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A Primavera dos Povos

Jeferson
Choma, da redação
Muito tinha se passado antes daquela primavera
de 1968 na Tchecoslováquia. Em 1948, o país
se tornou uma das democracias populares do Leste Europeu.
Um país satélite da União Soviética
stalinista.
A ocupação do Exército Vermelho e as
pressões do imperialismo levaram o processo até
a expropriação da burguesia. Contudo, também
fez surgirem regimes totalmente deformados controlados pela
burocracia de Moscou.
Depois da morte de Stalin, a burocracia soviética
foi obrigada a se livrar do seu cadáver. Isso culminou
na denúncia dos crimes de Stalin no 20° Congresso
do Partido Comunista da União Soviética (PCUS).
O episódio marcou o início da crise do stalinismo.
No entanto, não impediu um profundo questionamento
das massas. Não impediu, também, as revoluções
políticas que se seguiram em Berlim (1953), na Polônia
e na Hungria (ambas em 1956). Nestes fatos, esta colocada
a luta contra a opressão que exercia a URSS e contra
as burocracias dos seus respectivos países.
Intelectuais e movimento estudantil
Os ventos contra o stalinismo sopraram na Tchecoslováquia
no final de 1967. Como na Hungria em 1956, o movimento começou
com as fundações e organizações
de escritores e seminários literários. Como
lá, o movimento desencadeado também foi muito
mais longe do que se imaginava.
Intelectuais da União dos Escritores, da Academia
das Ciências e do Instituto de Ciências Econômicas
iniciaram um amplo movimento de questionamento à política
econômica do Partido Comunista (PC). A orientação
de fortalecer a indústria pesada se demonstrou desastrosa
para a economia. No entanto, ficou claro que a luta era mesmo
contra a censura e pela liberdade de criação
artística e cientifica. Por isso, exigiam a liberdade
de expressão, de manifestação e de organização.
Algo que a Constituição garantia, mas a polícia
proibia.
As reivindicações dos intelectuais, entretanto,
apressaram a crise no país. Não demorou a que
os estudantes entrassem em cena, com suas reivindicações
por melhorias de ensino e mais liberdades. Logo ganharam as
ruas. Foram duramente reprimidos pelas forças repressoras
do Estado. Mas a violência policial só conseguiu
chamar ainda mais a atenção da população.
Outras reivindicações surgiram no processo.
Tinham a ver com uma federalização efetiva da
Eslováquia, uma revisão constitucional que garantisse
os direitos civis e as liberdades individuais. Entre elas,
a liberdade de imprensa e a livre organização
partidária. Isso implicava no fim do monopólio
do PC.
Todos os perseguidos pelo regime seriam reabilitados e reintegrados.
Intelectuais clamavam até mesmo a abertura de um inquérito
contra o governo tcheco-eslovaco por dar asilo ao assassino
de Trotsky após sua saída da prisão mexicana.
Com o impulso desse movimento, os dirigentes do aparato se
dividiram entre uma ala disposta a entregar alguns anéis
para não perder a mão inteira e outra cuja política
era enfrentar duramente o movimento antes que ele ganhasse
mais impulso.
A cisão entre os chamados "liberais" e "conservadores"
explode na alta cúpula do Partido, do secretariado
ao Comitê Central (CC). Afinal, essas são as
regras num partido stalinista. O forte impulso das forças
sociais em movimento e as dificuldades econômicas criaram
as condições para que as divergências
ou mesmo oposições se expressassem no Comitê
Central do partido, assim como as fissuras na sua cúpula.
"Dessa forma, surgem as frações, tão
condenadas pela lei do partido, mas que a poderosa ação
do movimento de massas faz renascer em toda crise séria"
(Pierre Broué, A Primavera dos Povos Começa
em Praga).
Foi nesta atmosfera que iniciou a reunião do CC no
final de dezembro de 1967. Nela, surge o debate sobre a acumulação
de cargos dos dirigentes. Era um artífice de linguagem
criado pelo setor "liberal". Na realidade, esse
setor ocultava suas verdadeiras intenções políticas:
retirar o cargo de secretário geral das mãos
do stalinista Novotny, no poder desde o fim da II Guerra.
Sob os golpes da crise, a reunião foi interrompida
e retomada somente em janeiro de 1968. Apesar de todas as
manobras e tentativas de reconciliação de Novotny,
no dia 5 de janeiro, o CC anunciou que o velho stalinista
tinha sido "liberado de suas funções".
