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Maio de 68: a última onda
revolucionária que atingiu o centro do capitalismo

Valério
Arcary, professor do CEFET/SP, doutor em história
pela USP e autor, entre outros livros, de As Esquinas Perigosas
da História, é militante do PSTU
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a íntegra deste artigo
Se não houvesse senão uma
chance sobre cem mil, uma ínfima probabilidade, eu
apostaria mesmo assim (...) Eu tenho a paixão das
causas difíceis, quase perdidas, quase desesperadas.
É toda a diferença entre a falésia,
confortavelmente sentada, contente de seu lugar, arrogante,
condescendente consigo mesma, e a onda, que reflue, se retira,
sem esquecer jamais de voltar à carga. Tu sabes quem,
entre a falésia e a onda do mar, tem a última
palavra?
Daniel Bensaïd [1]
Só há bons
ventos para quem sabe onde quer chegar.
Sabedoria popular portuguesa
Melhor andar para trás,
do que andar para frente na direção errada.
Sabedoria popular inglesa
Essa é uma briga
particular, ou qualquer um pode participar?
Sabedoria popular irlandesa
O maio de 1968 francês é um daqueles meses
que fizeram história. Quarenta anos são um
intervalo de tempo suficiente para podermos olhar o passado
com sentido de perspectiva. Todos os anos têm doze
meses, todos os dias têm vinte e quatro horas, mas
os dias, os meses e os anos não são iguais
entre si. Há horas que valem por meses, dias que
valem por anos, e meses que valem por décadas, pela
intensidade dos acontecimentos e suas conseqüências.
Quando revoluções se colocam em movimento,
a história se acelera, e tudo que parecia duvidoso
se torna, subitamente, plausível.
Revoluções aconteceram, estão acontecendo
e voltarão a acontecer porque mudanças eram,
são e continuarão sendo necessárias.
As forças de inércia das sociedades contemporâneas,
contudo, foram, são e permanecerão sendo muito
grandes, bloqueando até as transformações
pela via de reformas. Foi o reacionarismo das classes dirigentes
que, invariavelmente, emperrou as reformas e empurrou as
massas na direção da revolução.
As revoluções em um país, todavia,
sobretudo se vitoriosas, favorecem mudanças por reformas.
Nos países onde o terremoto explodiu, e em outros.
Mesmo as revoluções abortadas funcionam, historicamente,
como um "alerta amarelo" para as classes dirigentes
de que algumas concessões terão que ser aceleradas,
para evitar um novo curto-circuito das relações
político-sociais (Draper,1978). As reformas podem
ser econômicas, sociais, políticas ou culturais.
A extensão do direito de organização
sindical, ou a universalização do voto nas
décadas finais do século XIX, na França,
mas também na Alemanha, por exemplo, seria inexplicável
sem a Comuna de Paris de 1871. A consagração
do salário mínimo, ou as preocupações
keynesianas com o desemprego seriam incompreensíveis
sem a revolução de Outubro de 1917, e o perigo
de novos Outubros. Separar o que foi a obra da revolução,
do que foi a política da contra-revolução,
é um dos desafios mais importantes da historiografia.
O maio francês foi uma revolução política
e, mesmo derrotada, abriu o caminho para reformas, entre
elas, mudanças sócio-culturais progressivas
que eram inadiáveis. Os direitos da mulher passaram
a ser parte da agenda política: o direito ao divórcio,
a legalização do aborto, a criminalização
da violência doméstica, entre outros, encontraram
reconhecimento legal, mais rápido ou mais lentamente,
em inúmeros países. Os direitos da juventude,
entre outros, foram, também, ampliados. Não
deveria surpreender que muitos tenham se dedicado, nas décadas
seguintes, a exorcizar o fantasma, ou o perigo, da revolução
social anti-capitalista, aplaudindo as reformas político-culturais.
Mas, as reformas não foram obra da contra-revolução:
foram, essencialmente, um sub-produto da revolução.
