Gênero e Classe: a luta das mulheres e o resgate do marxismo

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A Editora Sundermann anunciou a publicação de Gênero e Classe, obra póstuma de Cecília Toledo. O livro, lançado em espanhol em 2016, chega ao Brasil no próximo dia 8 de março, data mais do que apropriada. A obra foi organizada por Alicia Sagra após a morte de Cecília em setembro de 2015. Alicia teve a difícil tarefa de organizar e editar os seis capítulos deixados pela autora. Quanto à estrutura, a autora manteve os cinco capítulos do livro anterior (“Mulheres: o gênero nos unes, a classe nos divide”), todos com modificações significativas, e acrescentou um sexto capítulo, “A questão da família”.

Quando nos deparamos com Gênero e Classe, podemos nos questionar se não estaríamos diante de uma versão revisada de seu livro anterior, que teve três edições. No entanto, a própria autora, na apresentação, não deixa dúvidas sobre as mudanças de conteúdo no texto, cuja primeira versão é de 1996. Apesar de haver uma continuidade com relação às edições anteriores, diante do surgimento de novas teorias, tornou-se inevitável fazer algumas correções, atualizar e reelaborar outros tantos aspectos. Estas novas reflexões são fruto de seminários e debates no interior da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI).

Cecília chegou à conclusão de que inclusive o nome do livro precisava ser mudado: “Passa a chamar-se Gênero e Classe porque a teoria do gênero aplicada às mulheres tomou tanto vulto, no seu intuito de apagar as diferenças de classes sociais como problema central na desigualdade, que foi ultrapassada pelas próprias feministas”. Para ela, a mudança do título era a primeira revisão necessária, já que “o gênero nos une, a classe nos divide”, no momento atual, poderia causar confusões e levar ao entendimento de que não há diferença entre gênero e classe. Ou pior, que a opressão é a mesma sobre todas as classes por unir as mulheres, como poderia sugerir o primeiro título.

A essência de sua obra permanece intocada: a opressão da mulher é um problema de classe, não de gênero. Ao longo do texto, Cecília tenta demonstrar que, de fato, há muitas coisas em comum entre todas as mulheres, mas que a opressão sobre a mulher trabalhadora é muito pior, pois tem como objetivo superexplorá-la e arrancar dela mais mais-valia, que sustenta a sociedade capitalista, inclusive a mulher burguesa. Apesar de sofrer opressão, esta última possui recursos e mecanismos que a fazem contornar e, muitas vezes, suportar a mesma. A diferença fica melhor evidenciada no capítulo que trata da mulher no mundo do trabalho.

Para defender sua tese, Cecília vai às origens da opressão da mulher, recorrendo aos conceitos marxistas para reconstituir a história das mulheres. A autora apoia-se nos primeiros estudos de historiadores e antropólogos como Lewis Morgan e Edward Taylor, que deram os primeiros passos para desfazer a ideia que até então se tinha sobre o papel da mulher nos diferentes modos de produção. Ela cita que “Marx e Engels, os fundadores do socialismo científico, deram grande importância a essas descobertas e as incorporaram em seus estudos sobre o surgimento da propriedade privada dos meios de produção”. Neste capítulo, a autora usa como referência básica a obra de Friedrich Engels A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado (1884).

Cecília ressalta que, para Marx e outros filósofos, “um dos elementos que melhor serve para indicar o estágio de desenvolvimento de uma sociedade é a situação das mulheres em tal sociedade, porque as mulheres não são apenas a metade da humanidade, mas são, também, as mães da outra metade. Logo, as condições de vida dessa enorme metade, as formas de tratamento que recebe, as relações predominantes entre a mulher e o homem são indicadores precisos do atraso ou do desenvolvimento cultural e econômico de uma determinada sociedade”.

Religião a serviço da opressão
O tema, que era subcapítulo de sua obra anterior, ganhou um capítulo próprio muito mais profundo. As religiões foram sempre fundamentais para manter a ideia da mulher como ser frágil e inferior, que devia ser sempre subserviente. Sempre cumpriram um papel decisivo no “reforço e na manutenção da situação de oprimida da mulher”. Justamente por isso, merece tal atenção da autora.

