Quando escrevíamos este artigo a situação na Palestina
já estava evoluindo para uma guerra aberta entre Israel
e o povo palestino, segundo Robert Fisk, repórter inglês
presente em Ramallah, na Cisjordânia. Qual a saída para
um aparente impasse ‘sem solução’? Como toda situação
aguda a nova Intifada e a guerra civil coloca questões
programáticas profundas. Dentro da esquerda a discussão
sobre a Intifada e o futuro da região e Israel tem caído
no beco sem saída em torno à armadilha dos Planos de
paz. Parafraseando Clausewitz, se poderia dizer que
estudam com afinco a tática, porém raras vezes a estratégia
e praticamente nunca a guerra.
Discute-se apenas se os planos de paz devem ser mudados,
se deve ou não haver uma intervenção externa, da ONU,
para impor a paz e não a natureza em si desses planos,
de sua íntima ligação com a aceitação do status quo
de Israel como colonizador e opressor dos povos da região,
em particular dos palestinos. É possível haver paz entre
o colonizador e os colonizados? É possível apontar uma
solução, a partir de dois Estados, um judeu e outro
palestino? Do nosso ponto de vista, é necessário voltar
às questões de fundo para indicar uma saída para a revolução
palestina.
[topo]
A chave do problema está na natureza do Estado de Israel
A Intifada de Al-Aqsa colocou na ordem do dia uma realidade
que vinha sendo encoberta enquanto durou o intervalo
dado pela implementação inicial dos planos de paz de
Oslo: que é impossível uma paz entre palestinos e judeus
mantendo-se o caráter sionista do estado de Israel.
O problema está na natureza mesma e na origem desse
Estado. Israel é um Estado artificial, um enclave militar
do imperialismo norte-americano, constituído sobre a
base de desalojar à força os legítimos habitantes do
território, o povo palestino.
1
Baseado nas idéias sionistas, Israel tem como definição
ser o Estado de uma raça, um estado teocrático, constituído
em base a um critério religioso. Israel foi fundado
e se expandiu baseado na dupla ideologia do povo eleito
que ocupa uma terra ‘sem povo’. Mais ainda, seus dirigentes
têm, desde sua fundação, insistido que os outros povos
da região não têm identidade própria. É impossível haver
paz com um Estado que se apoia na colonização e na exclusão
do povo que vivia no local em que se instalou.
Os fundadores do sionismo eram claros nisso. Herzl,
em seu livro O Estado Judeu, dizia: “Será um bastião
adiantado da civilização ocidental frente à barbárie
oriental”. Nenhuma das correntes presentes no movimento
sionistas e que governaram o estado fogem dessas definições
básicas: que o estado judeu é excludente dos demais
povos, que uma política de exclusão deve ser aplicada
aos árabes que habitavam a terra prometida antes. Por
isso, até a central sindical Histadrut, seguindo os
ditames do Poalei Zion (que daria origem ao Mapai, antecessor
e um dos componentes do Partido Trabalhista de Barak
e Peres) e de seu líder, Aaron D. Gordon, não somente
excluía de suas fileiras os trabalhadores não- judeus,
como fazia campanhas para que os empregadores só contratassem
trabalhadores e despedissem os árabes. “Avodá ívrít”
(trabalho para os judeus) é o lema da Histadrut.
Apesar de o financiamento de Israel ser um elemento
revelador da natureza desse Estado, nenhuma das correntes
sionistas tem vergonha de reconhecer que desde o início
foi financiado pelos EUA e os poderosos lobbies de milionários
judeus. Já nos primeiros anos de sua fundação, entre
1949 e 1966, Israel recebeu 7 bilhões de dólares. Para
avaliar o significado dessa cifra, basta recordar que
o Plano Marshal, feito para a Europa Ocidental de 1949
a 1954 chegou a 13 bilhões de dólares.
Israel, na época com pouco menos de 2 milhões de habitantes,
recebeu – é certo que em mais tempo - mais da metade
do que receberam 200 milhões de europeus. Em outras
palavras, Israel recebeu do imperialismo norte-americano
cinco vezes mais por cabeça que o ambicioso plano de
reconstrução européia.
Uma cifra que define com certa clareza a natureza do
Estado israelense é que já nos anos 70-80 o total da
ajuda norte-americana – sem contar a ajuda da “Diáspora”
ou dos empréstimos - representava mil dólares por habitante/ano,
o que por si só equivalia a mais de três vezes o Produto
Interno Bruto por habitante do Egito e da maioria dos
países africanos. É superconhecido o dado de que os
EUA entregam a Israel uma ajuda direta no valor de 5
bilhões de dólares por ano.
A ajuda incondicional e ilimitada recebida nestes 52
anos de existência é o preço pelo serviço que o Estado
sionista presta, é “o preço de custe” para que esse
Estado garanta e desenvolva sem travas sua função essencial:
levar judeus para a Palestina a qualquer preço; expulsar
os árabes da Palestina; desempenhar o papel de “bastião
adiantado da civilização ocidental”.