O maio francês se desenvolveu, também, no contexto
de uma vaga revolucionária internacional, a maior
da segunda metade do século XX antes dos processos
do Leste Europeu entre 1989-91, que fez tremer a ordem mundial:
nas ruas de Saigon se revelava para o mundo que o Império
mais poderoso da história, militarmente, não
poderia alcançar uma vitória no Vietnam; de
Paris ao Rio de Janeiro, de Praga à Cidade do México,
de Turim a Córdoba na Argentina, sem esquecer a nova
situação dentro dos EUA e na Alemanha - só
o Japão, na Tríade, escapou - e as batalhas
decisivas das guerras de libertação nacional
contra o Império Português na Guiné,
Angola e Moçambique, em quatro continentes, a revolução
abria frentes de combate.
Revoluções são surpresas históricas
Revoluções foram sempre uma surpresa histórica.
Mas, na história, há surpresas e surpresas.
Marx tinha acompanhado o movimento operário francês,
com especial atenção, embora a influência
dos proudonistas, nas alas mais moderadas, e dos blanquistas,
entre as radicais, fosse superior à dos seus camaradas.
Paris foi, afinal, a capital da revolução
européia no século XIX por três vezes:
em 1830, 1848 e 1871. Ao final da vida, Marx depositou esperanças
em uma revolução que viria da Rússia,
um dos últimos grandes Impérios autocráticos.
A república que surgiu da derrota da Comuna de Paris
parecia ter consolidado o poder burguês por muitas
gerações, e afastado a França do furacão
revolucionário. Ao final da Primeira Guerra Mundial,
a França, uma das potências vitoriosas, embora
exausta, senão prostrada pelo esforço de guerra,
foi poupada da onda revolucionária que sacudiu a
Europa central e oriental. Na seqüência da crise
mundial de 1929, a França chegou a viver a experiência
de um governo de Frente Popular com Leon Blum, eleito em
1936, e uma situação revolucionária
com a grande greve geral, mas as hesitações
insuperáveis da SFIO (Seção Francesa
da Internacional Operária) - a social-democracia
- e do PCF (Partido Comunista Francês), associadas
às dificuldades no cenário internacional -
consolidação do nazismo na Alemanha, terror
do estalinismo na URSS durante os anos dos julgamentos de
Moscou, isolamento das forças revolucionárias
na guerra civil espanhola - conduziram a uma inversão
desfavorável da relação de forças
entre as classes. As classes proprietárias francesas
abraçaram uma perspectiva contra-revolucionária
aberta: "mieux Hitler que le Front Populaire"
(melhor Hitler que a Frente Popular).
Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, no entanto, não
voltaram a se abrir situações revolucionárias
nos países centrais, e a burguesia européia
e seus representantes estavam confiantes que as revoluções
eram turbulências do passado, características
de uma época histórica superada, ou de países
atrasados ou até exóticos, como Cuba. Mesmo
entre os marxistas eram poucos aqueles que ainda apostavam
nos desdobramentos de uma situação revolucionária
nas metrópoles imperialistas, apesar das conseqüências
desestabilizadoras das derrotas nas guerras coloniais, como
no Vietnam e Argélia para a França. Empolgante
e inesperado, o Maio de 68 francês demonstrou que
revoluções ainda eram possíveis nas
fortalezas da retaguarda do imperialismo contemporâneo.
O grande tabu do pós-guerra: a presença
dos PCs em governos europeus
Na França, uma nova geração tinha chegado
à vida adulta sem passar pela tragédia das
guerras mundiais da primeira metade do século, mesmo
se considerado os sacrifícios da juventude francesa
nas guerras do Vietnam e da Argélia; o crescimento
econômico, mesmo se financiado pelos investimentos
norte-americanos - que deixavam a França e, de resto,
toda a Europa, em uma posição complementar
dentro do sistema internacional de Estados - era alimentado
pelo peso da intervenção do Estado que aumentava
os gastos militares: o capitalismo regulado não só
tinha reduzido as taxas de desemprego, como se apoiava em
uma crescente dependência de mão de obra emigrante;
a extensão dos serviços públicos, mesmo
se respeitadas as diferenças sociais consideráveis
que ainda separava o padrão de vida dos trabalhadores
das classes médias urbanas e rurais, tinha diminuído
de forma significativa a mortalidade infantil, elevado a
escolaridade e aumentado a proteção social
dos idosos. Um otimismo histórico animava a sociedade,
mesmo se considerado o perigo latente da guerra fria: os
salários subiam lentamente, mas subiam, enquanto
as pressões inflacionárias estavam sob controle;
as necessidades mais intensamente sentidas - alimentação,
moradia, transporte, educação, saúde
- eram crescentemente satisfeitas; o consumo dos bens duráveis
aumentava. Políticas keynesianas anticíclicas
pareciam ter garantido a governabilidade política
(Chesnais, 1997).