Como disse Marx em Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, muito bem lembrado por Cecília, “a verdadeira felicidade do povo exige que a religião seja suprimida enquanto felicidade ilusória do povo”. Seguindo Marx, ela afirma que as religiões criam felicidades ilusórias, chamadas por ele de “flores imaginárias”. A crítica precisa arrancar essas flores falsas para que as flores reais possam viver.

Ao longo desse capítulo, ainda, Cecília trata da liberdade religiosa, lembrando que os socialistas sempre a defenderam, sem, por isso, abandonar o combate à instituição religião, buscando uma interpretação materialista da mesma. Aborda, também, a relação das mulheres com o cristianismo, com o islamismo, com o judaísmo e com os fundamentalismos, ou seja, as crenças levadas aos extremos.

É importante ressaltar, no entanto, que não é uma declaração de guerra contra as religiões. É Lenin quem define o sentido deste debate: “só a luta de classes das massas operárias, ao atrair amplamente as vastas camadas proletárias a uma prática social consciente e revolucionária, será capaz de livrar de verdade as massas oprimidas do jugo da religião. (…) Devemos não só admitir como atrair sem falta para o partido socialdemocrata todos os operários que conservam a fé em Deus. Somos absolutamente contra a menor afronta às suas convicções religiosas, mas atraímo-los para se educarem no espírito do nosso programa e não para lutarem ativamente contra ele. Nós admitimos, dentro do partido, a liberdade de opinião, mas em certos limites, determinados pela liberdade de agrupamento: não somos obrigados a andar de mãos dadas com pregadores ativos de concepções repudiadas pela maioria do partido. (…) O partido do proletariado exige do Estado que declare a religião um assunto privado, não considerando, de modo algum, ‘assunto privado’ a questão da luta contra o ópio do povo, da luta contra as superstições religiosas etc.”.

Família, uma questão polêmica
Vale destaque para o novo capítulo, “A questão da família”. Aqui, a autora defende três posições bastante polêmicas entre os movimentos feministas, inclusive alguns que se reivindicam marxistas. A primeira, é sobre o patriarcado. Cecília trata a questão apropriando-se da definição de Marx de que o capitalismo tirou o caráter patriarcal da família operária e deu ao próprio patrão, o burguês capitalista, o poder sobre a família. Cecília faz uma importante e necessária diferenciação entre a família ideológica e a família real, o que separa definitiva e irremediavelmente a família burguesa da operária.

A segunda diz respeito à ideia da família como pilar básico da sociedade. Esta é uma tendência que vem tomando cada vez mais predominância entre os movimentos feministas, que tratam a família como parte da estrutura da sociedade, ou seja, a família deixa de ser mais uma instituição apenas. Cecília defende que se trata de “uma ideia criada, sobretudo, pela ideologia liberal”. A autora cita, para comprovar sua afirmação, Teoria da Justiça e Liberalismo Político, de John Rawls, que “considera ‘a família monogâmica como o sujeito fundamental da justiça’”.

Para ela, essa concepção liberal serve para “reduzir o poder do Estado e incrementar o poder do indivíduo” e “é parte da luta do liberalismo contra a consolidação de um Estado absoluto, que restrinja sua liberdade de comércio”. Assim, refuta a noção genérica de família, fazendo uma diferenciação entre a família burguesa e a operária. A manutenção da primeira depende da deterioração da segunda.

Como proposição diante dessas questões, surge a terceira grande polêmica: a defesa das condições de vida da família operária. Apoiando-se nas elaborações de Nahuel Moreno, afirma: “A necessidade da defesa das condições de vida da família proletária (moradia, saúde, educação), portanto, se dá nos marcos do capitalismo. Trata-se de defender jovens, mulheres e homens que vivem em família contra os ataques que sofrem diariamente por parte da exploração capitalista-imperialista. Não se trata de defender o modelo de família imposto pela ideologia burguesa e, muito menos, a família enquanto instituição”.

