| ESPECIAL - FUTEBOL E MERCADO | |
| Os donos da bola | |
|
Gustavo Sixel, da redação
Quando tinha 21 anos, Ronaldinho espantou-se com o valor de um contrato de publicidade que seu irmão e empresário assinou. Achou o valor exagerado. Mas, para o mercado, ele valia a soma. Eleito por dois anos o melhor jogador do mundo, seu preço continua subindo. Hoje, aos 26 anos, é a estrela da Copa. Por aqui, ele aparece em 12 campanhas publicitárias, de chicletes a refrigerantes. Sua marca foi avaliada em 125 milhões de reais, a mais alta do futebol. Já o Fenômeno, depois de fases ruins e há alguns jogos sem marcar, surge em sétimo nesta lista. A indústria da bola Assim, os clubes tornam-se verdadeiras empresas. O cronista Armando No-gueira, em seu livro “A Ginga e o Jogo”, lembra do surgimento dos cartolas no Brasil, torcedores ricos, que premiavam os jogadores e, pelo amor ao clube, muitas vezes se desfaziam de suas fortunas. A cartolagem no Brasil se desenvolveu e hoje é bem mais prejudicial ao esporte. No entanto, os Kleber Leite da vida nem se comparam aos novos empresários do futebol mundial. O tempo agora é de figuras como o russo Roman Abramovich, que colocou sua fortuna misteriosa, surgida após o fim da União Soviética, no Chelsea, da Inglaterra. Ou de Malcolm Glazer, que investiu no também inglês Manchester United, a equipe mais valiosa do mundo, que está na bolsa de valores com ativos da ordem de 900 milhões de dólares. Mas a mina de ouro não está em camisas ou ingressos. O grosso do faturamento vem da publicidade e dos direitos de transmissão dos jogos. Há um enorme público para isso, formado por consumidores de produtos ligados ao esporte, gente que acredita que seus ídolos usam realmente tudo o que oferecem nos anúncios e espectadores, com dezenas de partidas disponíveis na TV aberta e por assinatura. Este mercado consumidor, segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, surge a partir da popularização da prática do futebol. Um país como o nosso, com 30 milhões de peladeiros, é um prato cheio para as empresas. Este mercado contou com a alavanca do surgimento da TV, o principal meio de comunicação de massa. As partidas deixaram de ser acompanhadas pelo rádio ou por caixas de som nos postes. A própria bola sofreu alterações, com os gomos pretos, para aparecer melhor na tela. Neste ano, estima-se que dois em cada três habitantes do planeta assistam aos jogos. Serão quatro bilhões de pessoas vendo mais de 300 emissoras de TV. Nike ou Adidas? Para quem torcer? A Puma abocanhou 12 das 32 seleções. De olho no mercado africano, patrocina todas as equipes do continente, além de Itália, Suíça e Paraguai. A Adidas patrocina seis, incluindo Alemanha, França e Argentina. A Nike patrocina oito, entre elas o Brasil. Caso o “quadrado mágico” traga a taça, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) receberá 60 milhões de dólares da Nike. Isso sem contar o valor fixo do contrato assinado até 2018. A CBF arrecadou R$ 83 milhões em 2005 em publicidade e direito de transmissão. Até a cidade suíça Weggis teve de pagar. Foram R$ 4,3 milhões para hospedar o Brasil. A Fifa, com 15 patrocinadores oficiais, lucrará mais de 1,3 bilhão de dólares. Aqui no Brasil, a publicidade em torno da copa deve movimentar R$ 1,2 bilhão. Até o técnico Parreira entrou na dança, como garoto-propaganda de um plano de saúde. Neste jogo, dificilmente as grandes empresas saem perdendo. Iniciam suas campanhas meses antes e, com o patrocínio às seleções e aos jogadores, alcançam novos mercados. Ainda que sua escolhida não seja campeã, seus torcedores já terão comprado TVs, cervejas, camisas, celulares e chuteiras. A forte presença das empresas ameaça o esporte. Até mesmo o ex-jogador alemão Franz Beckenbauer admite que é preciso um freio. Para ele, “o futebol precisa de uma purificação geral”. O craque, que preside os jogos deste ano, disse ser preciso discutir os limites dos lucros e tocou em temas tabus, como enriquecimento de dirigentes e treinadores e o mercado de apostas. De fato, o capitalismo ameaça a beleza deste esporte com a padronização das equipes, a exportação e transformação de jogadores em empresas, a superexploração de outros milhares e sucessivos escândalos de corrupção. Em sua necessidade de lucro, o capitalismo vai além e controla a exibição do espetáculo, no melhor sentido do termo. Nesta Copa, serão enviadas as imagens dos gols para celulares e e-mails. Mas tudo tem seu preço e é sempre bom recordar o que ocorreu na Argentina, nas eliminatórias de 2002. Na ocasião, as TVs simplesmente não transmitiram os jogos da seleção para a Grande Buenos Aires, gerando a revolta na população. |
|