
Especial produzido com a colaboração
da União da Juventude Árabe para a América Latina (UJAAL)
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História da Intifada Palestina
Israel:
cinco décadas de pilhagem e limpeza étnica
Por Cecília Toledo, jornalista e militante do PSTU,
para a revista Marxismo
Vivo
“Foi para uma terra sem povo que lentamente, no final do
século passado, começou a se encaminhar um povo sem terra”.1
Essa história, que desde a fundação de Israel em 1948 vem
sendo martelada na cabeça dos povos do mundo inteiro, começa
a ruir. E já não mais apenas por obra dos marxistas revolucionários,
mas dos próprios israelenses. Tom Segev, um dos mais destacados
historiadores de Israel da atualidade, entrevistado recentemente
pelo jornal Folha de S.Paulo2, demonstra essa falácia.
Autor do livro 1949 – Os Primeiros Israelenses, Segev se baseia
no diário do pai-fundador de Israel, David Ben Gurion, no
qual ele descreve sua política para forçar a saída dos árabes
do recém-criado país. O livro, antes repudiado por mostrar
que a versão oficial, em voga até então, era fantasiosa e
que os árabes não deixaram Israel por vontade própria, mas
foram expulsos com requintes de crueldade, já está inclusive
sendo adotado nas escolas.
Esse “reconhecimento” por parte da história oficial é um
tanto quanto tardio se levamos em conta que outros autores,
em especial os marxistas, já haviam, exaustivamente, contado
a história real do sionismo e desmascarado uma das mais monumentais
falsificações históricas já feitas até hoje. Entre esses historiadores
marxistas destacam-se o militante revolucionário Abraham Leon,
morto nas câmaras de gás de Auschwitz aos 26 anos, e autor
do importante livro A Questão Judia, e Ralh Schoenman, que
escreveu a História Oculta do Sionismo, um relato detalhado
e que não deixa dúvidas sobre a ocupação judia da Palestina.
No entanto, esse reconhecimento é mais uma demonstração de
que a situação é tão grave e o avanço da Intifada tão forte
que até importantes historiadores israelenses já estão admitindo
que a ideologia “da terra sem povo” é pura invencionice, e
negam a torrente de mentiras que os sionistas vêm pregando
há décadas e que serviram para iludir muita gente.
Judeus: um povo-classe nas sociedades pré-capitalistas
Abraham León parte da proposta de Marx para demonstrar que
a suposta originalidade do povo judeu tem causas materiais
e históricas, sem qualquer relação com Jeová ou uma pseudo
“essência” racial imutável, como supõem tanto os anti-semitas
quanto os sionistas. Segundo Marx, para entender a questão
judia, “não devemos buscar o segredo do judeu em sua religião,
mas o segredo da religião no judeu real” 3. Partir
da religião, como normalmente se costuma fazer, não explica
a questão judia; para entendê-la é preciso entender o judeu
em seu papel econômico e social.
León vai em busca das origens do povo judeu e chega à importante
e rica noção de povo-classe. Nas sociedades pre-capitalistas,
os judeus foram uma classe social, um povo-classe4,
como são, entre outros povos, os ciganos. Os judeus representavam
as formas “pré-históricas” do capital, tanto no mundo antigo
como no mundo feudal. No feudalismo, as transações com dinheiro
ocorriam relativamente à margem do modo de produção, já que
essas sociedades eram produtoras de valores de uso e não de
troca. Por ser uma atividade marginal, era exercida por “estrangeiros”,
por povos-comerciantes, como os fenícios, os judeus e os lombardos.
Esses eram povos-classe que, como dizia Marx, existiam nos
poros da sociedade produtora de valores de uso. Assim, os
judeus são a sobrevivência de uma velha classe mercantil e
financeira pre-capitalista.
Sobre essas relações materiais dos judeus se assentava uma
superestrutura institucional e ideológica: autoridades comunitárias,
uma religião “especial” e o mito de considerar-se descendentes
do primitivo povo hebreu que habitava a Palestina no início
de nossa era. Essa superestrutura ajudava a manter a coesão
do povo-classe mas, ao mesmo tempo, falsificava a verdadeira
natureza de sua existência. É o fenômeno da falsa consciência,
comum a todas as ideologias. E explica porque não há unidade
racial entre os judeus. Oculto sob esse manto ideológico-religioso,
ocorria o fenômeno da incorporação de indivíduos ou grupos
inteiros ao povo-classe. Isso explica que tenha existido judeus
de “raça” mongólica no Daghestão, judeus negros (os falasha)
na Etiópia, judeus árabes no Islã e judeus de origem eslava
na Europa Oriental. Isso prova que a descendência comum de
Abraham ou dos habitantes da Palestina no início de nossa
era é puro mito.
Com o desenvolvimento do capitalismo, a velha classe comercial
pre-capitalista judia foi perdendo as bases materiais de sua
existência como povo-classe. Na Europa Ocidental, especialmente
na Inglaterra, os judeus começam a assimilar-se de forma natural.
Mas antes que esse processo atingisse a Europa Oriental, de
capitalismo mais atrasado, entramos na etapa imperialista
do capitalismo, de decomposição no mundo todo.
Os judeus, tanto na Europa Ocidental quanto Oriental, passaram
a enfrentar uma situação dramática. Ao colocar a solução do
problema judeu nos termos na luta pelo socialismo, o marxismo
começou a exercer uma grande atração sobre as massas judias.
Seu caminho era fundir-se com a classe trabalhadora em suas
lutas contra o capitalismo, porque para as massas judias miseráveis
de Varsóvia ou de Kiev, o caminho seguido por seus correligionários
mais afortunados da Inglaterra ou da França, da assimilação
como burgueses nos marcos do capitalismo, já estava fechado
para elas. Na Rússia, enquanto o império zarista alentava
os choques entre russos e polacos ou ucranianos, ou destes
contra os judeus, e enquanto o Império Austro-Húngaro fazia
o mesmo no mosaico de povos que dominava, os marxistas revolucionários
chamavam a unidade de todos os trabalhadores (de qualquer
língua, nacionalidade ou “raça”) para lutar contra esses regimes
e contra toda a burguesia imperialista européia.