Feminismo e marxismo
Cecília Toledo trata de um tema novo que vem gerando discussões duras e acaloradas entre os movimentos de luta contra a opressão da mulher. Cecília é taxativa. Para ela, feminismo e marxismo são termos opostos, com interesses de classe inconciliáveis, chegando a dizer que quem é feminista não é marxista, ainda que muitas correntes utilizem expressões como “feminismo socialista”, “feminismo marxista”, “feminismo classista” etc. Nesse ponto, a autora faz uma autocrítica com relação a denominações utilizadas por ela anteriormente.

Ela justifica suas afirmações ao explicar que o feminismo se origina no liberalismo e trata do “ser mulher”, numa busca pela liberdade individual para as mulheres, suprimindo qualquer caráter de classe da luta das mulheres. Para o feminismo, a libertação da mulher se resume a uma guerra entre sexos.

Já para o marxismo, as desigualdades entre homens e mulheres são de classe social e não de gênero. As diferenças entre os sexos são algumas das desigualdades intrínsecas ao modo de produção capitalista. Cecília é categórica: “para superar esse sistema econômico e as desigualdades que ele gera, é preciso recusar o feminismo, buscando justamente as igualdades entre homens e mulheres da classe trabalhadora para que possam, juntos, salvar a humanidade desse sistema”.

Ao desenvolver sua polêmica posição, a autora debate com algumas das incontáveis teorias que surgiram desde os anos 1960, sobretudo as pós-modernas. A conclusão essencial a que se chega nesse debate é que o feminismo está dissociado do marxismo por, ao ignorar a luta de classes e a necessidade da opressão para a superexploração, acredita que a libertação da mulher é possível ainda no sistema capitalista. Diferentemente do marxismo, o feminismo, consequente com sua concepção sexista, não busca a destruição do sistema e a revolução, mas apenas reformas e conquistas pontuais para as mulheres.

Uma obra necessária
A emancipação da mulher só será possível com a vitória da revolução socialista, feita pela classe operária internacional, por trabalhadores homens e mulheres unidos na destruição do capitalismo e do imperialismo, na construção da sociedade socialista. Esta é a grande conclusão de Gênero e Classe. Não podia ser diferente vindo de uma autora que soube combinar a elaboração teórica com a permanente militância pela emancipação da classe trabalhadora.

Regatar esta abordagem assume uma importância enorme nos dias atuais. Vivemos uma crise mundial que coloca as mulheres em situações mais degradantes do que nunca, que aprofunda as diferenças entre as condições de vida de homens e mulheres. Ao mesmo tempo, a barbárie capitalista incita a violência contra as mulheres, sobretudo contra as mais pobres.

Numa atitude corajosa, a autora compra uma briga contra a maioria dos movimentos que lutam contra a opressão da mulher. Resgata o classismo num momento em que a maioria da esquerda abandonou a luta pela revolução. Resgata a verdadeira história das mulheres e de como sua opressão, longe de ser natural, foi historicamente construída para manter a dominação de uma classe sobre a outra. Resgata o marxismo contra o feminismo que tão bem serve ao capitalismo ao dividir a classe trabalhadora.

Depois de décadas alardeando o suposto fim do socialismo, o capitalismo volta a se mostrar como um sistema falido que necessita escancarar do modo mais torpe todas as formas de opressão. A defesa do socialismo está pautada na ordem do dia. Cecília Toledo, nos deixou cedo. Mas deixou, também, uma importante ferramenta para travarmos esta defesa.

Gênero e Classe não fecha um debate. Faz mais do que isso: fornece os elementos para a compreensão da realidade tal como ela é, a compreensão das diferenças entre trabalhadoras e burguesas e não – apenas – entre trabalhadoras e trabalhadores. E, para além de compreender a realidade, aponta caminhos para transformá-la.

“O propósito deste livro não é, de forma alguma, esgotar o tema. Pelo contrário. Queremos abrir ainda mais as nossas mentes para debater suas causas reais e buscar uma resposta ao feminismo atual, uma resposta que ajude a mulher trabalhadora a se conscientizar de sua situação como mulher e encontrar o caminho de sua emancipação”. Este é o objetivo de Cecília Toledo.