Eu não quero me assumir sozinho: uma opinião sobre o filme “Hoje eu quero voltar sozinho”

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Foto divulgação

Atenção: este artigo contém revelações sobre o roteiro do filme

 
Cartaz do filmeO longa “Hoje eu quero voltar sozinho” (2014), conta a história de Leonardo (Guilherme Lobo), um adolescente cego em busca de mais autonomia. Sua vida cotidiana e sua relação com a melhor amiga Giovana (Tess Amorim), assim como a maneira como ele encara o mundo mudam com a chegada de Gabriel (Fabio Audi), um novo aluno. Escrito e dirigido por Daniel Ribeiro, o filme estreou no Brasil há poucas semanas e já é um sucesso de bilheteria. Foi vencedor da mostra Panorama do Festival de Berlim pela Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci) e ganhou também o Teddy Bear, que é um prêmio destinado a filmes com temática gay. A delicadeza e a sensibilidade do filme fizeram com que agradasse muito o público LGBT e fosse bem recebido também pelo público em geral.
 
O sucesso do filme no Brasil certamente deve ser muito comemorado, já que, ao contrário do que vemos na maioria das vezes – personagens homossexuais sendo fúteis, vazios, ridículos, tarados e caricatos, nas telenovelas, nos filmes, e principalmente nos programas humorísticos –, o filme traz uma referência positiva de jovem homossexual, mostrando uma história de descobertas e de sentimentos sob uma óptica sensível, delicada e muito poética, além de proporcionar uma boa dose de entusiasmo. O filme permite que o espectador se envolva no enredo e torça pela relação de Léo e Gabriel. Isso faz de “Hoje eu quero voltar sozinho” um filme interessante, que pode ajudar no debate sobre a homofobia e a superar o preconceito e a discriminação.
 
O sucesso do filme tem ainda a ver com o êxito e a expectativa gerados pelo curta-metragem “Eu não quero voltar sozinho” (2010, Lacuna Filmes), que alcançou mais de três milhões de visualizações no YouTube e também recebeu diversos prêmios. Ambos os materiais foram dirigidos por Ribeiro, contam história bem parecidas, com os mesmos personagens e elenco. O curta, de maneira equivocada, foi entendido como um dos que compunham o “kit anti-homofobia”, vetado por Dilma em negociata com a bancada evangélica mediante um escândalo de corrupção envolvendo o então Ministro Palocci (PT). O vazio de instrumentos para debater a homossexualidade e combater a homofobia nas escolas ainda provoca a associação entre o curta e o kit.
 
No país recordista de assassinatos por homofobia (o Brasil concentra 44% das mortes por homofobia que acontecem em todo o mundo), o espaço alcançado pelo longa é também reflexo da insatisfação e da luta dos LGBTs diante dessa realidade. O longa, assim como o beijo de Niko e Félix exibido pela Rede Globo no começo deste ano, trazem a sensação de fortalecimento, o gosto de ter derrotado o projeto da “cura gay” de Feliciano e de dar um passo à frente. Essas sensações, no entanto, partem muito mais do espectador do que de qualquer provocação feita pelo filme.
 
O fato de Léo pensar em fazer intercâmbio a cada momento que é discriminado na escola ou se decepciona com os acontecimentos do seu cotidiano familiar, como uma fuga de um possível fracasso nas relações ou das hostilidades que sofre dos colegas, é o mais longe que o diretor vai no sentido de questionar as dificuldades vividas por ele. Até porque o intercâmbio fora do país está muito mais relacionado à autonomia e à liberdade que o adolescente está buscando frente à superproteção da família.
 
O diretor retrata um cenário interessante, mas idealizado e bastante distante da realidade vivida pela maioria dos jovens brasileiros, especialmente pelos homossexuais nas escolas. Na obra, a homofobia é tratada como se fosse uma bobagem de adolescente, menos presente e naturalizada do que o preconceito e a discriminação contra os cegos.
 
Também é importante refletir que a sociedade em geral está bem pouco preparada para que as pessoas com deficiência visual possam, de fato, realizar todas as atividades que desejam sem enfrentar dificuldades, riscos e constrangimentos, como se deslocar, estudar, se divertir, viajar, etc. Do ponto de vista prático, os espaços públicos pouco estão preparados para acessibilidade universal. Léo consegue lidar melhor com sua cegueira, em grande medida, por não ser pobre e assim, não enfrentar os mesmos transtornos do dia-a-dia que a maioria das pessoas.
 
