Construir uma alternativa para os trabalhadores

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Sétimo artigo da série “Crise e degeneração do PT”. O objetivo é oferecer ao nosso leitor uma análise sobre a história e as origens da falência do projeto petista

LEIA TAMBÉM:
1º ARTIGO: A falência de um projeto: governar o Brasil como uma potência capitalista com pequenas reformas sociais
2º ARTIGO: As ilusões num capitalismo humano
3º ARTIGO: Por que o PT se envolveu na corrupção
4º ARTIGO: O PT e a farsa da soberania sem ruptura com o imperialismo
5º ARTIGO: É possível reformar o Estado brasileiro e seu regime político?
6º ARTIGO: PT: o balanço de um fracasso

Chegamos ao último artigo desta série que analisa a trajetória e a degeneração do PT. Nos seis artigos anteriores, chegamos a algumas conclusões fundamentais para a classe trabalhadora brasileira sobre o que foi o seu principal partido nos últimos 35 anos.

O PT cresceu e chegou a ser o maior partido do Brasil com promessas de melhorar a vida da população pobre pela distribuição de renda. Mas a realidade foi outra. As pequenas melhorias que foram feitas em seus governos estão sendo retiradas no ritmo da crise econômica. Foram substituídas por enormes ataques aos trabalhadores: medidas contra aposentadorias, PIS, seguro-desemprego, diminuição do salário, cortes no crédito e nos orçamentos da saúde, da educação e de obras públicas.

Do outro lado, aparecem os compromissos do PT com os partidos burgueses da base aliada, como PMDB, PSD e PP, representados por velhos políticos de direita como Collor, Sarney, Renan Calheiros, Kátia Abreu e Joaquim Levy.

As alianças com esses partidos são a outra cara dos acordos do PT com as grandes empreiteiras, os bancos etc. Em resumo, com o grande capital nacional e imperialista. Dessas alianças nasceu o enorme envolvimento do PT com a corrupção.

Para aplicar e garantir esses acordos, a direção do PT atrelou as organizações sindicais e do movimento social (CUT, UNE, MST e outras) ao governo e atraiu a maioria dos seus dirigentes e quadros a postos bem-remunerados no Estado. Durante estes anos, procurou anestesiar o movimento dos trabalhadores para que esse não lutasse.

Não há como escapar a essas conclusões. Milhões de trabalhadores aprenderam essas lições através da dura realidade da crise econômica e dos ataques do governo. Daí a enorme insatisfação popular com Dilma e com o PT. Grande parte dessa insatisfação vem dos seus próprios eleitores.

Pode ser que o PT se recupere eleitoralmente no futuro, mas a confiança da classe trabalhadora de que o PT fosse uma alternativa para um Brasil melhor foi profundamente abalada.

Está mais do que na hora de os trabalhadores construírem uma alternativa política ao PT. Vimos falando sobre isso ao longo desta série. Mas é preciso começar a discutir no interior dos sindicatos e das organizações do movimento popular quais seriam as bases políticas para a organização dessa alternativa, de um verdadeiro partido socialista dos trabalhadores. Apresentamos alguns dos fundamentos principais em que deve se basear um partido deste tipo.

Capitalismo conduz a humanidade à destruição
O mundo em que vivemos, dominado pelo sistema capitalista mundial, é cada vez mais um cenário de miséria e de degradação humana. O capitalismo está imerso numa enorme crise econômica que atinge todo o globo.

Para manter seus lucros, os grandes grupos econômicos jogam a crise nas costas dos trabalhadores reduzindo salários, levando milhões ao desemprego, cortando conquistas sociais e serviços básicos como saúde, educação, transporte e moradia. Os países imperialistas ricos exploram cada vez mais os países pobres sugando seus recursos naturais a preço de banana.

Um bilhão de seres humanos passa fome. Guerras por petróleo e outras riquezas naturais levam a milhões de mortos. O narcotráfico e a violência atingem brutalmente as camadas mais pobres da população. A exploração desenfreada dos recursos naturais ameaça o mundo inteiro com o aquecimento global que provoca mudança climática e desastres naturais crescentes.

Ao contrário do que pregam o PT e outros partidos da esquerda, o capitalismo não pode ser reformado. É preciso destruir este sistema de exploração do homem pelo homem e dos países pobres por um punhado de países ricos.

Os trabalhadores estão obrigados a lutar todos os dias por seu salário, emprego e condições dignas de vida. Mas esta luta que exige enormes sacrifícios será eterna e inútil se não tiver como objetivo acabar com o capitalismo e construir uma sociedade socialista. Esse tem de ser o objetivo de um partido da classe trabalhadora.

crisept_mat7_2Socialismo não é utopia: é uma necessidade
Os defensores do capitalismo dizem que um sistema socialista em que não haja explorados nem exploradores e em que todos tenham condições de vida dignas é uma utopia. Que sempre existirão ricos e pobres.

Na verdade, utópico é tentar humanizar o capitalismo. É impossível conseguir justiça social, distribuição de renda e soberania dos povos dentro de um sistema baseado na exploração do homem pelo homem, na guerra e na destruição da natureza.

