Grupo Ultra está se apropriando da Liquigás

“Reuniões foram feitas com o grande empresariado da Fiesp e empresas como Ultragaz, Ford, Volkswagen, Camargo Corrêa, bancos como Itaú e Mercantil fizeram contribuições vultosas que possibilitaram à Oban planejar e fazer suas operações. Boilesen que era o presidente da Ultragaz teria sido um contribuinte entusiasta, mas não bastaria para ele contribuir, fazia visitas ao prédio da Oban e não bastava também visitar, do ponto de vista do historiador Jacob Gorender, o industrial deixava seu sadismo aflorar e pessoalmente assistia as torturas realizadas naquele prédio. Sim, a Oban é considerada o órgão que inaugurou a tortura institucional na ditadura, inaugurou a tortura como método para obtenção de informações. (…)

O presidente da Ultragaz teria sido responsável por importar dos Estados Unidos um aparelho elétrico que foi apelidado de pianola Boilesen que era um aparelho de choque que funcionava por intermédio de um teclado que lembrava o teclado de um piano. (…)

Carlos Eugênio da Paz, informa no documentário Cidadão Boilesen que vários de seus companheiros que escapavam de cercos reparavam que haviam caminhões da Ultragaz por perto fechando ruas

O Destino de Boilesen http://sobosescombrosdaditadura.blogspot.com.br/2016/06/o-destino-de-boilesen.html

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O Conselho de Administração da Petrobrás aprovou a venda de sua subsidiária, a Liquigás, distribuidora de gás de GLP (o gás de botijão) para a Ultragaz, controlada pelo Grupo Ultrapar, em associação com o Banco Itaú, por R$ 2,8 bilhões. A operação ainda pode ser anulada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

A própria direção da Petrobrás admite que a Liquigás é uma empresa “bastante enxuta”, com boa performance e baixo nível de endividamento, com 3.200 empregados contratados. Presente em quase todo o território nacional, com 23 centros de operação, 19 depósitos, uma base de armazenagem e carregamento rodoferroviário e uma rede de 4.800 revendedores autorizados. Enfim um excelente negócio para o grupo Ultra.

Com a aquisição, o Grupo Ultra, dono dos postos Ipiranga, conquistará 45% do mercado nacional. Hoje a Ultragaz tem 23,5%. Na Bahia, a Ultragaz chegara a 60% do mercado e em São Paulo, 57%.

A venda da Liquigás faz parte do plano de desinvestimento da Petrobrás elaborado pelo governo Dilma e implementado pelo governo Temer, que tem como meta atingir 15,1 bilhões de dólares entre 2015 e 2016. Já vendeu ativos na Argentina e Peru, participações em campos do pré-sal (Carcará) e a rede de gasodutos do Sudeste.

Um dos maiores golpes contra o povo brasileiro
A aquisição da Liquigás pelo Grupo Ultra é praticamente uma doação para o maior oligopólio do Brasil. Até mesmo a Associação Brasileira dos Revendedores de GLP – ASMIRG-BR, entidade nacional dos revendedores de GLP, denuncia que este acordo leva “a concentração extremamente elevada desse mercado, no qual apenas cinco empresas[1] detêm cerca de 90% do mercado nacional de GLP”.

A venda deste que é um dos ativos mais cobiçados da Petrobrás, foi feita praticamente sem publicidade, com somente empresas ligadas ao oligopólio do setor envolvidas no processo, com o banco Itaú conduzindo a negociação, sendo o próprio Itaú sócio do Grupo Ultra. Em uma conjuntura de profunda crise política do governo e de suas instituições e, portanto, das empresas controladas por eles.

O grau de importância desta companhia está acima dos seus valores patrimoniais, pois além da ajuda e ajuste de impostos, regulamenta o preço de venda do gás de cozinha, essencial para a população.

Está sendo vendida pelo mesmo valor que foi comprada há treze anos, ignorando os investimentos e crescimentos realizados durantes este período. Este valor pode ser pago em menos de um ano, somente com a venda de botijões de 13 quilos, vendidos pela Liquigás por um faturamento bruto, anual, próximo a R$ 1,4 bilhão.

E nem se menciona o destino de quase 3.500 funcionários que, se demitidos, significará mais desemprego.