[topo]
As correntes que governam Israel estão de acordo na estratégia
As correntes sionistas têm em comum uma compreensão
e uma estratégia para os palestinos que poderíamos resumir
nas palavras de Edward W. Said
2 : “o sionismo
sempre quis mais terra e menos árabes: desde Ben-Gurion
a Sharon, passando por Rabin, Shamir, Netanyahu, e Barak,
há uma continuidade ideológica ininterrupta na qual
o povo palestino é visto como uma ausência desejada
pela qual se combate.”
3 As correntes sionista
ao dizer que os judeus tem todos os direitos à “terra
de Israel”, então qualquer não judeu que esteja aí não
possui qualquer direito. “Até Simon Peres, que às vezes
parece falar uma linguagem humana, nunca se deixa levar
a ponto de considerar os palestinos sequer como merecedores
de um tratamento como iguais. Os judeus devem seguir
sendo uma maioria, possuir toda a terra, definir as
leis tanto para judeus como para os não judeus, garantir
a imigração e a repatriação somente para judeus.” (Said)
As definições da corrente fascista originada nos Revisionistas
de Vladimir Jabotinsky admiradora de Mussolini e Hitler,
que teve continuidade no Likud de Begin, Netanyahu e
Sharon foram e são mais diretas nessa direção.
O livro The Iron Wall (A muralha de ferro) de Lenni
Brenner reproduz o pensamento racista e fascista desse
fundador do sionismo. “É impossível que alguém se assimile
a pessoas que tenham sangue distinto ao seu. Para se
assimilar, tem que mudar seu corpo, tem de converter-se
em um deles no sangue. Não pode haver assimilação. Nunca
haveremos de permitir coisas como o matrimônio misto
porque a preservação da integridade nacional somente
é possível mediante a pureza racial e para isso haveremos
de ter esse território em que nosso povo constituirá
os habitantes racialmente puros.”
Assim como os afrikaners da África do Sul esses racistas
nazis consideram os palestinos como seres humanos inferiores,
um não povo; por isso, seus seguidores nas colônias
em territórios palestinos ainda hoje repetem sem maiores
problemas esse discurso, “não se pode chamá-los de povo”
4
.
Os dois padrinhos e antecessores de Sharon, Menachem
Begin e Itzhak Shamir tem uma trajetória que coloca
na prática essa concepção fascista em relação à ‘questão
palestina’. Em 1988, Shamir dizia sobre a Intifada:
“Temos de criar a barreira e conseguir que os árabes
dessas zonas voltem a ter medo da morte...” Qualquer
semelhança com a atual política de Ariel Sharon não
é mera coincidência!
Todavia os Laboristas, apesar da retórica diferente
do Likud, têm a mesma estratégia: a prática é o critério
da verdade. Os dados sobre a ocupação de territórios
durante os últimos anos mostram a mesma política, apenas
com ênfases e discursos às vezes distintos. Em 1936,
Ben Gurion dizia (se referindo à aceitação da partilha
da Palestina): “Um estado judeu parcial não é o objetivo
final, mas sim apenas o princípio. Estou convencido
de que ninguém pode nos impedir de nos estabelecer em
outras partes do país e da região”. E agregava mais
tarde: “o estado será somente um estágio na realização
do sionismo e sua tarefa é preparar o terreno para nossa
expansão. O estado terá que preservar a ordem, não predicando,
mas com metralhadoras.”
Já em 1948, segundo seu biógrafo Bar Zohar, em sua primeira
visita à cidade de Nazaré haveria dito: “porque há tantos
árabes, porque não os expulsaram?”
5
Moshe Dayan, ministro da Defesa do governo trabalhista
em 1967, declarava: “Somos uma geração de colonizadores
e sem os capacetes de aço e o canhão não sabemos plantar
uma árvore.ou construir uma casa. Não retrocederemos
ante o ódio de centenas de milhares de árabes em torno
a nós, não desviaremos nossas cabeças para que nossas
mãos não tremam de medo. Este é o destino de nossa geração.
Estar preparados e armados”
6
Rabin, que depois ganhou o Nobel da Paz, era ministro
da Defesa de Shamir em 1988 e tinha como política para
enfrentar a primeira Intifada, segundo o insuspeito
Jerusalem Post: “a prioridade absoluta é o uso da violência,
o emprego da força, as surras...Consideram isso mais
eficaz que as prisões (porque) depois destas podem voltar
a atirar pedras nos soldados. Porém, se as tropas quebram
suas mãos, já não podem reincidir...” (New York Times,
21/1/88).
O último governo de maioria trabalhista, o de Ehud Barak,
foi o maior instalador de colônias desde 1992 nos territórios
de Gaza e Cisjordânia ocupados em 1967. Um artigo de
Nadav Shragai no Haaretz de 27/2/01 relatava: “O governo
começou a construção de 1943 unidades habitacionais
nos territórios ano passado – o maior número desde 1992,
de acordo aos dados apresentados ontem pelo parlamentar
Mussi Raz (Meretz).”
Por isso não deveria surpreender tanto que o ‘pomba’
Simon Peres possa facilmente aceitar ser parte de um
governo Sharon. A organização israelense Gush Shalom,
que luta pela retirada das colônias nos territórios
ocupados através do boicote aos seus produtos, publicou
no jornal Haaretz de 16/2/01: “Dez dias atrás o Partido
Trabalhista declarou que Sharon iria causar um banho
de sangue e a guerra. Agora os líderes trabalhistas
correm para integrar o governo Sharon prontos para fornecer
o álibi que ele necessita para o banho de sangue e a
guerra”.
