Cultura higienizada

Toneladas de asfalto e concreto e a incessante poluição já fazem de São Paulo uma cidade cinzenta. Se depender do prefeito tucano João Dória, a cidade mergulhará em mais deprimentes tons de cinza.

Há duas semanas, Dória mandou cobrir um mural de grafites, considerado uma das maiores áreas de arte de rua do mundo, feito em 2015 por mais de 200 artistas. Dentre eles, Os Gêmeos, Nina Pandolfo, Nunca, Finok e Zefix. A obra preenchia com cor e criatividade 15 mil metros de uma de nossas avenidas mais problemáticas, a 23 de Maio.

A destruição do mural é parte de uma política sistemática de higienização que, lamentavelmente, não é uma novidade. Porém, certamente, essa história está tomando proporções absurdas na recém iniciada gestão do tucano, com seu projeto “Cidade Linda”, que já nos brindou com cenas patéticas (e ofensivas), com Dória fantasiado de gari e de cadeirante, e propostas (anti)culturais, como a cobrança dos blocos de rua no Carnaval e a entrega de projetos para as famigeradas organizações sociais, responsáveis pela privatização que já corre solta em outras áreas, como a da saúde.

Cidade higienizada
Não é por acaso que a cidade que concentra a burguesia mais poderosa do país também tenha uma história que se confunde com projetos de higienização. Basta o exemplo do nome dado a um de seus dos bairros mais elitizados, o Higienópolis (“cidade da higiene”). O bairro surgiu como um loteamento planejado, destinado a abrigar a elite cafeicultora e empresarial paulista, por volta de 1890. Foi quando, com a construção da Estação da Luz, trabalhadores e gente pobre mudaram-se para o Campos Elíseos, até então morada para a gente endinheirada.

De lá para cá, no ritmo da especulação imobiliária, projetos de higienização marcaram as gestões da cidade. Tiveram destaque as iniciativas de Gilberto Kassab (2006-2013), premiado por Dilma com o Ministério das Cidades, em 2015, que já havia acinzentado a mesma área em 2008.

Arte na rua: transgressão popular
A prática de fazer inscrições e desenhos em espaços públicos é tão antiga quanto a humanidade. O que hoje chamamos de grafites e pichações (e aqui não cabe o debate sobre distinção entre uma coisa e outra) são expressões típicas da vida urbana. São famosíssimas, por exemplo, inscrições e desenhos encontrados nas ruínas de Pompeia (soterrada pelo vulcão Vesúvio no ano 79 d.C.). Os habitantes satirizavam as elites, ridicularizavam os costumes, comentavam aspectos da vida cotidiana etc.

No mundo contemporâneo, a prática ganhou força particularmente nos anos rebeldes de 1960, tornando-se arma para a transgressão da ordem, expressão da liberdade e da criatividade dos setores marginalizados da sociedade e, até mesmo, questionamento do que vem a ser ou não arte.

Não é por acaso que o grafite seja um dos elementos do Hip Hop, e que as pichações se multipliquem em períodos nos quais o direito à livre expressão é limitado, como nas ditaduras. Além disso, vários estudiosos identificam as práticas como uma resposta à enorme desu10manização característica de um sistema em que a maioria da população não tem direito às cidades, transformadas em espaços privatizados e marcados pela desigualdade e pela exclusão.

Como defende Guilherme Valiengo, um dos diretores do excelente documentário Cidade Cinza (2013), grafitar e pichar, para muitos, é quase como uma declaração de “eu existo e resisto” num mundo que tenta roubar a identidade e a humanidade de uma juventude que a cada dia se vê menos representada na sociedade.

Grafitar, pichar, resistir
Apesar do showzinho ridículo de Dória empunhando o spray, é preciso lembrar que o mural da 23 de maio só surgiu depois que Haddad foi obrigado a ceder às pressões dos grafiteiros, principalmente depois de 2013, quando o prefeito também cobriu de cinza grafites no feioso Minhocão e na degradada região do Glicério.

Na época, os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo (mundialmente aclamados como Os Gêmeos) encabeçaram os protestos pichando frases como “Mais cor na cidade! Haddad não apague nossa arte!”; “Sr. Prefeito: Nesta cidade existem muitos problemas sérios que precisam de resultados! Não gaste tempo e $ apagando grafite nas ruas!”; e “Sr. Prefeito: Apagar arte é apagar cultura e desrespeitar o povo”.

Com certeza, esse é o mesmo recado que precisa ser enviado ao tucano Dória, cuja declaração de guerra e tolerância zero contra os grafiteiros e pichadores inegavelmente assumiu um tom ainda mais contundente e perigoso já que pode (e certamente vai) incentivar a repressão policial contra artistas de rua, o que já resultou num enorme número de mortes na cidade.

Diante da repercussão ultranegativa, o atual Secretário da Cultura, André Sturm (que, vergonhosamente, já dirigiu o Museu da Imagem e do Som), está fazendo uma série de promessas vagas sobre o tema, como criar um impensável museu da Arte de Rua ou patrocinar alguns grafiteiros que teriam acesso a áreas predeterminadas.

Evidentemente, tudo isso vai contra a própria lógica transgressora do grafite, além de significar uma tentativa de mercantilização também incompatível com a arte de rua. E, inevitavelmente, nada disso incluirá o povo da periferia. O caminho é outro, e os grafiteiros e pichadores sabem muito bem como traçá-lo e colori-lo.