1962 - CHILE Próxima copa
“Porque nada temos, nós faremos tudo”


Lívia Furtado, de Belo Horizonte (MG)


Se o futebol é sinônimo de superação, os chilenos deram um exemplo e tanto ao aceitarem sediar a copa de 1962. Afinal, dois anos antes, o país foi atingido por um dos maiores terremotos do século XX, com 8,5 pontos na escala Richter. A tragédia deixou 500 mil mortos, 2 milhões de feridos e 25% da população desabrigada. Mesmo assim, o país resolveu sediar a copa, sob o sofrido slogan “porque nada tenenos, lo haremos todo” (“porque nada temos, faremos tudo”).

O Chile era governado então por Jorge Alesandrini (1958-1964), representante da oligarquia e do conservadorismo, e o país atravessava uma grave crise econômica e política, com pobreza e fome.

A frente popular e a copa: semelhanças?
Antes de Alesandrini, o poder no Chile esteve nas mãos de governos de frente popular, de 1938 a 1952. Formada pela coligação entre os partidos Radical, Comunista e Socialista, essa frente cumpriu o papel de barrar a mobilização dos trabalhadores, trazendo-os para o campo institucional. Essa era a tática da III Internacional, principalmente após a guerra, para barrar as revoluções socialistas no mundo.

No Chile, o objetivo foi alcançado: por um lado, essa frente fez concessões e implementou algumas medidas de caráter social. Por outro, desviou a esquerda e os operários da luta por seus objetivos estratégicos e pela tomada do poder. Nesses governos, setores da esquerda foram chamados a participar passiva e democraticamente do projeto nacionalista burguês e industrial que a Frente Popular tinha para o Chile.

Porém, esses governos também se desgastaram diante das massas. Os casos de corrupção e a falta de perspectivas e mudanças sociais deixaram claro que as pequenas reformas não conseguiriam melhorar o nível de vida dos chilenos, provocando inúmeras mobilizações.

Por isso, a Copa de 1962, com 16 países, também serviu para levantar a moral do povo chileno e tentar amenizar o descontentamento dos trabalhadores. O País ficou em 3º lugar no campeonato mundial, atrás apenas de Brasil e Tchecoslováquia. Em 4º e 5º lugar ficaram, respectivamente, Iugoslávia e URSS.

Brasil x Chile
A seleção brasileira participou da copa seguindo a máxima de “em time que está ganhando não se mexe”. Mas, como futebol é uma caixinha de surpresas, Pelé, já não mais um menino, sofreu uma contusão logo na segunda partida. Todos os olhos se voltam para o “Mané” Garrincha. E ele brilha, com o mesmo futebol irreverente e alegre que garantira a sua vaga em 58. Desta vez, porém, ele carregava a responsabilidade de liderar um time favorito e trazer o bicampeonato. Após a final, com o Brasil vencendo a Tchecoslováquia por 3 x 1, João Saldanha profetizou: “Daqui a 400 anos, toda vez que falarem de futebol, terão de falar de Mané Garrincha".

Os anfitriões enfrentaram o Brasil nas semi-finais e a imprensa chilena ficou estupefata. O jornal El Mercúrio, o mesmo que hoje traz as notícias da revolta dos estudantes, perguntou: “De que planeta veio Garrincha?”. Nesta partida, Garrincha foi expulso, após dar um chute em um jogador chileno. Pelo regulamento, ele estaria fora da final, mas, reza a lenda de que a cartolagem teria entrado em campo, através do então primeiro-ministro Tancredo Neves, e dado um jeitinho nos “Joãos” no caminho do Mané.

Jogo bruto
Enquanto os brasileiros assistiam pela primeira vez aos jogos da copa pela televisão, por meio de gravações que chegavam ao Brasil com dois dias de atraso, o Brasil vivia um momento político conturbado.

A renúncia de Jânio Quadros e o incômodo que seu vice, João Goulart, causava aos setores conservadores, agitavam o cenário político. Os trabalhadores saem às ruas em apoio às reformas de base propostas por Jango. A burguesia e o imperialismo preparam o Golpe Militar de 1964.

Com o apoio dos Estados Unidos, esse instrumento da burguesia depois seria usado em diversos países latino-americanos, como o próprio Chile, com o golpe em 1973. Para derrubar o governo de Salvador Allende e deter o avanço da classe operária, o general Pinochet inaugura uma das mais sangrentas ditaduras do continente. No mesmo dia, milhares de trabalhadores e estudantes foram levados ao que seria o campo de concentração, tortura e fuzilamento do general Pinochet: o Estádio Nacional. O mesmo onde, em 17 de junho de 1962, o Brasil conquistou o bicampeonato mundial.


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