1986 - MÉXICO Próxima copa
Entre a magia de Diego e o fim da euforia democrática

Alejandro Iturbe, jornalista argentino, da direção da Liga Internacional dos Trabalhadores - Quarta Internacional


Quando foi disputada a Copa do Mundo do México, em 1986, a Argentina vivia os efeitos, ainda que atenuados, da “euforia democrática” iniciada em 1983.

A queda da ditadura
Em 1982, depois da queda da sangrenta ditadura militar, iniciou-se um grande Ascenso das lutas operárias e populares. Foi uma verdadeira revolução que mudou abruptamente o regime político do país e conquistou liberdades democráticas. As forças armadas entraram em uma profunda crise. Nas ruas se cantava “Paredón, paredón, a todos los milicos que vendieron la Nación”. Os políticos burgueses entram em um acordo para convocar eleições e tratar de canalizar este processo através das instituições da democracia burguesa.

A “euforia democrática”
Milhões se filiavam aos partidos políticos e centenas de milhares participavam de atos massivos. O peronismo mantinha seu peso majoritário na classe operária mas seus dirigentes estavan muito desprestigiados por seu papel no governo de Isabel Perón.

Raúl Alfonsín havia conseguido a candidatura presidencial da UCR (Unión Cívica Radical), o outro grande partido burguês do país. Em sua campanha, acusaba os militares e a burocracia sindical peronista de sócios do “autoritarismo”. Lançou a falaciosa consigna “Com a democracia se come, se cura e se educa” e assim empalmou a ilusão de muitos argentinos: bastaria recuperar o direito de voto para resolver os graves problemas econômico-sociais do país. En 1983, Alfonsín obteve um claro triunfo eleitoral e assumiu em meio a grandes festejos populares, com o sentimento de que “se havia recuperado a democracia”.

O governo de Alfonsín
Seu governo esteve aprisionado entre a crise econômica, que impedia concessões aos trabalhadores, e sua debilidade para atacar frontalmente o movimento de massas para aplicar a fundo o plano de liquidar a velha estrutura econômica do país, exigido pelo imperialismo e os setores mais fortes da burguesia argentina. Cresciam as greves para recuperar parte dos salários e as conquistas perdidas durante a ditadura.

Em 1985, lançou o Plano Austral, que eliminou a velha moeda desvalorizada e criou outra, em paridade com o dólar. Com este plano, conseguiu retardar por um par de anos a explosão da economia.

Três grandes processos atravessavam a vida política argentina. O primeiro era o debate sobre o pagamento da dívida externa que os militares haviam aumentado em sete vezes. Seu pagamento impedia qualquer resolução dos problemas econômicos e sociais e o FMI exigia duros planos de ajuste para seu refinanciamento. Em 1983, o MAS (Movimiento al Socialismo, nome da então corrente morenista) lançou a proposta de deixar de pagar esta dívida (seus militantes éramos conhecidos como os “loucos do não pagamento”). Os partidos burgueses diziam que pagar era “uma questão de honra”. Mas a realidade se impunha e a consigna era tomada cada vez más pelas mobilizações. Até um economista do Partido Radical, Aldo Ferrer, chegou a propor que se pagasse anualmente apenas o valor de 10% das exportações.

El segundo era a luta pelo julgamento e punição aos militares genocidas. Alfonsín tinha a política estratégica de recompor as forças armadas e salvá-las do ódio popular. Não era uma tarefa fácil: havia que encará-la através de diversas táticas sucessivas para não se chocar frontalmente com a mobilização popular. Por isso, impulsionou o julgamento que condenou as Juntas Militares de governo, para logo defender que apenas fossem julgados e presos uma quantidade mínima de repressores. Mas se, para o presidente, a condenação dos comandantes era una manobra, para as massas era um triunfo que as alentava a seguir lutando pela prisão de todos os genocidas.

O terceiro processo foi o surgimento de uma nova camada de dirigentes operários. Em todos os sindicatos se formavam chapas de oposição contra a odiada burocracia sindical. Foram varridas velhas direções colaboracionistas, como a dos empregados estatais e agrupamentos combativos ganharam a condução das seções do sindicato metalúrgico, da construção, dos trabalhadores da saúde e dos comitês de empresa de importantes bancos.

O mundial
Agora sim, falemos de futebol. A Copa de 1986 ficou para sempre associada ao nome de Maradona, o Diego. Seguramente, poucos brasileiros conseguiriam escalar algum outro jogador desta seleção. Os argentinos se recordam também de Pumpido, dos zagueiros Olarticochea e Brown, de Burruchaga, dos gols de Valdano…

Diego, jovem e com seu físico ainda não castigado pelas drogas e os excessos, fez mágica em campo. Como esquecer, por exemplo, os dois gols contra os ingleses? O da “mão de Deus” e o segundo, arrancando e deixando seis ingleses estirados no chão.

Neste mundial, Diego foi alçado duas vezes. A primeira, para ser considerado o sucessor de Pelé como “Rei do futebol”. A segunda, ao panteão dos ídolos argentinos, aos que se perdoam todas suas debilidades humanas.

Eu era trabalhador ferroviário. Vi algumas partidas em minha casa e outras no trabalho. Depois do sofrido 3-2 contra a Alemanha, saímos com vários vizinhos até o centro da capital para festejar. Mal chegamos à Avenida Nove de Julho, e picamos parados, no meio de milhares de carros e pessoas à pé. Não importava: saltamos, cantamos e nos abraçamos por horas.

Com certeza, muitos dos que ali estiveram sonharam em congelar o tempo e essa alegria para sempre. Com a “democracia” não se comia, não se tratava, nem se educava… mas tinhámos ganho legitimamente um mundial de futebol, sem os questionamentos de 1978.

Mas o tempo não pára. Em 1987, a “borrachera democrática” se desfez com muita rapidez: começou a crise do Plano Austral; os “militares carapintadas” se levantaram para que não fossem julgados e Alfonsín pactuou com eles; foi feita a primeira greve geral contra o governo...Mas isso tudo já é outra história...

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