1966 - INGLATERRA Próxima copa
'Deus salve o juiz'


Noraldino Castro, de Bauru (SP)


No ano da oitava copa, Mao Tse Tung lançava as bases de sua revolução cultural na tentativa de retomar o controle do Partido Comunista chinês. As bombas ianques caiam sem parar em solo vietnamita e os trabalhadores brasileiros já sentiam na pele os efeitos de três atos institucionais do regime militar.

A anfitriã Inglaterra enxergava nessa copa a grande chance de retomar a hegemonia do futebol mundial há muito tempo perdida. Os inventores do futebol moderno pagavam caro pela ausência voluntária nas três primeiras copas, e ainda sofriam com o vexame em 1950 no Brasil, quando perderam de 1 a 0 em Belo Horizonte para os Estados Unidos e foram eliminados. No Chile, em 1962, foram eliminados pelo Brasil nas quartas-de-final. Na ocasião, o técnico inglês saiu-se com essa: "A Inglaterra sucumbiu, mas de cabeça erguida. Foi eliminada pelo Brasil, campeão do mundo, composto de 11 diamantes - o maior conjunto da Terra”.

Desta vez, os 11 diamantes brasileiros, com Pelé e Garrincha à frente, não passaram da primeira fase, ganhando da Bulgária e perdendo para a Hungria e Portugal. Com a complacência dos árbitros, os dois jogadores foram caçados em campo, na que foi a pior campanha do Brasil desde 1934. A seleção dirigida por Vicente Feola voltou para casa e assistiu desmoralizada o primeiro título inglês.

Os argentinos faziam sua melhor campanha desde 1930, quando conquistaram o vice-campeonato, mas iriam enfrentar logo os donos da casa nas quartas de final. A partida seguia indefinida quando o capitão argentino Ratin, após discutir com o árbitro, foi expulso. Ao sair do gramado, Ratin fez insinuações de que haveria uma armação para favorecer os ingleses. Logo após a expulsão, a seleção da rainha fez 1 a 0 e garantiu a presença na semifinal. O inusitado ficou por conta do técnico inglês que não permitiu que seus jogadores trocassem de camisas com os argentinos, alegando que seria um insulto se despir diante da família real que assistia a partida das tribunas.

Uma surpresa da copa foi a seleção da Coréia do Norte. O time formado por operários e funcionários públicos não tomou conhecimento da Itália, uma das favoritas, e foi às quartas-de-final contra Portugal. Depois de estar vencendo por 3 a 0 no primeiro tempo, os coreanos permitiram a virada e o time de Eusébio venceu por 5 a 3.

Império colonial
Portugal, ainda dominado pela ditadura salazarista, era um dos últimos estados europeus cujas colônias ainda não haviam conquistado a independência. Foi justamente de sua maior colônia, Angola, que veio Eusébio, a grande estrela de 1966. Artilheiro com 9 gols, o pantera negra transformou Pelé em coadjuvante na vitória de 3 a 1 contra o Brasil, varreu a zebra coreana e só parou na semifinal diante dos donos da casa, levando Portugal, em sua primeira copa do mundo, ao terceiro lugar. Oito anos depois, em 1974, Portugal viveria a Revolução dos Cravos, com jovens militares unindo-se ao povo, derrubando a ditadura e pondo fim aos combates em Angola.

Sob os olhos da rainha
Com todos os grandes obstáculos superados, os ingleses enfrentariam os alemães, campeões de 1954, que tinham o ainda garoto Beckembauer como grande destaque. A Alemanha fez uma partida duríssima, empatando o jogo no último minuto por 2 a 2, forçando assim uma prorrogação. Foi nesse tempo extra que aconteceu o lance mais polêmico da competição. Depois de um chute a queima-roupa do atacante inglês, a bola bateu no travessão na linha do gol, os ingleses saíram comemorando, e após uma discussão com o bandeirinha, o gol ilegítimo foi validado. O time da casa ainda fez mais um e garantiu finalmente o título mundial. A rainha Elizabeth entregou a Jules Rimet ao capitão Bob Moore que, ao lado de Bob Charlton, foi o destaque em uma seleção limitada.


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