Autodefesa e os guerreiros e guerreiras da liberdade

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Cena do filme: Njinga, Rainha de Angola

LEIA O 1º ARTIGO
Quilombos: sinônimos de organização e luta

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Palmares: onde tudo é de todos e nada de ninguém

Táticas semelhantes às guerrilhas modernas sempre foram muito utilizadas por negros e negras, tanto na luta contra o tráfico, quanto na formação e defesa dos quilombos e nas muitas rebeliões e revoltas negras que aconteceram no período colonial, como a Cabanagem (Grão-Pará, 1835 – 1840), os Lanceiros Negros da Farroupilha (Rio Grande do Sul, 1835 – 1845), a Revolta dos Malês (1835) e a Balaiada (Maranhão, 1838 – 1840), dentre tantas outras.

Em todos estes casos, o nível de organização era bastante impressionante, com a determinação de objetivos militares e planos de ataques pré-estabelecidos. Algumas destas técnicas foram trazidas pelos guerreiros e guerreiras que, ainda na África, lutaram contra o tráfico. Exemplos disto são aqueles e aquelas que aqui chegaram depois de lutarem, por décadas, ao lado da rainha (ou Ngola, termo que deu nome ao país africano) Nzinga Mbandi, também conhecida como “Ginga, a incapturável”, que viveu por 80 anos, entre 1582 e 1663.

Como lembra Mariana Bracks, autora da dissertação de mestrado “Nzinga Mbandi e as guerras de resistência no século XVII” (2012), em artigo publicado na “Revista de História da Biblioteca Nacional” (nº 122 – Novembro de 2015), a rainha conseguiu o apoio “dos jagas, guerreiros nômades que se organizavam em kilombos – acampamentos que se deslocavam conforme as necessidades de guerra, com rígida hierarquia e severa disciplina militar”, conseguindo “imprimir consciência política aos bandos, que até então viviam errantes, praticando roubos” e desenvolver táticas de combate e defesa (como investidas surpresa e recuos estratégicos, que acuavam e cansavam os adversários). Táticas que foram determinantes para “se manterem livres e vencer os portugueses por várias vezes”.

Para facilitar este esquema, na África já era comum que quilombos fossem organizados próximos a precipícios e com esquemas de defesa muito sólidos, como observou o padre capuchino Giovanni António Cavazzi de Montecuccolo, que acompanhou os conflitos de Angola: “a grande arte da condução da guerra consiste em evitar o inimigo”.

Transportadas para o Brasil, estas táticas influenciaram, de uma forma ou outra, todas as revoltas do período colonial, como a Insurreição Pernambucana (1645 – 1654), quando foram amplamente utilizadas as chamadas “Guerras Brasílicas”, em referência às táticas africanas que passaram a ser adotadas, como lembra Marcos Vinícius Vilaça (no artigo “Duas vezes Guararapes – 1848/49”, publicado na revista “DaCultura”, ano VI, n° 10): “onde os conhecimentos militares postos em prática nas guerras de Flandres e do Alentejo [ou seja, da Holanda ou de Portugal] cederam lugar à malícia e ao elemento surpresa, (…) pela improvisação, das guerras de emboscadas, obedecendo à topografia e à vegetação do terreno”.

Apenas para citar outro exemplo, mencionado por Clóvis Moura em “Rebeliões da senzala”, táticas semelhantes também foram utilizadas pelos quilombolas de Sergipe, na década de 1870, onde grupos de 10 a 12 guerreiros armados e montados ocupavam vilas e povoados (como Capela, Laranjeiras e Rosário) e se retiravam em seguida, atraindo as tropas “para o recesso [interior] da mata e lá, com movimentos rápidos, iriam submetendo as tropas legais a um desgaste de energia constante e desesperador” (p. 84).

Para empreender estes ataques vale lembrar, também, que dentre as técnicas utilizadas havia a de se esconder nas próprias senzalas, com o apoio dos escravos, que mesmo aprisionados entendiam a importância da luta quilombola e forneciam alimentos, informações e solidariedade aos guerreiros e guerreiras.

A indústria de guerra quilombola
Em resposta à quantidade e à intensidade de ataques que sofreu, particularmente a partir da saída dos holandeses, por volta dos anos 1650, os quilombolas desenvolveram um vigoroso sistema de autodefesa e ações militares. No início, eles se utilizaram da chamada “guerra de movimentos” (ataques relâmpagos), aproveitando as peculiaridades geográficas da região, que permitiam aos guerreiros a possibilidades de montar emboscadas, atacar e depois se embrenhar na mata e encobrir as posições de suas povoações, raramente entrando em combate aberto.  

Esse era o método usado tanto nos ataques às expedições quanto na defesa dos quilombos. Para impedir que os bandeirantes e invasores chegassem às suas terras, os quilombolas faziam inúmeras emboscadas, se aproveitando do fato de que as trilhas não eram transitáveis para charretes e carros-de-boi, que os mantimentos e as bagagens tinham que ser transportados pelos negros escravizados e que os soldados tinham que carregar em suas costas as armas e equipamentos, seguindo em fila indiana, à beira de desfiladeiros e matas cerradas.

Quando as expedições conseguiam ocupar algum mocambo, as tropas da Coroa enviavam grupos de soldados para caçarem os fugitivos, mas os quilombolas os atraíam para o fundo da mata, distante das bases portuguesas e, depois, voltavam para retomar os mocambos invadidos, onde as defesas coloniais já estavam debilitadas.