Mas, estas mudanças não foram suficientes
para conter os estudantes - a primeira linha da nova geração
- e não impediram que estes arrastassem atrás
de si a maioria do povo: entre 14 e 27 de maio, a França
foi sacudida por uma greve geral espontânea, porém,
irresistível, talvez uma das greves gerais mais fortes
da história e que se alastrou de norte a sul, paralisando
o país. À sua frente estava a juventude operária
que, rapidamente, forjou uma aliança com os estudantes.
Não restou a De Gaulle alternativa senão convocar
o Exército, e apelar, dramaticamente, ao medo da
revolução: ameaçou a nação
com o perigo da guerra civil, algo impensável somente
um mês antes. Sabia que a chantagem é uma arma
política poderosíssima. Contava com a hesitação
do PCF e a obteve, como concluiu o insuspeito Hobsbawm:
"o PCF condenou-se a si mesmo durante os dias cruciais
de 27 a 29 de maio, esperando e lançando apelos.
Mas, em tais ocasiões, a espera é fatal. Os
que perdem a iniciativa perdem o jogo" (Hobsbawm, 1999)
[2].
De Gaulle era consciente de que estava em jogo não
somente o seu destino, mas um dos pilares da ordem do pós-guerra.
Era preciso agir, e agir rapidamente para recuperar a governabilidade.
Na França, ao contrário da Inglaterra, da
Alemanha ou dos países nórdicos, onde a oposição
- por dentro dos limites do regime político - se
estruturava em torno de partidos social-democratas, a alternância
eleitoral se expressava através da Frente Popular
que tinha no PCF (Partido Comunista Francês) de George
Marchais sua coluna vertebral. A presença de um partido
comunista em um governo da NATO era ainda um tabu político.
A proibição da presença dos PCs em
governos na Europa ocidental era uma herança política
das negociações entre Washington e Moscou
ao final da guerra. Foi um dos artigos "pétreos"
dos acordos de Yalta e Potsdam (Anderson, 1976). Só
foi violado, depois do 25 de Abril de 1974, em Portugal.
A influência alcançada pelo PCF na luta contra
a ocupação alemã, assim como o prestígio
da URSS pelos sacrifícios gigantescos do exército
vermelho na luta contra o nazi-fascismo, tinham transformado
o PCF no principal partido de oposição e,
portanto, no principal beneficiado, se De Gaulle viesse
a ser derrubado. Mitterand tinha reorganizado a SFIO em
um novo partido socialista, mas estava longe, em 1968, de
ter uma posição hegemônica na oposição
ao gaullismo. O PCF, ao contrário de Tito na Yugoslávia,
tinha colaborado na estabilização do regime
entre 1945 e 48 - Maurice Thorez foi ministro de De Gaulle
- e, nos seus planos, em 1968, não constava qualquer
veleidade de desafiar Moscou.
O PCF, todavia, não queria chegar ao poder antes
da hora. Não queria uma revolução contra
De Gaulle. Articulava, pacientemente, uma aliança
eleitoral e aguardava. A direção do PCF sabia
que revoluções não podem triunfar,
se não estão dispostas a fazer a insurreição.
Mas, insurreições precisam de uma direção.
Esta foi umas das chaves de explicação para
a posição attentiste ou de inércia
(esperar para ver) do PCF e, portanto, pela sua falta de
iniciativa em momentos decisivos dos combates de maio, e
pela colaboração dos líderes sindicais
da CGT, ao assinar e defender os acordos ao final da greve
geral. O PCF estava disposto a chegar ao poder por eleições,
nos marcos de um governo de colaboração de
classes com aliados que tranqüilizassem a burguesia,
mas não como resultado de uma revolução.