Grupo ultra e Itaú estiveram envolvidos com a ditadura
O Grupo Ultra, ao qual pertencia a Ultragaz, presidida por Boilesen, foi um dos que melhor aproveitou a entrada do país no mundo da petroquímica no final dos anos 1960 e início dos anos 1970. E essa posição privilegiada não foi casual. Hélio Beltrão, executivo e acionista do Ultra, foi ministro do Planejamento do governo do marechal Costa e Silva e da junta militar que o substituiu. (…)[2]

Segundo a revista “Isto É Dinheiro”, Beltrão, Peri Ygel (dono do Grupo Ultra), e Paulo Cunha, executivo recrutado nos anos 1960 na Petrobrás, souberam aproveitar o excelente relacionamento do Ultra com o regime militar e sobretudo com um dos seus principais líderes, o general Ernesto Geisel. À frente da Petrobrás, o futuro presidente da República desenhou o que ficou conhecido como sistema tripartite e, com ele, deu a partida no setor petroquímico brasileiro. Tratava-se de reunir uma estatal (a Petrobrás), uma companhia estrangeira, responsável pela transferência de tecnologia, e um grupo nacional, que assumiria a gestão. O Grupo Ultra encaixava-se nessa última classificação.

Segundo Boilesen Júnior, foi o pai que montou a estrutura necessária para que o Grupo Ultra entrasse no rendoso mercado petroquímico: “Quando o meu pai morreu, ele já tinha toda a petroquímica de terceira geração amarrada junto ao Grupo Ultra.”[3]

O Grupo Ultra é hoje um dos maiores grupos empresariais privados do Brasil. Com ligações com a ditadura militar brasileira, personificadas na participação de seu diretor o dinamarquês Henning Albert Boilesen, nos porões da Operação Bandeirantes e do DOI-CODI. Denunciado como auxiliar direto de torturas, justiçado por militantes das organizações que faziam a luta armada, apontado como o inventor da “Pianola Boilesen”, que media a dosagem de choques elétricos que os torturados deveriam receber.

O diretor, Peri Ygel, dono da Supergel, empresa de alimentos congelados, fornecia refeições à Oban, para os policiais e presos. Alem de verbas “extra-oficiais” para o caixa 2 de Fleury e seus torturadores.

A jornalista Cristian Klein comenta em seu artigoO empresário nos porões da ditadura”: “Anticomunista radical, Boilesen empenhou-se pessoalmente na arrecadação de fundos entre empresários para financiar a Operação Bandeirantes (Oban), criada pelos militares para eliminar a guerrilha urbana, que reagia ao endurecimento do regime, depois da decretação do AI-5. (…) Com tanto envolvimento nos porões da ditadura, o executivo ficaria marcado como o inimigo número 1 dos guerrilheiros, numa lista prioritária que incluía Pery Ygel (dono do grupo Ultra) e Sebastião Camargo (fundador da empreiteira Camargo Corrêa). Estes tiveram mais sorte. Já o dinamarquês foi fuzilado, em 15 de abril de 1971, por militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT)”.[4]

Benefícios recebidos
O austríaco Ernesto Ygel, em 1937, fundou a Empresa Brasileira de Gás a Domicílio. Começou pequena, com três caminhões de entrega e menos de 200 clientes. Mas com o apoio do governo militar e da Petrobrás já no início da década de 1960, com o nome Ultragaz, tinha 1 milhão de consumidores.

O setor petroquímico no Brasil ganhou um impulso especial com a criação da Petroquisa, empresa subsidiária da Petrobrás, no final do ano de 1967. Parte do projeto do governo militar de desenvolver o setor encorajando os empresários brasileiros a entrarem no negócio, tendo o governo como sócio e parceiro. Foram atraídos empresários de vários Grupos: Suzano, Mariani, Econômico, Camargo Correia, Odebrecht, e entre eles o Grupo Ultra, que já trabalhava com produtos petroquímicos e o Itaú.

Em 1968, a Petroquisa assumiu a Petroquímica União (PQU), com o Grupo Moreira Sales, comprado à parte da Phillips na Ultrafértil, associando-se ao Grupo Ultra. A Petroquímica União começou a operar em 1972. As ações, pertencentes à Petroquisa (67,8%) foram leiloadas em 1994, distribuídas entre os grupos: Unipar, Sociedade Anônima dos Empregados da Petroquímica (SEP), Odebrecht Química S.A. e o Banco Itaú.

A Odebrecht assumiu o controle da Companhia Petroquímica de Camaçari (CPC) em 1995. Centralizaram a produção do setor termoplástica, com a Ipiranga e a Unipar, do Grupo Ultra; e o Grupo Suzano.

A Braskem, hoje uma das maiores petroquímicas do mundo, foi formada com a incorporação das empresas Copene, OPP e Triken (Grupo Odebrecht), Proppet e Nitrocarbono (Grupo Mariani), detendo participação acionária na Politeno e Copesul, controlada pela Odebrecht e Ipiranga (ligada ao Grupo Ultra).