Estava aberto o caminho para ascensão de Alexander
Dubcek ao cargo de primeiro secretário. Da mesma forma,
para a ascensão de parte da burocracia que procurava
uma interlocução junto às forças
sociais para impedir o avanço da crise no movimento
dos trabalhadores, intelectuais e estudantes. Restaurar a
confiança perdida e reciclar a imagem do partido: estes
eram os desafios dos novos burocratas.
O problema, porém, é que a saída de
Novotny esteve longe de ser o fim dos problemas, como pensava
a ala de Dubcek. Ao contrário. Foi o começo
de uma mobilização da qual não tiveram
o menor controle e que combateram com todas as suas forças
enquanto puderam.
A primeira crise do novo comando do partido veio com as pressões
das organizações dos estudantes e intelectuais.
Elas exigiam a saída de Novotny da presidência
da república. O odiado líder foi obrigado a
abandonar seu cargo depois da descoberta de uma tentativa
de golpe militar durante o intervalo do CC, de dezembro a
janeiro.
Para aplacar as pressões sociais, em abril de 1968
foi publicado um Programa de Ação. A eleição
dos dirigentes por voto secreto, a criação de
um sistema federal com o reconhecimento da nação
Eslovaca em igualdade de direitos, uma reforma eleitoral,
mais autonomia às empresas, a supressão da censura
nos meios de comunicação e a liberdade de reunião
constavam no documento.
Em março, cansados de serem tachados de "restauradores
do capitalismo" pelos burocratas do PC - especialmente
pela velha camarilha de Novotny -, os estudantes publicaram
a "Carta Aberta aos Operários". Denunciavam
com vigor a tentativa de separá-los dos operários.
Nos dias seguintes, são realizados os primeiros contatos
dos estudantes com as fábricas. A tempestade, finalmente,
chegava aos operários. Milhares deles se uniram aos
estudantes e intelectuais nas exigências por mais liberdades.
Foi por meio dos jovens operários que a agitação
passou das universidades às fabricas. Pouco a pouco,
os operários foram se colocando em movimento. Exigiam
o retorno da concepção sindical tradicional
e operária dos sindicatos: "organismo de defesa
dos interesses materiais e morais da classe e instrumentos
dos operários" (idem).
O PC impunha um completo controle aos sindicatos. Ao invés
de serem instrumentos da classe, serviam aos interesses da
burocracia na defesa de seus privilégios, mantendo
a docilidade os operários. Contudo, a revolução
política em curso acabou causando profundos questionamentos,
divisões e, por fim, o ressurgimento de um sindicalismo
livre e independente.
Por todos os lados, estouraram greves e ameaças de
greve. Diretores sindicais foram afastados por assembléias
operárias e democraticamente substituídos. Tudo
absolutamente fugindo do controle da direção
do PC.
Uma descrição de um repórter estrangeiro
ilustra muito bem a explosão das demandas dos operários
das fábricas. De acordo com ele, enquanto dirigentes
sindicais chamam os operários de uma fábrica
para votar uma moção de apoio ao novo governo
Dubcek, os operários "insistem em discutir
sobre suas próprias resoluções. Um após
o outro saltam para a tribuna e criticam os dirigentes sindicais.
(...) Uma jovem diz: 'seria um erro fatal crer que com a saída
de Novotny as coisas hão de ir muito bem. Isso deve
ser apenas o começo"' (idem).
Enquanto explodiam por todos os lados manifestações
por mais democracia socialista, em junho de 1968 foi publicado
o manifestado "Duas Mil Palavras" na Gazeta Literária
(Liternární Listy), redigido por Ludvik Vaculik.
O texto foi assinado por centenas de personalidades de todos
os setores sociais.
O manifesto era mais do que um pedido para que Dubcek acelerasse
a implementação das reformas liberalizantes,
o dito "socialismo com face humana". As tímidas
medidas reformistas não bastavam. Operários
e estudantes exigiam mais. Queriam "O Estado e a Revolução"
de Lênin colocado em prática. Estavam aprendendo
a exercer, pela primeira vez desde 1945, a democracia operária.
O documento atacava duramente o partido e o regime, afirmando
que "o comando político era exercido em nome
dos operários por um grupo de funcionários do
partido e do aparelho do Estado". Além disso,
traçava, pela primeira vez, um programa de ação
independente dos trabalhadores. Expunha com vitalidade a necessidade
da organização independente contra a burocracia
e fazia um apelo à iniciativa do movimento de massas.
