sua presença ao resultado das eleições de janeiro de 2014. Temos de ver o que isso pode significar. Cobrar do governo brasileiro, algo do tipo e dizer que caso contrário, vocês também estão apoiando governos ditatoriais etc. Pode ser que se abra uma brecha.

PSTU Vale – Como estão os preparativos para o processo eleitoral de 2014?
Didier Dominique – Os preparativos para as eleições estão totalmente paralisados. É uma forte contradição que o governo, partidos políticos e as classes dominantes com o imperialismo mundial não conseguem resolver. Dois tipos de contradições atuam: um entre os diferentes interesses das classes dominantes e outra a corrupção no Estado e a necessidade de um Estado mais funcional. Até agora, por exemplo, não há nenhuma lei eleitoral, para não mencionar os detalhes técnicos do processo. Alguns partidos políticos decidiram não se reunir com o governo e cada um joga a culpa no outro, criando mais impasses. As massas assistem esse circo, percebendo que quem realmente sofre com isso é o povo. O importante é que seguem se polarizando os campos de forma mais clara.

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