Por isso, muitos operários, estudantes e intelectuais de
origem judia ingressaram nas fileiras socialistas e se assimilaram
aos trabalhadores de seus países. Mas o velho povo-classe,
nas condições do capitalismo moderno, era cada vez menos homogêneo.
E assim também famílias ricas, como os Rothschild e outros
milionários se ligaram à burguesia imperialista dos diversos
países europeus. E, entre as saídas burguesas para o problema
judeu apontadas por esses setores, a mais importante é o sionismo.
Outra saída reformista foi proposta por aqueles que ficaram
conhecidos como bundistas.
[topo]
O que foi o bundismo
Os bundistas eram membros do Bund, a União Geral de Operários
Judeus da Lituânia, Polônia e Rússia, fundada em 1897. Surgiram
na Rússia como um setor da social-democracia, tanto que, no
início, fez parte do Partido Operário Social-Democrata Russo,
mas quando este se dividiu, o Bund se colocou contra os bolcheviques5.
A base social do Bund era constituída por setores de artesãos,
semiproletários ou operários de pequenas oficinas, especialmente
da indústria de vestuário. Era um vasto setor com um pé no
velho gueto e outro no proletariado industrial moderno. Isto
se refletia na ideologia do Bund que, por um lado se reivindicava
marxista e revolucionário e, de outro, negava o internacionalismo
ao levantar barreiras entre os operários de distintas nacionalidades.
Com a bandeira de defender a cultura nacional, pregava que
os operários judeus deviam organizar-se de forma separada
dos operários russo, poloneses etc. Assim, acabava por fazer
o jogo da burguesia, ao dividir os trabalhadores de cada fábrica
ou cidade segundo sua origem nacional ou “racial”.
Esse caráter contraditório, reflexo de uma contradição real
de sua base social, determinava que, apesar de sua capitulação
ao nacionalismo burguês, o Bund não propunha que os trabalhadores
judeus se separassem da luta de classe e se unissem à burguesia
judia para ir colonizar a Palestina ou algum outro território.
Quem fez isso foram os sionistas.
[topo]
O surgimento do sionismo
Também em 1897, quando surgiu o Bund, realizou-se em Basiléia,
Suíça, o Congresso de Fundação da Organização Sionista6.
O pano de fundo da irrupção do movimento sionista foi a rápida
capitalização da economia russa depois da reforma de 1863,
que tornou insustentável a situação das massas judias das
pequenas cidades. No Ocidente, as classes médias, trituradas
pela concentração capitalista, começam a se voltar contra
o elemento judeu, cuja competição agrava sua situação.7
Em meio a esse clima, surge na Rússia a Associação dos Amantes
de Sion e é publicado o livro de León Pinsker, A Auto-emancipação,
preconizando o retorno à Palestina como única solução possível
para os judeus. Logo depois, um jornalista judeu de Budapest,
Teodoro Herzl, escreve O Estado Judeu, que até hoje é considerado
o evangelho do movimento sionista, segundo Abraham Leon.8
Na França, o barão de Rothschild, junto com outros magnatas
judeus, se opõe à chegada em massa de imigrantes judeus nos
países ocidentais e começa a apoiar a obra de colonização
judia da Palestina. “A seus ‘irmãos desafortunados’ a voltar
ao país de seus ‘antepassados’, ou seja, a ir o mais longe
possível, nada tinha de desagradável para a burguesia judia
do Ocidente, que temia, com razão, o crescimento do anti-semitismo”,
diz León. Assim, ainda que a Organização Sionista passasse
a disputar a mesma clientela que o Bund e inclusive o socialismo
revolucionário, seu caráter de classe era marcadamente distinto:
aparecia como o programa de um setor da grande burguesia judia,
que terminaria sendo dominante dentro dela.
No princípio, o sionismo aparece como uma reação da pequena
burguesia judia, duramente golpeada pela crescente onda de
anti-semitismo, tendo que se bandear de um país a outro, que
quer atingir a Terra prometida a todo custo para livrar-se
dessa situação. No entanto, o sionismo procura assentar-se
em uma explicação religiosa para justificar sua existência.
No ano 70 da era cristã, os judeus teriam sido expulsos de
Jerusalém, ocupada pelos invasores romanos. Como na Bíblia,
Jerusalém era considerada a pátria dos judeus, eles teriam
sido expatriados; foi a famosa diáspora, que espalhou os judeus
pelos quatro cantos do mundo.
Voltando a Marx, para entender a questão judia é preciso
partir das condições materiais de vida do judeu e não da religião,
das fantasias e ideologias criadas ao longo da história. “Enquanto
que o sionismo é, realmente, produto da última fase do capitalismo,
ou seja, do capitalismo que começa a se descompor, se vangloria
de ter sua origem em um passado mais que bimilenário. E se
bem o sionismo é essencialmente uma reação contra a crise
do judaísmo gerada pela combinação do desmoronamento do feudalismo
com a decadência do capitalismo, afirma ser uma reação contra
a situação existente desde a queda de Jerusalém, no ano 70
da era cristã”, diz A.León.
Mas o próprio surgimento do movimento sionista refuta essas
pretensões. “Como crer que o remédio a um mal existente há
dois mil anos só tenha sido encontrado no final do século
XIX? O sionismo vê a queda de Jerusalém como causa da dispersão
e por conseguinte, a origem de todos os males do judeus no
passado, no presente e no futuro. “A fonte de todas as desgraças
do povo judeu está na perda de sua pátria histórica e sua
dispersão em todos os países”, declara a delegação “marxista”
do Poalé-Sión no Comitê holando-escandinavo9.
Essa história dos judeus, como é contada pelos sionistas,
trata de criar o pano de fundo para justificar a ocupação
da Palestina. Assim, depois da violenta dispersão dos judeus
por obra dos romanos, os judeus não quiseram assimilar-se.
