Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado
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Capa do especial

O verdadeiro eixo do mal

Marco Aurélio Dias, de São Paulo


"Se eu tivesse filmado mais gente teria avistado o PM safado que matou o nosso mano rendido ajoelhado (...) Primeiro foi o ZuZa e o Lequão, eram dois mano sangue bom, agora foi o Cal e depois o FU. Paz, queremos paz na zona sul "
(Trecho da letra "Paz na zona sul", do grupo de rap Dinastia Urbana)

É sexta-feira na periferia da zona leste de São Paulo. Às 22h30min, em um bar freqüentado por jovens no distrito de Ermelino Matarazzo, dois homens armados invadem o local e disparam mais de 30 tiros, matando um rapaz de 28 anos conhecido no bairro. Segundo as muitas testemunhas - mais de 40 - que estavam na hora do acontecimento, os homens entraram dizendo para todo mundo correr.

Algumas testemunhas relatam a ação. "Quando eu vi já estavam em cima dele atirando sem parar. Só deu tempo de correr. Tinha muita fumaça, sangue e cheiro de pó. Até hoje não consigo dormir direito" , disse Mônica, moradora da região.

A polícia chegou depois de 20 minutos. "Para variar estavam atrasados", comentam os que estavam em frente, com o bar fechado e o corpo lá dentro. Na periferia cenas como essas são corriqueiras, mas diferentemente do que podem pensar os que moram do outro lado do muro, a maioria não se acostuma com essa violência. Quem já presenciou a cena de ver uma família desesperada à beira de um caixão lacrado sabe que nunca iremos nos acostumar com tal situação. Como se diz nas "quebradas", a periferia é uma ratoeira - de um lado o tráfico, do outro a polícia, e acima o governo. Este é o verdadeiro eixo do mal.

Muito já se falou sobre os problemas que assolam os jovens e trabalhadores suburbanos, da falta de emprego que descarrega exércitos nas mãos do tráfico, da falta de investimento em lazer. Tudo isso faz com que o único passatempo da molecada seja fumar um baseado e "viajar" no ponto mais alto da favela, contemplar a imagem do caos com barracos à beira de córregos. Sob a ordem capitalista, a maioria tenta correr, com táticas mirabolantes escapam do tráfico para depois tentar escapar da Rota, sem contar a batalha por comida, roupa, água, luz e, claro, a cerveja do final de semana.

Está aí a matéria-prima para a armadilha. A história de tudo isso não passa de um engodo dos capitalistas para poder melhor capitalizar a barbárie que atinge os subúrbios brasileiros. O soldado age de acordo com as ordens de seus superiores, que por sua vez são burgueses e estão pouco se lixando para os problemas que assolam os trabalhadores das periferias. Não fazem parte da sua realidade a desgraça, as mortes, os tiros, o cheiro da pólvora no ar. Os de alta patente são burgueses e não sentem medo nos condomínios fechados - quem tem dinheiro se esconde. Quem não teme é obrigado a improvisar para sobreviver. Com uma boa dose de habilidade política e muito jogo de cintura vai escapando do crime, da polícia e sobrevivendo na medida do possível. O problema da violência vai muito mais além de uma simples discussão.

Segundo os dados publicados pela revista Veja São Paulo, 53 % dos assassinados em São Paulo têm de 18 a 25 anos, 66% só estudaram até o ensino fundamental e 58% morrem em vias públicas.

Mas o que a estatística não explica está visível nas fotos de quem morreu naquele final de semana. Apenas três pessoas eram brancas e outras 12 eram negras. A periferia é um gueto negro onde os que lá estão são explorados e ganham menos graças à ideologia racista propagada pela burguesia. Se fizermos as contas de quanto custa cada negro ou negra no mercado de trabalho, fica fácil perceber por que essas idéias têm força no mundo inteiro e são difundidas diariamente nos meios de comunicação - quando aparecem negros, não são tão pobres assim, quando se trata da escravidão sempre há um vilão branco, mas sempre há também o branco bonzinho que afaga o negrinho no colo e deixa seus escravos um pouco mais à vontade em sua senzala.

Mas não precisamos de afagos, de dias como os em que fomos obrigados a assistir à patética movimentação da burguesia carioca subindo os morros para levar "carinho" aos pobres. Fico com as sábias palavras de um morador do morro: "Carinho? Estou bem, obrigado. Carinho minha preta sempre me faz quando eu chego em casa do trabalho, o que a gente precisa aqui é de asfalto, escola boa para a molecada não cair no caminho errado, salário melhor para a gente poder cuidar melhor dos filhos e de emprego".

Enquanto houver a lógica do lucro, haverá desgraças e mazelas que afetam a "minoria". Os pobres só são chamados assim porque os de cima não querem que percebam sua força. Os trabalhadores e explorados são tratados pela verdadeira minoria rica como bestas selvagens, para que não percebam a força que possuem. Mas a história está repleta de fatos que nos dão força para continuar a nossa luta, acreditando, sem vacilar um só instante, nas massas de trabalhadores explorados do mundo inteiro. Quando a burguesia que hoje faz de tudo para impedir o poder dos trabalhadores se rebelou para vencer reis e rainhas há vários séculos na Europa, contaram com o apoio do povo para sair dos guetos. Naquela época, transformaram a sociedade e pudemos sair do atraso feudal para cair na barbárie que só consegue enxergar lucro e que tem as mãos banhadas em sangue. Mas estamos aqui para detê-los - o futuro nos pertence!

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