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68 na Itália: A herança de uma revolução que faltou ao encontro da história
Mais de 100 ocupações de reitoria precederam as lutas operárias e o "Outono Quente" italiano, de 1969

Ruggero Mantovani, Comitê Central do Partido de Alternativa Comunista, seção italiana da LIT-QI

Comemorar os 40 anos desde o 68 significa relembrar uma extraordinária experiência revolucionária, nascida no coração da Europa do Capital. A audaciosa rebelião estudantil do Maio francês – em pouco tempo – assume a forma de uma tendência internacional, abrindo caminho a uma imponente greve geral e à radicalização das lutas operárias as quais acabam por produzir, também na Itália, uma crise revolucionária de grandes proporções.
O 68 foi definitivamente, após as lutas de resistência partigiana, o batismo de fogo da revolução no Ocidente e – ao mesmo tempo – a prova, no terreno da experiência prática, da traição das burocracias reformistas e stalinistas e da impotência das formulações movimentistas.

Um prolongado ciclo de lutas radicais
Os acontecimentos amadurecidos nos anos que precederam 1968 possibilitaram compreender que qualquer coisa similar ao Maio francês era possível também na Itália. Não se trata de uma casualidade que àqueles meses se desenvolvessem importantes mobilizações estudantis e imponentes manifestações operárias, semi-espontâneas, que encontraram seu epicentro no chamado Outono Quente italiano, o qual estoura no ano de 1969. À parte a especificidade das condições nas quais nasce o 68 italiano, seu significado é o de se inscrever em uma tendência internacional que – ainda que manifestando traços e dinâmicas distintas –, no fundo, faz surgir uma nova geração estudantil e operária que, com suas lutas radicais, pôs em discussão o imperialismo enquanto sistemal mundial de dominação.

Neste contexto amudurecia, também na Itália, um 68. Um multitudinário ascenso do movimento estudantil vem à tona entre novembro de 1967 e junho de 1968. Aproximadamente 102 ocupações de reitorias e direções universitárias: entre as mais conhecidas estão a Valle Giulia, em Roma, a Cattolica, em Milão, La Sapienza, em Pisa e a Facoltà di Architettura, em Veneza. Estas, a sua vez, contribuíram com o surgimento de mobilizações em escolas secundárias em muitos lugares do interior.

A repressão ao movimento estudantil – que, nos acontecimentos supracitados, foi grave e muito violenta – imprimiu, ao mesmo tempo, uma rápida politização dos estudantes que serviu de detonador para o reaparecimento das lutas operárias que se estenderam até o “Outono Quente”, de 1969. Lutas exemplares de conteúdo geral, pela previdência social e a eliminação de “arrochos salariais” (“gabbie salariali”), e ofensivo como – por exemplo, para recordar as mais significativos – Fiat de Turim, Pirelli de Milão, Fatma de Roma e Petrolchimico de Porto Marghera.

Um crescendo de mobilizações, que se intensifica em julho de 1969, por ocasião da renovação contratual dos metalúrgicos que – em Corso Traiano, Turim –, deu lugar a um duro enfrentamento de rua entre a polícia e as colunas organizadas de operários da Fiat junto ao movimento estudantil. Lutas radicais que trouxeram dificuldades – ao Partido Comunista Italiano (PCI) e à Central Geral de Trabalhadores da Itália (CGIL) – em controlar este movimento, sempre mais influenciado pelas organizações de extrema esquerda e os comitês de base, mas também formadas por amplos setores operários que começam, então, a se tornar portadores dos interesses de classe mais gerais do conjunto dos trabalhadores.

À guisa de conclusão
Em detrimento de um quadro social tão fértil para o desenvolvimento de lutas revolucionárias, os setores de extrema esquerda – sindicais e politicos ([1]) –, os quais alternavam confusão e auto-suficiência, não souberam enfim construir uma direção totalizante, alternativa às formulações movimentistas, centristas e reformistas: não souberam construir o partido bolchevique-leninista que houvera sido capaz de dirigir o movimento social de massas na transformação radical da sociedade capitalista.

NOTAS
[1] Já antes de 68 em torno a tendências filo-chinesas, o Partito Comunista d’Italia, já fosse reconhecido desde Pequim ou Tarana – bem como o agrupamento dos “Quaderni Rossi”, de Panzieri, de menor importância – transformou-se em uma tendência ideológica de matriz maoísta. Depois do fim do grupo “Classe Operaia”, a organização “Potere Operaio” adquiriu certo peso em diversas cidades do interior. Na vertente sindical a emergência de comitês de fábrica, nascidos por fora do quadro sindical oficial, representou a necessidade de romper com as orientações burocráticas do sindicato confederativo e constituíram importantes momentos de mobilização de setores operários não-organizados. Os seus limites, contudo, foram marcados por algumas práticas sectárias as quais tendiam a transformar os comitês de fábrica em células internas da própria organização: o caso da primeira Central Única de Base (CUB), hegemonizada pelos militantes do grupo “Avanguardia Operaia”.

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