No Maio de 1968 francês, abriu-se uma situação
revolucionária atípica, porque sem uma direção
disposta a lutar até o fim para derrubar o governo,
portanto, diferente das situações revolucionárias
clássicas, como aquela que precedeu a revolução
de Outubro da Rússia de 1917 - quando havia um partido
disposto a tomar o poder, o bolchevismo - mas ainda assim
uma situação revolucionária: o governo
De Gaulle tremeu e quase caiu. Foi mais parecida com a situação
revolucionária que precedeu a revolução
de Fevereiro de 1917 na Rússia, embora esta tenha
sido vitoriosa: de um lado, uma colossal irrupção
da mobilização operária, popular e
juvenil, em grande medida espontânea e, do outro lado,
por algumas semanas, a divisão da classe dominante
- rachada entre os que defendiam o uso da repressão
e os que hesitavam - e a paralisia do Governo e das instituições
do Estado e, entre estas duas forças, um deslocamento
à esquerda da maioria das classes médias,
elas, também, cindidas, entre os pequenos proprietários
mais reacionários, e as novas camadas intermediárias
com alta escolaridade, porém, assalariadas.
Um movimento estudantil admirável
Um novo movimento estudantil saiu às ruas em 1968
e, surpreendentemente, suas bandeiras eram vermelhas. Quando
a repressão mostrou a verdadeira cara do governo
De Gaulle - e, sem máscara, o que se viu foi estarrecedor
- os estudantes foram para as portas das fábricas
pedir o apoio do proletariado. Empolgaram a França
e deixaram o mundo estupefato. Incendiaram o ânimo
da maioria popular com sua imaginação política.
Subverteram Paris. Os muros da cidade, que foi a capital
cultural da civilização burguesa, foram cobertos
com pichações, ao mesmo tempo, irreverentes
e rebeldes, satíricos e amotinados como: "as
mercadorias são o ópio do povo, a revolução
o êxtase da história"; "Sejam realistas,
exijam o impossível!" (Soyez réalistes,
demandez l'impossible!); "Deixemos o medo do vermelho
aos animais com cornos!" (Laissonz la peur du rouge
aux bêtes à cornes!) "Corra camarada,
o velho mundo está atrás de ti!" (Cours
camarade, le vieuz monde est derriére toi!); "Os
muros têm orelhas, vossa orelhas têm muros!"
(Les murs ont des oreilles, vos oreilles ont des murs!);
"O respeito se perde, não vão procurá-lo!"
(Le respect se perd, n'allez pas le rechercher!).
A entrada em cena dos estudantes foi um fenômeno histórico-social
inesperado. Como sempre, diante de acontecimentos novos,
aqueles que não permitem analogias, há o perigo
de exagerar ou diminuir seu significado. Ambos os excessos
foram cometidos para exaltar ou criticar o movimento estudantil
que, repentino, surgiu à luz do dia. Antes de 68,
o movimento estudantil nunca jogou um papel tão destacado
em qualquer outro processo revolucionário. Entre
outras razões, porque nunca antes tinham existido
tantos estudantes, em especial, tantos estudantes com uma
origem social não-burguesa. Sessenta e oito foi um
batismo de fogo internacional: na França e no Brasil,
no México e na Argentina, e mesmo em Praga, os estudantes
estiveram na primeira linha.
As transformações nas sociedades do pós-guerra
- entre elas, a "explosão" demográfica,
e a mais intensa urbanização e industrialização,
mesmo de nações que eram capitalistas há
séculos - exigiram uma mão-de-obra mais educada
e alargaram o acesso ao ensino médio e ao ensino
superior em uma escala qualitativa. O fenômeno geracional
e social-cultural foi internacional, ainda que em proporções
diferentes. Os jovens eram muito mais numerosos que no passado,
e a entrada no mercado de trabalho passou a ser feita muito
mais tarde.
Não só o número, mas, também,
o peso social dos estudantes aumentou com o agigantamento
das cidades universitárias: a audiência das
classes médias às reivindicações
estudantis aumentou e a repercussão do exemplo de
suas lutas entre o povo, incluindo o proletariado, também.
