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Do outro lado do Canal da Mancha:
68 na Inglaterra
Ocupações em universidades
e protestos contra a guerra do Vietnã e o governo mostram
que o 68 na ilha não foi mero acessório

Roberto
Barros*, da redação
“É impossível ser jovem em uma
terra morta.”
Dennis Potter
“Dos rios se os diz violentos / mas silenciam sobre as
violentas margens que os oprimem.”
Bertolt Brecht
“Da História já se disse que flui como a água dos rios.
Como as margens mudam de lugar, nunca se sabe bem ao certo
aonde vão. Nem sempre os rios desembocam nos mares. (...)
Assim são, também, os rios da História. São revoltos, cheios
de curvas imprevisíveis, com quedas d’água vertiginosas e
rápidas correntezas às quais sucedem a calmaria das águas
paradas: que, entretanto, também se movem, lenta mas irreversivelmente.
Às vezes, transbordam para os lados. Não são, portanto, simples
os movimentos dessas águas. O vento explica a forma das ondas.
É, no entanto, a força gravitacional da Lua – uma pressão
incomparavelmente mais poderosa, porém oculta – o que define
o movimento das marés.”
Valério Arcary
Há tempos – lapsos memoráveis – que, em poucas semanas,
põem em questão a séculos inteiros. São momentos históricos
privilegiados de encontro entre a exasperante lentidão,
estruturante e secular – a continuidade –, e uma ocasião
aguda de aceleração conjuntural, ou seja, a ruptura.
Como nos ensina aquela Paris e o Maio de 1968, o tempo histórico
pode ser acelerado, fragmentado e convulsionado, tanto mais
quando se combinam a erupção de uma práxis – política e social
– de autodeterminação operária, rebelião estudantil e combate
político, enfim, a toda forma histórica de opressão social.
Consoante à súbita cadência imposta pela gênese mesma de um
novo sujeito coletivo, esta explosiva primavera social
rompia a lógica de formações históricas forjadas sob a permanência
das mais modernas casamatas desde a Europa do Capital. Uma
impetuosa onda de crise revolucionária varre como rastilho
de pólvora o Velho Continente de Paris a Praga, de Berlim
a Turim assombrando, tal qual um espectro inarrestável, às
classes proprietárias. Mas, face à dimensão épica da greve
geral francesa e da revolta antistalinista tcheca, por que
figuraria a peculiaridade dos ingleses como digna de
memória?
Primeiro, vejamos mais perto. Na bela metáfora que nos serve
de epígrafe, Valério Arcary coloca – em chave dialética –
a discordância temporal entre as longas durações e
os tempos curtos, na perspectiva de um historiador
marxista. Compara-se o nível mais abstrato de análise à força
caudal de gravitação que a Lua exerce sobre a leva da maré
enquanto o segundo, mais concreto, corresponde, na imagem
adotada, ao fluxo do vento atuando sob a superfície das ondas:
As esquinas perigosas da História. A maré – e as
ondas – verteria água nas docas e cais de uma velha ilha?
Se, por um lado, a imponência do 1968 italiano ou alemão em
muito supera seu equivalente cronológico inglês, por outro,
bem sabemos que a concepção marxista da História não admite
cárcere positivista em tão-estreitas chancelas espaciais e/ou
temporais. O percurso acima parte da lenta temporalidade da
estrutura social de classes – a Ordem do Capital tal
qual ela se apresenta, independentemente de nossas vontades
– até o ritmo frenético das barricadas do Quartier Latin,
no qual ganha relevo a relação política de forças e, sobretudo,
a práxis revolucionária. Uma verdadeira onda internacional
de insurreições populares teve lugar nos pontos nevrálgicos
da acumulação de capital na vaga revolucionária de 1968-1976
a qual, apesar de ter naquela Paris seu epicentro insurrecional,
em muito estendia-se para além de ambas as margens do Rio
Sena. O operariado italiano lançaria uma escalada grevista
com força inédita em 1969; eclodiria, em 1974, uma vibrante
Revolução dos Cravos e, desde o ensaio geral de 72,
era a vez da classe operária inglesa pôr em marcha sua mais
bem-sucedida ofensiva industrial. A maré cheia – que
possibilitara prova de fogo à tendência de síntese entre teoria
marxista e política operária no centro nervoso do mundo do
capital – aportaria aí ao outro lado do Canal da Mancha.