Embora terminasse por apoiar o novo governo, o manifesto
não disfarçava a sua desconfiança com
relação ao "socialismo com face humana"
de Dubcek.
Os dirigentes soviéticos, que não tinham se
envolvido nas lutas políticas internas de janeiro,
inquietavam-se cada vez mais com a dinâmica do processo
tchecoslovaco. A burocracia receava que outros países
do Leste e a própria URSS se contagiassem com essas
idéias. A burocracia cobrava de Dubcek explicações
e medidas de controle efetivo sobre as forças sociais.
Este, por sua vez, reafirmava sua lealdade a Moscou e dizia
que os elementos "anti-socialistas" estavam sob
controle.
Experientes com os levantes de Berlim e da Hungria, os líderes
do Kremlin não vacilaram. Na noite de 20 para 21 de
Agosto de 1968, um poderoso exército de 250 mil homens
do Pacto de Varsóvia - a maioria da União Soviética
- pôs fim à primavera. Porém encontraram
uma enorme resistência da população.
Em Praga, as ruas foram tomadas. As rádios pronunciavam
comunicados de resistência a todo instante. Para desorientar
os invasores, as placas com os nomes das ruas eram destruídas
ou trocadas. Nos muros, surgiam pichações como
"Lênin, levante-se. Brejnev está louco!"
ou "O Circo soviético está de novo em Praga".
Uma das grandes ações de resistência,
já com Praga totalmente ocupada pelas tropas soviéticas,
foi a iniciativa de antecipar o 14° Congresso do Partido
Comunista. O processo de construção do Congresso
foi marcado por um rico debate sobre que caminhos que o socialismo
deveria trilhar no país. Nele, não foram poupadas
as criticas contra a direção burocrática.
O sentido da democracia operária foi recuperado, resgatando
os "conselhos operários e populares" como
forma de organização do Estado.
Com a maioria dos delegados já eleitos de forma democrática,
um punhado de dirigentes do partido de Praga lançaram
um corajoso chamado por rádio para a antecipação
do congresso. Milhares responderam ao apelo. Cerca de 1.100
delegados se reuniram clandestinamente numa grande fábrica
nos arredores de Praga. Operários e milícias
populares asseguraram a defesa da reunião.
Ao mesmo tempo, em Moscou, os dirigentes tchecoslovacos (inclusive
Dubcek preso), sujeitos a fortíssima pressão,
capitularam e subscreveram um protocolo, redigido pelos soviéticos,
em que se justifica a intervenção armada. A
"Primavera de Praga" era sufocada.
Qual a razão da atitude da burocracia?
Era possível uma auto-reforma do PC após a ascensão
de Dubcek? Um exame detalhado dos acontecimentos não
mostra apenas que isso era improvável, como impossível.
A reunião do CC de janeiro foi um esforço para
a conservação do controle do partido sobre o
movimento de massas que lhe estava escapando. Dubcek era um
homem do aparato, educado na Escola Superior de Mandos do
Partido em Moscou. No inicio da crise, era caracterizado como
um representante do "centro", isto é, alguém
que pudesse reconciliar "liberais" e "conservadores"
no seio do partido.
Na medida em que as forças sociais foram pesando contra
sua política, Dubcek assumiu uma atitude de não
se opor frontalmente ao movimento de massas. Assim, se alinhou
aos "liberais", cuja política assumia, aparentemente,
os objetivos dos trabalhadores como os "seus" objetivos,
procurando fazer que o partido pudesse controlar e canalizar
as forças sociais em ação. Do outro lado,
Novotny e seu grupo continuam insistindo na repressão.
Na medida em que o povo tchecoslovaco foi exigindo mais liberdades,
colocando contra a parede o conjunto do aparato, este setor
procurou atacar o movimento, taxado de "forças
reacionárias que buscavam a liquidação
do socialismo".
A burocracia não podia se auto-reformar. Os acontecimentos
que se seguiram, mesmo na fase preparatória do 14°
Congresso, indicavam mais a possibilidade do surgimento de
novos partidos operários, do que uma tendência
da burocracia de lançar mão de seus privilégios.
A revolução da "primavera" e as décadas
seguintes a sua derrota fizeram jus ao velho prognóstico
de Leon Trotsky em seu livro A Revolução
Traída: "ou a burocracia, convertendo-se
cada vez mais no órgão da burguesia mundial
no Estado operário, derrubará as novas formas
de propriedade e voltará a afundar o país no
capitalismo, ou a classe operária esmagará à
burocracia e abrirá o caminho ao socialismo".
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