Foi-se o tempo de a banda passar, chegou um tempo de caravanas

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Chico Buarque, 73 anos, escreveu, interpretou e gravou centenas de canções. Compõe, música e letra, toca e canta. Muitas de suas canções foram compostas em parceria com outros grandes nomes da música brasileira, entre eles Tom Jobim (1927-1994) e Vinicius de Moraes (1913-1980). Chico Buarque é autor de peças teatrais, de narrativas ficcionais – uma novela e vários romances. Produziu, inclusive, literatura infantil.

Retornou ao noticiário e voltou a ocupar o centro das conversas na imprensa por causa do lançamento de um disco, acessível na internet. Soma, agora, 23 discos solos e de estúdio.

A importância de Chico Buarque para a música brasileira, cuja carreira começa nos anos 1960, é imediatamente reconhecida por teóricos, críticos e historiadores. Os especialistas confirmam, ano a ano, o nome Chico Buarque e seu lugar na cultura brasileira.

É preciso, contudo, apontar uma coisa. Muitas vezes, o trabalho de artistas em geral, de músicos em particular e de Chico Buarque individualmente não chega às casas de mulheres e homens da classe trabalhadora.

Isso acontece porque as empresas de mídia têm seus interesses e negócios, nem sempre representados por critérios musicais, artísticos e culturais. Exibem e escondem canções e cantores conforme interesses comerciais.

A política sempre ocupou um lugar central na obra desse artista brasileiro. Sempre deu a Chico assuntos e problemas. Deu inimigos e muitos admiradores.

Construção
Os trabalhos criados por Chico Buarque são uma construção cultural, artística, musical, poética, social e política. Tudo combinado. Uma canção pode representar tudo isso. Muitas canções podem. Na obra de Chico Buarque, a riqueza é imensa.

Contando a história de um operário da construção civil em sua rotina dura e massacrante, até morrer, como se ele agradecesse, com ironia, aos patrões e à sociedade, onde é destruído dia a dia pela rotina de seu trabalho, Construção, de 1971, é um dos momentos altos da carreira de Chico Buarque.

A música que dá nome ao álbum diz: “Tijolo com tijolo num desenho lógico/ Seus olhos embotados de cimento e tráfego”. Os versos resumem o trabalho do compositor. O tijolo com tijolo imita, musical e poeticamente, o trabalho do operário, na construção. O desenho lógico é a combinação rigorosa, medida, com prumo e nível, da letra e da música da canção. O compositor torna-se um pedreiro, levantando as paredes do edifício musical.

No segundo verso de “Construção”, citado aqui, está outro momento artístico primoroso. Se no outro verso, o movimento era da música para a construção, agora o movimento é da música, a Construção, para a realidade social. Os “embotados de cimento e tráfego” são os olhos dos operários, dos trabalhadores.

Embotar é enfraquecer. O cimento é o pó destrutivo respirado no trabalho. O tráfego de casa para a obra, e da obra para a casa, embota, enfraquece. A obra onde trabalha o operário entra musicalmente na obra em que trabalha o compositor.

Capa do novo álbum de Chico Buarque

Caravanas
“Construção” é apenas um exemplo entre as muitas canções de Chico Buarque.

Combinando elementos da melodia, das harmonias e a poesia da letra, na obra de Chico o impecável acabamento nas canções se repete. No disco novo, vale a pena parar um pouquinho em As Caravanas.

Fala dos deslocamentos das populações de trabalhadores e pobres pelo centro da cidade. No Rio de Janeiro, em Copacabana, vindos de outros bairros. As populações se agrupam, formam comboios, as caravanas, do título e do tema.

As reações racistas viram poesia. A construção da consciência política por meio da elaboração musical: “Pra polícia despachar de volta/ O populacho pra favela/ Ou pra Benguela, ou pra Guiné”. Os versos reproduzem os apelos preconceituosos de setores da sociedade.

Ou mais ainda: os espaços de confinamentos, como se fossem gado, das populações trabalhadoras de sempre. Não basta prender, é preciso exterminar: “E essa zoeira dentro da prisão/ Crioulos empilhados no porão/ De caravelas no alto mar/ Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria”.

A gritaria reacionária, contrarrevolucionária, de ideologia burguesa, não suporta a vida. “Filha do medo, a raiva é mãe da covardia”: isso é um retrato. Um retrato de quem manda. Quer dominar sempre, não importa a que preço.