Blairo Maggi: a cara da barbárie no campo brasileiro

991
O ministro da Agricultura Blairo Maggi. Foto: MPA

Ministro da Agricultura diz que “fica feliz” com os 50 assassinatos registrados no campo

Blairo Maggi, Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), realizou um conjunto de declarações ultrajantes durante a Conferência Mundial do Clima, a COP 22, realizada no Marrocos, entre os dias 15 e 18 de novembro. Confrontado pelas organizações da sociedade civil brasileira que acompanhavam a COP sobre dados da Global Witness, de que um terço das mortes de ambientalistas (que incluem também inúmeros camponeses) no mundo, 50 das 150, teriam acontecido no Brasil, a grande maioria na Amazônia, o ministro cinicamente disse: “Fico feliz em saber que de ontem para hoje morreram menos 150 ambientalistas, porque ontem ouvi que eram 200 por ano e agora diz aqui que foram 50”.

Além disso, Maggi ainda questionou a existência da reserva legal de 80% na Amazônia. Segundo ele, a reserva legal seria “um hotel de 100 quartos que só pode ocupar 20“. Disse ainda que “a agricultura brasileira é a mais sustentável do mundo, todos os rios são protegidos por uma legislação. Mas, mais que a legislação. são protegidos pela consciência dos produtores brasileiros. ”

Modernidade no campo e violência
Não é de hoje que o agronegócio brasileiro – do qual Blairo Maggi é um dos mais importantes representantes – não esconde sua intenção em avançar a fronteira agrícola do país para a Amazônia Legal. O resultado desse processo é o avanço do desmatamento e da violência impetrada pelo agronegócio na região.

Também não é novidade para nenhum ativista (pelo menos não deveria ser) que a luta pela terra no Brasil sempre provocou a reações de extrema violência dos grandes proprietários e de seus pistoleiros. Em certas regiões da Amazônia, quando algum pequeno agricultor é executado, suas orelhas são cortadas pelos jagunços para “comprovar” aos seus chefes que o “serviço foi feito”. Foi o que aconteceu com o casal de extrativistas José Claudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, assassinados em 2011 na cidade de Nova Ipixuna, sudeste do Pará.

Em Rondônia, onde nos últimos 12 meses foram assassinados 36 integrantes da Liga dos Camponeses Pobres, os jagunços costumam a destroçar a cabeça de suas vítimas, como fizeram, por exemplo, com o casal Isaque Dias Ferreira e Edilene Matheus, executadas no dia 13 de setembro, e com outras lideranças camponesas.

Já ouvi muitas histórias de antigos seringueiros sobre a crueldade dos velhos patrões de seringais no Acre. Em um passado não muito remoto, se algum patrão seringalista descobrisse que algum seringueiro estivesse vendendo sua produção de borracha a um marreteiro ou regatão (atravessadores), o castigo era brutal: ele poderia ser amarrado em um tronco ou ainda ser queimado vivo com um paneiro (cesto de palha) carregado de cernambi (um subproduto da borracha altamente inflamável).

Atualmente, o genocídio contra os Kaiowás no Mato Grosso do Sul  talvez seja uma das maiores expressões da barbárie cometidas pelo agronegócio. Segundo o Conselho Missionário Indigenista (Cimi), nos últimos 12 anos, foram assassinados 390 kaiowás. É uma média de 30 assassinatos por ano. Os relatos dos kaiowás sobre as barbaridades inclui tocaias e estupros. Geralmente, fazendeiros e pistoleiros invadem aldeias em comboios de Hilux, atirando para todos os lados, ou realizam tocaias na beira de rios e lagos, onde as vítimas quase sempre são mulheres e crianças que apanham água nesses locais.

A Barbárie continua
As estáticas sobre os conflitos no campo em 2016 apontam de forma categórica o crescimento da barbárie. Até final de outubro deste ano, segundo a CPT, já se registrava o mesmo número de assassinatos registrado em todo o ano 2015 (50 assassinatos).

Mais uma vez, a Amazônia Legal – que inclui o Mato Grosso de Maggi – registrou  75% dos conflitos por terra e 39 assassinatos. Os dados, ainda parciais, também mostram que o número de famílias expulsas aumentou 110%, com ações de pistolagem, passando de 438 em 2015 para 920 famílias expulsas em 2016.  Por outro lado, as tentativas de assassinato cresceram 142% (passando de 19, em 2015, para 49, em 2016); enquanto os ameaçados de morte passaram de 64 em 2015, para 103 em 2016, um aumento de 61%.

Portanto, é um engano pensar que essa barbárie retrocedeu com o avanço da “modernização da agriculta” brasileira.  Na verdade, ela convive lado a lado com antigas formas de superexploração da força de trabalho, de relações de semiescravidão, assassinatos e expropriações dos pequenos agricultores. A “modernização da agricultura”, que tem entre Maggi entre seus principais representantes, se dá com base na manutenção do atraso e da violência. É por isso que o avanço do agronegócio tem produzindo mais conflitos e mortes a cada ano.

Naturalmente, o governo Temer tem sua responsabilidade por essa situação. Sob seu governo, o latifúndio continua matando camponeses, quilombolas e indígenas, enquanto a impunidade continua reinando. Mas, para sermos justos, é preciso também lembrar que agronegócio ganhou forçar nos 12 anos do governo do PT. Sob Lula e Dilma, usineiros foram chamados de heróis e à frente do Ministério da Agricultura sempre estiveram representantes do setor.

A última ministra foi a senadora Kátia Abreu que chegou a dizer que “não existe mais latifúndio” no Brasil que “os índios saíram da floresta e passaram a descer nas áreas de produção”. Eis aí verdadeira “consciência dos produtores brasileiros”, a qual se referiu Maggi, das elites proprietárias de terra que desde sempre habitaram o poder.

Jeferson Choma, da redação