A um só tempo a supremacia militar de Washington revelava
historicamente sua vulnerabilidade, frente à Ofensiva Tet
no Vietnã, e a burocracia estatal de Moscou punha a
nu suas contradições, em meio à invasão da Tchecoslováquia.
Os revoltos mares da História foram então atravessados como
uma quilha corta as ondas, quando a grande voga de revolta
estudantil em 68 anunciou a entrada em cena de massivos batalhões
sociais operários e populares na Europa Ocidental, de forma
histórica antes vista tão-só desde os célebres Conselhos
Spartakistas e o Bienio Rosso do início do século
XX.
Contudo, não se pode dizer acuradamente que tais eventos tenham
surgido tal raio em céu azul. Um ano antes do movimento parisiense,
eclodira a longa ocupação universitária na tradicional London
School of Economics/LSE[1] e uma vasta e combativa manifestação
contra a Guerra do Vietnã. A modernização capitalista operada
pelo governo labourista – o qual, diga-se, apoiou a
guerra e desferiu duro golpe à classe operária – exigiu maior
subordinação do trabalho intelectual, de modo a massificar
um até então altamente elitista sistema educacional britânico.
Em meio a uma extensão em tudo precarizada, maciços contingentes
de estudantes universitários – em detrimento da cultura acadêmica
que reinava nos campi – foram levados, muitos deles
advindos de origem social subalterna, a um acelerado processo
de resistência e luta contra a autoridade despótica
de um sistema disciplinar in loco parentis[2].
Em um ensaio publicado – ao verão de 1968 – no periódico da
New Left Review/NLR,[3] o mais destacado expoente da
chamada segunda geração da Nova Esquerda britânica, prenunciava
três características centrais que a rebelião estudantil em
voga possivelmente assumiria na Inglaterra: o desafio ao autoritarismo
doméstico, a solidariedade ativa contra o imperialismo no
exterior e a batalha contra a cultura reacionária inculcada
nas faculdades e universidades. Tais elementos se combinaram
ipso facto à escalada universitária.
Não só a autoridade acadêmica fora enfrentada pela luta estudantil
como esta se vinculou ao movimento anti-Guerra do Vietnã,
cujas manifestações assistiram, a sua vez, à dura repressão
labourista.[4] Os textos publicados na revista a este
respeito – sob a sintomal insígnia de Student Power
– refletiam o fenômeno de radical politização de significativas
frações da intelligentsia britânica. As demandas economicistas,
por bolsas universitárias e controle estudantil, dariam lugar
a um giro assaz voluntarista. Em um texto publicado sob pseudônimo,
o colaborador mais próximo do secretário de redação da NLR
exortava – inspirado no foquismo de Debray – ao avanço de
“bases vermelhas” nos campi comparáveis, segundo o
autor, aos soviets operários e populares na Rússia
de 17 e aos territórios livres da China rural nos anos
30.([5]) Enquanto Perry Anderson argumentava por uma política
revolucionária operante no interior da cultura britânica,
Robin Blackburn sugeria a reconversão das “‘bases vermelhas’
em alavancas da luta estudantil” e gérmen de “poder popular”.
