| 1982 - ESPANHA | |
| O futebol-arte de Telê e o 'quadrado conservador' | |
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Carlos Serrano, do Rio de Janeiro (RJ) “Bota o ponta Telê!” Este bordão de Jô Soares estava na boca de todo mundo antes do início da Copa. Mas, com ponta ou sem ponta, a seleção brasileira encantou o mundo com o quadrado mágico de então: Zico, Sócrates, Falcão e Cerezo. Telê era o maestro desta orquestra que jogava um futebol moderno e que no toque e na habilidade ia levando a bola. O espaço do ponta, tão atacado pela crítica, era muito bem ocupado com um dos quatro sempre caindo nele, assustando os times adversários. Era esta a vanguarda do futebol mundial e sua derrota, nas mãos italianas, ou melhor, nos pés de Paolo Rossi, é a melhor metáfora para a derrota da vanguarda operária naqueles anos. Vivíamos ainda nos idos de 82 na mesma etapa revolucionária que se abrira com a fulgurante vitória do Exército Vermelho na segunda guerra, que levara a expropriação da propriedade privada em mais de um terço da humanidade. No entanto, a situação revolucionária que se abrira com o maio francês de 68 fechava-se este ano, depois de ter varrido a Europa mediterrânea e ter por fim explodido na América Central. A Espanha, sede da 12ª Copa, é um exemplo disto. Vacinada pela ainda recente Revolução dos Cravos em Portugal, a burguesia espanhola costurou poucos anos antes, com o apoio do Partido Comunista, o Pacto de Moncloa, que construiu uma transição “pactuada”, sob a batuta do Rei Juan Carlos II, filhote do ditador Franco. A esta altura, Felipe González, do PSOE, corria célere para se tornar primeiro-ministro, catapultado pela vitória em 1981 de outra Frente Popular, a de Miterrand, na França. Não só sepultam os dois quaisquer mudanças nestes países como avançam com o projeto liberal. Outro sinal dos tempos: a vitória de Helmut Kohl para chanceler alemão, a de Ronald Reagan nos EUA em 1981, a eleição de Margareth Tatcher para primeira-ministra inglesa em 1979 e a escolha do Papa João Paulo II, em 1978, criava o sinistro quadrado conservador que iria atacar os Estados operários e iniciar a grande contra-ofensiva neoliberal. Essa contra-ofensiva se dará também por Israel, enclave imperialista no Oriente Médio, contra os lutadores palestinos: invade o Líbano atacando o quartel-general da OLP. Meses mais tarde os milicianos cristãos libaneses, aliados de Israel e apoiados pelo ainda general e depois prêmie Sharon, massacram milhares de palestinos nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, em Beirute. Também como parte disto, continuava a guerra Irã e Iraque, onde este último, apoiado pelas potências imperialistas queria diminuir o poder de irradiação e influência de seu vizinho. Enquanto tudo isto ocorre no mundo, no dia 13 de junho, abrindo a Copa jogam Argentina, campeã de 1978, e Bélgica. E o resultado de 1 a 0 para os belgas parecia adiantar o que aconteceria no dia seguinte: os generais argentinos, que tinham sido tão competentes em massacrar sua classe trabalhadora, assinam de cabeça baixa o armistício com a Inglaterra no conflito das Ilhas Malvinas. Em apenas dois meses, 700 argentinos morreram. A derrota portenha fortaleceu politicamente a dama de ferro Tatcher, no ataque a sua classe operária, que irá se acelerar dois anos mais tarde, com a derrota da fantástica greve dos mineiros. Por outro lado, enfraquece ainda mais a combalida ditadura argentina, que cairá no ano seguinte. É no mesmo grupo argentino que acontece um dos fatos mais marcantes das copas, a maior goleada de todos os tempos nesta competição: Hungria 10 X El Salvador 1. E não poderia ser diferente: os salvadorenhos não tinham a mínima condição de participar. Seu país estava no auge da guerra civil entre a guerrilha da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional e um exército de assassinos apoiado pelos EUA. Próximo dali, na Nicarágua, a Revolução Sandinista enfrentava os “contras” treinados pelos norte-americanos. Este foi o resultado de uma lei histórica: o que não avança, retrocede. E em toda a América Central retrocedeu, fechando a situação revolucionária. Teve o burocrata Fidel Castro o papel central no desmonte destas revoluções, principalmente a nicaragüense: orientou a que não transformassem a Nicarágua em uma nova Cuba, não expropriando a sua burguesia. Enquanto o Brasil derrotava a URSS por 2 a 1 em sua estréia, mudanças aconteciam na direção soviética e nos seus satélites. Na URSS, com a morte neste ano do linha dura Leonid Brejnev, no poder desde 64, assume como secretário-geral do PCUS Íuri Andropov (chefe da KGB) que inicia um lento processo de reformas, sendo seguido em 1984 por Konstatin Chernenko, que ao morrer em 85 será sucedido por Mikhail Gorbachev. Este restaurará o capitalismo contra a classe operária soviética. Enquanto isso, na Polônia, o líder sindical Lech Walesa, do sindicato Solidariedade, é preso pelas tropas de Jaruzelski, que endurece ainda mais com o movimento sindical. Contrariando o que acontecia no resto do mundo, o Brasil estava em outro momento: uma grande onda grevista correu o país a partir do ABC paulista, acelerando a redemocratização. O resultado foi a formação da CUT e do PT. Estes foram dois grandes avanços, pois significava a criação pela primeira vez no Brasil de um partido com marco de classe e a superação dos velhos pelegos. Eram ainda bem diferentes dos caminhos destes dois nas décadas seguintes. E este Brasil, com sua classe operária empolgada pelas suas vitórias, entra confiante em campo com a seleção canarinho. No entanto, mesmo acostumados a vencer, acabamos perdendo para a Itália. Esta que entrara na Copa e passara pela primeira fase desacreditada mas que tinha o carrasco Paolo Rossi, artilheiro da Copa com 6 gols. A derrota da seleção brasileira por 3 a 2 para a Itália significou o fim do futebol arte. Fomos condenados a agüentar por mais de uma década, um futebol burocrático, corrido e chato. E como era chato! |
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