1934 - ITÁLIA Próxima copa
O futebol como peça de propaganda
do fascismo


Carlos Serrano e Dirley Santos, do Rio de Janeiro (RJ)


A copa de 1934 ocorre com o mundo assistindo o crescimento do nazi-fascismo. Hitler chega ao poder pela via eleitoral em 1933 e inicia a perseguição a judeus, ciganos, homossexuais e comunistas. Na Itália, país que sediou a Copa, o fascismo se consolida matando e prendendo importantes revolucionários como Antônio Gramsci, secretário geral do Partido Comunista Italiano. Na cadeia, Gramsci produz seus célebres “Cadernos do Cárcere”, onde chega a afirmar que o futebol “é o reino da lealdade humana exercida ao ar livre”. O ditador Salazar dá o mesmo tratamento aos seus opositores em Portugal. Na Espanha, a República é atacada pelas hordas do “generalíssimo”, carniceiro e fascista Francisco Franco e pega fogo em meio a uma guerra civil. As forças populares se verão abandonadas pelos “democráticos” governos europeus, dos EUA e por Stálin, enquanto Franco recebe toda a ajuda de Mussolini e Hitler.

Na União Soviética, a burocracia comandada por Stálin consolida a usurpação da revolução russa, assassinando milhares de dirigentes revolucionários, em sombrios expurgos. À frente da Terceira Internacional, Stálin aplica uma política ultra-esquerdista que igualava como inimigos a social-democracia, de base operária, e o fascismo,  expressão da contra-revolução burguesa. Essa política, levada a cabo na Alemanha, enfraquece a luta contra a ascensão de Hitler. Neste período, Trotsky, no exílio, defende a política de Frentes Únicas Operárias, unindo as organizações da classe contra o fascismo, como a única forma de resistência para deter o nazi-fascismo.

Na Ásia, a primeira revolução chinesa, em 1927, é abortada pela traição stalinista que entrega a vida de valorosos militantes ao nacionalista-burguês Chiang Kai Chec.

Em campo contra o fascismo
Porém, a classe trabalhadora dá grandes mostras de solidariedade internacionalista. Apesar da traição do verdugo russo, milhares de trabalhadores dos quatro continentes movidos pelo internacionalismo operário lutarão pelo povo espanhol nas Brigadas Internacionais. Em 1937, os jogadores do Euskady, time formado por jogadores do País Basco, na região norte da Espanha, fez uma excursão pela Europa, jogando futebol e recolhendo fundos para a causa republicana. O principal time da Catalunha, o Barcelona, fez o mesmo, excursionando pelas Américas. Assim que a revolução espanhola foi derrotada, as duas equipes foram declaradas rebeldes pela FIFA!

Outro emocionante exemplo partiu de jogadores paraguaios. Bolívia e Paraguai desperdiçavam as valiosas vidas de seus jovens numa guerra insana e infrutífera (Guerra do Chaco) para satisfazer os interesses da Shell e da Standard Oil, sedentas pelos recursos minerais da região. Em plena Guerra, os jogadores arrecadavam fundos para a Cruz Vermelha atender feridos de ambos os lados do conflito.

“Vencer ou Morrer”
A Copa acaba atravessada por esse cenário reacionário e fervilhante que prenuncia o explosão de outra guerra mundial. Na Itália, é aproveitada como peça de propaganda do regime fascista de Mussolini, assim como tentara Hitler com a Olimpíada de Berlim em 1936 e a sua louca busca pela supremacia ariana pulverizada pelo corredor negro norte-americano Jesse Owens.

Facilitada pelo revanchista boicote uruguaio e impulsionada pelo clima de terror criado pelo próprio Mussolini, a Itália acabaria campeã ao derrotar a Checoslováquia por 1 x 0 na prorrogação. Tratados como soldados, os jogadores italianos eram obrigados a perfilar e fazer a saudação fascista com os braços erguidos para frente em homenagem a Mussolini, o Duce, que compareceu a todos os jogos na tribuna de honra, acompanhado de todo o seu ministério.

O ditador mandava para os atletas da Azzurra, com presentes valiosos, cartões ameaçadores com os dizeres: “Vencer ou morrer!”. O melhor exemplo foi o jogo contra a Espanha, selvagemente disputado e que terminou empatada em 1x1, no tempo normal e 0 x 0 na prorrogação. Não havia cobrança de pênaltis e uma segunda partida foi feita, com os dois times completamente desfalcados. A equipe castelhana entrou em campo sem sete titulares e a italiana com menos cinco. A Itália acabou vencendo, por 1 x 0.

A participação brasileira é pífia, novamente prejudicada por desmandos da cartolagem, se resume a derrota diante da própria Espanha por 3 x 1. Pelo menos serviu para revelar ao mundo o craque Leônidas da Silva, o “diamante negro”, considerado o criador da bicicleta. Vargas procura “incentivar” a seleção fazendo propaganda do regime fascista com frases tipo “Tomai como exemplo a Itália, rejuvenescida pelo fascismo”, revelando suas verdadeiras aspirações políticas.


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