Imbuídos de sua “coesão nacional”, “de um sentimento ético
superior” e de “uma indestrutível crença em um Deus único”,
teriam resistido a todas as tentativas de assimilação.10
O que não é verdade, já que, como vimos anteriormente, houve
ao longo desses dois mil anos inúmeros casos de assimilação.
Mas, de acordo com a histórica construída pelos sionistas,
isso jamais teria ocorrido; a única esperança dos judeus durante
esses dias sombrios que duraram dois mil anos era retornar
à antiga pátria.
Segundo A.León, nunca o sionismo havia se colocado essa questão
de forma séria. Por que, pergunta, durante esses dois mil
anos jamais tentaram voltar realmente a essa pátria? Por que
foi necessário esperar até o fim do século XIX para que Herzl
os convencesse dessa necessidade? Por que todos os seus predecessores
eram tratados como falsos messias? Para responder a essas
incômodas perguntas, o sionismo recorre aos mitos. “Enquanto
as massas acreditaram que deviam esperar na Diáspora até a
chegada do Messias, foi preciso sofrer em silêncio”, diz Zitlovski.11
No entanto, como diz León, essa explicação não explica nada.
Se trata precisamente de saber por que as massas judias acreditavam
que deviam esperar o Messias para poder ‘regressar à sua pátria’.
Como a religião é um reflexo ideológico dos interesses sociais,
a partir do final do século XIX ela começou a deixar de ser
um obstáculo para o avanço do sionismo e a se transformar
numa cortina de fumaça para seu expansionismo, servindo para
encobrir e justificar todas as suas mazelas.
Essas concepções idealistas do sionismo são inseparáveis
do dogma do anti-semitismo eterno, ou seja, de que passe o
que passe, os judeus serão sempre perseguidos. Dessa forma,
o sionismo transpõe o anti-semitismo moderno para toda a história,
economizando o trabalho de investigar as diversas formas de
anti-semitismo e suas causas, e inclusive omitindo o fato
de que em diversas épocas históricas os judeus não foram oprimidos,
mas opressores, como membros da classe dominante.
“Na verdade, a ideologia sionista, como toda ideologia, não
é senão o reflexo desfigurado dos interesses de uma classe.
É a ideologia da pequena burguesia judia, oprimida entre o
feudalismo em ruínas e o capitalismo em decadência, sintetiza
A.León. Ele ressalta um fato justo, ou seja, que a refutação
das fantasias ideológicas do sionismo não refuta, naturalmente,
as necessidades reais que o fizeram nascer. É o moderno anti-semitismo
e não o mítico anti-semitismo “eterno” o melhor agitador em
favor do sionismo. Assim a questão fundamental é saber em
que medida o sionismo é capaz de resolver não “o eterno problema
judeu” mas a questão judia na época da decadência capitalista.
O defensores do sionismo o comparam com os demais movimentos
nacionais. Mas o movimento nacional da burguesia européia
é conseqüência do desenvolvimento capitalista; reflete a vontade
da burguesia de criar as bases nacionais da produção, de abolir
os resquícios feudais. Mas no século XIX, época do florescimento
dos nacionalismos, a burguesia judia, longe de ser sionista,
era profundamente assimilacionista. O processo econômico que
fez surgir as nações modernas lançava as bases para a integração
da burguesia judia na nação burguesa. Só quando o processo
de formação das nações chega ao fim, quando as forças produtivas
deixam de crescer, premidas pelas fronteiras nacionais, surge
o processo de expulsão dos judeus da sociedade capitalista
e o moderno anti-semitismo. A eliminação do judaísmo acompanha
a decadência do capitalismo. Longe de ser um produto do desenvolvimento
das forças produtivas, o sionismo é justamente a conseqüência
da total paralisia desse desenvolvimento, da petrificação
do capitalismo, nas palavras de A Leon. Assim, enquanto o
movimento nacional é um produto do período ascendente do capitalismo,
o sionismo é fruto da era imperialista. A tragédia judia do
século XX é uma conseqüência direta da decadência do capitalismo.12
Com toda razão, A.León lembra que justamente aí está o principal
obstáculo para a realização do sionismo, a chave para se compreender
a crise que vive a Palestina desde a fundação do Estado de
Israel. A decadência capitalista, base do crescimento do sionismo,
é também a causa da impossibilidade de sua realização. A burguesia
judia se vê obrigada a criar um Estado nacional e assegurar
as condições para o desenvolvimento de suas forças produtivas
justamente na época em que as condições para isso desapareceram
há muito tempo. A decadência do capitalismo, se por um lado
colocou de forma tão aguda a questão judia, por outro torna
impossível sua solução pela via sionista. E não há nada de
assombroso nisso, diz Leon. Não se pode suprimir um mal sem
destruir suas causas. O sionismo quer resolver a questão judia
sem destruir o capitalismo, principal fonte dos sofrimentos
dos judeus”.13
Isso remarca, como ferro em brasa, o caráter de classe do
movimento sionista. É certo que os pioneiros da colonização
da Palestina eram artesãos, pequenos comerciantes pobres,
pessoas sem grandes posses. Dessa forma, tratou-se de criar
uma imagem “plebéia” e até “operária” e “socialista” ao sionismo.
Seus defensores, principalmente os que se dizem de esquerda,
aceitam a idéia de que o movimento sionista não era um fator
progressivo na política européia, mas argumentam que isso
era secundário frente a um fato essencial: o sionismo seria
o movimento de liberação nacional do povo judeu. E do “povo
mais pobre”, daí ser uma “causa justa”.
É claro que não estava nos planos de Rothschild e da grande
burguesia judia irem pessoalmente à Palestina cultivar a terra.
O que fizeram foi um impulsionar um movimento para confinar
os judeus mais pobres na Terra Santa e, com isso, afastá-los
da luta de classes na Europa e dos partidos de esquerda, e,
por outro lado, livrarem-se, eles em primeiro lugar, da fúria
antisemita que crescia a olhos vistos. Outro objetivo desse
movimento impulsionado pela burguesia judia era transferir
essas massas para fora da Europa para constituir um Estado
Judeu num ponto estratégico, em meio à maiores reservas de
petróleo do mundo, ameaçadas pelo ascenso das massas árabes.