A resposta à pergunta sobre o que leva correntes aparentemente
adversárias como Likud e Trabalhistas a formarem governos
de ‘unidade’ está no acordo estratégico sobre a natureza
do estado colonizador que leva a uma aliança histórica
entre essas correntes, apesar das diferenças táticas.
Por exemplo, levou a que se dividissem sobre a aceitação
da partilha da Palestina de 1947, mas não em relação
ao que fazer com os árabes residentes. O pensamento
de Ben Gurion, Dayan, Rabin, Peres, Barak tem na matriz
a idéia chave de um estado judeu e de que é necessário
construir as bases para isso às custas da expulsão da
população árabe. Todas as negociações de paz são para
assegurar esse marco e buscar que os palestinos aceitem
viver nos guetos que lhes foram reservados.
[topo]
A expansão como tarefa essencial do Estado sionista
Quem defende como possível solução a conformação de
dois Estados, um judeu e outro Palestino, parece apoiar-se,
em primeiro lugar, em um “racional” e “equitativo”.
Suponhamos que alguém tenha a casa invadida, parte de
sua família assassinada, e outra parte expulsa, e a
que fica está confinada em um pequeno quarto da casa.
A partir daí, toda a sua vida, trabalhar, comer, educar-se,
movimentar-se de um lugar a outro passa a depender dos
acordos que chegue com um ocupante que, além do mais,
continua trazendo mais gente a esse espaço que considera
como sua casa.
Nessa situação, em quê consiste o critério “racional”
e “equitativo” dos dois Estados? Em legitimar essa atropelo?
Em legalizar a ocupação? Mas suponhamos que se aceita
como um imperativo essa decisão. Os acordos de Oslo,
como os diversos Planos de Paz, têm em essência esse
fundamento dos dois Estados, e a história se mostrou
inapelável com esse raciocínio: em meio à miséria crescente
e a expulsão dos palestinos, o curso expansionista do
sionismo tem sido permanente.
Na medida em que a razão de ser do Estado sionista é
trazer o “povo sem terra” à “terra sem povo”, a expansão
é intrínseca à sua própria natureza. A Palestina histórica
tem uma extensão de 27.242 km², Israel ocupa já mais
de 22.000 km², ou seja, mais de 80% do território.
A conquista de território por parte do exército israelita
foi acompanhada pelo assentamento de colonos judeus.
Já no primeiro ano de vigência dos acordos de paz de
Oslo, Israel confiscou 670 km² de terrenos palestinos
para ampliar as colônias e abrir novas estradas entre
elas, depredando, de passagem, mais de 14 mil árvores
frutíferas. Nesse mesmo período, o número de colonos
na Cisjordânia (sem contar Jerusalém) passou de 125
mil para 136 mil. Em dez anos de negociações de paz,
o número de colonos judeus duplicou.
Alguns buscam no Likud ou nos “extremistas judeus” a
razão pela qual a expansão dos assentamentos judeus
continua, e se apoiam no fato, correto, de que surgiram
em determinados momentos tensões entre colonos e o governo
sionista de turno. Mas esse fato não absolve o Estado,
nem o exime de forma alguma dessa política expansionista,
e tampouco disfarça o fato irrefutável de que a expansão
continuou, tanto sob governos do Likud como do Partido
Trabalhista.
Simon Peres afirmava, já em 1995, que os colonos não
eram um obstáculo para a paz; que poderiam ficar na
Cisjordânia e na Faixa de Gaza depois do fim do processo
de paz. (entrevista a Der Spiegel, 5/3/1995). Basta
ver as atuais facilidades para a colonização, indicando
que não há nenhum plano real de descolonização e nisso
existe acordo entre os Trabalhistas e o Likud. Pode-se
apelar a muitos exemplos, como em Maalé Alunin
7
, onde é extremamente vantajoso para um judeu se instalar.
Mas para ver o papel do Estado baste dizer que em Hebrón,
para proteger 350 colonos situados no próprio centro
da cidade, há 700 soldados; na Faixa de Gaza, no enclave
de Netzarum, há um batalhão inteiro para custodiar 53
famílias judias.
Jerusalém concentra, por diversas razões, boa parte
do conflito, e não por casualidade foi o cenário da
explosão da nova Intifada. Os defensores dos planos
de paz e da “solução dos dois Estados” deveriam prestar
especial atenção ao processo de Jerusalém.
É em base à teoria da convivência dos dois Estados que
Jerusalém foi dividida artificialmente en duas partes
em 1948, por resolução da ONU. A parte ocidental, ocupada
por Israel, estava povoada em sua maioria por árabes.
60 mil palestinos dos bairros ocidentais de Jerusalém
e dos povos vizinhos tiveram de abandonar, por terror,
suas casas. Em 22 de junho de 1967, Israel anexa militarmente
a parte oriental, que estava sob controle jordaniano.
Durante as décadas de 60 e 70, Israel expande a presença
judia mediante a expropriação de propriedades árabes.