Em Paris, a solidariedade com os estudantes, depois do cerco
da Sorbonne, foi espantosa. Entre o 3 e o 11 de maio, o
entusiasmo entre os estudantes não pareceu de crescer
e contagiou a nação. Nem De Gaulle, nem a
ditadura brasileira sabiam como lidar com aquela massa de
jovens: imaginavam, com razão que, se reprimissem,
podiam acender o pavio de uma mobilização
incontrolável; se não reprimissem, poderiam
sinalizar fraqueza, e se desmoralizar diante de sua própria
base social.
O dia em que a Sorbonne foi vermelha
Os primeiros atos de grandes dramas históricos parecem,
freqüentemente, triviais. A luta de classes na Europa
assumia uma forma previsível, e mesmo na França,
depois do fim da guerra da Argélia, seguia um ritmo
contido: lutas, essencialmente, defensivas, e protestos
de dimensões modestas, que reagrupavam uma vanguarda.
Mas, algumas prisões depois de um ato em solidariedade
com a resistência no Vietnam foram o estopim de uma
avalanche. Na seqüência, pouco mais do que uma
centena de estudantes da Universidade de Paris-X, em Nanterre,
na periferia de Paris, ocupou a sala do Conselho de Universidade
[3]. O movimento estudantil estava engajado em uma campanha
contra a reforma do ensino superior. Mas, não eram
indiferentes à espetacular repercussão da
Ofensiva do Tet que conseguiu hastear a bandeira vietcong
no teto da embaixada americana em Saigon.
A ocupação se estendeu para a Sorbonne, e
o reacionarismo e a soberba do governo De Gaulle - uma mistura
sempre explosiva - o levou a cometer a provocação
de lançar a polícia sobre o Quartier Latin
(o bairro latino de Paris, no coração da capital).
Não conseguiram, apesar de uma apocalíptica
batalha campal, desalojar a massa de estudantes que se defendiam
em improvisadas barricadas. O espírito das jornadas
revolucionárias de 1848 e de 1871 parecia ter ressuscitado.
Poucos dias depois, um milhão de pessoas desfilaram
pelas ruas de Paris em solidariedade com os estudantes e
contra o governo. Foi um terremoto político, que
anunciava que um tsunami estava por chegar: na seqüência,
o país entrou em greve geral por tempo indeterminado,
portanto, greve geral política, porém acéfala,
sem uma proposta de saída política para a
crise. O movimento não levantava sequer uma proposta
clara de deposição do governo.
Um fenômeno novo na Europa do pós-guerra: uma
greve geral política apesar das direções
dos sindicatos e contra as direções do PS
e do PCF, ou seja, um processo, essencialmente, espontâneo,
de rebelião operária-popular. Foi argumentado
à exaustão que as massas não queriam
fazer na Paris de 1968, uma Petrogrado de 1917. No maio
francês, como de resto em todos os processos revolucionários
da história, as massas não se lançaram
à luta com um plano pré-concebido de como
gostariam que a sociedade deveria ser. Os estudantes e operários
franceses sabiam, porém, que queriam derrubar De
Gaulle. Derrubar o governo é o ato central de toda
revolução moderna. Quando descobriram a sua
força social e política, no calor dos dias
da greve geral, as massas populares francesas se moveram
com instinto de poder. Seus dirigentes reconhecidos - porque
a ação das massas em processos revolucionários
está, geralmente, à frente ou à esquerda
da sua consciência - ao contrário, esquivaram-se
de responder à questão do poder. O desbordamento
na ação dos aparelhos sindicais e políticos
foi transitório. A crise política, que caminhava
para se radicalizar em crise revolucionária, foi
superada. O PCF não fracassou como partido revolucionário,
mas como partido reformista (Touraine, 1969) . De Gaulle
não caiu, imediatamente, mas, o regime tremeu. O
mal estar foi desviado para os processos eleitorais que
culminaram, mais de uma década depois, com a eleição
de Mitterand, somente em 1981.
Uma vaga revolucionária mundial
O maio Francês esteve inserido na quarta onda da revolução
mundial do século XX: a primeira teve como epicentro
a revolução russa e se estendeu da Europa
Oriental para a Central; a segunda sacudiu a Europa do Mediterrâneo
depois da crise de 1929; e a terceira aconteceu na seqüência
da derrota do nazi-fascismo. Entre 1968 e 1979/80 a dominação
imperialista esteve seriamente ameaçada. Foi a mais
internacional de todas as vagas revolucionárias,
até hoje. O internacionalismo renasceu das cinzas
com a solidariedade internacional ao Vietnam - uma campanha
muito mais ampla que o apoio ao FLN (Frente de Libertação
Nacional) na Argélia - e o repúdio mundial
ao golpe de Pinochet.
