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A organização dos bolcheviques. As conseqüências políticas e teóricas da Revolução de 1905
Em Que Fazer? Lênin não pretendeu estabelecer uma forma de organização dos revolucionários válida para qualquer tempo e qualquer país. A organização (assim como o método de funcionamento) idealizada na Obra, segundo o seu próprio autor, valia para a Rússia entre 1901 e 1905 e não tinha valor universal nem alcance eterno (Pierre Broué na obra citada). Mas foi muito útil e orientou o grupo reunido em torno do Iskra.
Os bolcheviques sempre priorizaram o seu jornal. A primeira tarefa deles em todas as ocasiões era manter esse instrumento vital de divulgação. Os articulistas e divulgadores do Iskra e dos seus sucessores, o Socialdemocrata, o Pravda e outros eram como que antenas da organização. Graças às suas informações, produzia-se a homogeneização das experiências operárias e formação de uma consciência coletiva. Era também o meio da direção orientar e centralizar a ação partidária.
Os ativistas do movimento operário escreviam as matérias do jornal e sentiam que ele os pertencia. Um jornal desse tipo, na Rússia czarista, evidentemente sofria inúmeros ataques, que iam da aplicação de multas até o recolhimento de edições inteiras pela polícia. Pois bem, eram os operários, nas fábricas, com os seus minguados salários, que pagavam essas multas e cobriam os prejuízos.
Como havia interesse da parte dos bolcheviques em manter a sua imprensa funcionando e disponível aos leitores, em várias oportunidades os próprios redatores tinham que censurar as matérias que recebiam. Isso era muito freqüente quando se tratavam de palavras de ordem contras os alistamentos compulsórios de operários e camponeses para o Exército. Nesse caso, eles recorriam aos panfletos ilegais. Sendo assim, o partido tinha que ter uma estrutura clandestina de profissionais, sedes, máquinas de impressão, sob pena de se ver totalmente indefeso perante o Estado.
Segundo Pierre Broué, para os bolcheviques, a ilegalidade era absolutamente indispensável nas condições russas. Tanto que eles condenaram os mencheviques que propuseram agir apenas legalmente como uma corrente que liquidaria o Partido. Porém a ilegalidade não era um fim em si mesma nem um princípio válido para sempre e em todo o canto do planeta. Era necessária e útil na medida em que servisse à construção do Partido.
Embora houvessem outros partidos da Socialdemocracia que mantivessem um funcionamento clandestino na Europa, a Socialdemocracia alemã dispensava completamente qualquer aparato ilegal. Tinha dezenas de deputados, 43 jornais que tratavam de temas diferentes, revistas, escolas e chegou mesmo a possuir universidades.
O partido ideal para os bolcheviques, assim para as demais socialdemocratas, era o construído pelos alemães. Broué conta no seu livro que Lênin, quando leu nas páginas do Vorwarts - um importante jornal do Partido Operário Social Democrata Alemão - a notícia de que a Socialdemocracia alemã havia votado a favor dos créditos solicitados pelo Estado para financiar os seus gastos na 1ª Guerra Mundial, não acreditou e julgou tratar-se de uma falsificação.
Mesmo que em 1903 tivesse ocorrido a ruptura definitiva na Socialdemocracia russa, os bolcheviques não a encararam como um rompimento da 2ª Internacional, de que participavam. Não existia uma fração ou uma tendência bolchevique mundial no começo do século XX. Mesmo em 1917, quando Lênin proporá a substituição da expressão "Socialdemocrata" do nome oficial do Partido pela "Comunista", os bolcheviques, em seu conjunto, não terão compreendido a extensão da traição da 2ª Internacional.
A originalidade dos bolcheviques não residiu em que conformassem uma organização clandestina nem ferreamente disciplinada. Havia muitas outras organizações com essas características na 2ª Internacional. Porém, os bolcheviques inovaram ao criar uma organização revolucionária que, examinada sob o ponto de vista do seu funcionamento cotidiano, combinava a democracia e a liberdade de crítica na elaboração e definição da política, bem como no controle dos dirigentes pela base partidária por um lado, com a máxima disciplina na execução da política deliberada.
Além disso, os socialdemocratas russos viviam no País mais convulsionado e explosivo da Europa no começo do século XX.
Mais ainda, a classe operária russa, fruto da história econômica e política do País, era pequena, concentrada, jovem, inexperiente, não tinha sido educada por nenhuma organização reformista anteriormente, era apaixonada politicamente e dotada de grande heroísmo. Sob os czares, era impossível manter o funcionamento regular dos sindicatos, que eram dissolvidos tão-logo surgissem; os militantes eram perseguidos, presos, exilados, recrutados ao Exército ou mortos, não era possível se formar uma burocracia sindical ou partidária oriunda do operariado, como aconteceu com os socialdemocratas de outros países. Com efeito, os militantes eram destemidos, generosos e despidos de vícios políticos.
A composição social do Partido Bolchevique era esmagadoramente operária industrial. Era um Partido literalmente das fábricas. Havia no Partido bem poucos camponeses. Era um pouco melhor estruturado entre estudantes médios e universitários, mas jamais teve uma organização puramente de jovens.
A atividade sindical era clandestina e baseava-se em encontros-relâmpagos, realizados às escondidas. Geralmente um orador de fora era introduzido na fábrica transmitia as orientações e se afastava depressa. Os operários estavam sempre atentos e tinham um plano de fuga em caso de serem surpreendidos pelos patrões ou pela polícia.
Os militantes socialdemocratas na Rússia, quando captados, já eram habituados a agir às ocultas. Eram-lhes dados nomes falsos, os organismos partidários eram absolutamente estanques (militantes de um núcleo nada sabiam sobre a organização de outro). Havia ordem para que os militantes evitassem ao máximo o contato fora dos organismos que integrassem. Mantinham um aparato técnico responsável por providenciar documentos falsos, contrabandear publicações, esconder militantes e, eventualmente, retirá-los do País. Existia uma estrutura responsável pelas "expropriações" de bens da burguesia. Tratavam-se de quadros que planejavam e realizavam assaltos e furtos com o objetivo custear as atividades partidárias.
Como eram financiadas as atividades? Além das cotas dos membros e do fruto das "expropriações", recolhiam-se contribuições de simpatizantes, inclusive de pessoas muito ricas. Broué menciona um industrial inclusive: Morozov.
O centro do Partido eram os dirigentes profissionais. Eles ingressavam na Organização ainda muito jovens (em geral, como menos de 20 anos) e, desde cedo, renunciavam completamente a carreiras profissionais e acadêmicas, entregando-se à revolução e ao Partido. Quando atingiam o fim da adolescência já são velhos quadros partidários. Zinoviev, por exemplo, chegou ao Comitê Central contando com somente 24 anos. Kamenev, Sverdlov, Serebriakov, com pouco mais de 20 anos, foram eleitos delegados a congressos e conferências, e já eram importantes organizadores clandestinos do Partido. Passam todos muitos anos de suas vidas exilados ou presos. Assim que o jovem ingressava no Partido, começava a contar os meses até ser aprisionado; lia o máximo que podia na cadeia e, tão-logo se oferecesse uma oportunidade, fugia para se unir aos companheiros na Rússia ou no exterior. Segundo Trotsky, resgatado na obra citada de Broué, a geração dirigente da Revolução de 1917 contava entre 18 e 30 anos.
O Partido Bolchevique tinha um imenso apreço pela formação teórica dos seus membros. Em alguns momentos, chegava-se a pensar, que se estava diante de um sofisticado "clube de sociologia". Não era à toa que muitos dos quadros partidários elevaram-se ao nível dos principais intelectuais da sua época.
Qual o papel individual de Lênin no bolchevismo? Lênin foi o único dos marxistas russos que antecederam a criação do Iskra que se vinculou ao bolchevismo. Plekanov, Martov, Vera Zasúlich, Axelrod voltaram-se para o menchevismo ao final. Trotsky passou um longo período flertando com o menchevismo até se unir aos bolcheviques em 1917. Na Conferência de Praga, enquanto Zinoviev, Kamenev e Sverdlov tinham mais ou menos 30 anos, Lênin atingia 42. Portanto ele era o dirigente bolchevique mais antigo. Era também o mais influente. Lênin defendia a pluralidade de opiniões entre os socialdemocratas russos. Sempre sustentou que a direção do POSDR fosse partilhada proporcionalmente pelas diversas alas que a organização comportasse.
Trotsky, em A História da Revolução Russa, menciona que Lênin sempre se localizou mais à esquerda na direção do Partido, encontrando-se, inclusive, muitas vezes totalmente isolado. Pierre Broué assegura que Lênin acreditava que a superação das divergências dependia mais da evolução dos acontecimentos políticos do que das discussões que se pudessem travar, e que somente a revolução, expressão mais drástica da evolução da situação política, separaria os revolucionários dos reformistas. Assim ele cedeu quando muncheviques e bolcheviques aspiravam a uma reunificação prematura. Todavia quando entendia que a disputa se dava em torno de questões vitais como, por exemplo, a manutenção do trabalho partidário ilegal (contra os liquidacionistas), que era uma das pedras de toque do caráter revolucionário do Partido, ele mantinha-se inflexível. Lênin era obcecado não por ter razão sempre em cada detalhe, mas sim por construir o Partido, o instrumento que lhe daria razão em escala histórica, em escala de milhões de pessoas. Polemizava duramente contra os seus oponentes, esmiuçava os pontos de vista que lhes eram contrários e mostrava as contradições de que padeciam, recorria a exacerbações das diferenças e a caricaturas das posições dos seus adversários. Esforçava-se por demonstrar para a base partidária que a polêmica restringia-se a alguns poucos pontos centrais, facilmente identificáveis por todos, procurando ser o mais didático possível. Broué diz que Lênin tinha o método de um lutador que buscava vencer o seu antagonista e não um acordo com ele.
Porém nunca deixa escapar outro objetivo seu: o de manter o seu contendor no duelo ao seu lado na tarefa de construir o Partido se o tipo de divergência permitisse. Mais tarde Ernest Mandel, em Trotsky Como Alternativa, confirmaria isso, escrevendo que por mais duras e mesmo violentas que fossem as polêmicas travadas por Lênin, ele e seus oponentes na disputa sempre se reconciliaram depois do combate político.
Como afirmamos, em O que fazer? Lênin não pretendeu estabelecer uma estrutura de organização válida para qualquer momento da luta de classes nem para todos os países. Somente depois da vitória da Revolução de Outubro constrói uma concepção que resgata os elementos essenciais da experiência russa.
Durante debates havidos na 3ª Internacional, ele mesmo sistematizará os traços gerais universais de um partido revolucionário, confirmados pela experiência: a militância deve ter uma disciplina rigorosíssima, verdadeiramente férrea, e o partido precisa angariar o apoio de toda a massa da classe operaria. O autor se pergunta: "Como se mantém a disciplina do partido revolucionário do proletariado? Como se comprova? Como se reforça?" Responde: "Pela consciência da vanguarda proletária e pela sua dedicação à revolução [...]". E discorre sobre a necessidade da relação desta vanguarda com as massas. Mas segundo o próprio Lênin, as condições acima "não podem surgir de repente. Elas somente podem se formar através de um trabalho prolongando de uma dura experiência; a sua formação é facilitada por uma teoria revolucionária justa que por sua vez não é um dogma, mas que só se constitui de forma definitiva em estreita ligação com a prática de um movimento verdadeiramente de massas e verdadeiramente revolucionário". Vide Esquerdismo, A Doença Infantil do Comunismo, V. I. Lênin, 3ª volume das Obras Escolhidas em Três Tomos.
Assim, a partir da clareza estratégica que advém da teoria, o partido poderia compreender as distintas fases da luta revolucionária, não se apegando a uma tática específica, mas sim diversificando o uso das mais variadas táticas. Uniria a agitação política para as massas à propaganda sobre os ativistas mais destacados nas lutas. Transitaria da intervenção nos sindicatos aos sovietes e, no momento adequado, dedicar-se-ia à luta armada. Em todas as situações, a clareza política dos dirigentes e quadros, que seriam a coluna vertebral da organização, seja nos períodos de refluxo, ou na intensa mobilização, constituiria o seu grande patrimônio.
Mudamos agora o exame do bolchevismo do enfoque mais organizativo para o mais estritamente político. Como dissemos, a Revolução de 1905, embora tivesse reivindicações burguesas, a saber, a eleição de uma assembléia constituinte e a concessão de liberdades democráticas, foi protagonizada centralmente pela classe operária, que se utilizou dos meios de luta que lhe são próprios (greves, piquetes, manifestações, passeatas, sovietes etc). Essa contradição exigiu dos mencheviques e bolcheviques novas explicações.
A partir de 1903, quando aconteceu o 2º Congresso do Partido, e mais acentuadamente depois da derrota da Revolução de 1905, mencheviques e bolcheviques passaram a divergir exatamente sobre a natureza do processo revolucionário que viviam.
Os mencheviques acusavam os bolcheviques de abandono do marxismo, porque estes buscavam, por métodos conspirativos, a revolução operária, sendo que as condições objetivas só permitiriam uma revolução burguesa. Os bolcheviques atacavam os seus rivais, que se recusariam a preparar e organizar a revolução operária, postergando-a para um futuro distante, o que resultaria na conversão dos mencheviques em defensores da idéia de que o desenvolvimento histórico por si só conduziria ao socialismo depois de uma série de etapas sucessivas, cabendo, por ora, ao partido operário o papel de mero coadjuvante da burguesia na sua luta contra a autocracia e por liberdades democráticas.
Entregaram-se as 2 alas da Socialdemocracia russa com o mesmo empenho aos eventos revolucionários de 1905. Coincidiam em afirmar que a luta fora derrotada porque a burguesia aliou-se à nobreza após obter a concessão de eleições e os camponeses permaneceram passivos, sendo que a participação dos soldados e marinheiros tinha sido muito discreta no conflito. Realmente os capitalistas russos surpreenderam-se com o papel de vanguarda dos operários na Revolução e os temeram justamente por isso. Afinal os operários bem poderiam, depois de vencer o Czar, derrotar também a burguesia e impor à Revolução o seu próprio desfecho: a tomada do poder, a exemplo do que acontecera na Comuna de Paris em 1871. Por isso antes mesmo de alcançar o atendimento de suas principais reivindicações (liberdades democráticas), a burguesia aliou-se à nobreza russa contra os operários para pôr fim às mobilizações. Tendo em vista que os soldados e marinheiros tiveram uma participação pequena na luta e que os camponeses permaneceram apáticos diante dela, os operários acabaram sós e derrotados.