Durante a década de 80, colonos judeus vinculados aos
setores mais fascistas, com o apoio do Ministério da
Moradia, então dirigido por Ariel Sharon, se instalam
no bairro árabe do centro da cidade, nas proximidades
de Haram al Sharif
8 .
Durante os últimos governos trabalhistas e do Likud,
foi criado o projeto da Grande Jerusalém reservada apenas
para os judeus. Entre 1996 e 1999, somaram-se a essa
expansão 42 colônias “selvagens”. E em 21 de junho de
1998, o governo israelense dá o aval formal ao plano
da Grande Jerusalém com algumas medidas, entre otras,
a que retirava as permissões de residência aos árabes
que figurassem no censo da Autoridade Nacional Palestina
ou tivessem casa nos territórios administrados pela
ANP.
O plano se baseou no objetivo declarado de manter um
equilíbrio demográfico de sete judeus por cada três
palestinos, em ir isolando a cidade do restante da Palestina,
impossibilitando o crescimento dos bairros árabes e
estabelecendo assim uma área de expansão populacional
judia na Cisjordânia. Mediante a anexação de terras,
expropriações ilegais de municípios próximos a Jerusalém
(Ramallah, Belém, Beir Sahur) foi sendo criado – como
diz o expert holandês Jan de Jong - um sistema de dois
anéis concêntricos de assentamentos judeus que rodeiam
Jerusalém por completo. Como diz o prefeito palestino
de Hebrón, “não querem viver a nosso lado, mas em nosso
lugar”.
9
[topo]
O “Estado” da miséria palestina
Independente da retórica, na hipótese de que se reconhecesse
os dois Estados, a verdade é que só a cegueira completa
ou um cinismo sem limites permitiria chamar “Estado
Palestino” aqueles guetos de miséria cercados por colonos
e militares sionistas, com franca supremacia econômica,
política e militar.
O expansionismo sionista vai associado a dois fatos
inseparáveis da vida palestina: a diáspora de quase
quatro milhões de palestinos, de uma população total
que não chega a oito milhões, e a miséria mais completa
dos quase três milhões de palestinos que vivem na Faixa
de Gaza e na Cisjordânia.
A expansão sionista arruinou a agricultura palestina.
Mediante o confisco de terras, a imposição de quotas
para as exportações ao mercado israelense, o controle
de importação de ferramentas agrícolas ou o envio, a
preços muito competitivos, do excedente agrícola israelense
aos territórios ocupados, acabou se reduzindo a extensão
dos cultivos, limitando o número de peões nas granjas
e empurrando os habitantes de várias aldeias para o
mercado de trabalho israelense. Nesse plano, não faltou
a proibição aos agricultores palestinos de exportar
produtos agrícolas para a Jordânia; zonas inteiras de
oliveiras e árvores frutíferas foram destruídas.
Sem dúvida, uma arma poderosa em mãos dos militares
sionistas é a água. Os recursos hidráulicos, debido
à escassez, esse se tornou um dos recursos estratégicos
no Oriente Médio, e por isso zonas como as Colinas de
Golã foram fonte constante de disputa. Durante anos
as ordens militares sionistas incluíram a destruição
de poços de água palestinos, a proibição de que cavassem
a mais de 120 metros de profundidade (os colonos sionistas
tinham autorização para cavar até 800 metros de profundidade),
a expropriação de poços de proprietários “ausentes”
etc. Desde 1982, todo o sistema hidráulico está sob
administração da “Rede Nacional Israelense”. Os habitantes
palestinos de Gaza e Cisjordânia dispõem de 115 milhões
de metros cúbicos de água por ano, o que representa
19% dos recursos de seu país. A economia israelense
e os assentamentos judeus dispõem de 485 milhões de
metros cúbicos.
Em termos de infra-estrutura, só 2% das localidades
da Cisjordânia têm rede de esgotos; apenas 21% dos habitantes
conta com sistema de coleta de lixo; apenas 44% das
localidades cisjordanas dispõem de fornecimento permanente
de energia elétrica e apenas 20% dos habitantes estão
conectados à rede telefônica.
Em um estudo realizado no início dos anos 90
10
, em uma situação “melhor”que a atual, os dados em matéria
de saúde eram relevantes. Dos 830 milhões de dólares
de impostos nos territórios ocupados recolhidos pelas
autoridades militares israelenses, somente 300 foram
invertidos em projetos de saúde, educação e assistência
social. Nesse período, os gastos da administração civil
em matéria de saúde pública passaram de 40 a 18,3 dólares
per capita, enquanto que na Jordania a cobertura era
de 140 dólares e em Israel chegava a 370 dólares per
capita. Portanto, não é de estranhar a falta de camas
e medicamentos nos hospitais palestinos.
Carentes de recursos “500 escolas, oito universidades
e mais 11 mil empregados do setor educativo nos Territórios
Ocupados padecem sem o menor financiamento ou diretriz..”
(Edward W. Said)
A economia palestina vive em fase de completa pauperização
sobretudo desde 1967, quando as autoridades jordanianas
terminaram de descapitalizar toda a margem oriental
para favorecer a industrialização da antiga Transjordânia.