A quarta onda da revolução mundial começou
na Europa, como as anteriores - maio 68 francês, primavera
de Praga e Outono quente italiano -, mas, esteve articulada
com a situação na Ásia (ofensiva no
Vietnam e internacionalização no Camboja)
passou pela África - início da derrota militar
portuguesa nas colônias africanas, em especial na
Guiné - e chegou a ter uma refração
na América Latina, onde o movimento estudantil se
levantou pelas liberdades democráticas (México
e Brasil em 1968), e o movimento operário se lançou
a ações de massas radicalizadas (Cordobazo
argentino em 1969, revolução chilena 1970/73).
Em todos estes processos, o papel dos partidos comunistas
disciplinados por Moscou foi, dramaticamente, em maior ou
menor medida, reacionário, e sua influência
começou a declinar, abrindo o caminho para a reorganização
de uma nova esquerda.
A disputa da memória: a revolução
foi possível?
O maio francês foi satanizado pelas forças
reacionárias do mundo inteiro, e transformado em
polêmica eleitoral por Sarközy, porque foi a
primeira vez que, em um país central da ordem imperialista,
depois do fim da guerra em 1945, milhões se interrogaram
outra vez se uma revolução social não
seria possível. Essa foi sua herança mais
significativa. Essa é a memória que os defensores
da ordem estão preocupados em apagar.
O maio francês será recordado, por alguns,
porque ele ajudou a abrir o caminho para que surgissem,
nos anos seguintes, os movimentos feministas, os movimentos
negros, ambientalistas, os movimentos pela legalização
das drogas, os movimentos contra a opressão homofóbica.
É justo que seja assim. A elevação
da escolaridade média da sociedade e o surgimento
de uma nova classe média urbana de profissionais
assalariados ajudou a potencializar novos sujeitos sociais
que levantaram bandeiras político-culturais progressivas
contra uma ordem mundial, até então, anacronicamente,
reacionária.
Entretanto, o maio francês foi, em primeiro lugar,
uma inspiração para que na França e,
pela sua repercussão, em todo o mundo mais urbanizado,
ganhasse relevância político-social um novo
movimento estudantil. Desde então, nem sempre a maioria
dos estudantes se identificaram com o movimento estudantil.
Nem todos os estudantes tiveram disposição
para se colocar em movimento. Uma parcela mais privilegiada,
ou mais iludida com as possibilidades de ascensão
social, permaneceu à margem, ou foi diretamente hostil
ao movimento estudantil. Não obstante, dependendo
da relação de forças política
mais geral na sociedade, e oscilando entre um movimento
mais de vanguarda e ideológico em situações
mais defensivas, e um movimento de massas em situações
de crise política, os estudantes passaram a ser sujeitos
políticos da maior importância.
A história das revoluções é
um campo de batalha ideológica
Conservadores de todos os tempos, no entanto, asseguraram
sempre que as coisas só mudam para permanecerem,
essencialmente, iguais. As ideologias reacionárias
admitem que o mundo pode passar por transformações,
mas somente na longa duração. Não são
inocentes: sabem que mudanças na longa duração
não entusiasmam ninguém. Na longa duração
estaremos todos com dores nas costas, senão diabéticos,
ou pior, mortos. Não ignoram que as revoluções
são processos que incendeiam a imaginação
dos jovens, porque demonstram que as mudanças podem
ser feitas.
Os reacionários precisam denunciar os voluntarismos,
mesmo quando admitem que são bem intencionados. Os
mais esclarecidos podem reconhecer a legitimidade dos que
lutam contra a exploração e a opressão,
mas somente para desqualificá-los como sonhadores
infantis. Consideram que todos os esforços de mudar
a sociedade por métodos revolucionários estão
condenados à partida. Apelam para os argumentos mais
viciados: as recompensas seriam duvidosas, mas, certamente,
não compensariam as seqüelas que toda luta traz;
os sacrifícios seriam em vão. Não seria
possível mudar o mundo, porque afinal as pessoas
são como elas são; as relações
sociais são como são, em função
da natureza humana. A história, no entanto, tem a
ambição de atribuir sentido ao passado, e
não é casual que os historiadores marxistas
tenham entre as suas preferências o estudo daqueles
processos que desafiaram as forças de inércia
que aprisionam as sociedades.
