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O significado político do ano de 1968

Henrique Carneiro, Professor do Departamento de História/FFLCH/USP

O ano de 1968 se tornou emblemático porque nele se concentraram acontecimentos que representaram uma inflexão histórica. Foi a maior onda de conflitos políticos simultâneos em diversos continentes, particularmente na Europa, depois da crise do pós-guerra. E foi o primeiro movimento de massas internacional a sair fora do controle das organizações tradicionais do movimento operário mundial: os partidos comunistas e as organizações ligadas à social-democracia, tanto nos países da Europa ocidental e da América Latina, como no interior dos próprios estados controlados pela burocracia soviética, dos quais o movimento mais importante foi o da Tchecoslováquia.

O mais importante dessa onda histórica de lutas talvez tenha sido, não apenas a sua força e extensão objetivas, mas o fator subjetivo da ruptura com as velhas direções, do surgimento de uma nova consciência crítica nas vanguardas estudantis e operárias que protagonizaram tais lutas.

No interior da esquerda, germinou uma busca de alternativas anti-stalinistas, de vertentes heterodoxas e de um renascimento da crítica radical. A obra de Leon Trotsky alcançou um novo impacto, apenas doze anos passados do reconhecimento oficial pela burocracia soviética, dos crimes de Stálin no XX Congresso do PCUS, em 1956. A juventude que despertava para a militância política, já o fazia distanciada dos partidos tradicionais, e engrossava as fileiras dos maoístas, anarquistas, e trotskistas e desconfiava da esquerda "oficial", integrada ao Estado e à ordem européia do pós-guerra.

Autores até então obscuros ou marginalizados foram relidos, as vezes até publicados pela primeira vez em muitos países, como foi o caso de Charles Fourier, Wilhelm Reich e Antonio Gramsci. A escola de Frankfurt, sobretudo a obra de Herbert Marcuse, a inspiração do que se chamou de "esquerda freudiana", e a redescoberta da obra até então inédita de Reich, levou a que a "revolução sexual" se tornasse uma bandeira gêmea da revolução social. O movimento feminista preparava a sua nova onda histórica de mobilizações na Europa ocidental por reivindicações como direito ao aborto e ao divórcio, enquanto nascia um movimento homossexual.

Tais transformações nos costumes tomavam inédita repercussão e dimensão política, e no compasso de uma efervescência estética vanguardista, com o rock tomando proporções de estilo rebelde internacional, e todas as artes eclodindo de experimentalismos e inovações, conquistavam-se novas esferas no direito à autonomia do próprio corpo, com reivindicações que iam da legalização do consumo de drogas ao direito do uso de cabelos compridos ou adereços extravagantes, à práticas de vida comunitária alternativas ou a buscas espirituais em filosofias orientais, num rechaço moral ao domínio histórico do imperialismo ocidental e sua religião.

Muitas vezes, 1968 é interpretado, desde um prisma essencialmente francês, a partir dos processos teóricos que se originaram ou se seguiram aos eventos deste ano. Se 68 teve esta importância reflexiva, anterior e posterior à eclosão da rebelião de maio, o seu significado imediato enquanto ocorria era o de uma crise política devido à intervenção ativa das massas numa luta que se espalhava das escolas para as fábricas. Logo após o final da segunda guerra mundial haviam eclodido movimentos de revolta, tanto na Europa, com ondas grevistas na França e Itália, como no mundo colonial, onde da Indonésia à África, as colônias conquistaram a independência formal de suas metrópoles. Em muitas delas contra governos metropolitanos nos quais os PCs participavam, como é o caso da França, que praticou os massacres de Madagascar, Argélia e Vietnam com comunistas nos ministérios, inclusive no da Defesa. Na China, Iugoslávia e Albânia, o processo foi além do que Stálin estabelecera e a burguesia foi expropriada.

Embora o processo de luta nas antigas colônias prosseguisse no curso dos anos 50 e 60, com os picos na revolução argelina e cubana, conseguiu-se uma fase de relativa estabilidade política na Europa, possibilitada por um boom econômico a partir da reconstrução capitalista com o plano Marshall e a divisão do continente em dois blocos, onde cada lado encarregava-se de manter a ordem dos acordos de Yalta e Potsdam nos seus territórios, chegando a erguer para isso um muro para separar as duas Alemanhas. A União Soviética, além de manter a ordem no seu território e dos seus satélites, direcionava os partidos comunistas no mundo para uma ação de aliança com as burguesias e de sabotagem do movimento operário independente. Em Cuba aliam-se a Batista ocupando ministérios, na Argélia opõem-se à independência, e na própria Europa, desmontam as ondas grevistas do pós-guerra na França e na Itália.

A coincidência de levantes políticos em diversas regiões do planeta de uma forma mais ou menos simultânea foi a característica decisiva do ano de 1968. Os levantes na Europa, Estados Unidos e Japão combinaram-se com a ofensiva do Tet no Vietnam e com manifestações em toda a América Latina. No leste europeu, vivia-se a segunda onda de lutas do pós-guerra (a primeira foi em 56), especialmente na Polônia e Tchecoslováquia, que culminaram na invasão soviética. E o boom econômico das duas décadas do pós-guerra também se esgotava exatamente nesse período.

A noção de uma revolução internacional tomava dimensão não só na ocorrência objetiva de levantes políticos em diferentes países como numa solidariedade concreta entre manifestantes que se identificavam com bandeiras comuns, como a denúncia da agressão norte-americana no Vietnam, a reivindicação do Che Guevara e a luta por um socialismo que não se identificava com o governo soviético e os PCs mas, ao contrário, apoiava as rebeliões na Tchecoslováquia e se encantava com o radicalismo da revolução cultural chinesa.

Mas foi na França, com a greve geral e as barricadas, que a influência de 68 irradiou-se mais forte. Além dos elementos objetivos do movimento, o que se destacava era o fato de que ele não era controlado pelas direções políticas tradicionais do movimento dos trabalhadores, ou seja, as direções sindicais e do Partido Comunista Francês. Ao invés das direções tradicionais, o que despontava era uma outra geração, que irrompia na cena política com a reivindicação de sua própria juventude como garantia de legitimidade e autenticidade políticas. O movimento internacional da juventude assumia também proporções mais subterrâneas do que os eventos massivos e os conflitos diretos, insinuando-se nas atitudes culturais, invadindo as menores cidades com a identidade comum de uma postura anti-repressiva no âmbito dos costumes e antigovernamental no terreno político. Os estudantes, "barômetro da sociedade", refletiram em inúmeros países uma nova relação de forças sociais e se combinaram com lutas operárias mais embrionárias para desencadearem movimentos de oposição aos regimes vigentes da Turquia ao Japão, dos Estados Unidos à Polônia, do Brasil ao México.

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