Editorial: Aonde vai o Brasil?

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Leia o editorial do Opinião Socialista nº 517

A saída de Dilma e a posse de Temer na Presidência da República abrem uma nova conjuntura na situação política do país. A crise política do governo e do regime, aberta pelas jornadas de junho de 2013, se agravou com a recessão econômica, o desemprego e a inflação e tende a se intensificar diante de um novo governo que assume sem qualquer respaldo popular.

A crise política é produto da enorme insatisfação popular dos trabalhadores e da juventude, que nas ruas, nas greves, nas ocupações, buscam mudanças, mas não são atendidos pelos governos.

Dilma e o PT falam que há um golpe, uma onda conservadora, para esconderem suas mazelas e tentarem recompor sua base de sustentação. A classe operária rompeu com o governo porque viu no que dá o projeto de conciliação de classes defendido pelo PT: a continuidade da política econômica neoliberal e a manutenção das desigualdades sociais do país.

A perda de apoio popular ao governo Dilma levou ao impeachment de um governo que não tinha mais mínimas condições de governabilidade para impor o ajuste que tentava aplicar em prol da burguesia, de modo que acabou descartado. Trocando seis por meia dúzia, o novo governo tenta acelerar o ajuste fiscal e outras medidas de ataque aos trabalhadores. Temer, no entanto, não parece que terá melhor sorte. Rejeitado nas ruas, terá enorme dificuldades de se impor como governo e, assim, superar a crise interburguesa que derrubou também Eduardo Cunha e que confirma, mais uma vez, que não há golpe mas sim uma enorme crise interburguesa.

A crise política e econômica é parte de uma nova situação da América do Sul de crise e rupturas com os governos e de retomada das lutas dos trabalhadores. O governo Macri, recém eleito na Argentina, já enfrenta poderosas mobilizações contra a elevação dos preços e tarifas.

Temer assume nessa situação com a necessidade de aplicar planos duros de ataques aos trabalhadores. Já anunciou diversas medidas, entre as quais a reforma da Previdência. Os trabalhadores, porém, não vão pagar pela crise. A burguesia não conseguiu fechar a situação aberta em junho de 2013. A tendência é um aprofundamento da situação com o aumento da polarização social. De um lado, mais miséria e ataques. De outro, mais reação. Por um lado, lutas mais duras e radicalizadas, inclusive, nos métodos. Por outro, criminalização e brotos de ultradireita à moda Bolsonaro.

Mais do que nunca, devemos seguir o exemplo dos trabalhadores gregos, franceses e argentinos que enfrentam os governos e seus planos de ajuste. É preciso unir as lutas e construir uma grande greve geral para botar pra fora Temer, Renan, Aécio, Bolsonaro… Por pra fora todos eles, barrar seus planos de ajuste e exigir eleições gerais já com novas regras.

É preciso exigir da CUT, da CTB, do MST e das burocracias sindicais a convocação da greve geral contra os ataques e em defesa dos direitos dos trabalhadores e não pelo “Volta Dilma!”, porque divide os trabalhadores e, assim, serão um obstáculo ao desenvolvimento das lutas.

Nem Dilma nem Temer: só um campo dos trabalhadores pode fazer avançar nossas lutas e conquistas. Os trabalhadores não podem se dividir entre dois campos burgueses que têm estratégia de conciliação com burguesia.

Vamos reforçar o Espaço de Unidade de Ação e a CSP-Conlutas na luta pelo fortalecimento de um campo independente dos trabalhadores, de uma alternativa pela construção de um poder operário e socialista sem patrões e sem corruptos.

A esquerda precisa tirar lições da degeneração do PT, senão vamos a novos PT’s. O PSOL, ao apresentar um programa nos limites do capitalismo, caminha no sentido de repetir os mesmos erros do PT. Nesses marcos, uma ampliação da política de alianças, como a que se opera para as próximas eleições, leva a governos de colaboração de classes. Já vimos no que deu esse filme antes.

É possível, nas lutas, apostar na construção de novas ferramentas de luta dos trabalhadores e da juventude. Avançar a auto-organização e a democracia operária nas greves, nas ocupações de fábricas e escolas. Construir a CSP-Conlutas como alternativa às centrais governistas. Só com a mobilização podemos fazer avançar a construção de organismos como conselhos populares para que os debaixo possam governar, para ter os trabalhadores e o o povo no poder.

Nesse processo, precisamos construir um partido revolucionário, operário e socialista. As lutas que já começaram e tendem a se aprofundar no Brasil e na América Latina, e a ruptura progressiva da classe operária com o PT, exige que seja retomado o horizonte da revolução socialista.

Não temos o direito de repetir os erros do PT. A tarefa não é refundar um partido de colaboração de classes, como quer a Frente Brasil Popular, nem construir partidos eleitorais, para quem a eleição é prioritária em relação à ação direta e o horizonte não vai além da democracia burguesa e de reformas nesse sistema apodrecido, que só produz desemprego e desigualdade.

Chamamos todos os lutadores que estão nas greves e ocupações: vamos botar nas ruas o “Fora Temer”. Fora Todos eles e eleições gerais já! Mas vamos juntos, também, empunhar a bandeira da revolução socialista e lutar por um governo dos trabalhadores formado por Conselhos Populares, apoiado na luta dos debaixo.

Esse é o caminho da verdadeira transformação social.