1970 - MÉXICO Próxima copa
A ditadura militar embalada pelo tri


Lívia Furtado, de Belo Horizonte (MG)



Todos juntos vamos,
Pra frente Brasil!
Brasil !
Salve a Seleção!!!

Assim era a letra do hino da campanha brasileira para a Copa de 1970, no México, até hoje conhecido por boa parte da população. O hino marcou não apenas a conquista do tri, mas o momento político daquele tempo. O clima era de euforia, com uma seleção considerada até hoje insuperável, com nomes como Pelé, Rivelino, Tostão, Gérson, Carlos Alberto Torres e Jairzinho. A seleção brasileira era um fenômeno inigualável e venceu todos os jogos da Copa.

Na América Latina, o cenário de pobreza e desigualdade social levou a intensas mobilizações sociais anti-imperialistas e socialistas. Na década de 60 e 70, a luta dos trabalhadores no continente foi sufocada por golpes militares apoiados e financiados pelos EUA.

O AI-5 e “esse Brasil vai pra frente"
No Brasil, o Ato Institucional Nº 5 (AI-5) já havia sido instituído no final de 68, pelo general Costa e Silva, fechando o Congresso, extinguindo toda liberdade de organização e reunião e garantindo aos militares plenos poderes para reprimir, perseguir e exilar. Em 1970, os partidos políticos de esquerda estavam na clandestinidade e qualquer movimento ou ação que questionasse o regime era considerado subversivo, um atentado à ordem e à segurança nacional.
 
O recrudescimento da repressão veio em meio a grandes manifestações de rua, protagonizadas pelo movimento estudantil. Protestos como a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro, reuniu a resistência aos militares, unindo trabalhadores e estudantes. A juventude também tomava as ruas em diversos países, principalmente na França, em uma onda de protestos iniciada na Sorbonne. Nos Estados Unidos, iniciava-se os primeiros protestos pedindo o fim da Guerra do Vietnã, iniciada em 1964.

Por isso, para o regime militar, um time de craques e a conquista do tricampeonato vieram a calhar. Enquanto reprimia, prendia e torturava militantes, o governo do general Garrastazu Médici estimulou o crescimento econômico por meio de empréstimos externos, industrialização e realização de grandes obras e rodovias (como a Transamazônica). No início da década de 70, a economia nacional apresentava um crescimento excepcional de 12% ao ano. A televisão e o governo propagandeavam o “milagre brasileiro”. E a vitória na Copa do Mundo de 1970 ajudou a impulsionar a propaganda oficial.

Porém, este sonho não duraria muito. O “milagre” ainda não havia chegado à mesa dos trabalhadores e o crescimento econômico havia beneficiado principalmente aqueles que já eram donos do poder e do dinheiro. O milagre começou a desmoronar na segunda metade da década de 70, quando a crise do petróleo e a alta dos juros, imposta pelo FMI, jogaram o país em uma profunda crise econômica, com inflação alta, desemprego e juros.

Feridas abertas
No México, sede da copa, a situação social em 1970 também era grave. Os colapsos da economia levaram ao aprofundamento da pobreza e a agitação social era grande no final dos anos 60. O PRI, que comandava a política há quase três décadas, já trabalhava para destruir as parcas conquistas dos trabalhadores. Aplicava medidas para beneficiar as elites, desenvolver a indústria e atrair investimentos estrangeiros. Seguia à risca a política dos EUA para reprimir os movimentos sociais. A tortura, o extermínio e a destruição de cidades foram práticas recorrentes nesse período.

Um dos marcos dessa repressão foi o Massacre de Tlatelolco, em 2 de outubro de 1968, dias antes do início dos Jogos Olímpicos, sediados no México. Naquele dia, cerca de 10 mil estudantes e professores fizeram um grande protesto contra o governo na Praça das Três Culturas de Tlatelolco, na Cidade do México, repudiando os gastos com a realização dos Jogos e denunciando a repressão e o desaparecimento de ativistas. A polícia reagiu com violência e matou quase 300 manifestantes.

Na Copa de 70, a seleção do México ficou em 6º lugar, atrás de Brasil, Itália, Alemanha Ocidental, Uruguai e URSS. Até hoje, esse foi o campeonato de futebol considerado mais belo e inesquecível, pelo alto nível dos jogos e dos jogadores. As semi-finais foram disputadas apenas por campeões mundiais: Brasil, Uruguai, Itália e Alemanha Ocidental.


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