Por isso, o Estado de Israel se tornou um enclave do imperialismo
na região, o gendarme do mundo árabe.
[topo]
Uma região “vazia”
Segundo os sionistas, a Palestina era uma região praticamente
vazia. “Vastas regiões do país permaneciam inexploradas e
pertenciam a senhores feudais ausentes. Estavam infestadas
de malária e, além de algumas barracas de beduínos dispersas,
estavam desabitadas e, por isso, disponíveis”.14
Nas vizinhanças da Terra Santa havia apenas alguns núcleos
heterogêneos, muçulmanos, chequizes, maronitas, cristãos e
gregos ortodoxos. Foi para uma terra sem povo que lentamente,
no final do século passado, se começou a encaminhar um povo
sem terra”.15
Vive-se a época da expansão colonial da Europa na Ásia e
África. É nesse marco histórico se inicia o sionismo. E a
Palestina, longe de ser uma terra vazia e sem dono, estava
ocupada por outro povo, o povo árabe. Isso era um problema
para a burguesia judia européia, tanto que Herzl nem menciona
a palavra “árabe” em seu livro, apesar de saber, obviamente,
da existência dos árabes. Essa falsificação, escondida durante
tantos anos, não resiste mais à evidência dos fatos e, principalmente,
ao recrudescimento da luta palestina, obrigando até mesmo
os historiadores oficiais de Israel a reconhecer que aquela
“não era uma terra sem povo”.
Esse foi o papel reservado aos desesperados judeus da Europa
Oriental: servir de ponta de lança dos planos colonizadores
da burguesia imperialista, em especial os Estados Unidos,
interessados em criar uma cabeça de lança no Oriente Médio.
Com um discurso filantrópico, a expansão colonial usava as
massas miseráveis de judeus para seus fins nada louváveis.
Quem poderia se opor a que os pobres judeus saíssem da escuridão
dos guetos para o sol da Palestina? Infelizmente, essa troca,
por mais benéfica que tivesse sido para eles, foi feita às
custas dos árabes, massacrados e, estes sim, expulsos de sua
terra de fato, e não por obra e graça de uma história bíblica.
[topo]
Declaração Balfour: a segunda etapa do sionismo
A política de Teodoro Herzl, o pai do sionismo, e seus sucessores
foi a de aproveitar-se do processo de expansão colonial imperialista
para ocupar a Palestina. Para isso, precisava que alguma potência
imperialista abraçasse a causa sionista. Assim, sua atividade
principal foram as gestões perante as diversas potências européias,
buscando insertar o sionismo como parte de sua política colonial.
Esse apoio veio, em primeiro lugar, da Inglaterra, um império
que, desde meados do século, se expandia a todo vapor.
As gestões de Herzl em Londres foram bem acolhidas, mas havia
um problema objetivo: a Palestina estava em mãos da Turquia.
A Inglaterra então oferece a Herzl colonizar a Uganda ou o
Sinai egípcio, mas essa possibilidade não se concretiza. Havia
um segundo problema objetivo: o sionismo não era muito forte
entre as massas judias. Os que queriam emigrar, o faziam massivamente
para a América; tanto que uma das opções discutidas foi a
constituição do Estado sionista na Argentina. Pouquíssimos
judeus iam para a Palestina. E uma boa parte dos que ficavam
eram antisionistas, ou estavam sob a influência dos partidos
de esquerda.
Com a I Guerra Mundial, chegara a hora da repartição da Turquia.
Para apressá-la, a Inglaterra se serve do movimento nacional
dos árabes que havia começado a despertar. E, por outro lado,
firma um acordo com a França, de repartição da zona, além
de assinar a chamada Declaração Balfour (2/11/1917), que ficou
conhecida como a “aliança de casamento” entre o sionismo e
o imperialismo inglês.
Assim começava a segunda etapa do sionismo, que culminaria
com a criação do Estado de Israel. Além de dar aos ingleses
um valioso auxiliar para estabelecer um futuro protetorado
em Palestina, a Declaração Balfour colocava em mãos inglesas
uma poderosa arma para liquidar o movimento nacional árabe,
fortalecer a política de guerra do imperialismo britânico
e sua luta contra a Revolução Russa.
O caminho em direção a Israel estava sendo traçado com as
seguintes características: 1) por uma declaração unilateral
de uma grande potência imperialista; 2) essa declaração impunha
o destino de uma região da Ásia que jamais havia pertencido
à Inglaterra, que dava de presente a Lorde Rothschild o território
de uma nação alheia; 3 não levava em conta os desejos do povo
palestino, que era 93% árabe em 1917. Esses 93% eram reduzidos
à condição de não-judeus, confinados em um “lar nacional judeu”,
ou seja tratados como estrangeiros em sua própria terra.
[topo]
O mandato britânico (1918-1948)
No final da I Guerra Mundial, os Aliados (Inglaterra, França,
Itália e EUA) criaram a Sociedade das Nações, antecessora
da atual ONU, que “outorgou” à Inglaterra o mandato sobre
a Palestina. Mas naqueles tempos as coisas não corriam muito
tranqüilas para o imperialismo. Havia surgido, pela primeira
vez na história, um Estado Operário, a URSS que se opunha
à expansão colonialista e em todo o mundo colonial começava
uma grande onda de lutas antiimperialistas.
Dentro do mundo árabe, o Oriente Médio concentrou as lutas
mais importantes contra os imperialismos inglês e francês.