Uma breve análise dos fatos mostra que o 68 inglês não foi
algo menor ou, sequer, acessório.[6] A Inglaterra inicia 1968
com cortes maciços do governo labourista de Harold
Wilson – já em seu segundo mandato – na previsão orçamentária
para o ano; há o subseqüente sentaço [7] de 250 estudantes
da Aston University. Mais de 3 mil estudantes de Liverpool,
Leeds, Bristol, Keele e Manchester cercam a Prefeitura de
Sheffield coreando “Fora Wilson!”, por causa do Vietnã. Milhares
marcham em Londres contra as leis anti-imigração; a Leicester
University é ocupada. O 68 inglês assiste à eclosão de
uma greve das maquinistas tecelãs da Ford – a qual inaugura
o movimento de trabalhadoras por salários iguais – e à primeira
marcha de enfermeiras, enquanto a Irlanda do Norte vê nascer
o movimento de massas por direitos civis. Dois importantes
intelectuais críticos – tal qual Ralph Schoenman e Tariq Ali
– são deportados, ou quase. E o mais estava por vir.
A longa ocupação da LSE em 1967 – em protesto à nomeação,
como diretor, de um ativo apoiador do regime racista na Rodésia
(Zimbábue) – marca os primórdios das mobilizações estudantis
na Grã-Bretanha seguindo-se daí uma série de ações diretas
nas faculdades em 1968. Outro indício de radicalização política,
entre a esquerda marxista, foi a publicação – no mesmo ano
– do May Day Manifesto por personalidades tais como
Raymond Williams, Stuart Hall e Edward Thompson. Apesar de
seus limites e vacilações o manifesto refletia uma genuína
aversão às políticas levadas a cabo pelo Governo Wilson, um
breviário das ilusões labouristas e, quiçá o mais importante,
expressava socialmente a formação – no plano das idéias –
de uma milieu socialista. A Campanha de Solidariedade
ao Vietnã (VSC) – encabeçada centralmente por organizações
que reivindicavam o trotskismo, como o International Marxist
Group (IMG), ligado ao Secretariado Unificado, e os International
Socialists (IS), dirigidos por Tony Cliff, em relocalização
destas face a uma plataforma política –, era então a principal
forma organizativa assumida pela juventude antiguerra. Por
detrás do aparente crescimento econômico e da ‘prosperidade
material’ acumulavam-se contradições sociais não-resolvidas
– além de novos conflitos, decorrentes da industrialização
e da urbanização –, pondo insuportável pressão sobre as já
velhas e arcaicas instituições britânicas.[8]
O movimento estudantil – além de uma jovem intelectualidade
socialista – prepararia o terreno para uma inaudita
ofensiva industrial da classe operária inglesa. Em
1972 o país assiste ao Piquete de Saltley, onde mineiros e
engenheiros unem-se em ações de massas. A ameaça de greve
geral, neste ano, força a libertação de estivadores presos
sob as leis anti-sindicais do governo conservador. Em 1974
outra greve da mineração derruba o governo tory – à
primeira vez que, na história da Inglaterra, uma ação grevista
traz abaixo um governo eleito através de sufrágio universal
– realocando o partido labourista ao poder no país.
À guisa de conclusão, as derrotas da vaga 1968-76 apontam,
à revelia de muitos, o elemental pressuposto marxista de que
o proletariado industrial representa a classe revolucionária
por excelência da época imperialista. A situação revolucionária
aberta no Velho Mundo – “detonada” pelos movimentos estudantis
– assumia contornos clássicos em várias formações sociais
particulares, com pleno sentido soviético e voltando-se, paradoxalmente,
contra as mesmas instituições que reclamavam sua herança formal.
Sobre a Europa de 68 pode-se afirmar, guardadas as diferenças,
que a teoria da revolução permanente – consagrada por
Trotsky no início do séc. XX – saltou dos livros para tomar
forma histórica e concreta em ocupações, greves e uma autêntica
renovação do modo de vida (“Byt”): a ponte entre as
reivindicações democráticas e o objetivo socialista, a não-constrição
do processo revolucionário aos limites nacionais até, por
fim, uma contínua transformação de todas as
relações sociais.[9]
ROBERTO BARROS é jornalista, mestrando em sociologia na Universidade
Estadual Paulista (Unesp / Araraquara) e doutorando em
comunicação na Universitat Autònoma de Barcelona (UAB
/ Bellaterra). Foi pesquisador do Consejo Latinoamericano
de Ciencias Sociales (Clacso / Buenos Aires).