Ao final daquelas jornadas, os mencheviques pareciam seguros de que os fatos recentes teriam confirmado as suas análises. A Rússia seria imatura para a revolução socialista porque ainda vivia sob um regime monárquico. Antes de pensar em socialismo, o povo russo teria que realizar uma revolução burguesa democrática, que derrubasse definitivamente a monarquia do poder, varresse os restos do feudalismo e impusesse um regime republicano democrático. Tratava-se de uma revolução democrática, semelhante à Revolução Francesa de 1789. Seguir-se-ia a ela um período de desenvolvimento econômico capitalista prolongado e de crescimento do contingente operário. Durante esta revolução democrática e este período de desenvolvimento capitalista, os socialdemocratas e o proletariado deveriam apoiar politicamente a burguesia liberal e pôr-se sob a sua direção política. Somente após a formação desse operariado numeroso e depois da sua experiência em lutas contra a burguesia russa pelo atendimento de suas próprias reivindicações, estaria colocada a questão do socialismo.
Por outro lado, os bolcheviques acreditavam que, de fato, em 1905 acontecera uma revolução burguesa democrática na Rússia e não socialista. As tarefas a serem cumpridas por esse tipo de revolução são extirpar a monarquia, a propriedade fundiária dos nobres e os traços restantes de feudalismo. Também os bolcheviques distinguiam rigorosamente a revolução burguesa da socialista.
Entretanto acreditavam que o sujeito social da revolução burguesa na Rússia seria o operariado, seguido pelos camponeses, e não os patrões. Por isso também figurariam na agenda revolucionária, em virtude do seu próprio desenrolar, reivindicações operárias e camponesas. Relembremos que os bolcheviques intervieram com base em 3 palavras de ordem no processo revolucionário de 1905: república democrática, confisco das terras dos proprietários nobres e jornada de 8 horas de trabalho. Afirmavam que a burguesia não concluiria jamais uma revolução burguesa que derrotasse completamente o Czar porque morria de medo do proletariado e preferiria, como aconteceu em 1905, manter-se sob o jugo da nobreza a correr o risco de romper essa aliança conservadora e se expor aos golpes do proletariado. Por isso essa tarefa competia aos operários e camponeses. Numa obra clássica dessa época - Duas Táticas da Socialdemocracia na Revolução Democrática -, Lênin dizia o seguinte:
Naturalmente, numa situação histórica concreta entrelaçam-se os elementos do passado e do futuro, um caminho confunde-se com o outro. O trabalho assalariado e a sua luta contra a propriedade privada existem também sobre a autocracia, nascem mesmo do regime de servidão. Mas isto não nos impede minimamente de distinguir lógica e historicamente os grandes períodos do desenvolvimento. Pois todos nós contrapomos a revolução burguesa e a socialista, todos nós insistimos incondicionalmente na necessidade de estabelecer uma distinção rigorosa entre as mesmas, mas poder-se-á negar que, na história, elementos isolados, particulares, de uma e de outra revolução se entrelaçam? Não registra a época das revoluções democráticas na Europa uma série de movimentos socialistas e tentativas socialistas? E a futura revolução socialista na Europa não terá ainda muito e muito que fazer para completar o que ficou incompleto no terreno da democracia?
Se é verdade que os operários podiam lutar contra a monarquia ao lado da burguesia em alguma medida, não menos verdadeiro é que, pela própria dinâmica da luta de classes, logo teriam de se afastar dos patrões e levantar as suas reivindicações contra eles. Assim se justificava plenamente que os revolucionários devessem manter-se sob a direção de um partido estritamente operário e independente da burguesia. O papel independente a ser desempenhado pela classe operária e o partido revolucionário na revolução burguesa foi, na época, a principal contribuição dos bolcheviques para o amadurecimento político do proletariado russo e europeu.
O regime resultante dessa revolução era chamado por Lênin de "ditadura revolucionária e democrática do proletariado e do campesinato" e encerraria uma primeira fase. Essa revolução talvez pudesse, a depender do apoio dos camponeses russos a essa ditadura e do avanço revolucionário nos países centrais da Europa, numa segunda etapa, ajudar a levantar o proletariado dos principais países capitalistas europeus e realizar, sob a direção dos socialdemocratas, a revolução socialista mundial, desfazendo o domínio burguês imperialista. Assim, embora mantendo uma boa dose de "etapismo", Lênin vinculava a revolução democrática russa à revolução socialista européia.
Trotsky, que tinha se aliado aos mencheviques no 2º Congresso, rompeu com eles em 1904, no começo das mobilizações operárias que levaria à Revolução de 1905. O Presidente do Soviete de Petrogrado desenvolveu uma concepção original do processo revolucionário russo, distinta das 2 principais frações do POSDR.
Dos eventos de 1905, concluiu que a burguesia russa não poderia levar a luta até o final contra o Czar e a monarquia, como ficou demonstrado pelos acontecimentos. Percebeu que a força motriz da Revolução era o proletariado industrial, em aliança com os camponeses pobres. Deduziu, no entanto, que os camponeses estavam privados do desempenho de um papel independente na Revolução: ou seguiriam a burguesia ou apoiariam o proletariado. O aparecimento dos sovietes demonstrava que a classe operária, não somente detinha a liderança da Revolução, mas que, ao pegar em armas para lutar contra o czarismo e por suas reivindicações, a própria mecânica desse processo a levaria inevitavelmente a um choque contra a burguesia, como foi a luta pela jornada de 8 horas. Se o proletariado chegasse ao governo e estivesse armado, não tinha por que se submeter às imposições da burguesia.
Dessa forma, Trotsky se via diante de uma Revolução democrático-burguesa que se converteria em socialista, em virtude do seu principal sujeito social: a classe operária. Assim a força motriz da Revolução, que era o proletariado, determinaria o seu caráter.
Essa foi a primeira formulação da Teoria da Revolução Permanente, feita pelo autor, que se estruturava em torno ao sujeito social da Revolução em curso. Trotsky não chegou a dizer que o caráter da Revolução fosse socialista, como lhe atribuíram os seus críticos, senão que as tarefas democrático-burguesas somente seriam levadas a cabo por um governo operário, que no curso dos acontecimentos, tomariam medidas de transição ao socialismo. Não era uma teoria universal da revolução, mas apenas uma teoria para a Revolução na Rússia, um país atrasado, mas com uma forte classe operária.
Trotsky opunha-se à fórmula de Lênin de "ditadura revolucionária e democrática do proletariado e do campesinato" porque não acreditava que fosse requisito para a tomada do poder pelos operários russos o apoio dos camponeses em luta pela terra. Compreendia que o papel dirigente desempenhado pelos operários os levaria a realizar tarefas democráticas e socialistas ao mesmo tempo. Para obter o apoio dos camponeses, Trotsky dizia que os operários não poderiam ceder ao programa deles e abandonar o seu próprio programa. Entretanto, assim como os bolcheviques, compreendia ser impensável uma revolução socialista consolidar-se isolada na Rússia.
Diferentemente dos bolcheviques, que até mesmo em fevereiro de 1917 não entendiam o imenso valor dos sovietes, Trotsky destacou-os como organismos de duplo poder e que poderiam se habilitar a encabeçar uma insurreição. Vaticinou mesmo que eles voltariam a ser erguidos pelo proletariado da Rússia e atingiriam o âmbito nacional.
A 1ª Guerra. A Revolução de Fevereiro. O que eram e como funcionavam os sovietes? As Teses de Abril.
No ano de 1914 tem início a 1ª Guerra Mundial. As potências imperialistas lutam pelo controle da Europa e das colônias espalhadas pelo mundo. De um lado, França e Inglaterra, apoiadas pela Rússia. Do outro, Alemanha, Áustria e Itália. Os combates são encarniçados, os mortos contam-se aos milhões. Pela primeira vez, a matança no capitalismo adquire o caráter de produção industrial, tanto pelo número de mortos, quanto pela tecnologia aplicada.
O principal front russo era contra a Alemanha. O Exército russo, mal equipado e maltrapilho, amarga derrotas humilhantes.
A produção agrícola sofre com a guerra. Milhões de camponeses são incorporados ao exército, que compensa sua inferioridade técnica com carne humana. Nas cidades, os operários são obrigados a se alistar. A produção industrial cai, os preços disparam em particular o dos alimentos. O desabastecimento, tanto para as cidades como no campo de batalha, espalha a fome.
As greves se multiplicam.
A 1ª Guerra Mundial decretou a falência da 2ª Internacional, que traiu os interesses dos operários e oprimidos vergonhosamente. Os socialdemocratas alemães apoiaram a burguesia alemã na guerra que esta desenvolvia contra a França na disputa pelo controle de outros povos e mercados, indispensáveis para o aumento dos seus lucros. A Socialdemocracia francesa, por sua vez, deu toda a sustentação política às intenções imperialistas da burguesia francesa, que almejava dominar os mesmos povos e mercados, também em nome do lucro dos seus capitalistas. Com efeito, os socialdemocratas alemães disseram aos operários e soldados que neles confiavam que deviam ir, de arma na mão, abater os operários e soldados franceses, muitos destes apoiadores dos socialdemocratas franceses e vice-versa. Então, os operários e explorados, conforme o entendimento da 2ª Internacional, deveriam atirar uns nos outros em defesa do lucro dos burgueses em escala mundial. Mas é claro que os socialdemocratas alemães acrescentavam o seguinte: se os nossos imperialistas alemães vencerem o conflito, os operários de Berlim, de Munique e de Frankfurt poderão ser beneficiados com alguma migalha, deixada pela burguesia, em pagamento pelo apoio que lhes prestamos quando os tiros começarem a espocar. Portanto tudo devia ser feito para que a Alemanha vencesse. O mesmo valia para os explorados da França, que deviam dar vida pelo triunfo francês, garantia o outro socialdemocrata.
Na Rússia, o apoio à Guerra foi bem menor entre os socialdemocratas inicialmente. Aproximam-se mencheviques e bolcheviques na luta contra a 1ª Guerra. Os bolcheviques adotam uma postura derrotista e propugnam pela transformação da Guerra imperialista em guerra civil. Para eles, seria melhor a derrota do Czar porque isso facilitaria o desenvolvimento da revolução na Rússia. Martov não aceitava esse ponto de vista e propunha uma paz democrática e sem anexações.
Apesar de sua posição contrária à Guerra e a favor da mudança da política da 2ª Internacional, Martov, líder dos mencheviques, não cogitava romper com ela.
Já para Trotsky, desde o início do confronto mundial, a 2ª Internacional demonstrara ser inútil numa perspectiva revolucionária. Por isso rompia com os mencheviques em novembro de 1914. Ele, Rosa Luxemburgo e Karl Leibknecht propunham a fundação de uma 3ª Internacional. Rosa e Karl rompem o Partido alemão e criam a Liga Espartaquista.
No começo da 1ª Guerra, em novembro de 1914, a direção bolchevique é toda presa na Rússia e deportada.
Com o passar do tempo e diante dos primeiros choques armados, acabou crescendo o apoio popular à Guerra na Rússia e, conseqüentemente, as organizações socialdemocratas minguaram muito. Seguir-se-iam 3 anos - de 1914 a 1916 - de refluxo e desorganização. Segundo Trotsky, na sua A História da Revolução Russa, o recrutamento forçado para o Exército dos operários mais rebeldes e conscientes nesse período chegou à incríveis 40% do total do operariado, atingindo sobretudo a sua parcela mais especializada. Eles foram substituídos por camponeses, recém trazidos para as cidades e por mulheres.
Somente no primeiro semestre de 1916, os dirigentes exilados conseguem reorganizar o que restou do Partido Bolchevique em chão russo.
O tempo e o sofrimento realizam a sua obra. Depois de 3 anos de morte e fome na Guerra e decadência das condições de vida na Rússia, o Czar, o Exército e o que restava do pacifismo, perdem o apoio que tinham reunido antes e desmoralizam-se completamente. A indisciplina corre solta nas tropas, o descontentamento invade as fábricas e bairros operários.
Fevereiro de 1917 é o mês do levantamento espontâneo das massas. Dão-se greves, o governo anuncia o racionamento do pão, acabam os estoques de carvão. No dia 19 (no calendário russo, que estava 13 dias atrasado em relação ao nosso) as massas assaltam as padarias. No dia 23 as operárias têxteis manifestam-se maciçamente nas ruas, comemorando o Dia Internacional da Mulher. No dia 24 as greves se generalizam e os manifestantes adotam bandeiras contra o governo e contra a Guerra, às que se somam as reivindicações por comida. Os soldados disparam as armas em apoio às manifestações em 25 de fevereiro. Em 26 multiplicam-se os motins nas guarnições militares de Petrogrado. A revolta contra o governo é generalizada e incontida. Nos dias seguintes os soldados, chamados a reprimir as massas, negam-se a disparar o fuzil. Mais e mais regimentos se insubordinam, a insurreição toma os quartéis, as massas ocupavam as prisões e libertam os presos políticos. O pilar fundamental do Estado, as forças armadas, cedia. Em 27 de fevereiro de 1917 as manifestações e greves operárias se fundem com as sublevações militares. A burguesia liberal, temendo a situação, antecipa-se e forma um governo provisório, encabeçado pelo Príncipe Lvov - Primeiro Ministro, e integrado por Mliukov, principal dirigente do Partido Cadete, que ocupa o Ministério das Relações Exteriores, e Kerensky, um advogado ligado aos socialistas-revolucionários, a que cabe a pasta da Justiça. Os prédios públicos na capital da Rússia, Petrogrado, são controlados pelo Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado.
Trotsky menciona na História da Revolução Russa que a constituição desse Comitê Executivo, na verdade, antecedeu a formação do Soviete de Petrogrado. Os socialistas-revolucionários e mencheviques, diante da desestruturação do regime monárquico, provocada pela ação revolucionária das massas, aproveitaram-se da experiência de 1905, quando o Soviete de Petrogrado concentrou o seu poder num Comitê Executivo, e formaram um novo Comitê antes mesmo do Soviete ser reconstruído.
O Czar, isolado, é obrigado a abdicar. A monarquia é desmantelada e o governo provisório é obrigado a legalizar os atos das massas rebeldes: os presos políticos foram soltos, decretou-se a anistia política, direitos foram conferidos às nacionalidades oprimidas, assim como os direitos sindicais foram reconhecidos, e foi anunciada a assembléia nacional constituinte para breve.
O movimento que derrubou o Czar foi espontâneo. Surpreendeu a todos, inclusive aos dirigentes bolcheviques. Tanto que se reuniu o Comitê Central em 26 de fevereiro e recomendou que os operários agissem com a maior prudência possível. A classe operária não deu ouvidos aos conselhos do Comitê Central e, dias depois, instituía o duplo poder nas grandes cidades e derrubava a dinastia Romanov. Os operários bolcheviques, reorientando-se rapidamente, foram a vanguarda da Revolução de Fevereiro e ousaram ir muito mais longe do que admitiam os socialistas- revolucionários e mencheviques. É Trotsky quem destaca na História da Revolução Russa que os bolcheviques, imediatamente após a derrota do Czar, ainda que restritos aos marcos da democracia burguesa, levavam a luta mais à frente: exigiam a adoção da jornada de 8 horas de trabalho, realizavam detenções dos funcionários czaristas, empreendiam a criação de uma milícia operária. Tudo isso era considerado excessivo pelos socialistas-revolucionários e mencheviques e criava embaraços sérios no relacionamento desses reformistas com os liberais burgueses. Os sovietes, como previra Trotsky, renasceram. Organizaram-se com maior rapidez e cobriram todo o País.
