Exército Brasileiro: de Campinas para o Haiti

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Militares que vão para o Haiti fazem treinamento nos bairros da periferia de Campinas (SP)

O que fazem os militares brasileiros no Haiti?

Muitos moradores de Campinas foram surpreendidos nas últimas semanas por tanques de guerra e um amplo aparato militar do Exército brasileiro em suas comunidades.
 
Estas “caravanas” que estão sendo realizadas nos bairros de periferia da cidade fazem parte do treinamento de soldados brasileiros que irão participar da Missão da ONU no Haiti. Os principais meios de comunicação de Campinas, como o jornal Correio Popular, falam que os soldados se preparam para atuar na “Missão de Paz” liderada pelo Brasil.
 
Em primeiro lugar, a MINUSTAH (Mission des Nations Unies pour la Stabilisation en Haiti) não é uma Missão de Paz, mas uma Missão de Estabilização. A MINUSTAH teve início em julho de 2004 após tropas dos Estados Unidos e Canadá ocuparem o país e deportarem o então presidente haitiano, Jean-Bertrand Aristide, que só pode voltar ao país 8 anos depois.
 
Como podemos falar de uma Missão de Paz quando vemos que seus principais agentes são soldados e seus principais instrumentos utilizados são tanques e armas de guerra? De qual paz estamos falando?
 
De 2004 para cá, o Brasil gastou mais de 2 bilhões de reais com a MINUSTAH. Este dinheiro foi gasto principalmente com transporte de armamentos e militares e com a manutenção dos civis e militares da Missão. Após 10 anos de intervenção militar do Brasil no país mais pobre da América, os militares brasileiros não construíram uma escola, hospital ou solucionaram qualquer problema dos haitianos e haitianas.
 
De 2004 a 2010, ano em que o Haiti foi atingido por um grande terremoto que destruiu sua capital e arredores, a vida do povo só piorou. Os índices de pobreza aumentaram, a entrada de produtos importados no país (principalmente dos EUA e República Dominicana) cresceu, os camponeses haitianos estiveram cada dia mais colocados entre a cruz e a espada, a corrupção do Estado atingiu níveis dramáticos e muitas novas empresas têxteis entraram no país, se aproveitando do baixíssimo custo da mão de obra haitiana, já que o país vive na extrema pobreza.
 
O exército brasileiro não apenas assistiu à deterioração do país, como foi um ator importante nesse processo. Apesar da mídia brasileira não dar nenhuma atenção à ocupação militar, falando do assunto esporadicamente, não são poucas as denúncias que o exército brasileiro acumula de ter cometido massacres em solo haitiano. Na madrugada do dia 22 de dezembro de 2006, por exemplo, o exército brasileiro invadiu a principal favela de Porto Príncipe, Cité Soleil, e deixou um saldo de dezenas de mortos, entre estes crianças, jovens, mulheres e idosos. Ainda hoje, neste bairro, pode-se ver muitas casas que foram atingidas por balas de metralhadoras do exército brasileiro. Este é apenas um exemplo, vários outros poderiam ser citados.
 
A mídia brasileira não fala disso. O governo, obviamente, também não. Os haitianos e haitianas, no entanto, não têm memória curta. Desde o terremoto que atingiu o país, em janeiro de 2010, multiplicaram-se as manifestações e questionamentos à presença militar. O sentimento de indiferença em relação à Missão, que a maior parte dos haitianos tinha antes do terremoto, se transformou em repúdio à presença estrangeira no país. 
 
O terremoto comprovou ainda mais perante os haitianos e haitianas o papel da ocupação  militar estrangeira. A catástrofe deixou mais de 200 mil mortos e 1,5 milhão de desabrigados. Os militares da ONU, dentre eles mais de 1000 brasileiros que estavam presentes no local do terremoto, foram completamente incapazes de salvar os milhares de haitianos presos embaixo de escombros. Pelo contrário, socorreram apenas os feridos da Missão e se  dirigiram para os hoteis de luxo que haviam desabado, onde se hospedavam brancos estrangeiros. Os mais de 1000 militares brasileiros não chegaram a socorrer 200 pessoas! É claro, não foram treinados para se importar com a vida dos haitianos.
 
Por outro lado, nos dias que se seguiram ao terremoto, os militares se posicionaram para resguardar as grandes propriedades de empresários estrangeiros, como as zonas industriais, um dos poucos locais onde havia água e infraestrutura para os milhares de desabrigados.
 
A “paz” garantida pelo exército da ONU em todos os momentos de tensão no país foi a “paz” para garantir que tudo ficasse como estava antes, milhões de haitianos na pobreza extrema para alguns estrangeiros se enriquecerem. Hoje, o país é um paraíso para as empresas têxteis dos Estados Unidos, França, Canadá, Coreia do Sul, já que o índice de desemprego formal encontrava-se, há pouco tempo, em quase 80% da força de trabalho.
 
A Missão da ONU, que tinha como objetivo ser uma missão de curta duração, no entanto, não dá indícios de chegar ao fim. Para se ter uma ideia, no ano passado, enquanto mais de 200 mil haitianos ainda permaneciam vivendo embaixo de tendas, cabanas ou casas improvisadas na capital do país, um enorme shopping foi erguido em um dos bairros mais nobres da cidade, frequentado pelos empresários estrangeiros e pelos civis e militares da Missão da ONU. A desigualdade social nunca foi tão grande e não é exagero hoje dizermos que a cúpula da Missão da ONU se beneficia, ao lado dos proprietários de grandes negócios, da miséria em que se encontra o país.
 
Esse ano irá mais um batalhão brasileiro para o Haiti, substituir os atuais militares que lá se encontram. Mais uma vez, estaremos enviando jovens brasileiros com metralhadoras, tanques de guerra, bombas de gás lacrimogêneo, ao invés enviarmos médicos, enfermeiros, professores e outros milhares de profissionais dos quais o país necessita.
 
Neste sentido, os trabalhadores e trabalhadoras brasileiros devem se perguntar: o que estamos fazendo no Haiti?