Cinedebate em São Paulo discute visibilidade lésbica na sociedade e no cinema

Babi Borges, da Secretaria LGBT do PSTU e a cineasta Carol Rodrigues

O dia 29 de agosto é o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica e Bissexual e, como parte da celebração da data, ocorreu no dia 3 de setembro, na sede do PSTU na Lapa, um cine-debate com Babi Borges, da Secretaria Nacional LGBT do PSTU, e com a cineasta Carol Rodrigues.

O debate começou com a exibição da primeira parte do filme Desejo proibido, uma produção da rede americana HBO dos anos 2000, que retrata relações lésbicas em três momentos históricos diferentes nos Estados Unidos.

Carol Rodrigues discutiu como é a representação das relações lésbicas no cinema, que exclui mulheres negras e trans lésbicas, pontuando que estas mulheres não tem direito à visibilidade, e não tem direito a exercer seu amor livremente. “O cinema sempre traz elementos e contradições, e é na perspectiva de alguém. Hoje existe um acenso negro, mas o que vemos no filme de Stonewall, que será lançado em breve, é um embranquecimento histórico. Marsha Johnson, uma das principais lideres do levante de Stonewall, era negra e trans, e foi completamente deletada da história. A história que está sendo construída é na perspectiva de um homem gay branco. Temos que resgatar nossa história!”.

Carol chama a atenção também para o fato de que hoje, embora haja mais personagens lésbicas na TV e no cinema, a perspectiva de fortalecimento colocada para os personagens é o empoderamento – uma saída de conquistas individuais – e não de luta coletiva.

Na mesma linha, Carol pontuou que hoje os finais para os casais homossexuais nas novelas e filmes são felizes, diferente do que era mostrado há alguns anos, pois a indústria cinematográfica e televisiva entendeu que este é um público que não pode ser mais ignorado, por sua expressão política e peso comercial. “A grande mídia se volta para o público LGBT para tentar ditar um ritmo de vida a ser consumido, com suas bases fundamentadas no neoliberalismo. Isso destoa da realidade, pois sempre que a classe trabalhadora é atacada, quem mais sente essa precarização são os homossexuais negros e negras, que se tornam sujeitos ativos nesses processos de lutas!”.

Dilma e  Cunha: Inimigos dos trabalhadores e homossexuais
O eixo do debate foi discutir a visibilidade das mulheres lésbicas e bissexuais nos dias de hoje, frente a um cenário em que um discurso conservador vem ganhando espaço a nível mundial. Babi lembrou que “Dilma se elegeu, desde o seu primeiro mandato, assinando a Carta ao povo de Deus, se comprometendo com os setores mais conservadores e reacionários, dizendo que sobre o tema do aborto, família e questões de gênero, ela não iria mexer em nada. Seguiu com corte de verbas pro combate à violência e sem criminalizar a homofobia. A única conquista que tivemos no último período foi a união estável – e ela veio por pressão do movimento, via STF!”.

Babi também chamou atenção para o abismo que existe, no direito de exercer a sua sexualidade, entre os homossexuais ricos e de classe média e os homossexuais da periferia. “Os homossexuais da periferia sentem a homofobia de maneira muito diferente, é os que pegam ônibus, andam a pé, estão muito mais vulneráveis a situações de violência, não podem se assumir pelo risco de perder o emprego, de apanhar, serem expulsos de casa e serem mortos. No caso das pessoas trans, o mais comum é ser demitida quando começa o seu processo de transição. Nós não temos acesso ao conforto da industria pink”.

Desde o início do segundo mandato de Dilma, já foram cortados R$79 bilhões de verbas destinadas à saúde e educação, e para conseguir apoio no Senado, Dilma negociou com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e o Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, a Agenda Brasil, que prevê medidas como a privatização do SUS e a regulamentação da terceirização, além de outros ataques aos direitos dos trabalhadores. Vale ressaltar que quem será mais afetado com esses cortes são os negros e negras homossexuais das periferias.

Face ao aprofundamento dessa crise econômica, Babi faz o chamado: “É importante que sejamos parte dos processos que estão se enfrentando com o governo. Infelizmente parte do movimento LGBT foi cooptado pelas ONGs e governo, mas para a nossa luta ser coerente, temos que nos enfrentar com o governo. Dilma apoiou Eduardo Cunha como presidente da Câmara! Cunha é o que não quer discutir as pautas das mulheres, como o aborto e o que cogitou dar apoio à criação do dia do orgulho hétero. Nós temos que ser parte do processo de construção de uma alternativa pra classe trabalhadora!”.

Para finalizar o debate, Carol indicou uma lista de filmes que retratam mulheres lésbicas trans e negras e também filmes e documentários sobre o movimento LGBT, pois muitos dos filmes produzidos sobre o tema não ganham espaço na grande mídia e são pouco conhecidos.

Segue a lista de alguns filmes para assistir em casa!

Pride – Orgulho e esperança – Matthew Warchus

Paris is burning – Jennie Livingston

Dólares na areia – Israel Cárdenas e Laura Amelia Guzmán

Pariah – Dee Rees

Azul é a cor mais quente – Abdellatif Kechiche

Amigas de colégio – Lukas Moodysson

Transamerica –  Duncan Tucker

Tomboy – Céline Sciamma

Lírios D’água – Celine Sciamma

Minha vida em cor de rosa  –  Alain Berliner

A revolta de Stonewall  – Kate Davis e David Hellbroner

C.R.A.Z.Y – Loucos de Amor – Jean-Marc Vallée

Quinze –  Maurílio Martins  (Link: https://vimeo.com/84723853)

O olho e o zarolho – Juliana Vicente, René Guerra

Cinema em 7 Cores – Felipe Tostes e Rafaela Dias ( Link: http://portacurtas.org.br/filme/?name=cinema_em_7_cores  )

O outro lado de Hollywood – Rob Epstein Jeffrey Friedman