A burguesia, a exemplo de 1905, temia mais a Revolução, protagonizada pelos operários segundo os seus próprios métodos de luta do que o Czar. Mas os operários já tinham deposto e prendido Nicolau II, antes de os outros exploradores se dessem conta da gravidade da situação. Era tolice ficar do lado do Monarca. Diante desses fatos consumados, restou à burguesia pousar de oposição à monarquia, a fim de melhor preservar os seus interesses, os interesses dos imperialistas e da nobreza e tentar conter o quanto antes a Revolução.
Fique registrado, a bem da verdade, que nem os quadros socialistas-revolucionários nem os mencheviques ocuparam postos no primeiro governo burguês que nasceu das cinzas da monarquia. Apesar disso, o Partido Socialista Revolucionário e o Menchevique, a partir do controle que tinham sobre o movimento de massas e os sovietes naquele momento, deram a base de sustentação fundamental do novo governo.
Embora ainda não se encontrasse na literatura política dessa época a expressão "frente popular", esse primeiro governo, que sucedeu o do Czar Nicolau II, embora não contasse com ministros socialistas-revolucionários nem mencheviques, era um governo de frente popular. Isso porque se baseava essencialmente no apoio que lhe davam os sovietes e o movimento revolucionário, controlados por esses partidos reformistas, que tinham a sua base social composta por camponeses e operários. Também serão frentes populares os governos provisórios posteriores, que tiveram sim quadros das organizações reformistas no ministério.
A direção central do Partido Bolchevique se encontrava na Suíça, exilada, e os quadros mais experientes, presos. A primeira resposta política aos acontecimentos de Fevereiro coube ao jovem Secretariado composto por Shiliapnikov, Zalutsky e Molotov.
Em 26 de fevereiro os bolcheviques publicam um manifesto e em 5 de março o Pravda, órgão oficial do Partido, circula legalmente, chegando a 100.000 exemplares logo no segundo número. A essência da política da jovem direção foi denunciar o governo provisório como um governo de "latifundiários e capitalistas" e exigir que o Soviete convoque uma assembléia nacional constituinte e estabeleça uma "república democrática".
Em 13 de março, com a chegada de Kamenev, Stalin e Muranov, a linha do Partido muda bruscamente. "O processo consiste numa pressão sobre o governo provisório que o leve a declarar consentir a abertura imediata de negociações de paz" passa a sustentar o Pravda.
Nahuel Moreno, revolucionário argentino, fundador a Liga Internacional do trabalhadores, já falecido, em Os Governos de Frente Popular na História, menciona que a política dos conciliadores substitui a luta de classes pela teoria dos campos. Diz Moreno que para a nova posição do Pravda não existiriam mais classes sociais em luta e sim um povo livre, que fez a Revolução de Fevereiro. Porém não só os operários e camponeses teriam derrubado o czarismo, mas também a burguesia liberal.
Segundo a teoria dos campos, no campo progressista se encontrariam as forças da Revolução: o governo provisório; a burguesia liberal com seu Partido Cadete; o Soviete, dirigido pelos mencheviques; os operários e os camponeses. No campo contrário encontrar-se-iam os "países em guerra" com a Rússia (novamente não se fala em classes mas em países). Por isso, o Partido trataria de pressionar o governo provisório, já que ele também se encontra no campo da revolução, não mais de denunciá-lo e tampouco de agitar um programa de classe.
O Partido Bolchevique se divide ante a nova política. A tensão aumenta quando, no final de março, realiza-se uma Conferência para definir a política que será defendida na 1ª Conferência dos Sovietes. Stalin apresenta uma resolução que diz: "apoiar o governo provisório em sua atividade somente quando este siga pelo caminho de satisfazer a classe operária e os camponeses revolucionários". Essa fórmula de "apoio às medidas progressivas" não se diferencia da essência da postura menchevique.
Mas não nos enganemos, apesar do ziguezague dos bolcheviques, são os sovietes que detêm o poder real na Rússia desde fevereiro e não o governo provisório. Na História da Revolução Russa, Trotsky relata que o Presidente do Parlamento, Rodzianko, quando foi chamado à Estação de Telégrafo para atender a uma mensagem do Czar, que se encontrava preso noutra cidade, disse, com medo de ser ele também detido pelos sovietes, que somente iria se os deputados operários e soldados do Soviete de Petrogrado lhe concedessem uma escolta.
Mas como o poder, das mãos dos operários e dos sovietes, passou às da burguesia? Novamente é na História da Revolução Russa, de Trotsky, que vamos encontrar a resposta à pergunta. Ele diz que nas jornadas de Fevereiro, enquanto os sovietes destruíam a monarquia e impunham-se como um poder irresistível, os bolcheviques dirigiam os setores mais decididos e avançados, reunidos nos sovietes. Passados esses primeiros dias, deram-se novas eleições para os sovietes, inclusive o de Petrogrado. Foi então que se notou o ingresso de setores mais atrasados - que não compunham a vanguarda revolucionária até então - nos conselhos. Trotsky caracterizou essa nova camada que inundou os sovietes como pequeno-burguesa. Eram oradores mais preparados e tinham um objetivo claro: conter a Revolução e salvar o poder burguês. Colocando-se entre os operários revolucionários e a burguesia reacionária, deu aos socialistas-revolucionários e aos mencheviques uma maioria sólida nos sovietes (o que Trotsky chamou de democracia pequeno-burguesa) e preservou algum poder para a burguesia.
Esses partidos reformistas advogavam a idéia de que somente a burguesia poderia, substituindo o Czar, convocar a assembléia constituinte e negociar a paz. Acreditavam que era indispensável o apoio dos aliados da Rússia na 1ª Guerra para construir um regime democrático-burguês no País após o final do conflito militar. Daí a manutenção da Rússia na Guerra ao lado da Inglaterra e da França. Além disso, a Guerra podia ser útil. As massas gastariam a sua energia revolucionária na "defesa da Pátria ameaçada", capitaneadas pela sua própria burguesia, como acontecia nos demais países europeus, e, cansadas, não teriam forças para levar a revolução adiante. Segundo essa concepção, os sovietes já tinham cumprido integralmente o seu papel ao derrubar o Czar e agora teriam que deixar a cena para que a burguesia seguisse governando. Arrastaram os sovietes para essa política dando apoio ao governo provisório burguês e exigiam apenas liberdade de agitação para as organizações de esquerda: nada mais.
A esse primeiro seguiram-se outros governos burgueses provisórios instáveis entre fevereiro e outubro de 1917. Eram instáveis porque tinham frutificado da Revolução encabeçada pelo proletariado por um lado, e por não conseguirem destruir ou esvaziar os conselhos por outro. Viu-se na Rússia uma luta entre 2 poderes. Enquanto o novo governo buscava recompor o regime burguês destroçado pela Revolução de Fevereiro e deter o movimento, os operários e o povo realizavam a sua vontade dinamicamente por intermédio dos sovietes, encontrando-se o Soviete de Petrogrado à frente. Eram 2 concepções de poder e de democracia incompatíveis, vinculadas a 2 classes sociais irremediavelmente contrapostas. Da solução dessa contradição - o duplo poder - dependeria o futuro da Rússia.
A continuidade e resistência desse duplo poder, encarnado nos sovietes, mesmo depois da queda do Czar e posse do governo provisório não cabia no esquema "etapista" ainda sustentado por Lênin. Era de se esperar que o novo poder burguês se impusesse de maneira absoluta, suprimindo qualquer resistência operária. Mas não foi assim. Esse novo fato exigia uma explicação. Segundo Trotsky, na História da Revolução Russa, a permanência do duplo poder foi decisiva na mudança da concepção de Lênin sobre a Revolução que se desenrolava na Rússia e na guinada de 180º da política do Partido Bolchevique que está prestes a ocorrer.
O que eram os sovietes nessa época? Os conselhos eram organismos revolucionários por excelência. Através deles as massas decidiam que rumo teriam as mobilizações e coordenavam as suas lutas. Porém não eram órgãos de representação ou coordenação de luta, como um sindicato ou um comando de greve, eram instrumentos de poder que rivalizavam com o Estado e suas instituições, uma vez que os sovietes impunham as medidas necessárias para o funcionamento da vida social em todas as esferas, desde os serviços públicos, até a defesa militar de cidades, passando pelas questões policiais e de abastecimento de água e alimentos. Eram, portanto, organismos de poder universal dos operários e da revolução na visão tomada emprestada de Trotsky (A História da Revolução Russa).
Funcionavam o mais próximo possível dos locais de trabalho nessa época. Conforme Pierre Broué, na sua célebre obra, só mesmo os sovietes de camponeses funcionavam com base na democracia direta, exercida por assembléias gerais, os demais exigiam alguma forma de representação. Esses representantes dos sovietes eram chamados deputados e compunham o congresso do soviete. Assim os conselhos de fábrica ou de bairro elegiam delegados para o congresso do soviete do distrito, por exemplo, e, depois, segundo esse funcionamento, os do distrito elegiam os do congresso do soviete da cidade, em seguida, do da província e, no final da cadeia, estaria o Congresso do Soviete Pan-Russo.
O direito de voto nos sovietes não era universal nem igualitário. Os empregadores e profissionais liberais não tinham direito de voto. Aqui ressaltamos que o próprio Lênin, em 1918, assegurava que essa regra poderia não ser a mais indicada para outras nações ou em tempos diferentes. Embora os camponeses pudessem eleger delegados para os congressos dos sovietes, faziam-no segundo uma proporção desfavorável em relação à utilizada para os operários. Por exemplo, para os congressos do Soviete Pan-Russo, cada 25.000 operários elegiam 1 delegado, sendo necessários 125.000 camponeses para eleger 1 delegado (uma proporção de 5 por 1 em prol dos operários). O privilégio na representação operária se devia à sua hegemonia na Revolução e contrabalançava o maior peso numérico dos camponeses. Essa seria uma das condições para que se desse a fusão dos sovietes de operários e camponeses mais tarde.
Os mandatos dos deputados eram revogáveis a qualquer tempo pela sua base. As eleições eram feitas de acordo com o costume das gentes, dispensando normas burocráticas previamente estabelecidas. Todavia a periodicidade das eleições para os congressos dos sovietes locais era trimestral. O Congresso Soviete Pan-Russo teria de se reunir pelo menos 2 vezes ao ano inicialmente. Mais tarde, no 1º Congresso decidiu-se que se reuniria trimestralmente. Os congressos dos sovietes elegiam um comitê executivo para executar as medidas aprovadas.
Os sovietes eram muito mais sensíveis aos eventos políticos do que os órgãos parlamentares oficiais. Embora fossem organismos representativos, se a vontade das massas fossem além da direção dos sovietes, e esta se convertesse em um obstáculo conservador, as massas mobilizadas poderiam, sem maior formalidade, substituir a direção indesejada por outra, mais sintonizada com os seus interesses. Essa vantagem, sobretudo durante episódios revolucionários, foi inestimável.
As diferenças partidárias se manifestavam nos sovietes. A questão da paz e do suprimento de alimentos para as cidades, que escasseavam desde março de 1917, dividia os deputados soviéticos e os partidos políticos. Mais tarde surgirão outras diferenças, principalmente sobre a permanência de burgueses nos governos e tomada do poder pelos sovietes.
Do seu exílio, na Suíça, Lênin acompanha os acontecimentos de sua terra natal. Escreve 5 cartas à direção do Partido na Rússia, que posteriormente ficam conhecidas como Cartas de Longe. Apenas uma destas cartas é publicada. Nela Lênin explica que: "É absolutamente inadmissível fingir desconhecer e dissimular ao povo que este governo pretende a continuação da guerra imperialista, que é o agente do capital inglês e pretende a restauração da monarquia e a consolidação do domínio dos proprietários de terras e capitalistas." Nas demais cartas Lênin manifesta sua contrariedade à política expressa no Pravda.
Lênin pisa o solo russo em 3 de abril. No dia seguinte ele apresenta à Conferência do Partido Bolchevique as suas célebres Teses de 4 de Abril. Segundo o entendimento do dirigente bolchevique, era tempo de afastar pontos de vista anteriores que tinham sido superados pelos fatos e preparar o Partido para os próximos eventos. Lênin rompia com suas próprias formulações anteriores e se aproximava das de Trotsky, que ainda não conseguira voltar à Rússia, assim como reprovava a política oportunista adotada na Rússia frente ao governo burguês sob a inspiração de Kamenev e Stalin.
Os eixos fundamentais das Teses, conforme consta em V. I. Lênin, Obras Escolhidas em Três Tomos, 2º volume, são os seguintes:
1) É necessário explicar a ligação indissolúvel entre o capital e a guerra imperialista, e que era impossível acabar com a guerra com uma paz verdadeiramente democrática sem lutar contra a burguesia, e o governo provisório representava os interesses da burguesia.
2) "A peculiaridade do momento atual na Rússia consiste na transição da primeira etapa da revolução, que deu o poder à burguesia por faltar ao proletariado o grau necessário de consciência e organização, para sua a segunda etapa que deve colocar o poder nas mãos do proletariado e das camadas mais pobres do campesinato."
3) "Nenhum apoio ao Governo Provisório, explicar a completa falsidade de suas promessas [...]."
4) "Explicar as massas que os sovietes são a única forma possível de governo revolucionário e que, por isso, enquanto este governo se deixar influenciar pela burguesia, a nossa tarefa só pode consistir em explicar os erros da sua tática de modo paciente, sistemático, tenaz, e adaptado especialmente às necessidades práticas das massas.Enquanto estivermos em minoria, desenvolveremos um trabalho de crítica e esclarecimento dos erros, defendendo ao mesmo tempo a necessidade que todo o poder do Estado passe para os soviets [...]".
5) Não uma república parlamentar - regressar dos sovietes a ela seria dar um passo atrás.
6) O seu programa agrário defende que o centro de gravidade passe para os sovietes de trabalhadores assalariados agrícolas, o confisco do latifúndio e a nacionalização das terras, dispondo delas os sovietes locais.
7) Propõe a fusão dos bancos numa única instituição, controlada pelos sovietes.
Na 8ª tese, Lênin define que não é tarefa imediata a implementação do socialismo, "mas apenas passar imediatamente ao controle da produção social e da distribuição dos produtos porparte dos soviets."
9) A seguir sugere, entre outras coisas, a mudança de nome do partido para "Partido Comunista", como forma de diferenciar-se dos partidos da 2ª Internacional que apoiavam a Guerra.
10) Conseqüentemente propõe a construção de uma nova Internacional.