Revoluções, portanto, sempre inspiraram batalhas
ideológicas. O maio francês foi um ensaio geral
de uma revolução. Foi um ensaio de uma revolução
política ou democrática: a aliança
entre trabalhadores e estudantes, que potencializou a greve
geral e atraiu a simpatia de uma parcela das classes médias,
esteve muito perto de derrubar o governo De Gaulle e o regime
da V República (Hobsbawm, 1999). Remetendo a uma
metáfora histórica, foi o ensaio de uma revolução
de fevereiro.[4] Foi somente um ensaio porque a situação
francesa foi bloqueada, ou controlada, e a queda de De Gaulle
da presidência foi amortecida, apesar da greve geral.
O 68 francês foi uma revolução de fevereiro
abortada. De Gaulle acabou sendo sacrificado, depois que
a vertigem da crise tinha sido superada, para preservar
o gaullismo como principal partido do regime. Mas, mesmo
sendo parcialmente derrotado, o maio francês demonstrou
que a aliança operária-estudantil era o alicerce
de um bloco de classes que podia desafiar um dos imperialismos
mais poderosos do mundo.
Conclusão
A disputa da memória foi o feijão com arroz
das polêmicas historiográficas do século
passado, porque a ordem político-social, em um mundo
tão injusto e desigual, precisa de legitimação.
A justificação do presente repousa na interpretação
do passado. Não deveria nos surpreender que as revoluções,
em especial aquelas nos países centrais, tenham sido,
furiosamente, discutidas. A onda revolucionária de
68 teve três características novas: (a) a entrada
em cena da juventude estudantil como detonador da mobilização
operária e popular, ou seja, um papel protagonista
como sujeito social; (b) a superação parcial,
porém significativa, do domínio hegemônico
que os partidos comunistas mantinham sobre as organizações
dos trabalhadores; (c) a extensão internacional que
a onda revolucionária alcançou, contagiando
lutas em três continentes.
Apesar de sua força, a onda revolucionária
foi derrotada. A investigação histórica
não deveria ignorar, no entanto, que existiram desenlaces
alternativos em cada uma das encruzilhadas em que a revolução
mundial mediu forças com a ordem do capital. Ao vencer,
o capitalismo provou que era (ou estava) ainda forte o bastante
para impor sua dominação, fosse pela força
da repressão, ou pela negociação de
reformas, ou por combinações variadas de coerção
e cooptação. Isso não autoriza a conclusão
de que a preservação do capitalismo teria
sido a solução mais progressiva. Na história,
a força não prova a superioridade. Na história
das sociedades contemporâneas impuseram-se, mais de
uma vez, soluções reacionárias, se
a classe que poderia assumir o papel de sujeito revolucionário,
por imaturidade objetiva ou debilidade subjetiva, não
foi capaz de derrotar o regime capitalista. A caducidade
do capitalismo, ou seja, sua permanência tardia ou
senil introduziu elementos degenerativos nas relações
sociais. O perigo da barbárie ficou maior.
REFERÊNCIAS
ANDERSON, Perry. Considerações sobre o
marxismo ocidental. Lisboa: Afrontamento, 1976.
ARCARY, Valério. As esquinas perigosas da história.
São Paulo: Xamã, 2004.
BENSAÏD, Daniel. Moi, la Revolution. Paris: Gallimard,
1989.
CHESNAIS, François. La caracterización del
capitalismo a fines del siglo XX. Herramienta, Buenos Aires,
n. 3, outono 1997.
DRAPER, Hal. Karl Marx's theory of revolution. v. 2. Nova
York: Monthly Review Press, 1978.
HOBSBAWM, Eric. Maio de 68 in Pessoas Extraordinárias.
São Paulo: Paz e Terra, 1999.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século
XX, 1914-1991. 2. ed. Trad. Marcos Santarrita. São
Paulo: Companhia das Letras, 1996.
