Brasília: Relato sobre o 24 de maio

Foto José Jonas

Acredito que escrever esse relato sobre esse dia seja um dos maiores desafios da minha vida.

Tenho tanto a dizer, tanto que eu vi, ouvi, senti. E eu tenho a mania de embaralhar tudo mas tentarei…

Terça-feira, 23 de maio de 2017.

Estava psicologicamente e fisicamente esgotada. Tinha acabado de voltar de um Encontro de Estudantes de Pedagogia em Juiz de Fora mas eu não pude deixar de ir à luta. Meus pais me ensinaram. Minha mãe me olhou e disse que se ela ainda aguentasse correr, iria. A empresa do meu pai sendo privatizada. Negros a cada minuto sendo mortos. Direitos adquiridos sendo jogados no ralo, lembro que minha avó lutou por eles e eu não poderia deixar de ir…

Fiquei um tanto chateada com a quantidade de ônibus, apenas dois levando alunos. No ato contra a PEC 55 foram vários mas elevei meu pensamento ao tanto de outras pessoas que lá estariam e ao tanto que as pessoas desses dois ônibus, assim como eu, tinham vontade de lutar.

Viagem cansativa. Quase um dia. Dificuldade para dormir. E nessa dificuldade a gente senta um do lado do outro ou fica em pé… e conversa… e o sono vem, ou não, mas a gente está ali, um para o outro. Conversando, dando uma água, um chocolate, um abraço, um sorriso e quantos sorrisos recebi.

Brasília, 24 de maio de 2017.

Chegamos, ufa! Fui junto com mais camaradas de encontro à CSP-Conlutas, lá vi vários peões com escudos formando barreiras, na linha de frente. Começamos a “animar” a coluna da CSP e depois fomos para a coluna da ANEL e Juventude do PSTU.

O povo mostrou que não quer mais Dilma, Lula, Temer, FHC querem Fora TODOS Eles que nos massacraram e nos massacram!

“Congresso Fora, Temer Fora, Greve Geral de 48 horas”.

A revolução se faz precisa.

Perto dos ministérios, a peãozada lá na frente rompeu o cerco da polícia que queria impedir nossa passagem, fomos adiante! Recuar só para dar impulso. E como se sabe, começou a repressão contra trabalhadores e estudantes que só querem seus direitos garantidos.

Já no gramado, trios elétricos davam seus recados. O da CUT disse que o ato foi bonito, já finalizando (em 20 minutos, assim como foi o da PEC 55) e botando músicas de Axé, enquanto lá em baixo todo mundo tomava spray de pimenta.

O Zé Maria, (que orgulho desse companheiro!) disse: “eu já escutei vocês falando m… esse tempo inteiro, agora vão deixar concluir minha fala” deu o aparato para continuarmos.

Foram 4 horas resistindo. Não arredamos o pé.

Confrontos diretos. Éramos maiores que a quantidade de policias presentes.

Me perdi dos meus amigos, pois não conseguia enxergar com o efeito do spray de pimenta. Eu tenho a mania de desconfiar de tudo, mas fechava meus olhos e alguém me dava a mão… eu confiei! Eu confiei nos meus companheiros de luta! Todos ali, com tantas reinvindicações diferentes, tínhamos uma igual: o Fora Temer! Queremos nossos direitos!

Os olhos às vezes não enxergavam, mas a boca gritava! Às vezes a voz não saía, a garganta doía, mas os olhos se abriam e as mãos se estendiam. A luta não podia acabar, não podia parar e não parou. “Não pode voltar a dormir tranquilo aquele que alguma vez abriu os olhos. ” Estava com uma blusa da CEDAE e a cada elogio que fizeram a força dos trabalhadores da CEDAE, eu não me dei o direito de arredar o pé dali, com meus amigos passando mal em algum canto, eu não podia sair dali, até eles me ouvirem e ouvirem os meus. Até nossos gritos serem um só. E quando minha amiga disse “essa é lutadora igual ao pai”, eu sorri com os olhos ardendo e me deu mais força!

Eu tive orgulho do meu partido, de cada companheiro e companheira. Da nossa coragem.

O governo Temer teve medo, chamou a Força Nacional para nos conter e não, não conseguiu! Ministérios queimados, o povo resistindo sem arredar o pé! Demos nosso recado! Brasília pegou fogo (literalmente). A CUT disse que a polícia deveria recuar, mas ao mesmo tempo disse que deveriam “bater” naqueles que não estavam protestando de forma pacífica, que eram de direita, irônico, né?! O povo lutando. Eles confortáveis em um carro de som, cheio de políticos, com músicas ao fundo enquanto nós estávamos lá resistindo. Eu que não quero ser da mesma “esquerda” que eles.

Resistência dos trabalhadores e trabalhadoras em Brasília

Era um alívio encontrar amigos bem. Salvos. Triste receber notícias de pessoas que nunca vi na vida que se feriram. Os gritos pedindo ajuda. Alívio poder ceder leite magnésio ou só nossa mão a quem precisasse. Foram cenas inesquecíveis.

Na saída do ato, muitos cantaram “DIRETAS JÁ” o que me indignou, eles querem mais do mesmo, mas eu sei que na maioria não é culpa deles, é o que a mídia e o governo nos vendem. Eleja seu novo corrupto e continue com um Congresso corrupto e uma bancada de deputados, vereados, senadores… com o PMDB em maioria. Continue esse sistema que governa para uma só classe (e nunca será a classe pobre, negra e trabalhadora desse país).

Mas a afronta vem, e aos gritos de “Temer Fora! Congresso Fora! Greve Geral de 48 horas! ” Saímos de Brasília, esse grito ecoou.

E não arredaremos o pé. Até que a revolução venha! Até que o poder seja do povo!

No mais, como disse um peão “a voz só cala, quando o tiro acerta a boca!” E nem assim calará. Somos muitos. E estamos cada vez mais acordados e organizados.

É com o nariz machucado, com a perna doendo, com a garganta ardendo que saímos com o sentimento de vitória de Brasília!

Fora Temer! Fora Todos Eles! Nenhum direito a menos!

LIBERDADE PARA RAFAEL BRAGA!