O papel da economia palestina na “divisão do trabalho”
está determinada pelos projetos do ocupante. Assim,
em um informe de 1970 do Ministério de Defesa israelense
se afirma: “por um lado, os territórios ocupados constituem
um mercado suplementar para as exportações israelenses
e as empresas pertencentes ao setor terciário e, por
outro, é provável que acabem convertendo-se em um canteiro
de mão de obra não qualificada”.
11 Já em
1987, mais de 92% das importações de Gaza e Cisjordânia
procediam de Israel.
Como cifra comparativa, tem-se que 1992-1993 o PIB de
Israel subia para 63 bilhões de dólares, o da Jordânia
a 4.100 milhões e o dos territórios ocupados foi de
2.200 milhões de dólares, sendo que um terço desses
ingressos procede da mão de obra empregada em Israel,
dos 600 mil palestinos que dependem do mercado de trabalho
israelense.
O fechamento dos territórios decretado pelo gobierno
israelense só aumento a asfixia desse quadro de pauperização.
As taxas de desemprego dispararam de 23 para 50% da
população ativa, e se calcula que nos últimos anos o
poder aquisitivo da população de Gaza e Cisjordânia
caiu 46%.
Como se fosse pouco, os acordos de paz obrigam a Autoridade
Nacional Palestina a “uma mesma política de importação”
que Israel, deixando-lhe como “margem” importar determinados
produtos de países árabes, em quantidades limitadas
e a preços acertados previamente com Israel.
Cabe então perguntar qual é a viabilidade de um Estado
sem recursos hidráulicos, sem indústrias, com a agricultura
destruída, sem infra-estructura de moradia, saneamento,
educação ou transporte, e sem independência, sequer
formal, para estabelecer relações comerciais exteriores?
Em tais condições de coexistência entre os dois Estados,
o chamado “Estado Palestino” não seria mais que a Administração
de um Gueto, gerente de um Batustám, cujos ínfimos recurso
econômicos dependeriam da “a ajuda exterior”, essa que
chega a conta-gotas, dependendo do quanto o doador goste
das medidas adotadas.
[topo]
Acordos de paz que trazem Batustanes
Já em 1988, o ex-subsecretário de Estado George Ball
(administrações de Kennedy e Johnson) em seu artigo
A paz de Israel depende de um estado-apêndice dos palestinos
afirmava: “A preocupação de Israel por segurança poderia
ser satisfeita em boa medida redigindo um tratado formal
com salvaguardas vinculadas e executáveis que impeçam
o novo estado palestino ter qualquer força armada própria
e limitem o número e tipo de armas que pode usar sua
polícia. Como salvaguarda adicional, o acordo poderia
incluir a instalação de postos de vigilância mais amplos
numerosos e efetivos que os que atualmente funcionam
no Sinai a partir do acordo de paz de Israel com o Egito.”
12
A assinatura, em setembro de 1993, dos chamados Acordos
de Oslo, negociados em segredo entre o governo israelense
e a direção de Arafat, está em sintonia com essa proposta
antiga dos funcionários do governo dos EUA. Mas esses
acordos também devem ser explicados pela mudança na
estratégia palestina que teve início em dezembro 1988
com a decisão da maioria do Congresso Nacional Palestino,
dirigido por Arafat, de reconhecer o Estado de Israel.
Essa mudança punha no centro da estratégia palestina
a negociação sobre a base do reconhecimento de dois
Estados.
Os Acordos de Oslo eram a máxima expressão dessa estratégia,
e foram seguidos por uma enorme difusão, que não poupou
elogios e cumprimentos. A declaração mesma começava
com a solene afirmação dos assinantes de que havia “chegado
o momento de pôr fim a decenios de confrontações e conflitos,
de reconhecer reciprocamente seus direitos legítimos
e políticos, de esforçar-se por viver em coexistência
pacífica, a dignidade a segurança mútua...”. Os direitos
legítimos e a dignidade para os palestinos se resumem
em uma “autonomia” carente de recursos próprios, guetos
de miséria cercados pelas FFAA israelenses. Em troca,
a direção de Arafat renunciou não só à autodeterminação,
como também a Jerusalém e aos direitos dos refugiados,
ou seja, aos direitos de 55% da população palestina.
Mas além de fracionar a negociação (o tema do regresso
dos refugiados ficava de fora), Arafat se empenhou em
fracionar a resistência palestina. Edward Said definiu
os Acordos de Oslo como um “instrumento de submissão”,
como a “capitulação”. “Israel obteve dos árabes a aceitação,
o reconhecimento e a legitimidade, sem ser obrigado
a renunciar à soberania sobre os territórios árabes
ocupados, entre eles, Jerusalém Oriental” (Edward W.
Said). Os acordos estão em sintonia com a manutenção
de Israel enquanto Estado sionista. Se impõe, com a
rubrica de Arafat, essa visão racista e teocrática,
que repete soluções anteriormente impostas pelo imperialismo
em suas colônias nos séculos XIX e XX.