A Palestina foi o eixo dessa luta, especialmente durante a
insurreição de 1936/39, que começou com uma greve geral que
durou seis meses e, para ser sufocada, exigiu a metade dos
efetivos de todo o exército britânico, um dos mais poderosos
do mundo nesse momento. Centenas e centenas de palestinos
foram mortos, detidos e condenados à forca ou a longas penas
de prisão. Em 1939, o povo palestino estava derrotado. Essa
é a chave para entender a relativa facilidade com que em 1947/48
foi instalado aí o Estado de Israel. 16
A ocupação, explica Jon Rothschild, se deu em base a três
pilares do movimento sionista: kibush hakarka (conquista da
terra), kibush haavoda (conquista do trabalho) e t’ozteret
haaretz (produto da terra)17. “Detrás dessas sonoras
palavras havia uma dura realidade. Conquista da terra significava
que toda a terra possível fosse adquirida (legalmente ou não)
dos árabes, e que nenhuma terra de judeus fosse vendida ou
de alguma maneira retornasse aos árabes. Conquista do trabalho
significava que nas fábricas e terras de judeus dava-se preferência
aos trabalhadores judeus. O trabalhador árabe era boicotado.
De fato, a Histadrut, que hoje se diz a Central Operária em
Israel, foi criada para impor o boicote aos trabalhadores
árabes. Produto da terra significava praticar o boicote à
produção árabe por parte dos colonizadores judeus, e manter
somente a compra de produtos das terras ou negócios judeus”.18
Essa política de ocupação – da qual os sionistas faziam propaganda
dizendo que era uma política “socialista”, que visava ajudar
os trabalhadores e pobres judeus – significou a desgraça para
o povo palestino, porque foi imposta sobre a terra que eles
ocupavam. Apesar de serem minoria no início (depois cresceram
muito), os sionistas tinham um poder econômico muito maior
que os árabes, além de contar com o apoio do imperialismo.
Isso lhes deu força para cair arrasando o povo árabe da Palestina,
que ficaram reduzidos a trabalhadores sem trabalho e camponeses
sem terra. Muito estranho esse tipo de socialismo, que ataca
os trabalhadores. “O árabes eram expulsos ou boicotados nas
empresas de propriedade sionista ou de capital estrangeiro
(concessões), que geralmente eram administradas por gerentes
sionistas. Cerca de 53% das empresas eram concessões e 40%
de propriedade sionista, sendo que apenas 6% eram de propriedade
de árabes (dados de 1939). Assim, ficava um mercado de trabalho
super-reduzido para os trabalhadores árabes.
Outro tanto ocorria com o t’ozteret haaretz (produto da terra),
uma política que significava o boicote à força, praticado
por bandos armados da Histadrut, de todo produto árabe, uma
repressão que não poupava nem mesmo os judeus que ousassem
adquirir algum alimento produzido por mãos árabes.
Alijados da terra, do trabalho e da possibilidade de comercializar
seus produtos, os palestinos se tornaram uma massa marginalizada
e pronta para ser expulsa de suas terras. A resistência palestina,
em forma de guerrilha, é praticamente esmagada em 1939 pelo
Exército Britânico e a Haganá, o exército extra-oficial formado
pelo sionismo, num ataque conjunto para mostrar “quem manda
na Palestina”. Nessa época, tinha início a Segunda Guerra
Mundial e os sionistas estavam preocupados com o destino da
Inglaterra, seu imperialismo protetor, diante de uma nova
repartição do mundo em zonas de influência. Queriam garantir
para a Palestina a proteção imperialista, já que tudo indicava
que os EUA e não mais a Inglaterra seriam daí em diante o
grande senhor do mundo. A suposta luta antiimperialista alardeada
pelo sionismo era, simplesmente, o desejo de passar de um
sócio menos forte para outro mais poderoso. Isso foi expresso
com clareza por Ben Gurion:
“Nossa maior preocupação era a sorte que seria reservada
à Palestina depois da guerra. Já estava claro que os ingleses
não conservariam seu Mandato. Se se tinha todas as razões
para crer que Hitler seria vencido, era evidente que a Grã
Bretanha, mesmo vitoriosa, sairia muito debilitada do conflito.
Por isso, eu não tinha dúvidas de que o centro de gravidade
de nossas forças deveria passar do Reino Unido para a América
do Norte, que estava em vias de assumir o primeiro lugar no
mundo”. 19
Sob a órbita norte-americana, o sionismo começou a dar passos
largos em direção à criação do Estado de Israel. Ao final
da guerra, as grandes potências, através da ONU, não só fizeram
vistas grossas à ocupação e massacre do povo palestino, como
deram o status legal à situação colonial criada durante a
dominação britânica. Em base a uma proposta de partilha da
Palestina feita durante o Mandato inglês20 e que
incendiou a revolta em todo o mundo árabe, em 29 de novembro
de 1947 vota-se a divisão do país em dois estados: um sionista
e outro árabe. Novamente, sem qualquer consulta ao povo palestino
e com o aval da burocracia soviética, que enviou armas e aviões
para ajudar o imperialismo a massacrar os árabes. Afogada
em um banho de sangue a resistência palestina, é proclamado
o Estado de Israel, em maio de 1948.
[topo]
Israel: a tragédia palestina
Em 1947 havia 630 mil judeus e um milhão e trezentos mil
árabes palestinos21. Assim, no momento em que as
Nações Unidas dividem a Palestina, os judeus eram minoria
(31% da população). Essa divisão, promovida pelas principais
potências imperialista com o apoio de Stalin, deu 54% da terra
fértil ao movimento sionista. Mas, antes de que se formasse
o Estado de Israel, o Irgun e as Haganah (organizações paramilitares
israelenses) já haviam se apoderado das três quartas partes
da terra e expulsado seus habitantes. Assim, dos 475 povoados
palestinos que havia em 1948, 385 foram completamente arrasados,
reduzidos a cinzas e os 90 que ficaram tiveram suas terras
confiscadas. Esse processo ficou conhecido como a “judaização”
da Palestina.
