Eleições em meio à forte polarização social

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Marine Le Pen, candidata da extrema-direita francesa.

polarização social na França provocou uma enorme fragmentação da cena política, expressão de uma crise do sistema partidário e político que, por anos, estava baseado na alternância entre o Partido Socialista e a direita tradicional. Esse quadro faz com as eleições presidenciais sejam umas das mais incertas da história recente. Até algumas semanas atrás, as pesquisas mostravam que o segundo turno das eleições seria realizado entre o candidato François Fillon e a candidata Marine Le Pen, da extrema direita. Contudo, denúncias de corrupção envolvendo Fillon e sua esposa provocaram a ascensão de Emanuel Macron, um candidato que defende a mesma política social-liberal do atual presidente François Hollande, mas apresenta um novo rosto, diferente dos tradicionais politicos do país.

François Filon, do Les Républicains. Foi primeiro ministro sob a presidência de Nicolas Sarkozy.

Crise do PS
A crise no Partido Socialista (PS) explica parte do cenário eleitoral francês. O partido deve amargar seu pior resultado eleitoral da história. Em 2012, o partido venceu a eleição presidencial com base na rejeição massiva às políticas antissociais do então presidente Nicolas Sarkozy. O governo dito socialista de Hollande, porém, não só traiu todas as suas promessas eleitorais, como desencadeou ataques ainda mais brutais aos direitos dos trabalhadores.

A economia amarga uma desaceleração. Não cresceu no ano passado, e o desemprego está em alta, atingindo 3 milhões de trabalhadores, próximo a 10% da população. Como resultado, cerca de 400 mil trabalhadores foram demitidos de empresas como PSA Peugeot, Renault, Carrefour, Doux, Arcellor Mittal etc. A política de Hollande foi a de baixar o custo do trabalho, ou seja, atacar direitos históricos dos trabalhadores para que os patrões voltassem a lucrar. Assim, o governo impôs uma reforma trabalhista e enfrentou, ao longo de todo 2016, inúmeras greves e paralisações dos trabalhadores.

O resultado foi a impopularidade recorde de Hollande, que se recusou, inclusive, a tentar sua reeleição, e a ruptura com o PS de um setor histórico do seu eleitorado.

O governo francês também aprofundou sua ofensiva bélica no Oriente Médio, o que fomentou os terroristas no país. Hollande se aproveitou para estabelecer um estado de emergência e atacar direitos democráticos da população, reprimindo os protestos contra a reforma.

Emmanuel Macron, candidato à presidência pelo En Marche!.

Outros candidatos
François Fillon, representante da direita tradicional, antes mesmo de ver sua campanha naufragar em escândalos de corrupção, já estava sendo profundamente questionado por defender ataques aos direitos trabalhistas. Fillon defendia o fim da seguridade social para doenças menores que, segundo ele, seriam tratadas por planos privados de saúde.

Já Marine Le Pen faz uma campanha xenófoba e racista e se apoia em grande parte nas medidas tomadas por Hollande que fomentaram ainda mais o preconceito contra a população muçulmana. Com um discurso nacionalista, ela tem dito, abertamente, que é como Thatcher, a ex-primeira ministra britânica, pioneira nas políticas neoliberais de desmonte do Estado de Bem Estar, isto é, dos direitos sociais históricos conquistados pelos trabalhadores da França.

O jovem candidato Macron, apesar de se apresentar como algo novo na política, propõe continuar o mesmo caminho tomado pelo PS, de destruição dos direitos trabalhistas. Defensor de medidas neoliberais, o candidato também defende o fim do Estado de Bem Estar para alavancar a economia. Afinal, o que esperar de um candidato que até pouco tempo estava nas fileiras do PS e foi ministro da Educação do governo Hollande?

Protesto contra a violência policial após o caso envolvendo Theo.

Protestos tomam a França contra violência policial
As eleições vão ocorrer num momento de profunda polarização social. Se a luta dos trabalhadores contra a reforma trabalhista marcou 2016, este ano começou com uma série de protestos de jovens da periferia contra a violência policial.

No dia 2 de fevereiro, em Aulnay-sous-Bois, sem justificativa, a polícia abordou quatro jovens negros. Eles foram revistados, sofreram xingamentos racistas e agressões físicas. Câmeras de segurança registraram as cenas bárbaras da covardia policial. Um dos jovens, Théo, 22 anos, foi separado dos demais e estuprado por um dos policiais que usou um cassetete contra ele.

Os crimes de ódio promovidos pelos policiais geraram comoção e mobilizações radicalizadas na cidade onde ocorreu e logo se espalhou por toda a França. Em diversas cidades onde houve manifestações, elas foram reprimidas. Centenas de jovens foram detidos, e carros foram queimados.

A situação socioeconômica vivida pelos imigrantes é precária. A taxa de desemprego na França é 8% maior entre os imigrantes do que entre os franceses, e os imigrantes ocupam postos menos valorizados e com piores condições de trabalho.

Os protestos fizeram as classes dominantes tremerem. Na memória, logo vieram as lembranças de novembro de 2005, quando milhares de jovens da periferia protagonizaram um levante contra o assassinato de dois adolescentes. A rebelião durou dias e foi simbolizada pela queima de carros em muitas cidades de toda a França. 2017 promete novas rebeliões.