Em 2003, o Grupo Ultra adquiriu a operação de distribuição de GLP da Shell no Brasil, Shell Gás. Em outubro de 2011, adquiriu a distribuição de GLP da Repsol no Brasil e incorporou um volume de vendas anuais de 22 mil toneladas.

O Grupo Ultra hoje controla a distribuição de combustíveis com a Ipiranga e a Ultragaz; tem a indústria química Oxiteno; a Ultracargo, no terminal intermodal do porto de Santos e se tornou a maior empresa de armazenagem de granéis líquidos do Brasil.

Em 2007 a Braskem, Petrobrás e Ultrapar, juntaram-se na maior fusão da história brasileira, e adquiriram o Grupo Ipiranga por 4 bilhões de dólares. A Petrobrás e a Ultrapar compartilharam as operações de distribuição de combustíveis. O Grupo Ipiranga se tornou vice-líder na distribuição de combustíveis no país.

A privatização beneficiou uma série de empresas que apoiaram, sustentaram e mantiveram, a ditadura cívico militar no Brasil. Entre elas a Odebrecht, o Grupo Ultra e o Grupo Mariani.

Em novembro de 2010, o Ultra/Ipiranga adquiriu a DNP, distribuidora de combustíveis nos estados do Amazonas, Rondônia, Roraima, Piauí, Acre, Pará e Mato Grosso, o que ampliou ainda mais a expansão geográfica da Ipiranga.

Atualmente, a Ipiranga também opera em seus postos mais de mil lojas de conveniência e mais de 700 unidades Jet Oil, que oferecem serviços automotivos especializados.

A associação Odebrecht/Braskem-Grupo Ultra patrocinados e beneficiados pela Petrobrás, são o maior grupo de empresas privadas do setor de distribuição de combustíveis no Brasil.

Grupo Ultra degrada o ambiente e não paga indenizações
Foram nove dias e 190 horas de combate ao fogo no incêndio na Ultracargo, em Santos, a partir do dia 2 de abril de 2015, na armazenagem para granéis líquidos. O incêndio causou um grande impacto ambiental e econômico. Uma das principais vias de acesso, responsável por escoamento da produção agrícola e industrial do Brasil, ficou interditada com o bloqueio da margem direita do porto de Santos: “Calculando que são no mínimo cinco mil caminhões por dia, e uma base de R$ 500 por dia do caminhoneiro, vemos que o prejuízo não é pequeno. O prejuízo inicial é de R$ 2,5 milhões diários“, afirmou Marcelo Marques da Rocha, atual presidente do Sindisan.[5]

A contaminação causou a morte de milhares de peixes nos arredores e foi confirmada por análises feitas da água coletada no local. A Prefeitura de Cubatão pediu indenizações para os pescadores do município afetados pelo incêndio. Foram contabilizadas sete toneladas de peixes mortos no estuário de Santos, que compreende rios em Cubatão. Mais de 200 famílias de pescadores foram prejudicadas pelo acidente.

A Ultracargo nitidamente responsável pelo grave acidente, com o vazamento de combustível dez dias antes do incêndio que atingiu seis tanques na unidade da Alemoa, 400 mil litros de gasolina que vazaram em uma área da empresa.

A empresa, até agora, não tinha procurado as comunidades pesqueiras para tratar do assunto. Os representantes da Ultracargo não indicaram se irão prestar algum tipo de assistência aos trabalhadores do setor.

Em virtude disso o Ministério Público de São Paulo estipulou em R$ 3,6 bilhões a reparação pelos danos ambientais não recuperáveis causados pelo incêndio no terminal da Ultracargo, em 2015.

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[1] Ultragaz, Nacional Gás Butano, Copagaz e Liquigás.

[2] Boilesen, um empresário da ditadura: a questão do apoio do empresariado paulista à Oban/Operação Bandeirantes, 1969-1971, JORGE JOSÉ DE MELO, Universidade Federal Fluminense – UFF, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Programa de Pós-graduação em História Social, 2012,https://www.passeidireto.com/arquivo/17155855/boilense/34

[3] Boilesen, um empresário da ditadura: a questão do apoio do empresariado paulista à Oban/Operação Bandeirantes, 1969-1971, JORGE JOSÉ DE MELO, Universidade Federal Fluminense – UFF, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Programa de Pós-graduação em História Social, 2012,https://www.passeidireto.com/arquivo/17155855/boilense/34

[4]http://www.jblog.com.br/politica.php?itemid=18227

[5] http://br.blastingnews.com/mundo/2015/04/apos-nove-dias-bombeiros-anunciam-extincao-do-incendio-em-santos-00343863.html