Uma definição dada por Edward Said ilustra esses antecedentes
e permite dar um marco histórico ao status atual que
dá o marco das negociações sobre a região:
“Os acordos de autonomia com os quais os palestinos
(excluímos os 4 milhões de refugiados cuja sorte foi
jogada para a nebulosa situação do ‘estatuto final’)
tem que conviver são uma curiosa amálgama de três ‘soluções’,
historicamente descartadas, e idealizadas por colonizadores
brancos para o problema dos povos antigos da África
e Américas do século XIX. Uma delas se baseava na idéia
de que os nativos podiam ser convertidos em irrelevantes
seres exóticos privados de suas terras e mantidos em
tais condições de vida que lhes reduzissem a ser trabalhadores
braçais temporários ou agricultores pré-modernos. Este
é o modelo índio-americano. A segunda consistia na divisão
de suas terras (reservas) em Batustães descontínuos,
e no estabelecimento de uma política de apartheid que
dava privilégios especiais aos colonos brancos (hoje
os israelenses), enquanto se permitia aos nativos viver
em seus guetos miseráveis; assim, estes eram responsáveis
dos assuntos municipais sem deixar de estar submetidos
ao controle do branco (de novo Israel). Este é o modelo
sul-africano. Finalmente, a necessidade de que estas
medidas gozassem de certo grau de aceitação requeria
que um ‘chefe’ nativo assinasse na parte inferior da
página. Este chefe obtinha temporariamente um estatuto
mais elevado do que aquele que dispunha antes, recebia
apoio dos brancos, um título, um par de privilégios,
e talvez, uma força de polícia nativa, de tal maneira
que todo mundo pudesse apreciar sem dificuldade que
se havia feito o melhor para esse povo. Esse é o modelo
seguido pelos franceses e britânicos na África do século
XIX. Arafat é o equivalente do século XX dos dirigentes
africanos.”
13
O giro na estratégia dos dois Estados é a política e a orientação
da direção de Arafat. É impossível entender a Intifada sem
esse cerco de miséria, asfixia e terror imposto pelo Estado
sionista, mas é pertinente dizer que a Intifada também é um
protesto contra essa política, que legitima o sionismo enquanto
condena o povo palestino à fome e ao desemprego.
[topo]
Sobre alguns argumentos da esquerda a favor dos dois Estados
Excede os límites de espaço deste artigo e seu objetivo
responder os diversos argumentos daqueles que, na esquerda,
defendem como saída para o conflito uma solução pacifica
baseada na conformação de dois Estados. Por exemplo,
é um argumento dos que defendem a solução ‘realista’
afirmar que Israel já é uma realidade após 50 anos de
existência. A validade desse argumento seria o mesmo
que afirmar, anos atrás, que o apartheid sul-africano
era uma ‘realidade’ após décadas e devia ser aceito
pelos negros com algumas reformas. Tão progressista
como exigir a San Martín que fosse realista diante do
fato evidente de mais de três séculos de presença espanhola
na América Latina.
Quermos nos referir, particularmente, a uma corrente
de esquerda que advoga pela solução dos dois Estados
e a retomada das negociações de paz: o Secretariado
Unificado da Quarta Internacional (SU). Michel Warshawski,
dirigente de seu grupo israelense e especialista no
tema, sobre o qual escreve artigos para o jornal Rouge
da LCR, seção francesa do SU, advoga por uma ‘verdadeira
paz’ e a coexistência entre dois Estados, sob auspícios
da ONU”.
Segundo Michel Warshawski: “Para deter a loucura assassina
em curso, é necessária uma intervenção internacional,
decidida a impor ao menos a retirada das forças militares
israelenses e a redefinição de um marco de negociações
que possa por fim ao diktat israel-americano. Os palestinos
pedem uma proteção internacional e este chamamento deve
ser retomado com vigor pelo movimento de solidariedade
que começa a se reorganizar em todo o mundo, depois
de sete anos de confusão mantida pelos acordos de paz.”.
14
“Uma força de interposição internacional seria, sem
dúvida alguma, a solução menos custosa. É o que pedem
os palestinos. É também o que pode acelerar o reinicio
das negociações, que o governo de Barak, mais isolado
que nunca e incapaz de tomar a menor decisão, a não
ser a de golpear, sabe inevitável. Neste sentido, uma
intervenção internacional não serviria somente para
evitar o massacre dos palestinos, mas também para limitar
o número de vítimas do lado de Israel, que não vai parar
de aumentar, como confirma o último atentado de Gaza.”
15
Ou seja, diante de tal ofensiva, impossível de ser derrotada
por causa da desproporção de forças, o “realista” e
o “revolucionário” é apelar para a boa vontade de uma
intervenção internacional para, nada mais nada menos,
que impor a retirada das tropas israelenses!?! Os dirigentes
do SU adotaram esse hábito político de exigir a intervenção
da ONU frente a qualquer conflito que se dê no mundo
(Bósnia, Kosovo, Timor, Chechênia). Curioso pacifismo
este que encontra na exigência de intervenções militares
da chamada “comunidade internacional” a solução para
todos os problemas. Curioso antimilitarismo este que
converte os exércitos da ONU nos instrumentos políticos
de todas as soluções. E infeliz e lamentável política
que chama as massas permanentemente a confiar em instituições
como a ONU, como se esta fosse neutra ou alheia a problema,
como se a ONU ou os exércitos que intervenham em seu
nome estivessem acima dos grandes Estados, acima das
classes, como se não fossem serviçais do imperialismo,
em particular do norte-americano.