Na parte do documento que trata da dualidade de poderes, extraída da mesma obra, afirma o seguinte:
Uma particularidade extremamente notável da nossa revolução consiste em que ela gerou uma dualidade de poderes. É preciso, antes de mais nada, compreender este fato; sem isso será impossível ir avante. É necessário saber completar e corrigir as velhas 'fórmulas', por exemplo, as do bolchevismo, porque, como se demonstrou, foram acertadas em geral, mas a sua realização concreta revelou-se diferente. Ninguém antes pensava nem podia pensar na dualidade de poderes.
Em que consiste a dualidade de poderes? Em que ao lado do Governo Provisório, o governo da burguesia, se formou outro governo, ainda fraco, embrionário, mas indubitavelmente existente de fato e em desenvolvimento: os soviets de deputados operários e soldados.
Lênin, sempre tendo em sua mira a revolução mundial, chega a propor, nas Teses de 4 de Abril, a mudança do nome da sua organização para Partido Comunista e a construção uma nova Internacional, em substituição à 2ª Internacional, que traíra os trabalhadores, atirando-os nas trincheiras da 1ª Guerra.
Os dirigentes do Partido bolchevique não acolheram as novas teses instantaneamente, ao contrário, criticaram-nas acidamente. Apenas para ilustrar o tom da recepção das novas idéias nos meios dirigentes bolcheviques, o Pravda em sua edição de 8 de abril, comentava que era inadmissível o esquema de Lênin porque implicaria reconhecer que já estavam cumpridas as tarefas da revolução democrática burguesa e a revolução em curso deveria se transformar em revolução socialista.
Entretanto, em menos de 1 mês, já no final de abril de 1917, o Partido Bolchevique, ressalvada uma pequena oposição, tinha-se inclinado para a posição de Lênin.
Como se pode explicar isso? Sem dúvida Lênin gozava de imenso prestígio no Partido. Mais importante que isso: os operários bolcheviques já tinham, nas ações que protagonizaram em fevereiro, contra a vontade dos socialistas-revolucionários e mencheviques e enfrentando o governo provisório, demonstrado que a vocação daquela Revolução era socialista. Ademais, os bolcheviques não poderiam se resignar, considerando toda a sua luta contra o menchevismo, a conciliar com a burguesia e a nobreza e pôr-se sob a direção destas classes inimigas. Lênin foi alcançando a maioria do Partido velozmente, começando pela imensa base operária até chegar à direção na Conferência partidária acontecida de 24 a 29 de abril em Petrogrado. Nesses tempos a organização contava 79.000 membros, sendo 15.000 de Petrogrado.
As Jornadas de Abril e de Julho
A Rússia não tinha se preparado adequadamente para Guerra e conhecia seguidas derrotas frente aos exércitos alemães, bem melhor trinados e equipados. Com efeito, no lado russo a hierarquia militar cedia à desobediência maciça: os subalternos encaravam os chefes e os desafiavam. Muitas vezes os soldados agrediam fisicamente mesmo os altos oficiais czaristas que os tinham chicoteado brutalmente no passado. A deserção da soldadesca, que diminuíra imediatamente após a Revolução, aumentava depois de abril de 1917.
As tropas ansiavam desesperadamente pela paz. Os soldados, em sua grande maioria de origem camponesa, queriam voltar imediatamente para as suas famílias e lavouras.
Mas Miliukov, Ministro do Exterior, tinha outros planos. Em 23 de março, anunciou uma ofensiva do Exército russo, com o objetivo de anexar partes da Turquia, Armênia, Áustria e Irã (então chamado Pérsia). Isso implicaria enviar mais 200.000 ou 300.000 homens para os combates. O governo de conjunto continuou paralisado: nem confirmava nem desautorizava o plano do Ministro.
A reação popular, diante da demora do governo provisório em pôr fim à participação russa na guerra e do anúncio da nova ofensiva, não tardou 1 mês sequer. No dia 20 uma manifestação contra a guerra reuniu operários seguidos por cerca de 25.000 a 30.000 militares armados em frente à sede do governo provisório.
No dia seguinte foi ainda maior a segunda manifestação. Agora eram operários, convocados pelo Partido Bolchevique de Petrogrado, que se reuniram em frente ao prédio onde funcionava o governo. Na passeata se liam cartazes com as inscrições "Vivam os sovietes!".
O General Kornilov, chefe militar da região de Petrogrado, apresentou-se perante o Comitê Executivo do Soviete, dizendo que tinha condições de dissolver as manifestações pela força das armas. O Soviete, no entanto, recusou a oferta.
Kornilov se fez de bobo e reuniu suas tropas no pátio da sede do governo, enquanto o Partido Cadete, da burguesia liberal, preparava-se para uma manifestação em apoio a Miliukov e ao governo provisório. A proposta de Kornilov desvendava-se como parte de uma provocação burguesa.
A manifestação dos bolcheviques não chegou a se chocar frontalmente com a dos cadetes e com as tropas de Kornilov. Apesar disso, houve troca de tiros e alguns mortos inclusive. O governo, acobertando os provocadores, atribuiu os disparos a desclassificados cuja identidade era desconhecida.
A impaciência pelo prosseguimento da guerra e a desconfiança nos socialistas-revolucionários e mencheviques, assim como na burguesia e no governo, aumentava rapidamente entre as massas.
Os bolcheviques seguiam sendo um grupo minoritário. O Partido ainda buscava uma melhor localização política e preparava a sua Conferência do final de abril. A Conferência de 24 a 29 de abril, que aprovaria as Teses de 4 de Abril, de Lênin, também criticaria o uso pelos seus militantes de Petrogrado de palavras de ordem pela deposição do governo provisório naquele momento. Considerando a maioria conciliadora que dirigia os sovietes, não havia condições para que eles tomassem o poder e varressem o governo burguês. Além disso, a burguesia poderia se utilizar dessa má política para desencadear, com apoio das massas, uma reação contra a Revolução e fazê-la retroceder. Por outro lado apoiou o uso de palavras de ordem em prol dos sovietes.
Miliukov, um dos principais membros do governo, acabou vendo a sua ofensiva guerreira desautorizada pelo Comitê Executivo do Soviete e pelos próprios liberais, renunciando em 5 de maio ao posto governamental.
No início de maio, devido à crise política que beirava uma guerra civil, forma-se um novo governo. Ainda que o príncipe Lvov seguisse como Primeiro Ministro, entram 6 membros dos soviets no governo: 2 pastas são entregues para os socialistas-revolucionários, 2 para os mencheviques e outras 2 para socialistas independentes. Consuma-se uma frente popular clássica na Rússia. Às massas parecia que os deputados mais capazes dos sovietes agora iriam prosseguir a sua luta no interior governo. O Soviete de Petrogrado aprovou o ingresso dos reformistas no governo. Contar-se-iam 6 ministros do Partido Socialista Revolucionário em 15 e Kerensky, também pertencente aos SRs, seria o Ministro da Guerra e da Marinha. Apenas os bolcheviques desaprovaram a coligação.
Na mesma sessão do Soviete que consagrou a coligação das organizações políticas operárias e camponesas com a burguesia e a nobreza, ocorrida em 5 de maio, discursa Trotsky, que conseguira ingressar na Rússia na véspera. Declara que a política das massas devia seguir 3 diretrizes: nenhuma confiança na burguesia, controle sobre os dirigentes e que as massas deveriam contar unicamente com as suas próprias forças.
A coligação veio justamente no intuito de esvaziar os sovietes. Afinal se os próprios dirigentes dos sovietes agora são ministros e poderiam pôr a seu serviço a máquina estatal, não seria natural o enfraquecimento e desaparecimento dos sovietes?
Tão logo assume, o novo Ministro socialista da Guerra e da Marinha anuncia o seu plano para retomar a ofensiva na Guerra. Espera que as massas o apóiem naturalmente. O discurso oficial mostra a ofensiva como a maneira de expandir a Revolução e a democracia para outros países e afastar o imperialismo alemão, que agride a Rússia. Tratar-se-ia de uma guerra patriótica revolucionária. Esse seria o primeiro desafio para os sovietes sob a nova coligação governamental.
A assembléia nacional constituinte seguia em banho-maria. A opressão de diversas nacionalidades pelos grão-russos (nacionalidade que oprimia as demais historicamente) também era ignorada pelo governo.
Os operários e as tropas da Capital não se enganam como o apelo patriótico. Novamente tomam as ruas da Capital, manifestando-se contra a guerra e, de novo, registram-se choques com os defensores da guerra.
Em meados de junho o Exército russo avança sobre as linhas alemãs. Os alemães haviam recuado momentaneamente, para desferir um contra-ataque mais potente. É o que ocorre. Em meados de julho, os militares russos são obrigados a reconhecer que a ofensiva militar não passou de um fiasco.
Logicamente os generais batem no peito, exaltam a sua máscula virilidade e inteligência técnica para, em seguida, atribuir a causa da derrota na batalha ao caos provocado pela Revolução. Conseqüência: na tropa crescem a deserção e a insubordinação.
Se as coisas vão de mal a pior na frente de combate, no campo russo acontece nada menos que uma Revolução agrária. Em junho de 1917 os socialistas-revolucionários, em seu Congresso, adotaram uma resolução condenando apropriações arbitrárias de terra antes que a assembléia constituinte deliberasse sobre a matéria. Porém a revolução no campo continuou a sua marcha, sem dar ouvidos aos SRs. Os comitês agrários organizam a tomada de terras e a sua distribuição massivamente. Os campesinos realizam o seu Congresso soviético e também elegem um Comitê Executivo. O camponês segue as pegadas deixadas pelo operário e pelo soldado.
Desde então as mais importantes questões passarão a ser deliberadas em sessões conjuntas do Comitê Executivo do Soviete dos operários e soldados e do Comitê Executivo do Soviete dos camponses.
Os bolcheviques, na sua Conferência de fins de abril, decidiram lutar pelo campesinato. No entanto não capitulariam ao programa dos socialistas-revolucionários, que dirigiam as massas camponesas. Inclusive não descartavam a possibilidade de os camponeses acompanharem a burguesia num momento revolucionário crítico.
A situação econômica se deteriorava em virtude da manutenção do esforço de guerra. As grandes cidades não tinham o que comer. A Petrogrado e Moscou, por exemplo, chegava apenas 10% do pão necessário. Não havia manteiga nem açúcar.
A burguesia realiza lockouts e sabotagens da produção na tentativa de sufocar a Revolução. O Partido Bolchevique exigiu que o Comitê Executivo determinasse a prisão de 50 ou 100 dos maiores burgueses da Rússia em represália ao boicote da produção. O Soviete não acatou a sugestão.
A relação íntima entre a economia e a política, que sempre fora ocultada, porque se atribuía ao Estado motivações míticas, como o bem comum, o interesse público, os valores da Pátria, mostrava-se aos olhos do povo. As massas começam a perceber os interesses materiais das classes sociais antagônicas por trás dos agentes políticos e frases ocas.
Aproveitamos esse ponto do texto, em que falamos um pouco de consciência de classe, para fazer outro parêntesis: Os espetaculares fatos revolucionários ensinaram muito e rapidamente ao povo, é certo. Mas não nos enganemos, a presença e o trabalho tenaz do Partido Bolchevique é que permitirão que o nível de consciência das massas se desenvolva até chegar à conclusão de que teriam, elas mesmas, por intermédio dos sovietes, que tomar e exercer o poder político. Os bolcheviques, como veremos, serão hábeis condutores das massas no processo revolucionário: indicarão o melhor rumo a seguir, advertirão dos perigos e armadilhas mortais que os exploradores, os SRs e mencheviques espalharão pelo caminho. No momento decisivo, do tudo ou nada, encabeçarão a insurreição e entregarão as chaves do Palácio de Inverno, sede do governo da Rússia, nas mãos dos sovietes. Não vacilarão e exercerão a única ditadura revolucionária do proletariado da história.
Opinamos, antecipando um pouco nossas conclusões, que as massas russas mesmo dotadas de todo aquele heroísmo e impetuosidade, mesmo tendo diante de si um inimigo relativamente débil, como a burguesia russa, por si só, sem a direção de um partido revolucionário, não chegariam a conquistar o poder.
Inicialmente, apenas nas fábricas os bolcheviques cresceram e superaram os reformistas. No começo de junho os bolcheviques tornam-se mais influentes do que os conciliadores em Petrogrado. Crescem muito também nos comitês de Moscou. Os comitês de fábrica, diga-se de passagem, ultrapassam em consciência e atividade os sovietes. Nos sindicatos, que conheceram um grande aumento no número de filiados, também proliferaram os delegados bolcheviques em detrimento dos socialistas-revolucionários e mencheviques. Depois os bolcheviques se tornam maioria em diversos outros sovietes.
O Partido Bolchevique realizou uma propaganda intensa antes da tomada do poder de Outubro, "explicando pacientemente" - na famosa expressão cunhada por Lênin - o caráter de classe do governo e a natureza imperialista da Guerra, a necessidade de não confiar na burguesia, de fortalecer a fração bolchevique nos sovietes etc. Eles não brincavam em serviço: o Partido passou de 15.000 integrantes em abril de 1917 para 72.000 em junho daquele mesmo ano apenas em Petrogrado.
Em 3 de junho reunir-se-ia em Petrogrado o 1º Congresso Pan-Russo dos Sovietes. O Congresso representava cerca de 20.000.000 de operários, soldados e camponeses que prestigiavam os sovietes em toda a extensão da Rússia. Os bolcheviques somavam menos de 20% dos deputados eleitos.
O Partido não poderia perder a chance de jogar os operários e soldados mais avançados da Rússia - os de Petrogrado - sobre o conjunto dos deputados soviéticos e contagiá-los com a política revolucionária. Por isso convocaram uma manifestação pacífica a se realizar durante o Congresso. A bandeira principal, definida pela direção do Partido para o evento, foi "Abaixo os 10 Ministros capitalistas!". Ela traduzia a política de opor os reformistas aos burgueses e explodir a coligação ou, caso os conciliadores mantivessem a burguesia e a nobreza no governo, ajudaria as massas a romper com os conciliadores.
Todavia, durante a preparação da manifestação nas fábricas e quartéis, os operários e soldados decidiram acrescentar outra bandeira à manifestação: "Todo o poder aos sovietes!".
O Comitê Executivo do Soviete, controlado pelos mencheviques e SRs, por mais perdido que estivesse, não poderia permitir tal manifestação e o Congresso votou uma resolução proibindo qualquer ato público por 3 dias.
Diante da decisão do Congresso, e considerando a hipótese de represálias violentas por parte da burguesia, que poderiam transformar a manifestação pacífica no início de uma insurreição, o Partido recuou e desmarcou a manifestação. O recuo dos bolcheviques foi aceito pelos operários e soldados, mas não sem protestos. As massas de Petrogrado estavam se deslocando para uma posição à esquerda do Partido Bolchevique. Lênin, mais tarde, reconhecerá que os bolcheviques não conseguiram perceber esse movimento espontâneo das massas para a esquerda. Essa desatenção ao ânimo das massas repercutirá em breve.
