Famílias sem-teto reocupam Pinheirinho e colocam em debate novamente a falta de uso social do terreno em São José dos Campos

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Durante todo o dia deste sábado (3), o terreno do Pinheirinho foi palco novamente da luta por moradia. Cerca de 80 famílias reocuparam a área na zona sul de São José dos Campos, que está abandonada desde 2012, quando ocorreu a violenta reintegração de posse em favor do especulador Naji Nahas.

A ocupação teve início às 22h, da última sexta-feira (2), e permaneceu ao longo de todo o dia deste sábado. Por volta das 18h, após um forte cerco da PM, que entrou no terreno e ameaçou as famílias, os sem-teto decidiram desmontar o acampamento. Contudo, deixaram o recado: a luta não acabou.

Fim do aluguel social
Grande parte das famílias que reocuparam o Pinheirinho são ex-moradores da ocupação, mas que foram excluídos do programa habitacional que garantiu casas às famílias despejadas em 2012. Com o fim do aluguel social, pago pelos governos estadual e municipal, a partir deste mês, as famílias entraram em desespero.

Eles derrubaram nossas casas na época da desocupação e os governos disseram que todos que estavam no terreno teriam direito a novas casas. Mas depois inventaram um monte de dificuldades e por problemas de documentação mais de 200 famílias não puderam ter uma casa no Pinheirinho dos Palmares”, conta Elisângela, ex-moradora da ocupação do Pinheirinho. “Agora cortaram o aluguel social. Como vamos fazer? Sem ter onde morar e pagar aluguel?“, questionou.

Mas não foi só ex-moradores da antiga ocupação que montaram acampamento neste final de semana. São José dos Campos segue tendo um dos maiores déficits habitacionais do país, com mais de 15 mil famílias inscritas no cadastro da Prefeitura, e ainda nas primeiras horas da manhã deste sábado dezenas de pessoas dos bairros do entorno também entraram no terreno.

Juliana* entrou no terreno neste sábado e levou o filho. “Não tenho como pagar o aluguel e estou há anos no cadastro da Prefeitura. Este terreno deveria ser do povo“, disse.

Como na época da antiga ocupação, as mulheres eram maioria entre os ocupantes nesta nova mobilização. Muitas traziam consigo os filhos e também erguiam os barracos de lona que rapidamente se espalharam pelo terreno.

Solidariedade
Com a notícia da reocupação, durante todo o dia, a avenida em frente ao terreno ficou cheia de moradores dos bairros próximos. A exemplo do que ocorreu em 2012, quando muitas pessoas apoiaram as famílias do Pinheirinho, o sentimento de muitos no local era de solidariedade e apoio.

Tem mais é que ocupar mesmo. Este terreno tá que é só mato”, disse Antonia Pereira.

Moradores do Pinheirinho dos Palmares também compareceram para prestar solidariedade. “Ninguém pode ficar pra trás“, disse Luciana*.

Sem função social
Cinco anos depois da desocupação que entrou para a história da cidade e teve repercussão internacional, o terreno do Pinheirinho, de mais de 1 milhão de metros quadrados, voltou a ser uma área tomada pelo mato e alvo de especulação imobiliária. Cinco anos depois, o terreno ainda deve mais de R$ 80 milhões em impostos à Prefeitura.

O PSTU acompanhou a mobilização desde a noite de sexta-feira e prestou todo apoio e solidariedade às famílias.

Os governos gastaram uma fortuna para despejar as famílias do Pinheirinho em 2012. Como a luta não parou, foram obrigados a construir o conjunto Pinheirinho dos Palmares, no Putim. Só que deixaram centenas de famílias de fora do programa“, explica Toninho Ferreira, que é presidente do PSTU e advogado das famílias do Pinheirinho.

O absurdo é que o terreno do Pinheirinho, que poderia resolver a situação dessas famílias e de outras milhares que estão na fila de espera da Prefeitura por uma casa própria, voltou a ser uma área coberta pelo mato, sem qualquer função social. É apenas alvo da especulação imobiliária nas mãos do especulador Naji Nahas“, denunciou.

Enquanto os políticos lá em cima e o grande empresariado fazem toda essa roubalheira que fazem no país, as pessoas não têm condições de viver. Não tem dinheiro para comer, não têm dinheiro para pagar aluguel, não têm dinheiro para se vestir. Enquanto houver famílias sem um teto, ocupar e resistir é um direito”, afirmou Toninho.

E, de fato, tudo indica que a luta não acabou. Diante do cerco da polícia, as famílias decidiram recuar, mas prometem continuar a mobilização. “Vamos dar um passo atrás, para dar em breve dois passos à frente, pois a nossa luta não vai parar”, disse Elisângela.

Acompanhe a cobertura completa nas páginas do Facebook do PSTU SJCampos e de Toninho Ferreira.