| ESPECIAL - OS ADVERSÁRIOS DO BRASIL | |
| Após as guerras nacionalistas, Croácia é a herdeira do bom futebol da Iugoslávia | |
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Marcos Margarido, de Campinas (SP)
Em 1941, a Liga Comunista, chefiada por Josip Broz Tito, iniciou o movimento de resistência anti-fascista. Em 1945 os nazistas foram expulsos com o auxílio do Exército Vermelho. Tito conseguiu reunificar a Iugoslávia, formada por seis Repúblicas Socialistas. A constituição do novo Estado Operário, onde a burguesia foi expropriada, possibilitou a integração das diversas etnias existentes na região, devido a conquistas extraordinárias no campo social (pleno emprego, assistência médica, educação e creches gratuitas) e econômico (industrialização, eletrificação do campo e aumento da produção de bens). Em 1948, Tito rompe relações com Stalin e busca uma via independente, conhecida como “autogestão socialista”, que em nada se diferenciava do regime burocrático praticado na União Soviética. Em 1970, estudantes de Zagreb organizaram manifestações pedindo mais liberdades civis e maior autonomia para a Croácia. O regime reprimiu o protesto e prendeu seus dirigentes. Com a morte de Tito, em 1980, Milosevic toma o poder, enquanto o descontentamento social se traduzia em ondas de greves que passariam de 851 em 1986 para mais de 2000 em 1989. A crise econômica castigava a Iugoslávia durante a década de 80. Em 1983 havia um milhão de desempregados. A dívida externa era de US$ 18,6 bilhões em 1988, uma das maiores do mundo, com uma inflação de 2.685 %. O pagamento da dívida ao FMI levou à centralização da Federação Iugoslava pela República Sérvia, fazendo ressurgir as disputas nacionalistas. A saída encontrada para a crise foi a restauração capitalista, que avançava junto com o discurso nacionalista sérvio em busca do apoio do movimento de massas, para desviar as mobilizações operárias e estudantis que tinham como raiz a ruína econômica do país. A prova desta "sintonia" entre o discurso nacionalista e o avanço da restauração são os acontecimentos de 1988. Em novembro, mais de um milhão de pessoas se manifestavam em Belgrado em apoio à Milosevic, enquanto se aprovavam reformas constitucionais. As reformas reduziram ainda mais os investimentos públicos e os salários, enquanto as privatizações avançavam. Em Kosovo, 250 mil albano-kosovares (numa população de 1,9 milhão de habitantes) foram demitidos de empresas públicas. O desmembramento da Federação Iugoslava avançou com o processo revolucionário no Leste Europeu, que culminou com a queda dos regimes burocráticos em toda região. Primeiro foi a Eslovênia a declarar-se separada em 1990. Em 25 de junho de 1991, após plebiscitos que deram vitória esmagadora aos separatistas, os croatas anunciaram sua independência. Em seguida foi a vez da maioria muçulmana da Bósnia-Herzegovina. No entanto, a minoria sérvia residente na Croácia, cerca de 12% da população, rebelou-se contra a independência e formou a Região Autônoma da Krajina Sérvia. O auge do conflito foi a chamada "revolução das toras": estradas para os balneários turísticos na Dalmácia foram bloqueadas e começou um processo de limpeza étnica da população não-sérvia. Mais uma guerra se iniciava. Nacionalismos em campo Na guerra, o território croata foi invadido pelo Exército Federal, que agiu em favor da minoria sérvia. O imperialismo aproveitou-se da situação para intervir militarmente, sob a alegação de “assegurar a paz” na região, ansioso por colher os dividendos políticos e econômicos da decomposição iugoslava. Em 1992, a Croácia foi reconhecida como independente. O governo eleito de Franjo Tudjman, no entanto, esteve muito longe dos ideais democráticos que apregoava. As forças armadas croatas lançaram em agosto de 1995 a Operação Tempestade, que resultou na expulsão de 600 mil sérvios da Krajina. A ocupação militar pela ONU A Bósnia foi, assim, ocupada pelas “forças de paz” e transformada em um grande campo de concentração de seus próprios habitantes. O estádio Kosevo, em Sarajevo, foi escolhido como alvo prioritário da artilharia sérvia durante o cerco da cidade. Em outubro de 1994 o clássico local entre Sarajevo x Zeljeznicar teve que ser interrompido, pois um franco-atirador sérvio tentava, de uma colina, matar torcedores e jogadores com rifle de mira telescópica. A crise em Kosovo viria em seguida. Os albaneses, que formavam 80% da população, iniciaram um movimento de guerrilhas pela independência. Novamente alegando motivos humanitários, as forças da ONU bombardearam Belgrado, capital da República Sérvia, e Kosovo que, desde então, também é uma nação ocupada. Em 1995 foram assinados os acordos que puseram fim às guerras da Bósnia e Kosovo. Apesar dos Acordos de Dayton preverem a retirada das tropas da ONU após a realização de eleições, a “administração internacional”, apoiada por 50 mil soldados, decidiu pela prorrogação indefinida na região. No que se refere às condições materiais de existência, fonte dos problemas nacionais, tanto Bósnia quanto Kosovo, longe da “soberania nacional”, reproduzem cenas das sociedades coloniais. Economias que giram em torno da presença militar, onde se fecham fábricas enquanto proliferam os bordéis, onde a juventude não tem mais futuro que emigrar para ser mão de obra barata nas “grandes potências” européias. Durante a copa, os povos dos Bálcãs, representados pela Croácia e pela Sérvia e Montenegro*, poderão esquecer suas tragédias e recuperar suas forças para lutar contra o inimigo real: os imperialismos norte-americano e europeu que ocupam seus países. * Os habitantes de Montenegro aprovaram sua separação da Sérvia em um plebiscito em maio deste ano. Como a seleção já estava convocada, os jogadores de Montenegro atuarão nesta copa com os da Sérvia. |
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