Ato nesta quarta comemora dez anos de luta do Pinheirinho

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Foi há 10 anos. No dia 26 de fevereiro de 2004, teve início, em São José dos Campos (SP), uma das maiores ocupações urbanas do país, o Pinheirinho, que viria a ganhar repercussão internacional e se tornar um símbolo da luta por moradia. Para marcar a data, nesta quarta-feira, dia 26, ex-moradores da ocupação realizarão um dia de atividades.

Às 9h, haverá um encontro simbólico em frente ao antigo terreno da ocupação, mas será às 17h, que acontecerá um ato na Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no bairro Campo dos Alemães (Rua Antônio B. Pintos, 320).

No local onde as famílias ficaram abrigadas após a violenta desocupação em 2012, ex-moradores, sindicatos, movimentos populares e ativistas sociais realizarão um ato político para celebrar a luta do Pinheirinho que continua até hoje.

O Pinheirinho resiste
Nem mesmo a desocupação conseguiu acabar com a organização das famílias do Pinheirinho, uma organização e unidade construídas ao longo dos oito anos de existência da ocupação.

Naquele dia, quando cerca de 150 famílias entraram no terreno na zona sul da cidade, conhecido como Pinheirinho, encontraram uma imensa área de mais de um milhão de metros quadrados. Alvo de grilagem e especulação, o terreno tomado pelo mato estava abandonado há 30 anos.

No início, barracos de lona preta improvisaram o primeiro abrigo para as centenas de famílias. Em poucos dias, a ocupação cresceu. Passou a reunir milhares de pessoas, resultado do grave déficit habitacional existente numa das maiores cidades do estado.

Foram muitas as dificuldades, das tempestades que derrubavam os barracos, no início da ocupação, às várias ameaças de liminares da justiça que determinavam a reintegração de posse a favor do megaespeculador Naji Nahas.

Contudo, as famílias resistiram. Aos poucos, os barracos de lona foram dando lugar aos barracos de madeira e tempos depois às casas de alvenaria.

Ao longo de oito anos, as famílias do Pinheirinho construíram um bairro, uma comunidade, que apesar das dificuldades comuns ao povo pobre, chamava a atenção pela organização e pela ação coletiva.

As ruas e avenidas eram largas, com lotes divididos igualmente, ordenados pelas letras do alfabeto. Jardins, hortas, pomares, pequenos comércios, igrejas e áreas de lazer para as crianças conferiram um sentido social àquele espaço.

O barracão centralizava as assembleias e dias de festa. Tudo era discutido coletivamente e votado. A luta contra a opressão era uma bandeira. Numa ocupação em que as mulheres trabalhadoras eram quase maioria, não se aceitava, exemplo, a violência contra a mulher.

Por trás daquela longa fileira de pinheiros que circundavam a ocupação, o Pinheirinho tornou-se um quilombo dos dias atuais. Um quilombo de luta e resistência. As famílias marcharam, protestaram nas ruas, apoiaram as lutas da classe trabalhadora, cobraram os governos.

Antes do Pinheirinho, São José dos Campos, uma das cidades mais ricas do país, centro de tecnologia e industrialização, não possuía sequer uma secretaria de habitação. A fila da moradia somava mais de 20 mil famílias.

A luta do Pinheirinho abriu a ferida. Exigiu solução para que se fosse garantido um direito previsto na Constituição, mas ignorado pelos governantes.

Os poderosos se incomodaram. Do descaso e de leis absurdas como a famosa “lei da fome” (que impedia as famílias do Pinheirinho de receberem benefícios sociais como cesta básica e leite), fizeram de tudo para destruir a ocupação.

Em 2012, fizeram uma ilegal e violenta desocupação a despeito de qualquer sensibilidade social e sensatez. Um festival de aberrações jurídicas foi justificativa para o despejo de 1.800 famílias, que perderam tudo, da própria casa aos pertences e documentos. A crueldade da ação e as cenas de violência tiveram repercussão internacional.

Mais do que as casas, tentaram destruir a organização do Pinheirinho. Não conseguiram. Apesar de tudo, as famílias continuaram mobilizadas. Fruto da pressão sobre os governos será construído um conjunto habitacional de casas às 1.800 famílias despejadas.

Dez anos depois, o sonho não morreu. A esperança vive.

As famílias querem que as casas prometidas saiam do papel e vão lutar por isso. Vão acompanhar passo a passo a construção das moradias e cobram dos governos a infraestrutura necessária no novo bairro.

As violações dos direitos humanos durante a desocupação não serão esquecidos. Continuaremos  buscando justiça, verdade e reparação às famílias.

A antiga ocupação voltou a ser uma área abandonada, a juntar mato e lixo, e por isso nossa luta ainda é pela desapropriação do terreno, para que sirva à construção de mais casas populares e do Hospital Regional.

Dez anos depois, a luta pelo direito à moradia resiste. Dez anos depois, ainda somos todos Pinheirinho!

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