Raphael Eitan, então chefe do Estado Maior das Forças Armadas
israelenses, não podia ser mais claro quando disse que “Declaramos
abertamente que os árabes não têm qualquer direito a um só
centímetro de Eretz Israel. Os de bom coração, os moderados,
devem saber que as câmaras de gás de Adolf Hitler serão como
brincadeira de criança. O único que entendem e entenderão
é a força. Utilizaremos a força mais decisiva, até que os
palestinos se aproximem de nós de joelhos”.22
David Ben Gurion, em um discurso pronunciado em 13 de outubro
de 1936, formulava assim a estratégia sionista: “Quando nos
tornemos uma força com peso depois da criação do estado, aboliremos
a partição e nos expandiremos a toda Palestina. O estado será
somente uma etapa na realização do sionismo, e sua tarefa
é preparar o terreno para nossa expansão. O estado terá que
preservar a ordem, não com palavras, mas com metralhadoras”.23
E, de fato, assim foi feito. Entre 29 de novembro de 1947,
data da divisão da Palestina pela ONU e 15 de maio de 1948,
quando foi formalmente proclamado o Estado de Israel, o exército
sionista e as milícias paramilitares se apoderaram de 75%
da Palestina, expulsando do país 780 mil árabes. Os que ficaram
foram vítimas de perseguições selvagens e uma carnificina
só comparada ao holocausto nazista.
Assim começou a tragédia palestina que dura até hoje.
[topo]
Roubo, puro e simples, das terras e dos negócios dos árabes
É preciso entender o alcance e as conseqüências dessa política
assassina por parte do sionismo. No território ocupado por
Israel depois da partilha havia 950 mil árabes palestinos,
vivendo em cerca de 500 povoados e em todas as grandes cidades,
entre elas Tiberíades, Safed, Nasaré, Shafa Amr, Acre, Haifa,
Yaffa, Lidda, Ramle, Jerusalém, Majdal (Ashquelon), Isdud
(Ashdod) e Beersheba. Em menos de seis meses sobraram apenas
138 mil pessoas. A grande maioria dos palestinos haviam sido
assassinados, expulsos pela força ou fugido aterrorizados
diante dos bandos assassinos das unidades do exército israelense.
Em discurso pronunciado para uma platéia de estudantes do
Instituto de Tecnologia de Israel, Moshe Dayan, herói da “guerra
dos seis dias”, não se preocupou em esconder o fato de que
Israel fora fundada sobre uma tenebrosa falsificação histórica:
“Viemos aqui, a um país que estava povoado por árabes, e estamos
construindo aqui um estado hebreu, judeu. No lugar dos povoados
árabes levantamos povoados judeus. Vocês nem sequer sabem
os nomes desses povoados, e não os reprovo por isso, porque
esses livros de geografia já não existem. Nem os livros, nem
os povos existem mais. Nahalal surgiu no lugar ocupado antes
por Mahalul, Gevat no lugar de Jibta, Sarid no lugar de Hanifas
e Kafr Yehoushu’a no lugar de Tel Shamam. Não há um só assentamento
que não tenha sido construído no lugar que um antigo povoado
árabe”.24
Com isso, grandes extensões de terra foram confiscadas ao
amparo da Lei de Propriedades de Ausentes, ditada em 1950
em Israel. Até 1947, os judeus possuíam 6% da terra da Palestina.
Quando surge formalmente o Estado de Israel, o Fundo Nacional
Judeu calcula que tenha se apoderado de 90% da terra. O valor
das propriedades roubadas aos árabes era superior a 300 milhões
de dólares, em cálculos da época. Se multiplicamos essa cifra
pelo valor atual do dólar, cai a máscara: Israel tem pouco
a ver com Jeová ou a terra santa, e muito a ver com a pirataria
e a pilhagem.
A ocupação das propriedades palestinas era indispensável
para que o Estado de Israel fosse viável. Entre 1948 e 1953
foram criados 370 povoados e assentamentos judeus, sendo 350
deles em propriedades de “ausentes”. Em 1954, calculava-se
que 35% dos judeus de Israel viviam em propriedades confiscadas
de “ausentes” e 250 mil novos imigrantes se haviam estabelecido
em áreas urbanas das quais os palestinos haviam sido expulsos.
Dez mil empresas e comércios foram entregues a colonos judeus.
Se na zona urbana, o saque foi generalizado, no campo a usurpação
corria solta. Todas as plantações de limão dos palestinos
foram confiscadas; cobriam mais de 240 mil dunums (correspondentes
a 21.200 hectares). Até 1951, um milhão de caixas de limões
colhidos de propriedades arrebatadas dos árabes – o que correspondia
a 10% de todas as divisas de exportação – estavam em mãos
israelenses. Nesse mesmo ano, 95% das plantações de oliveiras
de Israel eram feitas em terra palestina ocupada. As azeitonas
que produziam representavam o terceiro produto mais exportado
por Israel, depois dos limões e dos diamantes. Um terço da
produção de pedra provinha de 52 pedreiras palestinas usurpadas.
As terras confiscadas dos árabes iam parar num Fundo Nacional
Judeu, criado em 1954 pelo governo israelense.
Como lembra Schoenman, a mitologia sionista pretende passar
a idéia de que o espírito de sacrifício, de abnegação no trabalho
e de perícia dos judeus transformaram a terra desértica, descuidada
por seus anteriores guardiães árabes – nômades e primitivos
– fazendo florescer o deserto. As plantações palestinas, a
indústria, a madeira, as fábricas, casas e fazendas foram
espoliadas e saqueadas depois de uma conquista sangrenta:
“o barco do estado é um barco pirata, a bandeira que carrega
é a caveira com dois ossos cruzados.”25
[topo]
Racismo contra o trabalhador árabe
Mas Israel não é só isso. A sua é uma história que começou
com uma grande espoliação e isso obrigou o país a continuá-la,
mais e mais. O barco da espoliação nunca encontrou um porto
seguro. Essa viagem macabra continuou em frente, espoliando
também o mercado de trabalho dos árabes, tanto no campo quanto
nas cidades. Esse processo de judaização do trabalho se assentou
em uma ideologia racista contra o trabalhador árabe.
No campo, qualquer relação do homem com a terra era regida
por uma lei racista: “O arrendatário deve ser judeu e tem
de aceitar realizar todas as atividades relacionadas com o
cultivo da terra somente com mão-de-obra judia”. 26
Portanto, a terra não pode ser arrendada por um não-judeu,
nem subarrendada, vendida, hipotecada, dada ou cedida a um
não-judeu. Os não-judeus não podem ser empregados na terra
e nem em qualquer trabalho relacionado com o cultivo.
