| ESPECIAL - OS ADVERSÁRIOS DO BRASIL | |
| Saiba mais sobre o Japão | |
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Vitorio L.O. Zago, de Campinas (SP) Há duas ou três décadas, praticamente não se jogava futebol no Japão. Esportes como beisebol e sumô, entre outros, ainda são os mais populares do país. Mas o futebol, hoje, está lado a lado desses esportes no coração dos japoneses. O Japão se filiou à FIFA em 1929, mas nunca se destacou na prática e organização do futebol em seu território. Foi durante muito tempo um time medíocre com jogadores bastante limitados tecnicamente. Isso mudou. Desde 1998 tem sido presença certa nas Copas do Mundo, chegando a se classificar para uma fase de quartas-de-final em 2002. No ranking da FIFA está hoje entre as 20 melhores seleções do planeta, um salto extraordinário, considerando-se a evolução recente do futebol no país. A criação de uma liga bem organizada nos anos 1980 e a chegada de muitos estrangeiros dos principais centros de futebol do mundo, principalmente do Brasil, garantiram uma rápida evolução do jogo praticado, bem como de uma extraordinária assimilação do esporte pela cultura e pelo povo japonês, que hoje é apaixonado pelo futebol. Esse Japão treinado pelo brasileiro Zico, que brilhou no país como jogador no final da carreira, ostenta a atual Copa da Ásia, conquistada em 2004, além de ter tido excelente participação na Copa das Confederações de 2005, vencida pelo Brasil. No embate diante dos brasileiros, os japoneses realizaram uma grande partida e empataram em 2 a 2, e poderiam até ter vencido o jogo. O Japão foi o primeiro a garantir vaga na Copa da Alemanha. Mas é importante observar que em pouco menos de duas décadas o Japão evoluiu muito taticamente e, hoje, possui também jogadores de grande habilidade e que se destacam em clubes europeus, como é o caso de Nakamura no Celtic, Nakata no Bolton e Takahara no Hamburgo. Não é exagero, assim, ver o Japão como uma potência no futebol. A confiança de Zico tem fundamento e respaldo. Apesar da natural inserção do futebol na cultura japonesa ao longo dos anos, por ser um esporte popular, único e acessível em sua prática, além de facilmente apaixonante, seja na prática ou nos simbolismos que o envolve, há também um outro aspecto, o de ser um dos pilares de uma assimilação do Japão pela cultura ocidental. Não há uma culpa do futebol em si, é claro, mas a utilização dele para tal fim, como ocorre em todo o mundo, mesmo no Brasil, quando serve aos ideais burgueses. O Japão hoje, embora ainda mantenha evidentemente nuanças de sua cultura milenar, que lhe dão características únicas, é uma potência capitalista. Potência essa que se forjou sob a tutela americana após a avassaladora derrota na II Guerra Mundial. Embora a reconstrução tenha se dado fundamentalmente em função de um esforço notório do povo japonês, com enorme investimento em educação e formação de ciência de base, em nenhum momento o mundo ocidental o perdeu de vista, e influenciou e até fiscalizou a construção de um importante centro capitalista. A exploração do trabalho hoje no Japão beira, em muitos momentos, um sistema de semi-escravidão, enfatizada e legitimada por uma cultura, cujas noções de honra e dever garantem a manutenção da relação de trabalho ali estabelecida, baseado na intensa e estressante exploração da classe trabalhadora. Mas é importante ressaltar que essa assimilação pelo mundo ocidental não foi um fenômeno pós-guerra. Esse foi na verdade um segundo momento. Cerca de um século antes o mesmo já havia ocorrido e transformado significativamente o povo japonês. O Japão é um arquipélago formado por quase 4 mil ilhas. Essas ilhas foram ocupadas pelo homem há cerca de 20 mil anos, quando do espalhar da espécie humana pelo planeta. Desde sua pré-história, há cerca de 2 mil anos, o Japão foi fortemente influenciado por uma cultura ainda mais antiga, a chinesa. Sua língua e escrita derivam do chinês basicamente, bem como algumas características culturais. O Japão viveu um longo período feudal entre os séculos XVI e XIX. Praticamente se isolou do mundo e fortaleceu relações sociais e culturais, moldando uma cultura única que se manifesta hoje de forma significativa. Na segunda metade do século XIX o Japão se abriu para o mundo ocidental e, em pouco tempo, se industrializou e constituiu-se numa potência imperialista, bem aos moldes das potências imperialistas européias. A China foi um de seus alvos. Embora tenha ficado ao lado dos aliados na I Guerra Mundial, o Japão governado por um imperador, manteve uma postura imperialista. Na II Guerra Mundial, afetado pelas crises do mundo ocidental, o Japão do imperador Hirohito entrou na guerra, desta vez ao lado do Eixo. Hoje é um dos países mais industrializados e ricos do planeta. Uma burguesia forte garante a manutenção do poder e a exploração da classe trabalhadora do Japão e de boa parte da Ásia. A milenar cultura japonesa, muitas vezes, é transformada em instrumento de manutenção dessa ordem capitalista. Por outro lado, pode estar nela também a sabedoria para a emancipação do povo japonês, que hoje é também bom de bola... |
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