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1968: Grandes lições para as mulheres

Cecília
Toledo, da revista Marxismo Vivo
Para as mulheres, 1968 foi um ano que não terminou, em todos os sentidos dessa frase célebre. Pelas conquistas, as perdas, as lições que ficaram e estão tão presentes até hoje no dia a dia de milhões de mulheres no mundo inteiro. Quarenta anos depois, nada do que elas conquistaram na Europa e nos EUA nessa época faz parte da realidade da imensa maioria das mulheres do planeta, as trabalhadoras e pobres do mundo colonial e semicolonial. No entanto, isso não reduz a imensa importância e o imenso significado que essas lutas feministas tiveram e ainda têm para o conjunto das mulheres, de todas as classes sociais. Só nos faz perguntar: por que a igualdade de direitos entre homens e mulheres está cada vez mais distante?
Deixar de ser o segundo sexo
Depois da grande onda sufragista, que mobilizou mulheres burguesas e trabalhadoras em praticamente todos os países do mundo no final do século XIX e início do XX, as mulheres voltam a exigir seus direitos. Foi uma linha de continuidade, praticamente sem interrupção. Conquistado o direito de voto, logo ficou evidente que a igualdade perante a lei, por si só, não significava a liberação para as mulheres. Sua emancipação estava longe. Era preciso prosseguir. E assim, no bojo das grandes mobilizações estudantis pela defesa do ensino público, da luta dos negros contra a discriminação, da luta de todos contra a Guerra do Vietnã, eclodem importantes mobilizações feministas na Europa e nos Estados Unidos exigindo liberdade sexual, aborto livre e gratuito, creches, direito ao divórcio e igualdade de acesso ao trabalho é à educação. Ainda ecoava forte as idéias de Simone de Beuvoir, cuja obra O Segundo Sexo saíra em 1949 mostrando mais uma vez (Bebel e Engels, principalmente, já haviam demonstrado isso cabalmente) que não existe qualquer sustentação biológica para a idéia da "inferioridade feminina"; o problema está nas relações de produção, já que "não existe uma essência feminina", e portanto, "não se nasce mulher, mas se faz mulher".
Na Europa e nos Estados Unidos, o peso que adquiriram alguns grupos feministas, fortemente difundidos pelos meios de comunicação de massa, acabou por impor o caráter ao movimento. Eram grupos com posições consciente ou inconscientemente antimarxistas, para os quais a luta contra a opressão da mulher não está determinada pela luta de classes. Essas correntes identificavam no homem o grande inimigo a ser combatido, e se opunham a qualquer tentativa de relacionar as lutas feministas com a luta de classes. Estavam contra a participação dos partidos, considerados agentes da política, que é um âmbito machista e que divide e domina as mulheres. Por isso, propunham a unidade de todas as mulheres, repudiando qualquer tentativa de diferenciar-se segundo os diversos partidos ou as classes sociais. Um bom resumo dessas posições está no lema, que ficou famoso nos anos 60, cunhado pelas feministas norte-americanas: sisterhood is powerful ("a irmandade feminina é poderosa").
Entre esses grupos, o que ficou mais conhecido foi o NOW ("agora"), a National Organization for Women (Organização Nacional de Mulheres), criada em 1966 por Betty Friedan. O NOW não tinha um programa claro e encarnava o radicalismo da pequena-burguesia - as mulheres da classe operária tiveram pouca ou nenhuma participação -, uma vez que sua única bandeira era "exigir a igualdade total para as mulheres nos EUA agora". Como isso seria feito, Betty Friedan não explicava. Mas, mesmo com essa política confusa, o NOW foi a principal direção do movimento feminista nos EUA, onde as lutas das mulheres a partir de 1968 envolveram principalmente as estudantes e trabalhadoras da pequena burguesia.