Em Israel, as terras estatais, que estão nas mãos do Fundo
Nacional Judeu, são consideradas “terra nacional”, o que significa
terra judia. A contratação de trabalhadores não-judeus é ilegal.
Devido a escassez de operários agrícolas judeus, e dado que
os palestinos ganham um salário menor que os trabalhadores
judeus, alguns agricultores judeus (como Ariel Sharon) contratam
mão-de-obra árabe, violando explicitamente a lei.
Schoenman ressalta que Israel emprega todas as expressões
normais em um sentido racista. O “povo” significa somente
os judeus. Um “imigrante” ou um “colono” só pode ser um judeu.
Um assentamento significa um assentamento só para judeus.
A terra nacional significa terra judia, não terra israelense.27
Dessa maneira, a lei e os direitos, as garantias e o direito
ao trabalho ou à propriedade correspondem somente aos judeus.
A cidadania ou nacionalidade israelense corresponde estritamente
aos judeus em todas as aplicações específicas de seu significa
e jurisdição. Como a definição de judeu se baseia inteiramente
num preceito religioso ortodoxo, gerações de ascendência materna
judia é o pré-requisito para gozar do direito de propriedade,
de emprego e de proteção legal. Atualmente, 93% da terra do
chamado Estado de Israel é administrada pelo Fundo Nacional
Judeu, sendo que para ter o direito a viver na terra, arrendá-la
ou trabalhar nela, a pessoa tem de demonstrar que tem pelo
menos três gerações de ascendência materna judia.
[topo]
O sionismo, o fascismo e os judeus
Se é importante que a história oficial comece a reconhecer
que a Palestina não era uma terra sem povo, é preciso também
esclarecer outro aspecto tão sórdido quanto esse que envolve
a criação do Estado de Israel. Trata-se da relação do sionismo
com os próprios judeus e com o nazi-fascismo.
O caráter racista do movimento sionista tem sua face mais
abominável na relação que sempre manteve com os próprios judeus.
Ralph Schoenman lembra que “os fundadores do sionismo estavam
desesperados por combater o anti-semitismo e, paradoxalmente,
consideravam os próprios anti-semitas como aliados, porque
compartiam o desejo de arrancar os judeus dos países em que
viviam. Passo a passo, assimilaram os valores do ódio aos
judeus e o anti-semitismo, chegando, o movimento sionista,
a olhar os próprios anti-semitas como seus mais fiéis padrinhos
e protetores”.28 Ele cita inclusive uma carta que
Theodor Herzl enviou ao Conde Von Plehve, autor dos piores
pogroms na Rússia – os pogroms de Kishinev – com a seguinte
proposta: “Ajude-me a conseguir o quanto antes a terra (Palestina)
e a revolta (contra a dominação zarista) acabará. Von Plehve
concordou e começou a financiar o movimento sionista
Trata-se, na verdade, de um pedido de colaboração entre a
burguesia sionista e as classes dominantes de outros países
para combater os judeus de esquerda, que se incorporavam aos
partidos revolucionários. Nesse sentido, o sionismo, em sua
colaboração com o fascismo, cumpriu um papel sórdido, pois
jogava com os sentimentos religiosos dos judeus para massacrar
os que fossem de esquerda. O movimento juvenil sionista Betar
serviu de bucha de canhão para Mussolini formando esquadrões
com camisas negras. Quando Menajem Beguin se tornou chefe
do Betar, trocou suas camisas negras pelas beges, como usavam
os bandos de Hitler; era o uniforme que Beguin e os membros
do Betar usavam em todas as assembléias e concentrações.
A estratégia do sionismo foi recrutar os europeus que odiavam
os judeus e alinhar-se com os movimentos e regimes mais perversos,
para que apoiassem a criação de uma colônia sionista na Palestina.
E essa estratégia incluiu o nazismo. A Federação Sionista
da Alemanha enviou um memorando de apoio ao Partido Nazista
em 21 de junho de 1933. Dizia: “... um renascimento da vida
nacional como o que ocorre na vida alemã... deve ocorrer também
no grupo nacional judeu. Sobre as base de um novo estado (nazi)
que estabeleceu o princípio da raça, desejamos enquadrar nossa
comunidade na estrutura de conjunto de maneira que também
para nós, na esfera a nós designada, possa desenvolver uma
atividade frutífera pela Pátria...”.29
Longe de repudiar essa política, o Congresso da Organização
Sionista Mundial, de 1933, derrotou por 240 votos contra 43
uma resolução que chamava a atuar contra Hitler. Durante esse
mesmo congresso, Hitler anunciou um acordo comercial com o
Banco Anglopalestino da Organização Sionista Mundial (OSM),
que significava o rompimento do boicote judeu ao regime nazista
em um momento em que a economia alemã era extremamente crítica.
A OSM rompeu o boicote judeu e se tornou a principal distribuidora
de produtos nazis em todo o Oriente Médio e Norte da Europa.
Fundaram na Palestina o Ha’avara, banco destinado a receber
dinheiro da burguesia judia-alemã, com o qual se adquiriu
grande quantidade de produtos nazis.
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Traindo a Resistência
Um dos reflexos mais sórdidos dessa política foi a ação do
sionismo em relação à resistência judaica contra os massacres
de judeus na Europa. Em julho de 1944, o dirigente judeu eslovaco,
rabino Dov Michael Weissmandel, escreveu aos funcionários
sionistas encarregados das “organizações de resgate”, propondo
uma série de medidas para salvar os judeus de Auschwitz. Ofereceu
mapas exatos das ferrovias e planejou o bombardeio das linhas
que levavam aos crematórios. Pediu que bombardeassem os fornos
de Auschwitz, que lançassem de pára-quedas munição para 80
mil presos e bombas para explodir o campo e pôr fim à cremação
de 13 mil judeus por dia.
Caso os aliados se recusassem a colaborar, Weissmandel propunha
que os sionistas, que dispunham de fundos e organização, comprassem
aviões, recrutassem voluntários e fizessem a operação.