NOTAS
[1] “Até este ano a Grã-Bretanha,
quiçá exclusivamente, careceu de qualquer movimento estudantil
significativo. Durante os últimos 15 anos, grupos de estudantes
britânicos desempenharam um papel ativo, senão predominante,
na agitação sobre o Canal de Suez, campanhas anti-racistas
e colonialistas e, mais auspiciosamente, na Campanha pelo
Desarmamento Nuclear (CND). Mas nenhuma refletiu nada que
pudesse ser nomeado uma específica consciência estudantil.”
(JONES, G. S. et al. Student Power: What is to be Done? New
Left Review, 1967, grifos no original).
[2] A vida privada dos estudantes era devassada pelos schoolars
britânicos em comitês disciplinares que agiam “em lugar dos
pais” – tal como atesta a terminologia jurídica latina – estendendo
então a tirania familiar para o interior do campus.
[3] ANDERSON, P. Componentes of National Culture. New Left
Review, 1968. Após os eventos de 68 o conselho editorial
se lançou – de forma inédita – ao movimento estudantil tomando
uma série de iniciativas, políticas e editoriais.
[4] “O espírito de rebelião estudantil – quase sempre – não
é pontualmente acadêmico, nem estreitamente ... político,
mas torna-se uma contestação global dos valores pelos quais
se afirma uma ordem estabelecida. Poderíamos esquematizar
em três as vocações do movimento estudantil: (i) uma corporativa
e acadêmica (defesa de melhores condições de ensino e de vida
para os estudantes tais como moradia, alimentação, transporte,
prédios, instalações); (ii) uma segunda, de ordem política
(defesa de liberdades públicas, contra ditaduras ... decretos
governamentais); e, ainda, (iii) uma terceira seria cultural
ou de costumes (liberdades individuais, como as de opção sexual
ou de modos de vida juvenis).” (CARNEIRO, H. Um novo ‘Maio
de 68’ na USP?. Portal do PSTU, 2007, grifos nossos).
[5] WILCOX, J. (BLACKBURN, R.). Two Tatics. New Left Review,
1969. Segundo Wilcox (Blackburn) as universidades britânicas
constituiriam – seguindo Lenin – ‘o elo mais fraco’ da sociedade
e da cultura do país. Sob a pressuposição do ‘fetiche’ soviético
e de voluntarismo ‘vermelho’ havia uma forte tendência, política
e social, com viés substituicionista.
[6] In: Timeline. International Socialism, 2008.
[7] O sentaço – o “sit-in” ou “sit-down” – é uma forma
de ação direta que envolve um grupo de pessoas ocupando uma
área sob protesto, geralmente com o objetivo de promover transformações
sociais, políticas, econômicas e/ou culturais à ordem estabelecida.
Os manifestantes sentam-se e mantêm-se dessa forma até que
sejam atendidas suas reivindicações ou até que sejam retirados
à força. A remoção à força – ou a utilização de violência
em resposta a ações de desobediência civil não-violentas –
geralmente atrai a simpatia da população, aumentando desse
modo as chances de conquistar a reivindicação do protesto.
A comoção causada chama a atenção ao protesto e, conseqüentemente,
a suas demandas. Trata-se de uma ação direta derivada da greve-sentaço
– ou “sitdown strike” – na qual os trabalhadores grevistas,
os verdadeiros precursores do sentaço, ocupavam o lugar do
trabalho e recusavam-se a sair, evitando assim a utilização
de substitutos terceirizados ou pelegos fura-greves. Os sentaços
foram amplamente utilizados pelo movimento por direitos civis
no EUA e pelas rebeliões estudantis e operárias da vaga 1968-1974
na Europa.
[8] O jornal britânico The Times – expressando o temor
das classes proprietárias inglesas – traz como capa da edição
de 5 de setembro manchete afirmando que edifícios-chave de
Londres seriam ocupados como sinal de uma revolução social.
[9] TROTSKY, L. citado por BIANCHI, A. O primado da política:
revolução permanente e transição. Outubro, 1998.
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