Basta olhar o mundo ao redor. Apesar da luta heroica e constante dos trabalhadores e dos povos, a desigualdade social cresce cada vez mais. 400 multimilionários concentram uma riqueza igual à da metade da humanidade.

Esses grandes exploradores defendem com unhas e dentes seus privilégios e não vacilam em reprimir e massacrar os explorados para manter suas propriedades e seu capital. Para acabar com esse sistema, é preciso uma revolução socialista que exproprie as propriedades de grandes banqueiros e capitalistas e instaure uma economia organizada em bases coletivas.

Longe de ser uma utopia, a revolução é a necessidade mais urgente e profunda da humanidade para salvar o mundo da barbárie capitalista.

Socialismo é um sistema mundial

A partir de uma revolução num país, será preciso estendê-la a todos os países. O socialismo exige uma economia mundial planificada a serviço dos trabalhadores para dar moradia, saúde, educação, lazer, liberdade e paz, ou seja, uma vida digna para todos.

Com o fim da exploração do homem pelo homem, será possível acabar com a exploração de um país por outro e, logo, com o fim das guerras. O socialismo abrirá o caminho para acabar definitivamente com a opressão às nacionalidades, às mulheres, aos negros, aos indígenas e aos LGBTs.

Os propagandistas da burguesia dizem que o socialismo fracassou, tomando o exemplo da ex-União Soviética, da China e dos países do leste europeu. Mas as grandes revoluções desses países foram apropriadas por burocratas privilegiados que traíram os trabalhadores, instalaram brutais ditaduras e, décadas depois, restauraram o capitalismo. Nenhum desses países foi socialista.

Socialismo não é utopia: é uma necessidade
Classes e setores populares têm enfrentado e derrotado a burguesia no decorrer da história, mas a classe operária é a única que pode conduzir todos os explorados e oprimidos do mundo ao poder e construir o socialismo. Esse papel decorre do seu próprio lugar na sociedade capitalista, do seu trabalho coletivo, que facilita a sua organização e a sua luta permanente para defender seu salário e suas condições de vida.

A libertação dos trabalhadores só poderá ser obra dos próprios trabalhadores. Por isso, um verdadeiro partido socialista procura impulsionar a organização, a mobilização dos trabalhadores e a confiança em suas próprias forças para que possam governar o país e o mundo.

O objetivo de uma revolução socialista é implantar um governo de trabalhadores baseado em conselhos populares. Esse novo tipo de governo terá como tarefa erguer outro tipo de Estado, varrendo a corrupção e eliminando os privilégios dos altos funcionários.

O governo dos trabalhadores estabelecerá a mais ampla democracia. Todos os representantes eleitos terão mandatos revogáveis a qualquer momento e não poderão ganhar mais do que um trabalhador especializado.

Independência de classe
A confiança que permitirá aos trabalhadores chegar ao poder se baseia em sua total independência de qualquer setor burguês. A burguesia é a classe exploradora e inimiga a ser derrotada. Toda aliança com setores burgueses supostamente progressistas, como defendem o PT e outros partidos de esquerda, é uma traição que só leva a derrotas e desmoralização.

As únicas alianças dos trabalhadores que fortalecem sua luta são com os setores populares, os sem-teto, os camponeses sem-terra, os pequenos proprietários agrícolas, os setores oprimidos e os estudantes.

Um partido operário, socialista, revolucionário e internacionalista
Para organizar a luta dos trabalhadores, dar sentido e objetivo a ela, é preciso um partido político de nossa classe. Sabemos que, ao se decepcionarem com o PT e com a política nacional, muitos trabalhadores passaram a rejeitar todos os partidos. Essa reação é muito compreensível, mas errada.

Os movimentos sociais, os sindicatos, ainda que fundamentais, são insuficientes para conduzir a luta da classe trabalhadora. Só um partido pode transmitir a experiência de mais de dois séculos de lutas operárias e defender um programa para que os trabalhadores possam tomar o poder.

Um partido que tenha como objetivo conduzir a classe operária em direção à tomada do poder não pode ter como principal meta a eleição de deputados para o parlamento burguês. Participamos das eleições para divulgar as ideias e o programa socialistas, fortalecer a luta dos trabalhadores, denunciar a política burguesa e fortalecer o próprio partido revolucionário. Se elegermos deputados, será para fortalecer essa luta.

A organização de um partido verdadeiramente revolucionário exige total liberdade de  discussão e uma atuação organizada. Parte fundamental desta democracia é que todos os dirigentes se submetam às decisões coletivas e sejam fiscalizados pela base.

Essa experiência não é nacional. Vem de inúmeras revoluções protagonizadas pela classe trabalhadora desde a Comuna de Paris de 1871. A luta dos trabalhadores pelo socialismo é internacional, e seu partido também tem de ser parte de um partido internacional seguindo a tradição da I, II, III e IV internacionais.

É um partido desse tipo que o PSTU quer construir. Hoje, essa tarefa não só é imediata, mas urgente. As ideias que desenvolvemos nesta série dirigem-se, principalmente, aos milhares de trabalhadores que despertam para a luta e já não têm o PT como referência. Ao contrário, sentem-se traídos. Nosso chamado é para que se juntem a nós neste esforço decisivo.