Ao tirar o foco da opressão no sistema capitalista, era natural que esses grupos feministas apontassem suas baterias contra os homens e contra tudo o que eles representavam, em especial, o machismo. A maioria dos grupos de mulheres que surgiram nessa época, uns mais pitorescos que os outros, tinham esse foco. O SCUM, que em inglês quer dizer "escória", intitulava-se, simplesmente, Society for the Cutting Up of Men (Sociedade para triturar os homens). Mas esse não era o mais agressivo. O WITCH, que em inglês significa "bruxa", era a Women's International Terrorist Conspiracy from Hell (Conspiração Internacional Terrorista de Mulheres do Inferno) propunha que todas as mulheres do mundo fizessem ataques coordenados contra os homens. Esses grupos, além de escandalizar a opinião pública - o grupo de Betty Friedam chegou, de fato, a queimar sutiãs em praça pública - conseguiram, por seu peso na mídia, desviar o movimento feminista e separá-lo das lutas que se travavam na época e que ameaçavam abalar os alicerces da sociedade capitalista.
Nessa época também surgiu nos EUA uma corrente chamada feminismo radical, que considerava a opressão da mulher como a base da sociedade de classes, portanto, pilar do capitalismo. Ao contrário do marxismo, para quem a sociedade de classes é a base do capitalismo.
À margem, as mulheres trabalhadoras e pobres
Nos Estados Unidos, esses movimentos praticamente não atingiram os setores mais pauperizados das mulheres, e, portanto, mais oprimidos: as operárias, as negras e as imigrantes (chicanas e porto-riquenhas). Na Europa, apesar de a base do movimento feminista também estar na pequena-burguesia, houve um ascenso operário maior que nos EUA, especialmente na Espanha, Itália e França, com uma radicalização e o surgimento de correntes de esquerda dentro dos grupos feministas.
No entanto, o que prevaleceu foi a direção reformista ou diretamente imperialista desses movimentos que, sem ter a pressão de um poderoso movimento operário, criou a ilusão de que todas as mulheres deveriam se unir em movimentos independentes e autônomos e unitários, por cima das classes.
Essa é a grande diferença entre as lutas anteriores, de finais do século XIX e princípio do XX, marcada pela existência de um forte ascenso operário e de grandes partidos operários revolucionários de massas. O ascenso que se inicia em 1968 é totalmente diferente nesse sentido: apesar de sua influência atingir o mundo inteiro, a classe operária industrial não foi a protagonista e não havia fortes partidos operários revolucionários de massas. As mobilizações praticamente se restringiram aos países imperialistas, tanto Europa como EUA, e envolveram, sobretudo, a juventude estudantil, dos negros, as nacionalidades oprimidas e as mulheres.
Resultado: as mulheres conquistaram o direito ao divórcio, na Itália, e o direito ao aborto, na França, Itália, Inglaterra e Estados Unidos. Uma vez alcançadas essas reivindicações, o movimento feminista passou a segundo plano. Por falta de uma política e de uma direção que unisse essas lutas às da classe trabalhadora mundial em direção à revolução socialista, elas ficaram nos marcos democráticos da sociedade burguesa. A "irmandade das mulheres" mostrou seus limites, e se dividiu. A burguesia, com a crise econômica mundial, acirrou a dupla exploração da mão-de-obra feminina, sobretudo nos países dependentes. Hoje, os direitos tão duramente conquistados voltam a estar ameaçados, como vem ocorrendo com o aborto legal nos Estados Unidos.
Por isso é tão importante tirar as lições desses movimentos feministas para poder acertar na luta das mulheres hoje.
Irmandade das mulheres ou classismo?
Dentro do marxismo, essas mobilizações, somadas à crescente participação política e sindical da mulher em todos os países, inclusive coloniais e semicoloniais, geraram um intenso debate sobre o caráter de classe da luta feminista. A idéia que ganhou corpo em 68, de que poderia haver uma irmandade das mulheres, é o centro da discussão até hoje. O que sustenta essa idéia é o fato de a opressão, ou modernamente dizendo, a desigualdade de gênero, atingir a todas as mulheres, elas deveriam se unir para lutar por sua emancipação. É uma idéia lógica: criar uma organização das mulheres, independente das lutas políticas e de classe, já que essas lutas dividem as mulheres e não somam, e com isso as mulheres de todas as classes lutariam cada dia mais unidas entre si, em uma dinâmica contínua até conquistar a emancipação. Deriva daí a necessidade de construir um movimento autônomo policlassista e independente, reunindo todas as mulheres. Essa unidade seria possível porque, independente da classe social à qual pertençam, todas as mulheres são oprimidas. Logo, a luta contra a opressão, uma luta democrática, seria o eixo em torno do qual todas as mulheres cerrariam fileiras.
Exemplos dessa política temos no chamado Encontro Nacional das Mulheres Argentinas, que todo ano reúne entre 20 e 30 mil mulheres "em geral" para debater seus problemas, os partidos são proscritos, e os resultados do movimento são duvidosos, para dizer o mínimo. Outro exemplo de "irmandade" é a chamada Marcha Mundial de Mulheres, que também reúne mulheres "em geral" para lutar contra a opressão, os partidos políticos também são proscritos, mas sua política é bem concreta: apoio aos governos neoliberais e frentepopulistas e suas políticas sociais.
A sociedade é dividida em classes. As mulheres também!
Essa postura da irmandade parece muito coerente, no entanto, ela ignora um fato fundamental, que precede qualquer política a ser traçada, seja para as mulheres, para os negros, para qualquer setor social: a divisão da sociedade em classes. As mulheres são seres sociais que pertencem a determinada classe, umas são burguesas, outras são trabalhadoras, e por isso têm interesses distintos umas das outras.
O problema central das mulheres, então, não é a desigualdade de gênero (algo real e muito importante, como o quê todas temos sim de lutar!), mas sim a desigualdade de classe, que gera discriminações muito mais fundamentais, como acesso ao trabalho, ao salário, a melhores condições de vida. Até que não acabemos com o capitalismo e o imperialismo, essas questões são as que determinam a vida de todas as mulheres. Como criar seus filhos, como alimentar a família, como arrumar um emprego decente e ter uma vida digna? Para a mulher burguesa, isso não é problema, já está resolvido de antemão. Desde que nasce, uma mulher burguesa tem tudo o precisa para viver, a mulher trabalhadora, ao contrário. Tem de passar a vida inteira lutando para pôr comida na mesa. E isso não é ideologia, é a vida concreta, real, de milhões e milhões de mulheres no mundo inteiro.
Por isso, até a vitória do proletariado em âmbito mundial elas participarão cada vez mais da política, mas sempre enfrentando-se umas às outras segundo seus interesses de classe. Um exemplo disso é o próprio NOW, de Betty Friedman, dirigido por mulheres que seguiam o Partido Democrata, o partido do presidente dos EUA na época, Jimmy Carter e que frearam as lutas das mulheres sempre que elas ameaçavam ultrapassar as fronteiras do capitalismo.
Essa foi uma grande lição que os movimentos feministas dos anos 60 nos deixaram. As mulheres trabalhadoras não se devem deixar iludir com falsas promessas de acabar com a opressão, de acabar com a violência doméstica, fora do âmbito de sua classe. Essa armadilha da "irmandade das mulheres" continua presente até hoje. A Marcha Mundial de Mulheres é isso, uma organização policlassista, que reúne mulheres "em geral", mas não defende os interesses de todas as mulheres. Na prática o que faz é defender as políticas dos governos neoliberais e frentepopulistas, contra as mulheres trabalhadoras e pobres.
O capitalismo é incapaz de emancipar as mulheres
Como dizia Marx há 150 anos, a emancipação das mulheres é algo concreto, real, palpável. Emancipação é sinônimo de pleno emprego, salários dignos, saúde, educação, domínio de seu próprio corpo, enfim, coisas concretas, boas condições materiais de vida. Tudo o que o capitalismo imperialista nega às mulheres trabalhadoras e pobres. E cada dia que passa, nega mais um pouco. Fato reconhecido pela própria ONU cujo último relatório sobre a fome mundial constata que 70% dos pobres do mundo são mulheres! O que significa isso senão mais opressão?
O capitalismo é incapaz de emancipar as mulheres. Mesmo que parcial, essa também foi uma lição que aprendemos em 68. Os avanços obtidos pelas mulheres nessa época estão longe de significar a emancipação. Pode parecer incoerente, mas talvez esteja aí o seu maior mérito: mostrar às mulheres que cada migalha arrancada do capitalismo só nos torna mais conscientes de que precisamos acabar com ele. De que a luta contra a opressão é, em primeira e última instância, uma luta contra o capitalismo e o imperialismo; portanto, é uma luta do conjunto da classe trabalhadora, homens e mulheres.
Outra lição de 68: a irmandade não existe e quem diz o contrário está tentando nos jogar numa armadilha. O gênero une a todas as mulheres, burguesas e proletárias, porque todas nós sentimos uma ou outra forma de opressão. Mas a classe nos divide. E isso é categórico e um intransponível divisor de águas no movimento feminista. As mulheres trabalhadoras devem organizar-se de forma separada das mulheres burguesas, porque apesar de ambas serem oprimidas, essa luta fatalmente vai colocá-las em lados opostos, porque implica em lutar contra a exploração capitalista, algo que não interessa às mulheres burguesas.
Isso não significa abdicar das lutas contra a opressão. Pelo contrário. São lutas fundamentais para as mulheres e para os homens também. Apesar de capitaneadas pelas mulheres, as que sentem na carne e no sangue os efeitos da discriminação, a luta contra a opressão da mulher é uma luta de homens e mulheres. Essa é uma lição fundamental que fica desses 40 anos, desde as mobilizações de 68.
Outra lição fundamental é que na luta contra toda e qualquer forma de opressão, a classe trabalhadora vai mostrando para o conjunto da humanidade que é diferente da burguesia, dos governos burgueses, dos organismos do imperialismo. Os trabalhadores podem e não devem aceitar nenhum tipo de opressão. Uma mulher oprimida, destratada, humilhada sexualmente, é uma mulher fragilizada, desmoralizada e, portanto, desiludida com a luta de classes. Um trabalhador que não luta contra a opressão, que não enfrenta o machismo, que não respeita as mulheres é um trabalhador que está fazendo o jogo da burguesia, capitulando à sua ideologia mais nefasta; é um trabalhador que ainda não compreendeu o significado de sua existência, porque não enxerga na mulher uma parceira na luta contra a exploração capitalista.
As lutas contra a opressão, se ocorrem no seio da classe, capitaneadas por seus organismos, como os sindicatos, as comissões de fábrica, as oposições sindicais, os movimentos populares, ajudam a unificar os trabalhadores, a tensionar as nossas forças e a nos preparar para o combate final.
Em uma ou outra luta contra a opressão, como a legalização do aborto, o fim da violência doméstica, contra o assédio sexual, as mulheres trabalhadoras podem se encontrar com as mulheres burguesas. Mas sempre organizadas de forma separada, com seus próprios métodos de luta e conscientes de que sem derrotar o capitalismo e as próprias mulheres burguesas, não seremos vitoriosas.
A emancipação definitiva das mulheres só poderá ser conquistada pela classe trabalhadora, homens e mulheres, enfrentando juntos a exploração capitalista, que mantém e multiplica todas as opressões. E para isso é preciso haver espaço para as mulheres em todos os organismos da classe, sobretudo nos sindicatos. A organização política das mulheres também é fundamental para elevar seu nível de consciência. Mas nada está acima do partido revolucionário, a grande ferramenta da classe trabalhadora, para vencer a burguesia e construir uma sociedade socialista, que ponha fim a todo tipo de opressão. Esse é o maior passo que uma mulher pode dar em direção à sua emancipação, e essa é a maior lição que nos deixa o movimento feminista de 1968.
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