Os procedimentos de ataque e táticas de autodefesa eram conhecidos como “Guerra do Mato” e, geralmente, deixavam as tropas da Coroa desorientadas e em pânico, provocando a deserção de muitos soldados. Já quando atacavam as aldeias, os quilombolas contavam com elemento surpresa, se utilizavam de batedores, atacavam em pequenos bandos, confiscavam o que necessitavam e fugiam para o mato. Além disso, de forma genial, simulavam ou divulgavam o ataque a uma determinada vila quando, na verdade, se preparavam para atacar outra, o que também colocava povoados inteiros em estado de pânico.

Já os portugueses dificilmente conseguiam fazer ataques surpresas já que os palmarinos contavam com um elemento fundamental: a solidariedade dos negros e negras livres e escravizados que viviam nas fazendas e cidades e lhes serviam como olhos e ouvidos, informando-lhes sobre qualquer movimentação.

Com o desenvolvimento da produção agrícola, os palmarinos começaram a optar por uma guerra de guerrilha, com operações de maior envergadura, o aumento da quantidade de guerreiros, armas de fogo e bases fixas. Esse esquema militar era fundamental para que o povo de Palmares defendesse sua propriedade comum e a vida da comunidade.

Nas palavras de Clóvis Moura (em “Rebeliões da Senzala”), os quilombolas construíram uma verdadeira “indústria de guerra”, tendo, por exemplo, artesãos que trabalhavam o ferro em forjas, uma tarefa executada principalmente por negros do Sudão que eram profundos conhecedores de trabalhos em metais e fundição e sabiam como forjar armas e até cartuchos com pedaços de pau cheios de pólvora (p. 194).

O povo em armas
Em Palmares, era o povo que tinha as armas em suas mãos. Mas, com um contingente militar permanente, profissional e com hierarquia interna. O mocambo de Subupira servia como quartel general e local de formação e treino militar. Os quilombolas ainda contavam com algo que, hoje, chamaríamos de “serviço de inteligência”: um sistema de comunicação permanente com os que se encontravam escravizados nas plantações e engenhos, aliados indígenas e, inclusive, comerciantes portugueses que os alertavam de expedições punitivas com antecedência.

De acordo com uma descrição feita por Cláudio Moreira Bento, em “A secular guerra dos Palmares (Alagoas e Pernambuco, 1602-1696)”, o mocambo-capital, Macaco, tinha um sistema ainda mais avançado de proteção. Era cercado por uma dupla muralha de pau a pique com vários baluartes, tinha somente três portas de acesso (fortificadas) e, ainda, era protegido por postos de observação. Nestas três plataformas, havia uma constante vigilância, garantida por um capitão e cerca de 200 homens.

Impulsionados pela constante necessidade de barrar os inimigos, os palmarinos se utilizaram de todo e qualquer recurso possível. Usavam, por exemplo, torneis (uma espécie de argola móvel onde a espingarda ficava presa, permitindo movimentação e que a arma não se perdesse se o atirador fosse ferido) e ganchos que eram presos na extremidade de um cabo e usados para “laçar” os que se aproximavam das paliçadas (muros feitos com troncos de árvores) e estrangulando-os.

Os relatos também falam sobre o uso de redentes, que são trincheiras construídas no alto das barricadas e que davam visão ampla, proteção e possibilidade de atingir o adversário. Na parte interna, logo após a muralha, eram cavados enormes buracos com estrepes de ferro (algo como enormes lanças) e, do lado fora, existiam fojos (buracos cobertos por folhagens e cheios de estrepes no fundo). O fato do termo “se estrepar” derivar desta prática é suficiente para imaginar o que acontecia com os que caiam na armadilha.

A retaguarda de Palmares, na Serra da Barriga, era protegida por uma escarpa inacessível e toda a região era cercada de mirantes e atalaias (torres de vigilância e observação, muitas vezes instaladas em árvores) e o rio Mundaú servia como rota de fuga e controle dos movimentos suspeitos na mata.

Também vale destacar o papel das mulheres em tudo isto. Muito frequentemente, lembramos de Dandara, que tinha o posto equivalente ao de general em Palmares. Contudo, a companheira de Zumbi está longe de ser uma exceção. Pelo contrário, como demonstra o apavorado (machista e racista) relato do Sinhô Inojosa, “em momentos de maior precisão”, todos os quilombolas participavam dos esforços militares, “sem exceção das mulheres que nessas ocasiões mais parecem feras que pessoas do seu sexo”.

Por fim, apesar da existência de guerreiros e guerreiras especializados nesta tarefa, praticamente toda a população participava do esquema de autodefesa. Aqueles que não pegavam em armas, por exemplo, ajudavam no desenvolvimento de toda uma produção interna de sobrevivência (uma “economia de guerra”) para o caso de ficarem sitiados durante muito tempo.

Eficaz durante quase um século e ameaça constante à própria lógica da sociedade colonial, a própria permanência do quilombo e o esquema de guerra que havia sido montado eram inadmissíveis para as elites da época. Palmares precisava ser destruído a qualquer custo, algo que tentaram, sem sucesso, durante quase cem anos, como veremos no próximo artigo.  

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Quilombos: sinônimos de organização e luta

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