A partir do conhecimento da proposta de manifestação dos bolcheviques para pressionar o Congresso dos Sovietes, os socialistas-revolucionários e mencheviques mudaram completamente de atitude em relação a eles. De adversários, passaram a encará-los como os piores inimigos da revolução, como Partido que estivesse planejando um golpe de estado. Importantes líderes reformistas, sabedores de que os bolcheviques tinham imensa influência entre os soldados da Capital, passaram a exigir que o Soviete da Cidade tomasse medidas para desarmar os bolcheviques, substituindo as tropas de Petrogrado por outras dignas de confiança.
Tanto no que diz respeito à proibição da manifestação dos bocheviques pelo Congresso dos Sovietes, como à exigência de transferência de tropas militares de Petrogrado, dirigida pelos reformistas ao Soviete, vê-se a que ponto chegava o duplo poder na Rússia. Eram o Congresso dos Sovietes e o Soviete de Petrogrado que detinham de fato o poder. De outro lado, verifica-se que se aproximava um momento decisivo que marca todas as grandes revoluções: o de saber em mão de quem estão as armas. A Revolução de Outubro está amadurecendo.
Diante da renúncia dos bolcheviques à manifestação, as tropas de Petrogrado permaneceram intocadas por enquanto. Houve um recuo mútuo.
O Congresso ainda resolveu convocar, ele próprio, uma manifestação para dia 18 de junho, a fim de medir forças e derrotar o Partido Bolchevique.
Pois bem, na manifestação do dia 18 os bolcheviques superaram todos os seus inimigos e inundaram Petrogrado com bandeiras vermelhas exigindo "Abaixo os 10 ministros capitalistas!", "Abaixo a ofensiva!", "Todo o poder aos sovietes!".
A partir dos episódios de junho, o Partido Bolchevique tornou-se uma força política visível em toda a Rússia. Isso, como foi dito, já exigia e exigiria ainda mais e mais cuidados táticos dos revolucionários.
A Rússia seguia na 1ª Guerra e o governo se individara absurdamente para sustentar o esforço militar. A ofensiva militar tinha falhado em toda a sua extensão e os russos sofriam revés após revés. A miséria do povo aumentava. O Partido havia demonstrado que superava os socialistas-revolucionários, mencheviques e cadetes em Petrogrado. Nessa situação os operários e soldado se perguntavam: Por que, diabos, não tomamos o poder agora mesmo?! Por que não damos um safanão no governo e entregamos o poder ao Soviete?! Por que não fazemos a paz e distribuímos a terra aos camponeses?! As conhecidas Jornadas de Julho, acontecidas entre 3 e 5 de julho de 1917, mostrarão categoricamente que as massas de Petrogrado e também de Kronstadt estão mais e mais à esquerda dos bolcheviques e que a sua paciência está chegando o fim.
No início de julho, de novo, espontaneamente, os quartéis se agitam. No dia 2 de julho 4 ministros cadetes abandonam o governo. Pairava no ar a notícia do envio de tropas de Petrogrado para a frente de combate. Aparentemente foram esses os fatos que levaram os soldados a se inclinarem pela realização de uma manifestação armada. Os quartéis da região, uma após outro, aderiam à manifestação. Os dirigentes bolcheviques, no interior das unidades militares, não conseguiam conter o clamor pela demonstração armada. Fique claro que entre os operários havia bem menor entusiasmo.
Em 3 de julho o Partido Bolchevique de Petrogrado, em meio à sua Conferência, foi informado da decisão de realizar a manifestação armada pelos militares organizadores. Os dirigentes bolcheviques entendiam que uma manifestação como aquela só se justificaria se fosse forte e ampla o suficiente para tomar e, depois, derrotando todos os inimigos da revolução, manter o poder político. Segundo a direção do Partido, não havia ainda condições para desferir esse golpe final. Conforme Trotsky, na História da Revolução Russa, os bolcheviques da Capital disseram que os regimentos que organizavam a demonstração de força não agiram com camaradagem em relação aos bolcheviques, que o Partido se opunha a manifestação, tendo em vista as condições políticas do momento, e que entregariam ao Comitê Executivo do Soviete um documento propondo que o mesmo tomasse o poder em suas mãos.
Em seguida o Comitê Central do Partido Bolchevique referendou a decisão dos militantes de Petrogado.
Inútil. Na tarde de 3 de julho os militares e operários tomaram as ruas em direção à sede do Comitê Executivo do Soviete da Rússia, agora reforçados pelos marinheiros de Kronstadt. Diante desse fato, os membros do Comitê Central do Partido Bolchevique presentes na Conferência reviram a posição e orientaram que o Partido tomasse a dianteira da manifestação. Apelaram, entretanto, para que se evitasse o uso da força. Quando os manifestantes souberam da nova posição bolchevique, aplaudiram entusiasticamente. As faixas e cartazes eram os mesmos da passeata de 18 de junho: "Abaixo os ministros capitalistas!", "Abaixo a ofensiva!", "Todo o poder aos sovietes!".
O Comitê Executivo do Soviete, desesperadamente, pedia que tropas leais a ele se deslocassem para Petrogrado a fim de defendê-lo. Alguns contingentes atenderam ao apelo dos reformistas.
Durante a passeata, os manifestantes foram alvejados por disparos vindos das casas localizadas no trajeto e revidaram. Seguiram-se tiroteios e escaramuças entre os manifestantes e as tropas leais ao Comitê Executivo por toda a Cidade. Naturalmente houve mortos. À noite novas tropas governistas chegaram a Petrogrado. Os manifestantes erguem barricadas, enfrentam os militares governistas de igual para igual e os obrigaram a recuar.
Em frente à sede do Comitê Executivo do Soviete, um Ministro chegou a ser detido por breves instantes, mas, a pedido de Trotsky, foi solto.
À noite representantes dos manifestantes foram finalmente admitidos e ouvidos na sessão do Comitê Executivo. Exigiram que os capitalistas saíssem do governo e que o Soviete tomasse o poder e distribuísse a terra. A sessão era interrompida a cada instante. Entretanto os conciliadores, alegando que as circunstâncias de então não permitiam, recusavam-se a ceder aos manifestantes e se agarravam à burguesia.
Por fim, na noite de 4 de julho, os próprios bolcheviques pediram que a massa se dispersasse e se evitassem mais violências se possível.
Somente na madrugada do dia seguinte, quando os manifestantes já se tinham recolhido, chegaram à sede do Comitê Executivo do Soviete da Rússia as tão desejadas tropas leais a ele e ao governo.
As Jornadas de Julho, como ficou conhecido esse episódio, além de não poderem realizar as aspirações dos soldados, custaram caro aos revolucionários, principalmente aos bolcheviques. O governo, assim que passou o frisson, resolveu mostrar que, apesar do sobressalto, ainda respirava. Os regimentos militares mais revolucionários de Petrogrado foram dissolvidos: transferiram-se cerca de 90.000 soldados para outras guarnições, outros tantos foram indiciados judicialmente. No campo de batalha a alta oficialidade encontrou forças para reintroduzir os castigos físicos aos soldados acusados de indisciplina. Foi imposta a pena de morte na frente de combate. Operários foram desarmados e presos. Kamenev e Zinoviev são presos. Trotsky, embora não integrasse ainda o Partido Bolchevique, também foi aprisionado. Outros bolcheviques foram impelidos à clandestinidade, inclusive Lênin, que passou escondido de 6 de julho até a tomada do poder, em 25 de outubro. A sede utilizada pelo Partido foi retomada pelo governo e a do jornal destruída pelos militares. As sucessivas publicações tentadas pelos bolcheviques foram todas interditadas. O Partido viu-se, de repente, desde meados de julho, de novo, praticamente na ilegalidade.
Aproveitando-se da nova situação favorável, a imprensa burguesa publica noticia que Lênin agia seguindo ordens e a soldo da espionagem alemã. Evidentemente não havia prova. Mesmo os mencheviques, embora não acreditassem na invenção, não moviam um dedo sequer para defender o caluniado.
Após os conflitos de julho, o poder verdadeiro se deslocou para os chefes militares e para a grande burguesia e os cadetes. No outro pólo, os sovietes saíram das Jornadas de Julho bem enfraquecidos.
Os conciliadores, em sessão conjunta do Soviete da Rússia, aprovaram a conversão do governo provisório em governo de salvação da revolução, já que esta estaria em perigo, segundo diziam, devido à ação combinada dos bolcheviques e dos alemães. Não pararam por aí: dotaram o governo de poderes ditos ilimitados. A resolução foi aprovada contra a abstenção da perplexa bancada bolchevique.
Deu-se nessa conjuntura adversa, em 26 de julho, o 6º Congresso do Partido. Na verdade foi um Congresso conjunto com a organização dirigida por Trotsky - a Interdistrital dos Social-democratas Internacionalistas Unificados. No Congresso foi oficializada a entrada no Partido Bolchevique da organização Interdistrital, cuja principal figura era Trotsky, mas que contava com cerca de 4.000 militantes, e destacados revolucionários como Lunatcharsky, Ryazanov, Joffe, Malnuilsky, Uritsky e outros. Os 175 delegados representavam 176.750 membros. Em Petrogarado contavam-se 41.000, sendo 36.000 bolcheviques, 4.000 da organização Interdistrital e 1.000 da organização militar. Em Moscou o Partido somava 42.000. Os demais espalhavam-se pelas principais regiões do País.
Nesse 6º Congresso, diz-nos A História da Revolução Russa, foram discutidas questões vitais. A primeira que abordaremos será a tomada do poder e do papel dos sovietes.
Os delegados ao Congresso decidiram suprimir, temporariamente, da agitação partidária a palavra de ordem "Todo o poder aos sovietes!", que ocupara o papel central no período imediatamente anterior.
Por que agiram assim os bolcheviques? Porque, como já veremos, eles valorizavam muito mais o conteúdo do poder operário, expresso nas suas bandeiras políticas e mobilizações, do que a forma soviética de que ele se revestia. Eram duros como aço no respeito aos princípios e na perseguição das estratégias, mas eram muito flexíveis no terreno da tática e das palavras de ordem. Além disso, eram políticos realistas. Mediam e comparavam minuciosamente as suas forças, as do movimento e também as dos inimigos. O objetivo do Partido Bolchevique no período anterior, quando levantava a bandeira "Todo o poder aos sovietes!" era, em conseqüência de uma intervenção correta na luta de classes e do amadurecimento da situação política, conquistar a maioria nos sovietes pelo voto das massas nas instâncias soviéticas. Então o Partido dotaria os conselhos do seu programa, e exerceria o poder por seu intermédio. Atenção: segundo o registro de Trotsky na História da Revolução Russa, os bolcheviques poderiam chegar ao poder pacificamente e almejavam mesmo isso. Ele nos diz que nos meses decisivos de abril e maio - antes das Jornadas de Julho - o Partido se esforçou para obter, pela via do controle dos sovietes, o poder sem necessitar recorrer a uma insurreição armada.
Depois das Jornadas de Julho, a situação mudou radicalmente. O poder político real passou dos sovietes para as mãos das camarilhas militares ligadas ao Partido Cadete, à grande burguesia russa e às embaixadas imperialistas. Nessa nova circunstância, bastante adversa, propor às massas que reclamassem para os sovietes o poder ofereceria aos militares e à burguesia a desculpa para massacrar os operários, soldados e mesmo os sovietes sob a acusação de golpe e usurpação do poder governamental. De fato, nessa nova conjuntura, explica-nos Trotsky, a luta direta dos sovietes pelo poder deveria conduzir, inevitavelmente, à insurreição armada contra a camarilha militar. Além do mais, seria insensato chamar os operários e soldados a lutar de arma na mão pelo poder dos sovietes se os conciliadores, que se achavam na direção dos conselhos, não desejavam o poder para si. Manter a palavra de ordem de antes nessa situação não passaria de ingênua provocação.
Nesse período os sovietes, em virtude da política da sua direção, enfraqueceram-se extremamente. De um modo geral, converteram-se em órgãos passivos primeiramente, e em inimigos das massas e dos bolcheviques em seguida.
Em tais condições, era impensável a passagem do poder para o proletariado pela via pacífica. Seria necessária uma insurreição no futuro. Mas ela se daria sob qual palavra de ordem? Que organismos dirigiriam essa luta? Sem dúvida o poder deveria passar aos operários e camponeses pobres. Mas não era possível, naqueles dias, identificar quais os organismos de que eles se serviriam para obtê-lo. Tal era a prostração dos sovietes, que Lênin, embora ainda os mantivesse entre as cartas que tinha na mão, no âmbito interno do Partido chegou a pensar na hipótese de que o papel antes jogado por eles pudesse, doravante, caber a outros organismos da classe, como os sindicatos e os comitês de fábrica, que estavam à esquerda dos conselhos. Porém, na agitação, o Partido Bolchevique passou a trabalhar com a política de passagem do poder para os operários e camponeses pobres, sem definir quais organismos das massas seriam capazes de encarnar esse poder. Esse problema não poderia ser resolvido pelo Partido. O Partido teria de esperar que as massas lhe apontassem qual seria o seu órgão de poder.
Portanto os bolcheviques não se apegaram à forma soviética que vinha adotando o poder do proletariado desde fevereiro, mas sim ao conteúdo desse poder, a luta dos operários e camponeses pobres.
Os bolcheviques mantiveram-se firmes na oposição frente às diversas composições governamentais burguesas e à Guerra, mas procuravam sempre ser flexíveis nas suas táticas políticas.
No 6º Congresso o Partido adverte o movimento de massas para que não cedesse perante a provocação burguesa, destinada atraí-lo para a luta aberta prematuramente. O Partido sabia que as forças revolucionárias se acumulavam na ação, mas não se dispunha a cometer aventuras nem insensatez.
Por outro lado, esse Congresso firmou o entendimento de que quando a crise deslocasse os segmentos sociais mais pobres das cidades e do campo para o lado dos operários em âmbito nacional, a correlação de forças entre as classes permitiria a tomada do poder pelo proletariado. Esse momento teria de ser considerado segundo a medida de meses e não de anos ou décadas. O Partido precisava se preparar.
O golpe de Kornilov. Crise e recuperação dos sovietes. O levante camponês. O Partido Bolchevique dirige as massas.
A ofensiva militar russa na região da Galícia, região histórica situada no Leste da atual Ucrânia e Sul da Polônia, foi fragorosamente derrotada, contando-se grande número de baixas. Uma nova crise ministerial leva o Primeiro Ministro Lvov a renunciar, ocupando o seu lugar Kerensky.
A Revolução e a direção dos bolcheviques estavam prestes a se submeter a um teste decisivo: um golpe militar, intentado pela burguesia e pelo imperialismo. Comparadas ao período de abril a julho de 1917, a velocidade e a intensidade dos fatos, bem como os saltos na consciência política das massas, agora serão inacreditavelmente superiores. Isso é típico de revoluções.
