| 1986 - MÉXICO | |
| Entre a magia de Diego e o fim da euforia democrática | |
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Alejandro Iturbe, jornalista argentino, da direção da Liga Internacional dos Trabalhadores - Quarta Internacional Quando foi disputada a Copa do Mundo do México, em 1986, a Argentina vivia os efeitos, ainda que atenuados, da euforia democrática iniciada em 1983. A queda da ditadura A euforia democrática Raúl Alfonsín havia conseguido a candidatura presidencial da UCR (Unión Cívica Radical), o outro grande partido burguês do país. Em sua campanha, acusaba os militares e a burocracia sindical peronista de sócios do autoritarismo. Lançou a falaciosa consigna Com a democracia se come, se cura e se educa e assim empalmou a ilusão de muitos argentinos: bastaria recuperar o direito de voto para resolver os graves problemas econômico-sociais do país. En 1983, Alfonsín obteve um claro triunfo eleitoral e assumiu em meio a grandes festejos populares, com o sentimento de que se havia recuperado a democracia. O governo de Alfonsín Em 1985, lançou o Plano Austral, que eliminou a velha moeda desvalorizada e criou outra, em paridade com o dólar. Com este plano, conseguiu retardar por um par de anos a explosão da economia. Três grandes processos atravessavam a vida política argentina. O primeiro era o debate sobre o pagamento da dívida externa que os militares haviam aumentado em sete vezes. Seu pagamento impedia qualquer resolução dos problemas econômicos e sociais e o FMI exigia duros planos de ajuste para seu refinanciamento. Em 1983, o MAS (Movimiento al Socialismo, nome da então corrente morenista) lançou a proposta de deixar de pagar esta dívida (seus militantes éramos conhecidos como os loucos do não pagamento). Os partidos burgueses diziam que pagar era uma questão de honra. Mas a realidade se impunha e a consigna era tomada cada vez más pelas mobilizações. Até um economista do Partido Radical, Aldo Ferrer, chegou a propor que se pagasse anualmente apenas o valor de 10% das exportações. El segundo era a luta pelo julgamento e punição aos militares genocidas. Alfonsín tinha a política estratégica de recompor as forças armadas e salvá-las do ódio popular. Não era uma tarefa fácil: havia que encará-la através de diversas táticas sucessivas para não se chocar frontalmente com a mobilização popular. Por isso, impulsionou o julgamento que condenou as Juntas Militares de governo, para logo defender que apenas fossem julgados e presos uma quantidade mínima de repressores. Mas se, para o presidente, a condenação dos comandantes era una manobra, para as massas era um triunfo que as alentava a seguir lutando pela prisão de todos os genocidas. O terceiro processo foi o surgimento de uma nova camada de dirigentes operários. Em todos os sindicatos se formavam chapas de oposição contra a odiada burocracia sindical. Foram varridas velhas direções colaboracionistas, como a dos empregados estatais e agrupamentos combativos ganharam a condução das seções do sindicato metalúrgico, da construção, dos trabalhadores da saúde e dos comitês de empresa de importantes bancos. O mundial Diego, jovem e com seu físico ainda não castigado pelas drogas e os excessos, fez mágica em campo. Como esquecer, por exemplo, os dois gols contra os ingleses? O da mão de Deus e o segundo, arrancando e deixando seis ingleses estirados no chão. Neste mundial, Diego foi alçado duas vezes. A primeira, para ser considerado o sucessor de Pelé como Rei do futebol. A segunda, ao panteão dos ídolos argentinos, aos que se perdoam todas suas debilidades humanas. Eu era trabalhador ferroviário. Vi algumas partidas em minha casa e outras no trabalho. Depois do sofrido 3-2 contra a Alemanha, saímos com vários vizinhos até o centro da capital para festejar. Mal chegamos à Avenida Nove de Julho, e picamos parados, no meio de milhares de carros e pessoas à pé. Não importava: saltamos, cantamos e nos abraçamos por horas. Com certeza, muitos dos que ali estiveram sonharam em congelar o tempo e essa alegria para sempre. Com a democracia não se comia, não se tratava, nem se educava mas tinhámos ganho legitimamente um mundial de futebol, sem os questionamentos de 1978. Mas o tempo não pára. Em 1987, a borrachera democrática
se desfez com muita rapidez: começou a crise do Plano Austral;
os militares carapintadas se levantaram para que não
fossem julgados e Alfonsín pactuou com eles; foi feita a primeira
greve geral contra o governo...Mas isso tudo já é outra
história... |
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