"Se eu tivesse filmado mais gente teria avistado o PM safado
que matou o nosso mano rendido ajoelhado (...) Primeiro foi
o ZuZa e o Lequão, eram dois mano sangue bom, agora foi o
Cal e depois o FU. Paz, queremos paz na zona sul "
(Trecho da letra "Paz na zona sul", do grupo de rap Dinastia
Urbana)
É sexta-feira na periferia da zona leste de São Paulo. Às
22h30min, em um bar freqüentado por jovens no distrito de
Ermelino Matarazzo, dois homens armados invadem o local e
disparam mais de 30 tiros, matando um rapaz de 28 anos conhecido
no bairro. Segundo as muitas testemunhas - mais de 40 - que
estavam na hora do acontecimento, os homens entraram dizendo
para todo mundo correr.
Algumas testemunhas relatam a ação. "Quando eu vi já
estavam em cima dele atirando sem parar. Só deu tempo de
correr. Tinha muita fumaça, sangue e cheiro de pó. Até hoje
não consigo dormir direito" , disse Mônica, moradora
da região.
A polícia chegou depois de 20 minutos. "Para variar estavam
atrasados", comentam os que estavam em frente, com o bar
fechado e o corpo lá dentro. Na periferia cenas como essas
são corriqueiras, mas diferentemente do que podem pensar
os que moram do outro lado do muro, a maioria não se acostuma
com essa violência. Quem já presenciou a cena de ver uma
família desesperada à beira de um caixão lacrado sabe que
nunca iremos nos acostumar com tal situação. Como se diz
nas "quebradas", a periferia é uma ratoeira - de um lado
o tráfico, do outro a polícia, e acima o governo. Este é
o verdadeiro eixo do mal.
Muito já se falou sobre os problemas que assolam os jovens
e trabalhadores suburbanos, da falta de emprego que descarrega
exércitos nas mãos do tráfico, da falta de investimento
em lazer. Tudo isso faz com que o único passatempo da molecada
seja fumar um baseado e "viajar" no ponto mais alto da favela,
contemplar a imagem do caos com barracos à beira de córregos.
Sob a ordem capitalista, a maioria tenta correr, com táticas
mirabolantes escapam do tráfico para depois tentar escapar
da Rota, sem contar a batalha por comida, roupa, água, luz
e, claro, a cerveja do final de semana.
Está aí a matéria-prima para a armadilha. A história de
tudo isso não passa de um engodo dos capitalistas para poder
melhor capitalizar a barbárie que atinge os subúrbios brasileiros.
O soldado age de acordo com as ordens de seus superiores,
que por sua vez são burgueses e estão pouco se lixando para
os problemas que assolam os trabalhadores das periferias.
Não fazem parte da sua realidade a desgraça, as mortes,
os tiros, o cheiro da pólvora no ar. Os de alta patente
são burgueses e não sentem medo nos condomínios fechados
- quem tem dinheiro se esconde. Quem não teme é obrigado
a improvisar para sobreviver. Com uma boa dose de habilidade
política e muito jogo de cintura vai escapando do crime,
da polícia e sobrevivendo na medida do possível. O problema
da violência vai muito mais além de uma simples discussão.
Segundo os dados publicados pela revista Veja São Paulo,
53 % dos assassinados em São Paulo têm de 18 a 25 anos,
66% só estudaram até o ensino fundamental e 58% morrem em
vias públicas.
Mas o que a estatística não explica está visível nas fotos
de quem morreu naquele final de semana. Apenas três pessoas
eram brancas e outras 12 eram negras. A periferia é um gueto
negro onde os que lá estão são explorados e ganham menos
graças à ideologia racista propagada pela burguesia. Se
fizermos as contas de quanto custa cada negro ou negra no
mercado de trabalho, fica fácil perceber por que essas idéias
têm força no mundo inteiro e são difundidas diariamente
nos meios de comunicação - quando aparecem negros, não são
tão pobres assim, quando se trata da escravidão sempre há
um vilão branco, mas sempre há também o branco bonzinho
que afaga o negrinho no colo e deixa seus escravos um pouco
mais à vontade em sua senzala.
Mas não precisamos de afagos, de dias como os em que fomos
obrigados a assistir à patética movimentação da burguesia
carioca subindo os morros para levar "carinho" aos pobres.
Fico com as sábias palavras de um morador do morro: "Carinho?
Estou bem, obrigado. Carinho minha preta sempre me faz quando
eu chego em casa do trabalho, o que a gente precisa aqui
é de asfalto, escola boa para a molecada não cair no caminho
errado, salário melhor para a gente poder cuidar melhor
dos filhos e de emprego".
Enquanto houver a lógica do lucro, haverá desgraças e
mazelas que afetam a "minoria". Os pobres só são chamados
assim porque os de cima não querem que percebam sua força.
Os trabalhadores e explorados são tratados pela verdadeira
minoria rica como bestas selvagens, para que não percebam
a força que possuem. Mas a história está repleta de fatos
que nos dão força para continuar a nossa luta, acreditando,
sem vacilar um só instante, nas massas de trabalhadores
explorados do mundo inteiro. Quando a burguesia que hoje
faz de tudo para impedir o poder dos trabalhadores se rebelou
para vencer reis e rainhas há vários séculos na Europa,
contaram com o apoio do povo para sair dos guetos. Naquela
época, transformaram a sociedade e pudemos sair do atraso
feudal para cair na barbárie que só consegue enxergar lucro
e que tem as mãos banhadas em sangue. Mas estamos aqui para
detê-los - o futuro nos pertence!
|