Vamos lá. O General Kornilov foi indicado pelo Partido Cadete para o alto comando militar. Kornilov exigiu que a pena de morte fosse estendida da frente de combate para as tropas da retaguarda e que as estradas de ferro fossem submetidas ao estado de sítio. Kerensky acatou as exigências do General e ainda o nomeou para a chefia suprema das tropas.
Trotsky, na História da Revolução Russa, diz que a assunção por Kerensky do programa de Kornilov afrontava gravemente tanto os sovietes como os socialistas-revolucionários e os mencheviques. Mas as duríssimas medidas eram desejadas pelos aliados imperialistas da Rússia na Guerra, pela burguesia russa e pela alta oficialidade do Exército. A derrota da Revolução e a superação do duplo poder, que minavam a economia e o esforço guerreiro da Rússia, exigiam um golpe de Estado que alçasse ao poder uma ditadura militar. A desculpa para o golpe seria a necessidade de derrotar o plano do Partido Bolchevique de entregar a Rússia para a Alemanha. Kornilov era o favorito da burguesia liberal e dos cadetes. Kerensky acreditava que ele próprio deveria se pôr à frente do golpe, uma vez que, além de aceitar o programa da burguesia e da aliança militar que a Rússia integrava, gozava do apoio dos conciliadores alojados nos sovietes e reprovaria, no momento oportuno, os excessos direitistas dos generais. Porém havia uma diferença importantíssima entre os 2 movimentos golpistas: Kerensky precisava exterminar o bolchevismo completamente e os sovietes parcialmente, além de manter o governo acorrentado à sua vontade; Kornilov, entretanto, destruiria impiedosamente os bolcheviques, os sovietes e, indo além, substituiria o governo provisório por outro.
As coisas na Guerra pioravam: em 21 de agosto os alemães tomaram dos russos a importante cidade de Riga. A situação deve ser compreendida considerando a grande proximidade entre capital da Letônia e Petrogrado, a capital da Rússia. A burguesia responsabilizou os operários que não trabalhavam e os soldados que não combatiam pela derrota, numa palavra, a Revolução. Tão-logo Riga se rendeu, Kornilov ordenou ao Comandante das tropas que enforcasse alguns soldados ainda durante a retirada, como forma de mostrar para a Nação que a rebeldia dos soldados e a Revolução eram as causas da derrota. Para o General, a influência bolchevique sobre as tropas e a incontida Revolução afastariam o povo das glórias militares e da tranqüilidade social. Kerensky não ficou atrás e, em 26 de agosto, fez o governo autorizar um aumento de 100% no preço do pão, tentando ganhar apoio dos latifundiários e nobres e negar qualquer compromisso com as massas.
Em 28 de agosto Kerensky, decidido a obstruir o caminho de Kornilov em benefício da sua própria versão golpista, demite Kornilov do cargo a que o nomeara. Kornilov, ainda confiante, decide não acatar a ordem e dá seguimento ao seu plano contra-revolucionário. Kornilov consegue movimentar as tropas a ele leais inicialmente. Os ministros cadetes, espertamente, demitem-se e deixam o caminho aberto para o golpe. Kerensky mergulha numa incurável indecisão a partir daí e o governo, em frangalhos, paralisa-se por completo.
No dia anterior, 27 de agosto, diante dos boatos de que Petrogrado seria ocupada pelas tropas kornilovianas, o Soviete de Petrogrado reúne-se como os sindicatos e comitês de empresa e decide formar um Comitê Militar Revolucionário para defender a Capital. Esse Comitê Militar Revolucionário é que conduzirá a resistência ao golpe muito mais do que o Comitê Executivo do Soviete. Em curtíssimo tempo, formam-se milícias operárias, os soldados instruem os operários no manejo de armas, os comitês de bairro controlam as ações dos governistas, abrem-se barricadas, estende-se arame farpado pela Cidade. Os ferroviários impedem a movimentação das tropas de Kornilov. Qualquer ordem dos golpistas, transmitida pelo telefone ou pelo telégrafo, é interceptada e informada ao Comitê Militar. Os sindicatos armam as suas bases até onde podem. Em resumo: as massas tomam para si a luta contra o golpe. Os bolcheviques, embora ainda sejam minoritários nos sovietes, voltam a ser a vanguarda incontestável da resistência e constituem a maioria da direção do Comitê Militar.
Kornilov e Kerensky tinham planejado desarmar os marinheiros de Kronstadt tão-logo Petrogrado fosse retomada do bolchevismo e derrotada. Entretanto o golpe e a oposição ao golpe evitaram que quaisquer medidas punitivas fossem levadas adiante contra os marinheiros estacionados em Kronstadt.
Kornilov era reconhecido apenas pelos altos oficiais. Não dispunha de infantaria nem de qualquer apoio entre os soldados e camponeses. Desse modo tudo pareceu conspirar contra o General. Até mesmo as tropas com que ele mais contava fugiam da luta. Diante do cada vez mais provável fracasso de Kornilov, os comandantes militares de todas as frentes de batalha acabaram abandonando-o e alinhando-se com o governo provisório. Kornilov, em 30 de agosto, já estava liquidado, sem que fosse derramada 1 gota de sangue.
Kerensky ainda tentou salvar o General e referendar suas ordens relativas à Guerra, mas, por insistência dos sovietes, foi obrigado a prendê-lo e instaurar um inquérito contra ele e os demais conspiradores. Apesar disso, não se chegou a punições. Esses mesmos golpistas tentarão estrangular a Revolução em seguida.
Os bolcheviques, desde julho, eram alvos de uma intensa campanha de calúnias, perseguições e prisões, promovidas pelos burgueses e pelos altos oficiais militares. Os conciliadores tinham sido cúmplices da infâmia que caiu sobre os bolcheviques. Quando eclodiu a tentativa de golpe, patrocinada por Kornilov, os socialistas-revolucionários e mencheviques, com a corda comprimido-lhes o pescoço, não tiveram alternativa senão pedir ajuda aos bolcheviques. Pois bem, os comandados de Lênin não cogitaram se vingar dos socialistas-revolucionários e dos mencheviques nessa hora. Ao contrário, colocaram-se no campo militar destes e contra Kornilov. O Partido revolucionário sabiamente não trocava o cálculo político e a rigorosa avaliação das forças em combate por ódios e simpatias.
Ainda assim havia uma grande diferença entre lutar contra a tentativa de golpe e apoiar o governo de Kerensky. Sobre esse tema, Lênin, do seu esconderijo (havia uma ordem de prisão contra ele), envia uma carta ao Comitê Central, orientando o seguinte: "Mesmo agora, não devemos sustentar o governo de Kerensky. Seria faltar aos princípios. Mas então, dir-se-á, não tem de se combater Kornilov? Certamente que sim. Mas entre combater Kornilov e sustentar Kerensky há uma diferença, um limite, que certos bolcheviques transpõem, caindo no 'conciliacionismo', deixando-se arrastar na torrente de acontecimentos".
Mas para Lênin, esta posição de princípio deveria enfrentar uma eventual situação aberta pela derrota da tentativa de golpe. Assim continua a carta:
Em que consiste a mudança de nossa tática depois da sublevação de Kornilov? Em que mudamos a forma de nossa luta contra Kerensky. Sem debilitar um ápice nossa hostilidade contra ele, sem retirar uma só palavra dita contra ele, sem renunciar ao objetivo de derrubar Kerensky, dizemos: temos que levar em consideração o momento; não vamos derrubar Kerensky neste momento; agora encaramos de outra maneira a tarefa de lutar contra ele, ou mais precisamente, fazendo com que o povo (que luta contra Kornilov) veja a debilidades e as vacilações de Kerensky. Antes, também fazíamos isso, mas agora passa a ser o fundamental, nisso consiste a mudança." E continua: "Assim, a mudança consiste em que coloquemos em primeiro plano a intensificação da agitação a favor do que poderíamos chamar de 'exigências parciais' a Kerensky: que prenda Miluikov, que arme os operários de Petrogrado, que chame as tropas de Kronstadt [...] que dissolva a Duma do Estado [...] que legalize a entrega das terras dos latifundiários aos camponeses, que implante o controle operário sobre o trigo e as fábricas etc., etc. E estas exigências não devemos apresentar somente a Kerensky, nem tanto a Kerensky, mas aos operários, soldados e camponeses ganhos na marcha da luta contra Kornilov. Seguir animando-os alentando a que liquidem os generais e oficiais que se pronunciaram a favor de Kornilov, insistir que eles exijam de imediato a entrega da terra...sugerir a eles a idéia da necessidade de prender Rodzianko e Miluikov. [...] Aos SR de 'esquerda' são os que mais devemos empurrar nesta direção.
No fim de agosto, depois do fiasco do General Kornilov, a situação política deu uma espetacular guinada.
Os sovietes recobraram sua imensa força. Se antes faziam vista grossa às punições lançadas contra os operários, soldados e bolcheviques, agora voltavam a ser os autênticos órgãos de luta contra a burguesia. Tornaram-se, de novo, o poder real na Rússia. Restava saber se os conciliadores, ainda em maioria, quereriam esse poder soviético.
Por esses dias as prisões estavam abarrotadas de bolcheviques, inclusive Trotsky. O jornal do Partido era proibido e interditado. Os socialistas-revolucionários e mencheviques, logo depois da derrota de Kornilov, tinham adotado uma resolução contra a admissão de representantes da burguesia (Cadetes) no governo. Lênin, nessa precisa conjuntura, em 1º de setembro, redigiu um artigo conhecido como "Sobre os Compromissos". Afirma que novamente os sovietes tinham as tropas à sua disposição e lhes era possível tomar o poder pela via pacífica. Que essa oportunidade era raríssima e que poderia se perder em poucos dias. Propõe que o Partido volte a agitar a palavra de ordem de poder de antes de julho (Todo o poder aos Sovietes!) e que os socialistas-revolucionários e mencheviques tomem o poder por intermédio dos sovietes e respondam perante eles. Lê-se o seguinte trecho no texto (Sobre os Compromissos, em V. I. Lênin Obras Escolhidas em Três Tomos):
O compromisso consistiria em que os bolcheviques, sem pretender participar do governo (impossível para um internacionalista sem a realização efetiva das condições da ditadura do proletariado e do campesinato pobre), renunciassem à apresentação imediata da reivindicação da passagem do poder para o proletariado e para os camponeses pobres e aos métodos revolucionários de luta por esta reivindicação. A condição, por si mesmo evidente e não nova para os socialistas-revolucionários e mencheviques, seria a plena liberdade de agitação e a convocação da Assembléia Constituinte sem novos adiamentos num prazo mais breve.
Há uma nota na edição consultada atestando que próprio Lênin afirmou que já não era possível o compromisso quando o seu artigo foi publicado, em 6 de setembro: os reformistas já tinha se recuperado do efêmero veto à presença dos cadetes no governo, reaproximando-se da burguesia e se dispunham a governar com ela.
Trotsky ensina na História da Revolução Russa que essa proposta de Lênin, lançada aos reformistas, colocando-os diante da "inevitável" (termo da edição a que recorremos) tomada do poder pelos sovietes, era uma tentativa de enfraquecer a resistência dos seus adversários.
Os conciliadores rejeitaram a proposta.
Essa política de exigência repercutiu fortemente, sobretudo na base do próprio Partido Bolchevique. Mesmo depois da tentativa de golpe burguesa empreendida por Kornilov, os conciliadores se negaram a tomar o poder em nome dos sovietes e voltaram aos braços dos patrões. Essa recusa demonstrou definitivamente que apenas os bolcheviques lutariam pela revolução dali em diante.
Logo após a recusa dos socialistas-revolucionários e mencheviques, a situação política deu outro salto: na Rússia, um após o outro, os sovietes mais importantes começaram a passar para as mãos dos bolcheviques. Desde que as massas derrotaram Kornilov em setembro, tendo o Partido Bolchevique à sua frente, a influência deles aumentou explosivamente. As massas mobilizadas, lutando ombro-a-ombro com os militantes bolcheviques, aderiam às suas palavras de ordem. Quebrava-se o preconceito contra os revolucionários radicais. Rompia-se o cordão de isolamento que lhes tinha imposto o governo depois das Jornadas de Julho inclusive na frente de batalha. Quando um soldado bolchevique chegava à frente de combate, imediatamente os soldados pediam que ele lhes falasse o que pensava o Partido sobre a Revolução, a paz, Kerensky, a distribuição das terras, e se solidarizam com os pontos de vista do Partido.
Mesmo nas eleições parlamentares burguesas os votos dados ao Partido Bolchevique cresceram.
Volta à tona a questão da paz. Soldados e marinheiros se inclinam pela assinatura de tratados de paz ainda que sejam vergonhosos e injustos.
As massas como que adotam o programa bolchevique.
Em contrapartida, os socialistas-revolucionários e principalmente os mencheviques se afundam em crises. A ala esquerda do menchevismo, cerca de 10.000 militantes, se dilui completamente no final de setembro.
A sessão do Soviete de Petrogrado de 31 de agosto, que terminou na madrugada de 1º de setembro, quase unanimemente, votou uma resolução favorável à transferência do poder para os sovietes, como queriam os bolcheviques. A base dos conciliadores abandonava a sua direção, que colheu apenas 15 votos. Outros sovietes, como o de Moscou e o da Finlândia, no início de setembro votaram moções contra o governo provisório. Em 9 de setembro foi renovada a direção do Soviete de Petrogrado: os bolcheviques tiveram 519 votos em prol de uma direção proporcional, onde eles eram a maioria, contra 414 dos conciliadores que propunham a manutenção na direção anterior, registrando-se 67 abstenções.
Essas vitórias dos revolucionários repercutiram em toda a Rússia. Some-se o fato de que os bolcheviques detinham uma força ainda maior junto às massas.
Diante desse crescimento estrondoso dos bolcheviques, a partir do começo de setembro a palavra de ordem "Todo o poder aos Sovietes!" queria dizer, concretamente, que o poder passaria para os bolcheviques. Agora não mais seria possível uma transição pacífica e o Partido ingressava na via da insurreição armada.
Ainda houve um episódio que mostra bem que mesmo um partido revolucionário como esse que as massas operárias russas e dirigentes do calibre dos bolcheviques construíram não é imune aos erros e à pressão da democracia burguesa. Os conciliadores, buscando recuperar do terreno perdido para os bolcheviques e necessitando se diferenciar tanto de Kornilov e dos cadetes como de Kerensky, já muito desgastado, realizaram, a partir de 14 de setembro, um evento denominado Conferência Democrática. Além das forças políticas reunidas nos sovietes, destacando-se uma representação exagerada das suas cúpulas, compareceram delegados das cooperativas rurais e de outras organizações, como as de administração local, chamadas zemstvos.
