Jardim Santo Eduardo, um bairro que pouco se vê
na mídia. Quem olha de fora até pode achar um
lugar tranqüilo. Só para ter idéia da "tranqüilidade",
lá conheci a única filial das Casas Bahia com
seguranças armados. Leia a seguir um pequeno depoimento
de um jovem sobre a realidade dessa comunidade, sobre a violência
e o rap.
"É o seguinte, mano: violência para mim
é explícita a duas quadras daqui, logo ali no
condomínio, onde enquanto pessoas passam fome desse
lado outras jogam no lixo daquele lado. Isso sim é
violência. Você não vê a polícia
enquadrando o pessoal que mora ali, o que se vê são
os policiais acenando para eles e dizendo que está
tudo sob controle, que eles podem andar em paz porque estão
nos vigiando. A pior violência para mim é essa
do descaso. Nós somos entregues à própria
sorte sem ter em quem se apoiar, a maioria dos moleques aqui
nem tem pai. Os que têm era melhor se nem tivesse, tá
ligado.
Nós "tamo" presos num círculo
vicioso em que as alternativas são cadeia e caixão
ou o rap, que é o caso de vocês, que bem ou
mal dá uma esperança de sonhar com a liberdade,
com um mundo menos infeliz. A pior violência que vejo
aqui é o fim dos sonhos. Sem sonhos não somos
nada e, já que não temos horizonte e não
temos para onde ir, qualquer lugar serve e nós "vamo"
se acostumando com isso que vocês cismam em ficar
relembrando toda hora: a condição miserável
em que vivemos.
As letras de vocês podem até fazer bem
para alguns, mas para outros não. Tipo aquela "Paz
na zona sul", que o Dinastia Urbana canta. Tem muito
marmanjo aí que se emociona porque ela fala de coisas
que aconteceram aqui na nossa frente com pessoas que a gente
conheceu, que cresceram junto e hoje os mano estão
na lembrança e eternizados na letra de vocês.
Espero que vocês não desistam do caminho que
escolheram e que possam ser uma terceira via para essas
pessoas que perderam a capacidade de sonhar. Muita sorte
aí na caminhada de vocês."
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