Para Warshawski, parece que “a comunidade internacional”,
ou a ONU tivessem outra política, qualitativamente diferente,
sobre o conflito, distinta dos “planos de paz” que vêm
sendo aplicados. Como se junto com a intervenção militar
da ONU chegassem os planos de paz ‘verdadeiros’, nos
quais seriam reconhecidas as legítimas reivindicações
palestinas.
Não se lembra que foi a ONU que repartiu a Palestina
para permitir, primeiro, que se formasse e depois desse
legitimidade internacional ao Estado sionista? Não se
lembra que foi a ONU que aprovou perseguir militarmente
todos os que se levantaram em armas contra sua resolução
de repartir a Palestina? E não foi sob o auspício da
ONU que se negociaram, primeiro em segredo, depois se
assinaram os vergonhosos Acordos de Oslo que tantos
sofrimentos trouxeram aos palestinos e contra os quais
luta hoje a Intifada?.
Michel Warshawski sabe perfeitamente que dentre todas
as organizações da esquerda mundial, só a IV Internacional
levantou, em 1948, sua voz contra a constituição do
Estado de Israel. “Abaixo a divisão da Palestina!,Abaixo
a intervenção imperialista na Palestina!, ¡Fora do país
todas as tropas estranjeras, os “mediadores” e “observadores”
das Nações Unidas!”, dizia a declaração da IV Internacional
16
. Warshawski deveria reconhecer ao menos que a defesa
de ‘ambos os Estados’, da coexistência entre eles e
o pedido insistente de intervenção da ONU feito pelo
SU hoje é uma posição oposta pelo vértice à declaração
programática da IV Internacional.
Warshawski exige “uma força de interposição internacional”
que, se se concretiza, obviamente estará obrigada a
se interpor entre o exército israelense e os jovens
palestinos que protagonizam la Intifada. E se os jovens
palestinos não aceitar parar de atirar pedras, se se
negam a ficar quietos à espera de novos “Planos de Paz”?
A solução proposta por Warshawski só é possível com
a condição de parar la Intifada, porque do contrário
os jovens palestinos terão de enfrentar o exército israelense
e o da ONU.
Warshawski afirma que essa intervenção “é o que pedem
os palestinos”. Deveria dizer, com mais precisão, que
isso é o que pede Arafat! Não precisar isso é a forma
de confundir a defesa dos palestinos e sua Intifada
com a defesa de Arafat e sua política. Arafat clama
pela ONU, para negociar com Israel e para acabar uma
Intifada que surgiu apesar dele e em boa medida, contra
ele.
Propor como solução pedir a intervenção da ONU, independentemente
da vontade que acompanhe essa proposta, acaba se convertendo
no apoio à permanência do Estado de Israel, o apoio à política
de Arafat, em outra palavras, é o posto ao apoio incondicional
à Intifada.
[topo]
Retomar a defesa de uma Palestina laica, democrática e não-racista
A fortaleza do Estado de Israel, sua existência por
mais de 50 anos, não se explica por seu poderio militar,
nem sequer contando com todo o arsenal norte-americano.
Como em toda guerra, é a política e não os meios técnicos
militares – apesar de serem importantes - o elemento
determinante. É difícil, na história dos Estados, encontrar
um que, enquanto mantém sua dominação a ferro e fogo,
expulsa, saqueia e assassina, seja apresentado como
a “pobre vítima sitiada”, “cercada de inimigos”, a quem
“não se deixa viver em paz”.
O sionismo conta com o auxílio da TV e da imprensa mundial,
com o apoio dos Estados mais poderosos e influentes,
além das inúmeras emissoras de TV, jornais, clubes das
poderosas comunidades sionistas no mundo e os grandes
lobbies milionários. Conta também com inúmeras organizações
políticas, sindicais, culturais, incluindo boa parte
da esquerda, que acabam fazendo parte da canalhesca
manobra de capitalizar para el sionismo o sofrimento
do povo judeu com o Holocausto (vide artigo de Cecília
Toledo), de confundir deliberadamente judeus com sionistas,
de atemperar, justificar oi minimizar o terror de todo
um Estado.
O giro de uma parte da direção palestina, a que é dirigida
por Arafat, e sua estratégia dos dois Estados, é, acima
de tudo, um triunfo do sionismo, porque legitima o direito
de existir de um Estado sionista. A partir daí, qualquer
negociação só pode levar, mais cedo ou mais tarde, ao
retrocesso sistemático, ao gueto e a miséria.
Como afirma Ralph Schoenman, trotskista judeu norte-americano
em seu livro A Historia Oculta do Sionismo, “Na realidade,
os supostos defensores dos direitos palestinos que exigem
a aceitação e o reconhecimento do Estado de Israel,
seja como for que se disfarcem, estão atuando como advogados
do Estado colonial estabelecido na Palestina. Utilizam
a cobertura pseudo-esquerdista da autodeterminação para
‘ambos os povos’, mas essa sofisticada utilização do
princípio da autodeterminação, eqüivale a um chamamento
encoberto a uma anistia a Israel”
17 .