Weissmandel não era o único a pedir isso. No final dos anos
40 e durante os anos 40, porta-vozes judeus da Europa pediram
socorro, campanhas públicas, resistência organizada, manifestações
para obrigar os governos aliados a colaborar. Mas sempre se
deparavam com o silêncio sionista ou mesmo com sua sabotagem
ativa.
O rabino Weissmandel, em julho de 1944, um ano antes de terminar
a guerra, enviou aos sionistas uma carta de protesto, publicada
em parte em História Oculta do Sionismo, de Schoenman: “Por
que não fizeram nada até agora? Quem é o culpado por esta
terrível negligência? Não são vocês os culpados, irmãos judeus,
que têm a maior sorte do mundo, a liberdade? Enviamos a vocês
esta mensagem especial: informamos que ontem os alemães iniciaram
a deportação de judeus da Hungria. Os que foram para Auschwitz
serão mortos com gás cianido. Essa é a ordem do dia de Auschwitz
desde ontem: A cada dia serão asfixiados doze mil judeus –
homens, mulheres e crianças, anciãos, crianças de peito, doentes
ou não.
E vocês, nossos irmãos aí na Palestina, e de todos os países
livres, e vocês, ministros de todos os reinos, por que mantêm
silêncio diante desse grande assassinato? Silenciam enquanto
assassinam milhares, já são seis milhões de judeus? Silenciam
agora, quando dezenas de milhares estão sendo assassinados
ou esperam na fila da morte? Seus corações destroçados pedem
socorro, choram por vossa crueldade.
São brutais, vocês também são assassinos, pelo sangue frio
do silêncio com que olham, porque estão sentados com os braços
cruzados sem fazer nada, apesar de que nesse mesmo instante
poderiam deter ou postergar o assassinato de judeus.
Vocês, nossos irmãos, filhos de Israel, estão loucos? Não
sabem o inferno que nos rodeia? Para quem guardam seu dinheiro?
Assassinos! Loucos! Quem faz caridade aqui, vocês, que soltam
uns centavos daí, de suas casas seguras, ou nós, que entregamos
nosso sangue neste inferno?”
Nenhum dirigente sionista apoiou esta petição, nem os governos
ocidentais bombardearam um único campo de concentração.
A colaboração entre o sionismo e o fascismo fez com que o
primeiro traísse a resistência e voltasse as costas para o
operativo que resultou na morte de pelo menos 6 milhões de
judeus. Hoje, quando se lembra mais um aniversário do holocausto,
é preciso dizer com toda clareza que o sionismo não lutou
de fato para impedi-lo. E, mesmo assim, o utiliza como álibi
para massacrar os palestinos. Algo tão indignante que a jornalista
israelense Amira Hass, do jornal Haaretz, chegou a exortar
os sobreviventes do Holocausto e seus descendentes a não interpretarem
o assassinato de seu povo e o de suas famílias na Europa como
um eterno aval para suprimir e expropriar o povo palestino
e para apresentá-lo como o inimigo que substituiu os alemães
30.
De fato. Está na hora de Israel deixar de usar o holocausto
como justificativa para oprimir e perseguir os palestinos,
fazendo com eles o mesmo que os alemães fizeram com os judeus.
[topo]
NOTAS
1 Frase do livro de Dov Barnir, Os Judeus, O Sionismo e o
Progresso, p.486, citada em Revista de América, n.12.
2 A entrevista com Tom Segev está na edição da Folha de S.
Paulo de 4 de fevereiro de 2001.
3 A Questão Judia.
4 Abraham León foi um dos máximos dirigentes do sionismo
de esquerda europeu até as vésperas da Segunda Guerra mundial.
Escreveu A Questão Judia, um dos mais importantes estudos
marxistas sobre o tema. León, que chegou a romper totalmente
com o sionismo e ingressar nas fileiras da IV Internacional,
foi assassinado no campo de concentração de Auschwitz pelas
tropas nazistas.
5 Em 1917, o Bund apoiou Kerensky contra Lenin e Trotsky
e, até a II Guerra Mundial, manteve grande força na Polônia.
6O termo sionismo deriva da palavra Sion (Tzion, em hebraico),
que é o nome de um monte em Jerusalém. Na Bíblia, esse nome
era usado tanto para designar a Terra de Israel como “sua
capital nacional e espiritual”, Jerusalém. Ao longo de toda
a história judaica, Sion foi sinônimo de Israel, e a expressão
“retorno a Sion” a bandeira do movimento sionista.
7 A Questão Judia, p.150.
8 Idem, p. 151.
9 Idem, p.151.
10 Idem, p.152.
11 Em Le Materialisme et la Question nationale, ditado por
A León, in op.cit. p.152.
12 A Questão Judia, p. 154.
13 Idem, p.154.
14 Dov Barnir, “Os Judeus, o Sionismo e o Progresso”, Inova,
Portugal, 1968.
15 Ephraim Tari, O Significado de Israel.
16 Revista de América, p.16.
17 Jon Rothscild, “How the Arabs Were Driven Out of Palestine”,
citado em Revista de América nº 12.
18 Idem.
19 Michael Bar-Zohar, em The Armed Prophet: A Biography of
Ben Gurion. Citado por Revista de América, p.24.
20 Proposta da Comissão Peel, de 1937, aceita por Ben Gurión.
21 Em 1917 havia na Palestina 56 mil judeus e 644 mil árabes
palestinos. Em 1922 havia 83.794 judeus e 663 mil árabes.
Em 1931 havia 174.616 judeus e 750 mil árabes. (Schoenman,
p.34)
22 Citado por Schoenman, p.40.
23 Citado por Schoenman, p.41.
24 Citado por Schoenman, p. 48,
25 História Oculta do Sionismo, p. 50.
26 Citado por Schoenman, p. 50.
27 História Oculta do Sionismo, p.51.
28 Idem, p.53.
29 Citado em História Oculta do Sionismo, p.54.
30 Publicado pelo Jornal do Brasil de 22/4/01.
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Por Darwich Al Mahdy, da direção da União da Juventude
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