1978 - ARGENTINA Próxima copa
Videla esconde presos e compra primeiro título argentino


Alberto Albiero, de Campinas (SP)

  Videla disputa a taça com Pasarela
O capitão da seleção argentina, Daniel Passarela, precisa 'disputar' a taça com os militares

A copa de 1978, na Argentina, foi a quarta na América Latina e ocorreu em um período em que o continente estava dominado por ditaduras militares, como a boliviana, onde cinco mulheres acabavam de iniciar uma greve de fome. Ou a nicaragüense, que já enfrentava a guerrilha que viria a conquistar o poder mais tarde. No Brasil, vivíamos também sob uma ditadura, mas mobilizações operárias começavam a estourar, principalmente com as greves no ABC paulista.
 
Porém, de todos os regimes militares do período, nenhum foi tão sanguinário quanto o do país-sede da copa. A Argentina teve mais de 30 mil desaparecidos, até hoje lembrados pelas Mães da Praça de Maio e em gigantescos protestos. A ditadura foi dirigida inicialmente pelo general Jorge Rafael Videla que comandou o golpe militar de 24 de maio de 1976, derrubando Isabel Perón, viúva do ex-presidente Juan Domingo Perón.

Nos anos da ditadura, o país sofreu uma grande abertura econômica, com a eliminação de barreiras alfandegárias. Isso, combinado com o ataque à legislação trabalhista e à organização sindical, degradou em muito as condições de vida da classe trabalhadora. Ao final da ditadura, a dívida externa tinha quadruplicado.

É bem verdade que a Copa do Mundo havia sido marcada bem antes da instauração da ditadura em 1976, mas, com certeza a ditadura de Videla se aproveitou do evento esportivo e da paixão dos argentinos pelo futebol para encobrir seu sanguinário regime. A conquista do título foi colocada como prioridade nacional e, para tanto, volumosas quantias de dinheiro foram injetadas para a ampliação de estádios e aeroportos. Tudo impecável, para camuflar as atrocidades contra os opositores.
 
Várias organizações protestaram contra a realização da copa na Argentina, mas todos os países participaram, sendo que a União Soviética só não foi porque não se classificou. Pode-se imaginar que, se classificada, a URSS boicotaria a Copa. Mas isso seria improvável, dado que apesar do regime assassino, a URSS mantinha relações comerciais com o país, ajudando assim a manter o regime.

Na época, o presidente da Fifa, o brasileiro João Havelange, não cedeu aos apelos e manteve a Argentina como a sede. Além da relação que havia entre as duas ditaduras, Havelange tinha uma dívida com a Federação Argentina de Futebol, que havia ajudado a elegê-lo quatro anos antes para a presidência da entidade. Após a Copa, o almirante argentino Carlos Alberto Lacoste, responsável pela organização do Mundial, virou vice-presidente da Fifa.

Alguns jogadores não participaram em protesto pela situação política. Foi o caso do atacante da seleção holandesa e considerado o maior jogador europeu de todos os tempos, Johan Cruyff, que também enfrentava problemas pessoais com a Federação Holandesa de Futebol. O mesmo aconteceu com o meio campista da seleção alemã e do Bayern de Munique, Paul Breitner, que havia jogado a final da Copa de 74 e jogaria a final da copa de 82, marcando gols nas duas finais.

Para tentar manter a aparência de neutralidade, o general Videla fez o seu discurso na abertura do mundial, no jogo entre Alemanha e Polônia realizado no estádio Monumental de Nunez, em trajes civis. Como conta Eduardo Galeano, em Futebol ao Sol e à Sombra, João Havelange, condecorado na ocasião, declarava que “finalmente o mundo pôde ver a verdadeira imagem da Argentina” e o capitão da seleção alemã, Berti Vogts, alguns dias depois afirmou:

- A Argentina é um país aonde reina a ordem. Não vi nenhum preso político.

Entretanto, a alguns metros do estádio funcionava a Escola Mecânica da Armada, local que servia de centro das torturas e mortes e apesar de ter proibido à imprensa argentina fazer qualquer crítica ao andamento da copa e a situação política do país, uma equipe de reportagem da TV estatal da Holanda flagrou um protesto. Pouco antes do jogo de abertura um grupo das Mães da Praça de Maio fazia um desesperado apelo próxima a Casa Rosada (sede do governo argentino) tentando obter informações sobre o destino de seus filhos que haviam sido presos.   

Dentro de campo, também aconteceram fatos estranhos. Um deles, por exemplo, foi que, nas quartas-de-finais, os principais adversários da Argentina tinham que se deslocar por enormes distâncias entre um jogo e outro, causando um desgaste físico maior. Enquanto isso, o time da casa mandava todos os seus jogos na cidade de Rosário (no estádio Gigante de Arroyito que pertence ao time do Rosário Central, para quem Che Guevara torcia). Para se ter uma idéia nas sete partidas disputadas o Brasil percorreu 4.659 Km, enquando a Argentina percorreu apenas 618 Km, no mesmo número de jogos.

“Muy amigo”
A malandragem portenha foi responsável pela desmarcação do jogo decisivo entre Argentina e Peru, adiado para depois do confronto da seleção brasileira contra a Polônia. Como precisava vencer seu jogo para se classificar e ainda fazer uma diferença significativa de gols, a Argentina jogou já sabendo de quanto precisava ganhar e, segundo muitos dizem o goleiro peruano Quiroga (nascido na Argentina) já sabia exatamente quantos gols precisava deixar passar.

O resultado foi 6 x 0 para a Argentina, que necessitava ganhar com uma diferença mínima de quatro gols, classificando-se para jogar a final contra a Holanda e eliminando o Brasil que ficou em terceiro lugar batendo por 2 x 1 a seleção italiana e saindo invicto do Mundial.

A seleção peruana foi recebida no aeroporto de Lima com uma chuva de moedas por seus torcedores em protesto contra um possível “corpo mole” de seus jogadores na partida.

No jogo final, no estádio Monumental de Nunes, do River Plate, a Argentina venceu a Holanda na prorrogação por 3 x 1, conquistando assim seu primeiro título mundial. E como não poderia ser diferente, a taça ao capitão Daniel Passarella foi entregue pelo general Jorge Videla. Os jogadores holandeses, indignados, recusaram-se a ficar em campo e apertar a mão dos militares.


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