TOURAINE, Alain, Le mouvemente de mai ou le communisme utopique.
Paris: 1969.
NOTAS:
[1] BENSAÏD, Daniel. Moi, la
Revolution. Paris: Gallimard, 1989. p.28. Tradução
nossa.
[2] "Mas a Frente Popular
não estava preparada para ocupar o vazio deixado
pela desintegração do gaullismo(...) o Partido
comunista, mediante seu controle sobre a confederação
sindical mais poderosa, era naquele momento a única
força civil de real importância e, portanto,
inevitavelmente, dominaria o novo governo. A crise eliminou
a falsa política de cálculos eleitorais e
deixou visível somente a política real dos
poderes efetivos (...) O PCF manteve-se consistentemente
atrelado por trás das massas, sendo incapz de reconhecer
a seriedade do movimento estudantil até que as barricadas
foram erguidas; e incapaz de reconhecer a disposição
dos operários para uma greve geral indefinida, até
que as ocupações espontâneas forçaram
a mão de seus dirigentes sindicais". (HOBSBAWM,
Eric. Maio de 68 in Pessoas Extraordinárias. São
Paulo: Paz e Terra, 1999, p.309 e 312.)
[3] Foi nesse contexto que
constituíram o "movimento do 22 de março",
uma tendência ou frente estudantil animada por trotskistas
e anarquistas; entre eles, os dois Daniéis: Cohn-Bendit,
estudante de sociologia de nacionalidade alemã e
que, hoje, tem um mandato do Partido Verde no Parlamento
europeu, e Bensaïd, que permanece uma das lideranças
da LCR francesa, e é professor de filosofia em Paris.
[4] As revoluções
do século XX só excepcionalmente radicalizaram
em revoluções sociais, como em Outubro de
1917 na Rússia, ou em 1961, em Cuba. A maioria das
revoluções estagnou na forma de revoluções
democráticas - a derrubada do regime político
- a "estação" de Fevereiro na Rússia,
e não tiveram resultados anticapitalistas. Depois
da revolução russa, o intervalo histórico
entre a etapa de "Fevereiro", a revolução
política, e "Outubro", a revolução
social, não parou de aumentar: as razões deste
processo foram muitas e variadas em cada revolução,
mas o denominador comum foi a fragilidade ou até
ausência de organizações marxistas revolucionárias.
Em raras oportunidades, comparativamente, se expropriou
o capital e se avançou em experiências de transição
ao socialismo. Esses resultados, entretanto, não
autorizam a conclusão de que não existia uma
dinâmica anticapitalista nos processos de mobilização
que culminaram em revoluções democráticas.
Se as revoluções políticas demonstraram-se
fenômenos quase recorrentes - como, mais uma vez,
as situações no Equador, Venezuela, Argentina
e Bolívia dos últimos anos, entre outras,
confirmam - foi porque as tarefas históricas que
se propuseram resolver permaneceram pendentes. Suas espetaculares
vitórias democráticas resultaram em mudanças
econômico-sociais insuficientes, conquistas sempre
incompletas, e frustraram as classes que as fizeram. As
revoluções de "Fevereiro" foram,
nesse sentido, revoluções sociais "abortadas".
As massas populares lutaram, uma e outra vez, com heróicos
sacrifícios, mas acabaram por entregar o poder para
representantes políticos de interesses de outras
classes. Essas energias revolucionárias não
são inesgotáveis. Fevereiros crônicos
são vitórias táticas que preparam derrotas
estratégicas. Ultrapassado um ponto limite de máxima
tensão, sem uma solução favorável
para os trabalhadores, a renovação de esperança
exige longas durações para se recuperar, ou
seja, o intervalo de uma geração, ou décadas.
Esse balanço histórico convida à perseverança
- e à imaginação - de que outras revoluções
são possíveis. Sobre o tema das revoluções
de fevereiro é possível consultar: ARCARY,
Valério. As esquinas perigosas da história,
situações revolucionárias em perspectiva
marxista. São Paulo: Xamã, 2004. MORENO, Nahuel.
Critica a las tesis de la revolución permanente de
Trotsky Buenos Aires: Ediciones Crux, 1992. Colección
Ineditos de Nahuel Moreno.
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