Embora não houvesse como impedir a participação dos sovietes, os conciliadores reduziram ao máximo o peso deles na Conferência (e também o dos bolcheviques, é claro) por meio dos critérios artificiais de escolha dos participantes. Eles desejavam, na verdade, construir outra base política que lhes sustentasse docilmente e que fosse capaz de envolver, absorver e destruir os sovietes. Ao se negarem a tomar o poder, perdiam influência nos soviets. Por isso os conciliadores tentavam desviar o proletariado, os soldados e os camponeses do rumo do poder e empurrá-los para o caminho das institucões da democracia burguesa.
Os bolcheviques, apesar disso, chegavam a atrair cerca de 1/3 da platéia durante as votações. Os socialistas-revolucionários e mencheviques mostraram-se impotentes e não conseguiam conformar uma maioria sólida para aprovar qualquer resolução. Kerensky foi denunciado e atacado de todos os lados por ter se envolvido na tentativa de golpe. Ninguém o defendeu. Os conciliadores, que tinham se recusado a tomar o poder, provocavam os bolcheviques a fazê-lo e os ironizavam.
Somente ao fim da Conferência, depois que Kerensky afirmou que se recusava a participar de um governo integrado apenas pelos socialistas-revolucionários e mencheviques, a Conferência conseguiu sair do atoleiro. Os conciliadores aprovaram a seguinte resolução: a Conferência deveria colaborar na criação de um novo poder; o governo se comprometeria a sancionar uma representação da Conferência; essa representação, indicada pelos partidos, respeitaria o peso das forças políticas ali presentes, sendo-lhe ainda adicionados alguns representantes da burguesia, que não se fizera presente, constituiria um Pré-Parlamento. Esse Pré-Parlamento sancionaria o novo governo em que a burguesia teria participação. O Pré-Parlamento seria uma espécie de conselho de Estado.
Os bolcheviques, naturalmente, se opuseram à resolução. Entretanto, diante da sua aprovação na Conferência, tiveram que decidir se participariam ou não do Pré-Parlamento.
Trotsky, que integrava o Comitê Central desde que ingressara no Partido, opunha-se à participação e propunha o "Boicote ao Pré-Parlamento!" como bandeira de luta. Trotsky pensava o seguinte: "Pela via do pré-Parlamento, o pensamento político das massas deveria encaminhar-se para a Assembléia Constituinte, coroamento da revolução democrática. Ora, os bolcheviques já estavam em maioria nos soviets de Petrogrado e de Moscou; a nossa influência no exército crescia de dia para dia. Já não se tratava de prognósticos, nem de perspectivas, mas da escolha da via pela qual seria necessário enveredar."
Kamenev, argumentando em prol da participação bolchevique no Pré-Parlamento afirmava: "O boicote do pré-Parlamento é, em resumo, um apelo à insurreição, quer dizer, à repetição das Jornadas de Julho. Só porque se chama pré-Parlamento, ninguém ousaria boicotar tal instituição."
A questão foi submetida à apreciação do Comitê Central em 20 de setembro. Trotsky foi apoiado por metade dos membros da direção, inclusive por Sverdlov e Stalin. Na outra metade encontraram-se Kamenev, Rikov e Riazanov, entre outros.
Diante do empate, uma Conferência partidária foi convocada para se pronunciar sobre a divergência. A Conferência aprovou a participação no Pré-Parlamento em 22 de setembro.
A maioria direção do Partido Bolchevique, infelizmente, deixava-se seduzir pelo "canto de sereia" da reação democrática. Uma vez vencida a conta-revolução de Kornilov, a burguesia e os reformistas buscavam derrotar a revolução, sobrepondo o Pré-Parlamento aos sovietes até que os conselhos fossem finalmente esmagados.
Lênin, que só pôde participar do debate com atraso, em 23 de setembro manifestou-se, por carta, em apoio à posição de Trotsky.
Entretanto os bolcheviques nem ao menos se sentaram nas poltronas do Pré-Parlamento. Sem perder tempo, os organismos de base do Partido passaram a votar contra a participação no Pré-Parlamento maciçamente. Corrigido o erro oportunista da direção, o boicote fez-se maioria no Partido numa reunião do Comitê Central em 5 de outubro, contra 1 único voto, o de Kamenev. Em 7 de outubro Trotsky discursava na abertura do Pré-Parlamento e informava que os bolcheviques não o integrariam e que lutariam para que o poder fosse conferido aos sovietes. Era a ruptura definitiva dos bolcheviques com os conciliadores.
Mas ... como esses fatos repercutiam no interior? Não esqueçamos que a Rússia era um país agrário. Por isso, os camponeses decidiriam o futuro da Revolução. Tivessem enxadas ou fuzis nas mãos, como era o caso dos camponeses feitos soldados pela 1ª Guerra, eles, considerando a sua supremacia numérica, desequilibrariam o confronto entre o operariado e burguesia. Se a burguesia e os conciliadores mantivessem o apoio do campo, os operários, os bolcheviques e a Revolução se perderiam sem dúvida. Era determinante para os bolcheviques obter o apoio dos camponeses e, tendo em vista a situação de guerra, dos soldados.
O movimento no campo era essencialmente a luta contra a servidão do camponês. Voltava-se, assim, principalmente contra a exploração praticada pelos nobres e latifundiários ricos contra os camponeses, devido aos valores altíssimos cobrados dos camponeses pelo arrendamento das terras. Em segundo lugar, destacava-se a luta dos operários agrícolas contra os nobres e camponeses ricos por melhores condições de trabalho. Os alvos do movimento camponês, num e noutro caso, eram justamente os nobres e latifundiários ricos. A violência e o sangue sempre se faziam notar. Na media em que a Revolução avançava, o camponês, seja o arrendatário, seja o operário, apercebeu-se de que estava em questão acima de tudo a posse da terra e dos seus frutos. Essa luta se traduzia na tomada das colheitas e equipamentos agrícolas, na devastação dos pomares, na desapropriação das forragens, madeiras e provisões. Não raro, a própria casa do inimigo era saqueada e queimada. O levante camponês atingiu tal envergadura em setembro e outubro de 1917, que não havia mais nobre seguro dos seus bens.
Os socialistas-revolucionários dirigiam os camponeses politicamente. O centro do programa desse Partido era a tomada das terras dos nobres e sua distribuição para o povo. Quando a Revolução se chocou violentamente contra a propriedade da terra pelos nobres e latifundiários em setembro e outubro, a burguesia se opôs terminantemente contra qualquer ataque à propriedade das terras. Claro: muitas propriedades estavam hipotecadas aos bancos, que não poderiam sofrer prejuízo. Então os socialistas-revolucionários mostraram-se solidários para com os burgueses e renunciaram ao seu próprio programa. De todas as maneiras tentaram restringir o levante camponês. No máximo cogitaram que os milionários que tiveram as terras tomadas e saqueadas deveriam ser indenizados. Essa traição acabou afastando os camponeses dos seus dirigentes. Os camponeses se meteram no caminho da insurreição, como o único que permitiria o cumprimento do programa abandonado pelos socialistas-revolucionários.
Assim, o movimento camponês seguia o mesmo caminho do movimento operário: as ilusões no governo provisório e nos seus dirigentes conheceram o seu auge, para, em seguida, ser substituídas pelo ódio ao governo e desilusão com os socialistas-revolucionários. Todavia essa experiência se deu com um evidente atraso.
O movimento camponês foi muito influenciado pelos operários e pelos soldados. Os operários e soldados mantinham vínculo com a aldeia de onde vieram e a visitavam com freqüência. Particularmente os soldados, quando estavam de licença ou tinham sido afastados da linha de combate por insubordinação ou mesmo desertado, eram uma poderosa fonte de politização dos camponeses e impulsionadores das suas lutas. Por essa via, aos poucos no início e aos borbotões nos meses de luta mais intensa, a política dos bolcheviques penetrava no campo.
Os bolcheviques, como foi dito, não descartavam a possibilidade de os camponeses seguirem majoritariamente a burguesia no momento decisivo da Revolução. Por isso insistiam em construir sovietes de operários agrícolas e outras organizações independentes dos camponeses mais pobres, que seriam aliados naturais dos operários. No entanto, excetuada a região do Mar Báltico, não havia nem os sovietes nem as organizações independentes tão desejados pelo Partido.
Embora a tática de organização do movimento no campo adotada pelos bolcheviques não surtisse maiores efeitos, a opção por não rebaixar o seu programa, essencialmente apoiado nos operários e apresentá-lo aos camponeses, demonstrou-se correta. Com o avanço da Revolução, no final de 1917, quando a agitação bolchevique desperta os camponeses ruidosamente, o Partido Socialista Revolucionário fica para trás, abandonado. Dentre os seus militantes, os posicionados mais à esquerda, pressionados pela realidade, acertam o passo ao lado do levante camponês e atrás dos bolcheviques e formam um novo agrupamento: os Socialistas-revolucionários de Esquerda, sob as ruínas do outrora poderoso Partido Socialista Revolucionário.
Outra face da política bolchevique que se revelou acertada na prova da Revolução foi a afirmação da autodeterminação dos povos. A Rússia foi e segue sendo composta por diversas nacionalidades. Os grão-russos, embora nem mesmo chegassem a constituir a maioria da população, historicamente exerceram uma violenta opressão sobre as demais nacionalidades. Ainda nos dias atuais, esses conflitos existem e são muito intensos (chechenos, por exemplo). O Partido respeitava o direito de uma determinada nacionalidade se separar do Estado russo caso desejasse. Não que defendesse a separação, ao contrário opunha-se a ela. Entretanto denunciava os atos de violência e opressão cometidos pelo Estado para deter os separatistas e afirmava que a própria nacionalidade deveria decidir o seu futuro. Essa política permitiu que as nacionalidades oprimidas adquirissem a confiança necessária nos operários russos, que eram a vanguarda revolucionária.
Por outro lado, internamente, o Partido Bolchevique resistia a todo e qualquer nacionalismo. Todo militante, independentemente da sua nacionalidade, decidia e se submetia à política do Partido e nenhum critério nacional ou federativo era admitido na estrutura partidária.
O Exército russo estava praticamente decomposto no início de outubro. A indisciplina corria solta, as represálias contra os oficiais eram violentas e as deserções se multiplicavam. A frota do Mar Báltico se rebelou contra o governo. O caos era de tal ordem, que em 20 de outubro o próprio Ministro da Guerra, Verhkovsky, declarou perante o Pré-Parlamento que se deveria concluir a paz imediatamente.
Depois da saída do Pré-Parlamento, das derrotas militares que se acumulavam e da sua penetração no campo, os bolcheviques passaram a ser ouvidos avidamente pelas massas em todos os cantos da Rússia. Os agitadores não conheciam mais descanso. A platéia, nas fábricas, regimentos, oficinas, escolas, lavouras, conversas das donas de casa, chegava às mesmas conclusões que os agitadores bolcheviques. Os sovietes assumem mais e mais tarefas, principalmente o controle operário da produção. São eles, realmente, já, o único poder na Rússia.
No 1º Congresso dos Sovietes, em junho, ficara acertado que de 3 em 3 meses aconteceria um novo Congresso. Em face do crescimento dos bolcheviques, os conciliadores temiam convocar 2º Congresso, que deveria ocorrer em setembro, e se verem em minoria. Assim adiavam o quanto podiam a convocação do Congresso.
Os bolcheviques, diante da resistência do Comitê Executivo do Soviete da Rússia, realizaram uma intensa agitação pela convocação do 2º Congresso. Essa campanha foi seguida de um processo de adesão de numerosos sovietes às posições dos bolcheviques.
Contrariado, mas impotente diante da incrível onda bolchevique, o Comitê Executivo do Soviete da Rússia, marcou o início do Congresso para 25 de outubro.
7. A preparação para tomar o poder. A insurreição. O governo dos sovietes.
Em julho o 6º Congresso do Partido já antecipava que em poucos meses poderia estar em pauta a tomada do poder. Porém o caminho da resolução congressual até a efetiva conquista era desconhecido, perigoso, cheio de armadilhas ardilosamente preparadas pelos inimigos e muito propício a enganos dos próprios dirigentes bolcheviques.
Em setembro, depois que os bolcheviques tornaram-se maioria nos sovietes de Petrogrado e de Moscou e diante do levante camponês, Lênin identificou que estavam maduras as condições para que a insurreição operária agarrasse o poder na Rússia. O líder dos bolcheviques passou a se dirigir aos membros do Comitê Central e a outros dirigentes por meio de cartas. Conforme, V. I. Lenine Obras Escolhidas em Três Tomos, 2º volume, Lênin explica as razões fundamentais que obrigavam aos bolcheviques a agir rapidamente no dia 12 de setembro:
Tendo obtido maioria nos Sovietes de deputados operários e soldados de ambas as capitais, os bolchevique podem e devem tomar o pode de Estado nas suas mãos." Mais adiante especifica: "A questão não é o 'dia' da insurreição nem o seu 'momento' no sentido estreito. Isto será decidido apenas pela voz comum daqueles que estão em contacto com os operários e os soldados, com as massas. [...] A questão consiste em tornar a tarefa [a insurreição] clara para o partido: pôr na ordem do dia a insurreição armada em Petrogrado e Moscou (e na sua região), a conquista do poder, o derrubamento do goberno [...]
Lênin, notemos, propunha que o Partido tomasse o poder o mais rapidamente possível: sim que o Partido, e não os sovietes, tomasse o poder. Trotsky diz, na História da Revolução Russa, que Lênin exigia que o Partido, diante da crise que se instalara na Conferência Democrática de meados de setembro, apoiando-se nos sovietes que já conquistara e nas forças militares e operárias que pudesse reunir, organizasse um estado-maior da insurreição, prendesse os membros do governo provisório, derrotasse os inimigos militarmente, prendesse o seu estado-maior do Exército e controlasse os prédios públicos importantes de Petrogrado.
No entanto, mesmo que as condições objetivas - externas ao Partido - estivessem maduras, era impossível aos bolcheviques tomar o poder nos idos de setembro de 1917 exatamente porque ainda faltava à sua direção o que a Lênin sobrava: o grau de resolução indispensável. Não esqueçamos que metade do Comitê Central ainda votaria pela participação no Pré-Parlamento e a Conferência aprovaria tal participação em 22 de setembro.
O Comitê Central não deu ouvidos a Lênin.
Mas ele insistiu. Em 29 de setembro de 1917 escreve um artigo público, seguido de uma carta aos membros do Comitê Central do seu Partido, não por acaso intitulado "A Crise Amadureceu" (V. I. Lenine Obras Escolhidas em Três Tomos, 2º volume), em que diz o seguinte na parte dirigida para o público: "(...) Num país camponês, com um governo revolucionário, republicano, que goza do apoio dos partidos dos socialistas-revolucionários e mencheviques, que ainda ontem dominavam entre a democracia pequeno-burguesa, cresce a insurreição camponesa. (...)"