É inevitável que o público se posicione frente às piadinhas e outras hostilidades que Léo e Gabriel sofrem na escola. Nas escolas públicas, é comum que essas ofensas sejam ainda muito mais graves, envolvendo isolamento, calúnias, ameaças e até agressões físicas, estupros corretivos, etc. Esses problemas, não raro, provocam evasão escolar e até suicídio de adolescentes. Muitos jovens são expulsos de casa por serem homossexuais. Em geral, não é possível que possam simplesmente ignorar a discriminação sofrida, não se deixando abalar. Tampouco é natural superar a homofobia dando as mãos para o parceiro ao sair da escola, de costas para os agressores sem medo de sofrer um espancamento.
 
Ainda que o filme retrate a vida de adolescentes de classe média alta, menos vulneráveis à violência e a outras dificuldades, os poucos dados que temos sobre o assunto mostram que a realidade é bem mais dura e complexa. O estudo “Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar”, realizado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas e publicada em 2009 aponta que entre 18,5 mil alunos, professores, pais, mães, diretores e funcionários de escolas entrevistados que 87,3% deles tinha preconceito com relação à orientação sexual. Em pesquisa semelhante realizada pela Fundação Perseu Abramo no mesmo ano, 92% dos entrevistados reconhecem que existe preconceito aos LGBTs e 28% revelam-se preconceituosos.
 
Nesse sentido, “sair do armário” é assumir um enorme enfrentamento, que passa por romper com a ideia de inferioridade que o mundo constrói para os LGBTs. Assumir-se é, portanto, um processo de se conhecer, se aceitar e de assumir uma identidade para os outros, enfrentando a repressão do meio. O jovem heterossexual não vive esse processo, que não pode se dar de forma individual, desprotegida, mas sim que pressupõe um reflexo na coletividade, precisando ser encorajado e vivido, de fato.
 
Em “Hoje eu quero voltar sozinho”, no entanto, as problemáticas em se assumir como homossexual pouco surgem. Ao que parece, por escolha do próprio diretor. Ribeiro disse numa entrevista que o filme “tem a ver com a descoberta da sexualidade, mas também não tá muito forte, ele não questiona isso, não tem uma preocupação. Ele se apaixona por um menino e pronto. Ele não fica na dúvida do será que é certo será que é errado. Não. Ele só pergunta ‘eu tou a fim dele, será que ele tá a fim de mim? que ele me quer também?’”.
 
Essa escolha do diretor suscita mais uma reflexão: é possível uma história de amor ou de descoberta da sexualidade ser uma história genérica quando as personagens são homossexuais? Ou seja, a homossexualidade pode ser um detalhe a ser colocado em segundo ou terceiro plano? No universo da ficção, sim, mas também é importante considerar que no caso de Léo e Gabriel essa omissão se torna mais fácil, já que os dois são jovens privilegiados, que contam com diversos espaços seguros para sociabilidade.
 
O filme, na verdade, remete ao gênero “filme de temática gay” e não de “romance” (como sugere o diretor), tendo até ganho o Teddy Bear. Léo e Gabriel também apresentam o perfil do homossexual mais aceitável na sociedade, sendo bonitos, brancos, fofos, de gosto refinado, cultos e nada efeminados. Certamente seria mais difícil secundarizar a sexualidade numa situação oposta, quando se é negro, fora do padrão de beleza, efeminado ou travesti, pois a sociedade é preconceituosa e opressora.
 
Se alguns distanciamentos do contexto real nos trazem preocupação e algum incômodo, a profundidade com a qual se constroem as relações ao longo do filme são para lá de encantadoras. Além do filme ser esteticamente muito bonito, de o elenco ter uma atuação brilhante (com destaque para Guilherme Lobo), a forma como o filme traduz os sentimentos entre Léo, Gabriel e Giovana é muito sensível e inteligente. Em seus gestos cotidianos, se caracterizam o cuidado e o carinho entre os três. Gabriel transmite confiança ao Léo e juntos, a partir de pequenas mas ousadas situações eles se permitem conhecer, um através do outro, uma nova dimensão da realidade e ampliar suas perspectivas. Eles se divertem indo ao cinema, saindo escondidos para “ver” um eclipse lunar e até andam de bicicleta, mostrando que o amor pode desafiar as limitações cotidianas e emocionando os espectadores.
 
Nesse sentido, ao desafiar a própria realidade, o filme nos proporciona uma história feliz e encantadora, de um amor vivido sem culpa e sem empecilhos. Leva-nos também a desejar ainda com mais força um mundo em que isso seja possível. Um mundo sem opressão, mais justo e igualitário. Também vale a pena pelas reflexões e debates que traz à tona.
 
 
Assista ao trailer: