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O levante do movimento estudantil brasileiro

Leandro Soto, da Secretaria Nacional de Juventude do PSTU

Apesar dos atos institucionais que estabeleceram o DOPS e que restringiram os partidos políticos e as liberdades democráticas, em 1968 o movimento estudantil ainda não tinha sido derrotado no Brasil.

O ano foi de intensas mobilizações estudantis. Ocorreram centenas de manifestações, entre as mais significativas foram o enterro do estudante Edson Luís assassinado pela ditadura militar, e a histórica passeata dos 100 mil no Rio, maior mobilização até então contra a ditadura militar. Mas antes destes episódios, muita coisa já tinha acontecido.

Prólogo dos acontecimentos
Em 1964, quando os militares realizaram o golpe militar contaram com um amplo apoio da classe média e de uma parcela dos estudantes. Um ano depois, a classe média começava a se desiludir. O golpe afinal, não tinha acabado apenas com o “perigo do comunismo”, mas pôs fim a todas as liberdades democráticas, além de manter o arrocho salarial que atingia, inclusive, a classe média.

Logo após o golpe, o movimento estudantil também foi atacado. A sede da UNE foi incendiada e no final do ano o governo aprovou a Lei Suplicy, que tinha como objetivo controlar as entidades estudantis. Apesar desses ataques, na medida em que o desgaste do regime militar se ampliava, o movimento estudantil começou a esboçar uma reação. Em 1965 ocorreram os primeiros ensaios: uma vaia ao general-presidente Castelo Branco na UFRJ e um plebiscito nacional sobre a Lei Suplicy, onde os estudantes votaram por ampla maioria para manter suas entidades independentes do governo.

Mas foi em 1966 que a luta chegou às ruas. Em Março, em Belo Horizonte, uma passeata de calouros foi duramente reprimida pela polícia. Algo que gerou em várias partes do país atos em solidariedade aos estudantes. Em meados desse ano, a UNE se reuniu na clandestinidade e elegeu sua nova diretoria. Em setembro, ocorreu a “setembrada”, uma série de manifestações que agitaram as principais capitais brasileiras. O fato mais importante foi, entretanto, a invasão da polícia militar a Faculdade de Medicina da UFRJ, onde centenas de estudantes foram presos e espancados.

No ano de 1967 ocorreram poucas lutas, embora não existisse nenhum clima de derrota. Ainda na clandestinidade a UNE realizou seu congresso em São Paulo. Ocorreram algumas lutas de importância regional. A articulação do movimento estudantil nacional avançava. Os estudantes começavam a compreender que a política educacional do governo era exatamente o oposto de suas históricas reivindicações. A falta de democracia estava engasgada na garganta do movimento. Sentiam a necessidade de avançar na sua organização e em suas lutas. As condições para a explosão do ano seguinte amadureciam.

O ano de 1968 começou com algumas lutas ainda em janeiro e fevereiro, encabeçadas por secundaristas e estudantes do restaurante Calabouço, no Rio, exigindo mais vagas nas universidades e melhorias no restaurante. Foram manifestações importantes e combativas, mas nada indicava o que viria depois. Em março o movimento cresceu. Estudantes da USP, Fundação Getúlio Vargas e PUC ocuparam suas reitorias. No Rio de Janeiro as mobilizações do Calabouço se fortaleciam. E então, num fim de tarde do dia 28 de março, a ditadura assassinava Edson Luís quando a policia reprimia uma manifestação por melhorias dno restaurante.

Do Calabouço a passeata dos cem mil
Naquele dia no Calabouço, cerca de 600 estudantes se preparavam para marchar em direção a Assembléia Legislativa, que estaria em sessão solene.

Por volta das 18h a Polícia Militar chegou ao Calabouço disposta a impedir a manifestação. Um disparo de uma pistola 45, atribuído depois ao aspirante Aloísio Raposo, atingiu em cheio o coração de Edson Luís. Os colegas de Edson cercaram o corpo para evitar que a Polícia o levasse. Em pouco tempo a passeata se reorganizava e marchava em direção a Assembléia Legislativa do Rio. “Mataram um estudante! Se fosse um filho seu?” gritavam os estudantes. Ao chegar a Assembléia, os manifestantes ocuparam o prédio. A sessão solene foi interrompida. Os estudantes organizaram grupos que passavam nos bares, cinemas e pontos de ônibus divulgando o assassinato. Em pouco tempo a imprensa começava a noticiar o ocorrido.

O dia seguinte amanheceu com a Praça da Cinelândia tomada por mais de 50 mil pessoas. O enterro se transformou na maior manifestação já realizada contra a ditadura militar. A partir daí o movimento estudantil iria entrar em ebulição crescente. Protestos ocorreram em todo o país, e a ditadura respondeu com mais repressão. Em Goiânia mais um estudante foi assassinado em uma passeata. No 1º de Abril, os estudantes organizaram “comemorações” ao golpe militar, e mais uma vez ocuparam as ruas. No dia 4, a missa de sétimo dia de Edson foi marcada por enorme tensão. A Candelária foi cercada por policiais militares que agrediram violentamente os participantes da missa quando saiam da Igreja.

No restante do mês de abril e maio, as lutas voltaram para dentro das escolas e universidades, para recuperar o fôlego. Apesar da violência da ditadura, ainda ocorriam pequenos atos de rua. Os estudantes não estavam vencidos.

Em 14 de maio, cerca de três mil estudantes tomaram de assalto a Reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Cercados por batalhões militares, os estudantes resistiram com barricadas e derrubaram a primeira tentativa de instituir o ensino pago na universidade.

Em junho as coisas voltaram a esquentar. O alvo agora era a política educacional do governo. No dia 5 os 16 mil estudantes da UFRJ entraram em greve. No dia 7 a UEE-SP convocou uma concentração em frente à reitoria da USP que seria novamente ocupada, dias depois. No dia 20 os estudantes da UFRJ ocuparam em ato o Conselho Universitário. A polícia cercou o prédio, e antes que pudessem invadir, foram varridos por uma manifestação estudantil que saía de dentro do Conselho. No dia seguinte, manifestações de protesto a tentativa de invasão da polícia inundaram as ruas do Rio.

A “sexta-feira sangrenta” como ficou conhecida, foi uma batalha de rua entre estudantes e a Ditadura que durou mais de sete horas e teve mais de mil presos. Enquanto isso os estudantes da FFLCH, então Faculdade de Filosofia da USP, ocupavam o prédio, dispostos a lá ficarem até verem suas reivindicações atendidas.

Em Brasília a polícia invadia a UnB. No dia 24, atos de rua ocorreram em Fortaleza, Belo Horizonte e Porto Alegre. No Rio, uma nova passeata estava marcada para o dia 26. Pressionado, o governo mais uma vez retirou a polícia das ruas. Estava montado o cenário para a passeata dos 100 mil. No dia 26 de junho, 100 mil estudantes ocuparam as ruas do Rio, na maior mobilização estudantil até então da história do país.

A passeata dos cem mil foi um dos últimos acontecimentos do ascenso estudantil. Em três de julho ocorreria ainda uma nova passeata com 50 mil estudantes. Mas a partir daí o movimento começou a refluir.

A ausência da classe operária
Um dos motivos principais para que o ano acabasse tão mal foi o fato de que a classe operária, ao contrário da França, não conseguiu entrar em cena.

Em abril, na cidade de Contagem (MG), cerca de 16 mil metalúrgicos entraram em greve, com ocupação de fábricas como a Belgo mineira e conquistam vitórias. Em São Paulo, no ato do 1º de Maio, metalúrgicos expulsam os pelegos e o governador biônico do palanque. Em Osasco, em junho, impulsionados pelas conquistas dos metalúrgicos de Contagem, os operários começam uma greve com a ocupação de algumas empresas. Antes que se desenvolvesse de forma a contagiar todo o movimento, a repressão militar consegue derrotar a greve e coloca um interventor no sindicato. As greves de Contagem e Osasco não se generalizam e o movimento operário não consegue entrar em cena. O golpe significou uma dura derrota para a classe operária e esta só conseguiria voltar a cena mais de dez anos depois, com as greves do ABC.

Assim, o ascenso estudantil brasileiro de 68 não conseguiu se ligar a classe operária. Sozinhos, os estudantes não foram capazes de derrubar o regime militar. Lutaram até onde era possível. Mas sua luta não foi em vão, nos deixando importantes lições.

A fragilidade do movimento operário pode ser explicada também pelo duro golpe que sofreu com o golpe de 64. Muitos sindicalistas foram cassados e os sindicatos receberam interventores e pelegos ligados aos militares. O abandono da estratégia revolucionária e a adoção de uma estratégia de alianças com partidos da burguesia por parte do PCB, principal partido operário, levou o movimento a cada vez derrotas mais profundas, desmoralizando a classe operária e desarmando-a diante do golpe. A classe operária confiou no PCB, que lhe dizia para confiar na legalidade do Estado e nos setores “progressistas da burguesia”. Após o golpe, o baque dessa esquerda reformista foi total. Mesmo com estas derrotas, os trabalhadores continuavam a lutar.


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