Esse giro estratégico da direção da Al Fatah teve e
tem como destinatário o governo norte-americano e as
burguesias européias. Trata-se de mostrar “sentido comum”
e agradar os possíveis doadores. ¡Agora sim! a OLP defende
uma política “integradora”, “não excluinte”, de “convivência
entre árabes e judeus”, repetem reiteradamente os defensores
do giro estratégico. Até nesse aspecto tão crucial de
toda luta, como a batalha ideológica, o giro parece
um certo reconhecimento tácito dos reiterados e reacionários
tópicos que o sionismo sempre agitou: “os palestinos
querem acabar com os judeus”, “querem atirá-los ao mar”
, “acabar com o Estado de Israel é anti-semitismo, perseguição
aos judeus”.
Que outro programa, a não ser o programa fundacional
da OLP, propunha a convivência entre árabes e judeus
em um só e mesmo Estado? A proposta de uma Palestina
democrática, laica e no-racista defendida pelo programa
da OLP aprovado em 1969, marcou toda uma perspectiva
de emancipação, que buscava a convergência entre árabes
e judeus, sobre a base da eliminação do colonialismo
sionista. Uma Palestina na qual os judeus que não faziam
parte da invasão sionista eran “considerados como palestinos”
Esse programa afirmava: “O movimento de libertação nacional
palestino não luta contra os judeus enquanto comunidade
étnica e religiosa. Luta contra Israel, expressão de
uma colonização e baseada em um sistema teocrático racista
e expansionista, expressão do sionismo e do colonialismo.”
18
.
Apontava assim uma estratégia para revolução palestina,
atraindo el apoio de massas na Palestina e no resto
do mundo árabe assim como de parcelas das massas mais
pobres prejudicada pelo predomínio sionista e das camadas
da juventude judia cansadas de servir de bucha de canhão
em uma guerra sem fim para garantir os objetivos colonialistas
insaciáveis de Sharon, Peres e companhia. Um programa
e uma estratégia que punham ênfase especial em não confundir
de forma alguma os judeus com os sionistas.
19
O então recém nomeado presidente, Yasser Arafat, explicando
o programa fundacional da OLP, dizia: “Como presidente
da OLP, conclamo os judeus, a cada um individualmente,
a reconsiderar sua opinião sobre o caminho para o abismo
pelo qual o sionismo e os dirigentes israelenses os
conduzem (...) Fazemos a vocês o mais generoso dos apelos
para que vivamos efetivamente uma paz justa, juntos
em nossa Palestina democrática”.
A Intifada de 1988 a 92 abriu pela primeira vez a necessidade
de que Israel, com apoio dos EUA, tivesse que negociar,
e permitiu a sobrevivência da direção da Al Fatah. E
Arafat se pôs à cabeça da negociação, nos moldes do
imperialismo norte-americano, para chamar a paz e trair
os heróicos combatentes das pedras. Qual é a avaliação,
depois de mais de uma década, desse giro? Arafat é hoje
o presidente de um batustã de miséria e sofrimento,
cercado de questionamentos quanto à sua autoridade,
em meio a denúncias de corrupção e torturas e da divisão
da resistência palestina.
A nova Intifada não apenas repete as cenas de heroísmo
do povo palestino e renova, com sua juventude, o compromisso
com a luta, mas é também um questionamento objetivo,
de cima abaixo, desse giro estratégico, da política
dos dois Estados e os “Acordos de Paz”.
Eward W. Said diz que em defesa da Intifada se trata
de abrir “uma segunda frente”. É certo, porque defender
hoje a causa palestina, apoiar a Intifada exige, a nosso
ver, redobrar esforços para explicar, explicar e explicar
em todos os lugares do planeta as razões da luta palestina,
contradizer os argumentos falaciosos do sionismo, quebrando
o cerco que se quer levantar sobre Palestina e rodeando
assim de solidaridade la heróica Intifada.
Quando se fala dos Planos de Paz como “saída para o
conflito” e se renuncia à batalha estratégica pela Palestina
democrática, laica e não-racista em nome de um suposto
realismo diante da “força do inimigo”, convinha dizer-lhes
que não se trata de menosprezar nem um milímetro da
força do sionismo e do imperialismo, mas é bom lembrar
que recentemente os combatentes do Líbano conseguiram
a retirada das tropas de Israel, para o que colaborou
a mobilização das mães dos soldados judeus que não aguentvam
mais a perda de seus filhos em uma guerra sem sentido
.
Desde o Líbano começaram a aparecer os sintomas da exaustão
da juventude judaica com os anos de guerra em prol do colonialismo.
Já existem grupos de ação contra a ocupação dos territórios
ocupados dentro de Israel (Gush Shalom) e soldados como Noam
Kuzar, que se recusam a servir neles, orientados por grupos
como o Yesh Gvul. Seria impensável há alguns anos que, como
em 2001, no dia da comemoração da fundação de Israel haja
uma contramanifestação desses grupos reunindo judeus e palestinos
em Jerusalém. A resistência palestina e árabe ao colonialismo
sionista permitiu que se abrissem as primeiras brechas na
antes considerada invencível força armada israelense. E hoje
a coragem dos ativistas da Intifada não se abate apesar dos
assassinatos, tiros e ameaças do exército sionista. Em suas
mentes, corações e ações repousa a esperança e o futuro do
povo palestino e de sua revolução.
[topo]
Hamas: do Estado sionista ao Estado islâmico