Guaranis no Parque Jaraguá: “São 517 anos de resistência”

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Os índios guaranis que ocupam o Parque Estadual do Jaraguá, na capital paulista, conquistaram alguns avanços na manha de ontem (15). Graças à ocupação, representantes do estado estiveram no local nessa sexta-feira. A reportagem do Opinião Socialista esteve no local e acompanhou a negociação.

 

O clima era de apreensão na entrada do Parque Estadual do Jaraguá. Em uma das entradas, uma fogueira feita durante a noite servia de barricada no portão. Na grade, uma faixa dizia: “Bandeirantes ontem, Alckmin hoje“.

Faixas foram estendias nos portões do Parque

No outro portão, inúmeras viaturas policiais estacionadas,impedidas de entrar por um grupo de índios. Eram homens, mulheres e muitas crianças que tomavam seu café da manhã atrás de uma grande faixa estendida de um lado ao outro da rua.

Maria dos Santos, uma das lideranças indígenas, discursava para a imprensa e os policiais que estavam ali. “Se tiver que alguém morrer para defender essa terra, eu estou à disposição!“. Depois, voltou a discutir com um policial que tentava negociar a entrada. “Tem índio escondido no mato, e os meninos lá em cima não estão para brincadeira“, ameaçou ela se referindo ao grupo de índios que ocupavam a antena no alto do pico.

Jovens guaranis vigiam uma das entradas

São aproximadamente 4,5 Km de subida até o topo. Daí para à base das antenas, foi preciso um bondinho, sob o controle dos guaranis. As antenas são partilhadas pela Globo, Bandeirantes e Cultura. Elas também atendem ao serviço de telefonia e à CPTM (trens metropolitanos). No caminho, troncos na estrada dificultavam a subida de veículos.

Os guaranis ocupam o parque desde o começo da semana. Na quinta, eles subiram até as torres. “Foi tudo pacífico. A gente negociou e eles saíram. Exceto um que se escondeu de medo. Mas que foi retirado com a escolta da polícia. Está tudo filmado“, conta com muito bom humor o Cacique Awá, o mais velho e calmo entre eles.

O grupo dormiu dentro das instalações da antena, que chegou a ser desligada na quinta-feira, derrubando o sinal de TV em parte da zona norte de São Paulo.Com a ocupação da antena, o governo do estado não pode mais ignorar o movimento dos guaranis.

Guaranis ocuparam as antenas de transmissão que existem no parque.

Na manhã de sexta o Secretário Estadual de Justiça, Márcio Fernando Elias Rosa, se dirigiu ao parque para negociar. Por telefone, as lideranças que estavam no pico tentavam acalmar os que estavam no portão. Ao saberem da vinda do secretário, os guaranis reuniram os caciques e, sem permitir que a imprensa acompanhasse, debateram dentro da antena como deveria ser a negociação. Logo em seguida, subiram todos na caçamba de uma pequena caminhonete Ford Courier e desceram para receber o Secretário.

Márcio Rosa chegou acompanhado de um representante da Secretaria de Meio Ambiente, por um militar do exércio e por alguns policiais. Cantando e dançando, mas com arcos e tacapes em mãos, os guaranis cercaram a pequena delegação para que a negociação começasse.

O debate durou cerca de uma hora. David Karai Popygua, uma das lideranças, alternava entre momentos de emoção e exaltação. “São quinhentos e dezessete anos de resistência. Quem você acha que chegou aqui primeiro: o parque ou o nosso povo?“, questionava ao secretário.

Cacique Awá conversa com o Secretário Estadual de Justiça, Márcio Rosa

Do outro lado do portão, os mais jovens cantavam e rezavam. Às vezes, gritavam uns para outro algo em guarani. Às vezes, gritavam em português mesmo: “Cadê o papel?“, se referindo às decisões do governo e duvidando da palavra dos representantes do estado.

O Secretário os garantiu que o parque não será privatizado, nem terá sua gestão entregue à iniciativa privada. Também garantiu que não haveria reintegração de posse, mas pediu para que a antena fosse liberada para manutenção.

Ele também tentou amenizar, dizendo que a situação de tensão foi provocada pela falta de diálogo, tentando esquivar o governo da responsabilidade pelo não reconhecimento da terra indígena.

A saída encontrada momentaneamente foi a inclusão dos indígenas no conselho gestor do parque, para que comece, de fato, uma negociação sobre a situação dos guarani. No começo da tarde, a Secretaria de Meio Ambiente confirmou a decisão em nota.

Ao fim da negociação, os guaranis fizeram uma segunda reunião e comemoraram bastante. As lideranças se abraçaram e também outros índios. Alguns, emocionados, choravam.

A conquista é apenas um alívio momentâneo na luta dos guaranis pela demarcação das terras do Jaraguá. Mas nem por isso não merece ser comemorada. A manhã de sexta terminou com uma grande roda, com cantoria e reza em frente ao portão do Parque Jaraguá, onde os guaranis vão permanecer.

Guaranis se emocionaram após a negociação.

Entenda o caso
A Terra Indígena do Jaraguá foi reconhecida apenas em 1987. Com apenas 1,7 hectar de extensão, a terra ostenta o título de menor reserva indígena do Brasil.

Em 2015, o Ministério da Justiça baixou a portaria Nº 683, reconhecendo a ancestralidade da terra que deveria ocupar 532 hectares, embora a decisão não tenha sido homologada. Em agosto desse ano, o Ministério voltou atrás e revogou a portaria, voltando a terra aos seu 1,7 hectar. Cerca de 700 indígenas vivem nessas terras.

Desde então, atos foram convocados pelos guaranis para protestar contra o retrocesso. Em um deles, chegaram a ocupar o escritório presidencial na Avenida Paulista.