Mais adiante, no texto reservado aos membros do Comitê Central, Lênin lembra que os bolcheviques já tinham a maioria em Petrogrado e Moscou. Menciona que a situação européia era favorável à tomada do poder na Rússia, em virtude do levante dos marinheiros da frota militar alemã de agosto de 1917, que se rebelaram pelo fim da guerra e pela insurreição na Alemanha, e da prisão em massa de dirigentes socialistas na Itália. Assegura que os bolcheviques não poderiam esperar mais e tinham que tomar o poder antes de 25 de outubro, quando seria aberto o Congresso dos Sovietes da Rússia: "Esperar pelo Congresso dos sovietes é uma completa idiotice, pois significa deixar passar semanas, e as semanas e mesmo dias agora decidem tudo. Isto significa renunciar covardemente à tomada do poder (...)". Em seguida Lênin traça um plano para a insurreição imediata. Arremata o seu documento afirmando que em conseqüência de diversos erros da direção do Partido, entre eles ter decidido participar do Pré-Parlamento e outras divergências, vê-se obrigado a pedir demissão do Comitê Central, a fim de preservar a liberdade de expor as suas opiniões divergentes para a base do Partido. Lênin pede demissão do Comitê Central, a fim proteger seu flanco de futuras acusações de rompimento do centralismo democrático.
A direção partidária ainda resistia aos apelos Lênin.
Em poucas semanas, o Comitê Central do Partido Bolchevique mudaria o seu ânimo. Em 9 e 10 de outubro o Comitê Central reúne-se, contando com a presença de Lênin. Ele defende uma imediata ação do Partido visando à tomada do poder nos próximos dias. Adverte que o inimigo poderia preparar um golpe, utilizando as tropas da frente de combate, que haveria a possibilidade de nem mesmo se realizar o 2º Congresso dos Sovietes e que não se poderia esperar mais. No dia 10 de outubro é aprovada a resolução sobre a insurreição apresentada por Lênin por 10 votos contra apenas 2: os de Kemenev e Zinoviev. Segundo a resolução, a revolução socialista mundial teria avançado na Europa, sendo lembrados os eventos internacionais apontados antes no panfleto "A Crise Amadureceu"; as condições russas para a insurreição teriam amadurecido plenamente, todas as organizações do Partido deveriam se orientar para a insurreição. Lênin sustentava, na resolução aprovada, que o Partido tomasse o poder e que as suas organizações locais resolvessem as questões da insurreição. Nem cita o 2º Congresso dos Sovietes. Conforme Trotsky, no 3º volume da edição citada da História da Revolução Russa, a tomada do poder deveria culminar por volta do dia 15 de outubro. Depois de consolidado o poder, o Partido o entregaria aos sovietes.
A votação esmagadora a favor da insurreição, entretanto escondia uma resistência à tomada do poder ainda grande na direção do Partido e dúvidas táticas acerca de como a realizar. Apesar da decisão tomada, o poder só passaria aos operários, soldados, marinheiros e camponeses entre 25 e 26 de outubro. Por ouro lado, seria incorreto dizer que a insurreição somente aconteceu depois do Congresso. Não, ela iniciou antes e se consolidou já no seu transcurso.
Desde a saída dos bolcheviques do Pré-Parlamento, a ameaça de insurreição pairava no ar. O governo deu-se conta de que necessitava urgentemente dispor de tropas 100% leais a ele em Petrogrado, que, afinal, era a sua sede. Para atingir esse objetivo, recorreu à desculpa de que teria que substituir tropas que lutavam no front pelas guarnições de Petrogrado, mais descansadas. O Soviete da Cidade, compreendendo as verdadeiras intenções de Kerensky, recusou a proposta, alegando que a transferência dos efetivos tinha natureza política e não militar. Para superar o impasse os mencheviques, no Soviete, propuseram a criação de um comitê de defesa revolucionária destinado a examinar a necessidade da transferência das tropas.
Os bolcheviques aproveitaram a deixa e tomaram para si a proposta menchevique. Contudo deram ao novo Comitê a finalidade, mais ou menos disfarçada, de ser o estado-maior da insurreição na Capital. Em 12 de outubro o Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado aprovava o estatuto do seu braço militar: o Comitê Militar Revolucionário. O estatuto era dúbio de propósito. Os bolcheviques ainda não podiam falar abertamente da ofensiva insurreicional, e a escondiam atrás de propostas ditas defensivas. Os conciliadores perceberam a manobra bolchevique e se negaram a participar do Comitê. O órgão militar, desse modo, restou integrado por bolcheviques, seus simpatizantes e apenas 1 militante orgânico dos socialistas-revoluvionários de esquerda, que, de fato, seguia os bolcheviques. O Comitê Militar Revolucionário, embora nascesse por decisão do Soviete e contasse, portanto, com o aval do órgão revolucionário que as massas reconheciam, apoiava-se unicamente nas organizações militares bolcheviques. O Comitê era presidido por ninguém menos que Trotsky.
Os bolcheviques, no dia 10, tinham decidido trabalhar pela insurreição. Todavia, a sua direção encontrava-se diante de problemas bem difíceis: Como debater os atos conspirativos da insurreição no interior de sovietes, bem debaixo do nariz dos inimigos, socialistas-revolucionários e mencheviques, que também integravam o governo provisório? O funcionamento democrático e a composição proporcional à força dos partidos pareciam mesmo incompatíveis com a conspiração. Porém como conclamar as massas à insurreição sem o fazer por intermédio dos sovietes, se era neles que as massas confiavam? Afinal, não seria mais rápido chamar, de surpresa, a insurreição diretamente em nome do Partido? Por outro lado, essa atitude não atrairia para os bolcheviques a desconfiança de outros prováveis aliados, como os socialistas-revolucionários de esquerda ou mesmo dos lutadores que não estavam ligados a um determinado partido? Havia vantagens e desvantagens em cada uma das saídas visíveis para o problema da insurreição e da conspiração. A questão de quando provocar a insurreição ligava-se com a de quem a chamaria.
Segundo Trotsky, esses problemas não admitem uma solução geral única. A melhor tática depende da situação política específica. Mostra na História da Revolução Russa que mesmo Lênin, que se inclinara categoricamente pela tomada do poder pelo Partido em setembro, no final de outubro já reconhecia que poder poderia ser tomado pelo Comitê Militar Revolucionário do Soviete de Petrogrado. Entretanto não perdia de vista que se surgissem dificuldades que retardassem a insurreição, o Partido deveria, em seu próprio nome, dar o último golpe no governo provisório.
A fórmula encontrada pelo Partido em Petrogrado, de formar o Comitê Militar Revolucionário, integrado e baseado quase exclusivamente nas forças dos bolcheviques, em que não intervieram nem os mencheviques nem os SRs, mas que tinha sido criado pelo Comitê Executivo do Soviete da Capital, serviu como uma luva ao desfecho da Revolução. O Comitê Militar Revolucionário conspirou para derrubar Kerensky e entregar o poder ao 2º Congresso dos Sovietes da Rússia.
O Comitê Militar Revolucionário de Petrogrado, embora tivesse sido criado pelo Soviete em 12 de outubro, somente começou a organizar a insurreição em 20 daquele mês. A partir desse momento, rapidamente, não por obra dos bolcheviques, mas dos próprios soldados organizados no Comitê, se pôde descobrir exatamente a posição de cada unidade militar de Petrogrado e da vizinhança em relação à insurreição. O Soviete aprova o armamento dos operários por meio da distribuição das armas do arsenal do Exército na Cidade. Perguntados pelo governo provisório, quem tinha ordenado a distribuição do armamento e da munição, os dirigentes do Soviete diriam simplesmente: Trotsky, o Presidente do Comitê Militar Revolucionário do Soviete. Constituía-se, desse modo, a Guarda Vermelha, que chegou a contar com dezenas de milhares de operários armados, também subordinada ao Comitê Militar Revolucionário. A Capital se preparava, toda, para a luta.
Se os bolcheviques eram amplamente majoritários entre os soldados e marinheiros estacionados em Petrogrado, Moscou, Kronstadt, Filândia etc, a situação nas frentes de combate mais distantes desses centros não lhes era tão confortável. Porém essa conjuntura dava condições aos bolcheviques para planejar a tomada de Petrogrado e a deposição do governo de Kerensky. Foi ao que eles se dedicaram. A organização da insurreição no que toca à parte conspirativa foi entregue aos militares bolcheviques. As operações começaram às 2 horas do dia 25 de outubro com a ocupação pelos soldados, marinheiros e integrantes da Guarda Vermelha de instalações públicas, tais como os correios, os telégrafos, a central telefônica, a estação ferroviária, a central elétrica, o serviço de abastecimento de água, os armazéns de abastecimento de alimentos, os arsenais militares, o Banco do Estado, e também das grandes gráficas. Não houve luta e os primeiros prisioneiros se entregar resignadamente.
O apoio à insurreição, ao Soviete e aos bolcheviques era tão maciço que não houve necessidade de barricadas nem de intensos tiroteios nem de movimentação súbita de tropas. Tudo ocorreu sem que muito sangue jorrasse. Às 10 horas, embora ainda não se tivesse tomado a sede do governo provisório, o Palácio de Inverno, o Comitê Militar Revolucionário do Soviete de Petrogrado divulgou um boletim anunciando a vitória, a deposição do governo e a transferência do poder para o próprio Comitê. Às 12 horas o Pré-Parlamento foi evacuado e os seus membros se dispersaram sem resistência.
Mas a rendição do Palácio de Inverno não tinha se consumado.
O 2º Congresso dos Sovietes da Rússia, cuja data de início era prevista para o mesmo dia 25, foi instalado antes que o Palácio de Inverno fosse ocupado pelos insurretos. Evidentemente houve atraso no início dos trabalhos, uma vez que todos queriam saber sob que governo transcorreria a reunião. Na abertura contaram-se 650 delegados com direito a voto. Os bolcheviques, como se esperava, conquistaram a maioria: 390 votos. Mais tarde vieram mais delegados e o número de participantes chegou a 900. Mantiveram-se os bolcheviques em maioria: numa primeira votação, contaram-se 505 votos pela passagem do poder para os sovietes, contra 162; assim mesmo esses 162 votos dividiam-se entre votos dados pela "democracia" e outros tantos dados em favor do governo provisório, uns pretendendo que os cadetes seguissem no governo, outros contrários.
Os conciliadores fizeram diversos discursos exigindo o fim da insurreição e assegurando que se fosse derrubado o governo, os bolcheviques não sustentariam no poder por mais do que alguns poucos dias ou que a Rússia ingressaria numa guerra civil. Como suas ameaças não surtissem o efeito imediato desejado, desanimaram e foram abandonando a Congresso dos Sovietes. Os delegados socialistas-revolucionários dividiram-se: os de esquerda permaneceram no Congresso, os outros se foram. Cerca de metade dos mencheviques - uns 70 delegados - também deixaram o Congresso.
Às 2 horas e 10 minutos do dia 26 de outubro, quando a sessão de abertura do Congresso já invadia a madrugada, o governo provisório rendeu-se. A rendição custou mortos e feridos dos 2 lados, que se espalharam pelos corredores do Palácio de Inverno. Os ministros foram presos, exceto o Primeiro-Ministro. Kerensky partira para a frente de combate na manhã do dia 25.
Kamenev anuncia perante os delegados que o governo provisório acabara de ser deposto e cita o nome dos ministros presos. Noticia também que diversos regimentos, mandados por Kerensky contra Petrogrado, ainda na periferia da Cidade, acabavam de declarar o seu apoio à inusurreição.
Os bolcheviques propõem e é aceito um manifesto voltado à população esclarecendo que um novo Estado nascia: o governo provisório fora deposto, o Congresso dos Sovietes tomava o poder para si, o novo governo apresentará uma proposta de paz imediatamente, entregará a terra aos camponeses, controlará a produção, adotará um regime democrático para reger os militares, convocará a assembléia nacional constituinte.
Qual será a composição do novo governo? Os socialistas-revolucionários de esquerda ainda não se dispõem a integrá-lo. Afinal a sua ruptura com Kerensky ainda era muito recente. O Comitê Central bolchevique decide, diante da recusa dos aliados, formar um governo apenas com os seus quadros.
As primeiras medidas referem-se a acabar com a guerra, distribuir as terras e instalar o novo governo. O Congresso aboliu a pena de morte, determinou a soltura dos soldados e camponeses por motivos políticos, concedeu a liberdade de agitação, os altos funcionários do governo provisório foram destituídos de seus cargos, foi decretada a ordem de prisão contra Kerensky e Kornilov. O Congresso aprova uma declaração do governo pela paz democrática e sem anexações de territórios nem indenizações e a apresenta às demais nações envolvidas no conflito, assim como aos seus povos. Abole a diplomacia secreta. Propõe uma trégua imediata para que as negociações de paz se realizem. Conclama particularmente os operários franceses, ingleses e alemães a lutarem pela paz e a pressionarem os seus próprios governos e também a lutarem contra toda a exploração.
No tocante à questão agrária, Lênin propõe, em nome dos bolcheviques, a desapropriação sem direito a qualquer indenização das terras dos nobres, do Czar e das igrejas, incluídos os utensílios e o gado arrendado, que passam a ficar à disposição dos sovietes e comitês agrários, legalizando o levante camponês. As terras dos camponeses pobres, bem como as dos ricos (os kulaks) não sofrem o confisco. Assim seria mantida a propriedade privada de terra na Rússia soviética. Lênin ainda acrescentou da tribuna que, embora o programa dos bolcheviques para o campo fosse diferente, os operários e o seu Partido não poderiam impô-lo aos camponeses. Seria errado adotar um programa que desse as costas aos anseios dos próprios camponeses e que desrespeitasse a sua experiência política. Entretanto esse decreto sobre as terras foi acompanhado de diretrizes gerais para a realização de uma reforma agrária que iam além: mencionava a revogação da propriedade privada das terras, reconhece o direito de todos os cidadãos utilizarem as terras, propõe o fim do trabalho assalariado no campo e a exploração igualitária das terras.
Finalmente o problema do novo governo é enfrentado. O poder governamental passa a ser exercido por um colegiado de comissários do povo. O colegiado será chamado Soviete dos Comissários do Povo. Esse órgão concentrará as funções executivas e legislativas. O controle das atividades do governo será confiado ao Congresso dos Sovietes e ao seu Comitê Executivo Central. Como os socialistas-revolucionários de esquerda ainda contavam com a possibilidade de atrair os conciliadores para o novo poder, e que ficar de fora dele lhes deixaria numa melhor posição para alcançar esse objetivo, eles não integraram o governo soviético. Os bolcheviques compõem o Soviete dos Comissários do Povo, onde figuram Lênin, Trotsky, Rikov, Stalin e outros. Kamenev será o presidente do Conselho Executivo Central do Soviete e Zinoviev será o redator do jornal do Soviete. O Congresso sanciona o novo governo soviético sob uma tempestade de aplausos. Nascia o primeiro Estado operário.
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