Aos 27 anos de seu assassinato, seminário discute legado de Chico Mendes

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Nesta terça, 22 de dezembro, foi realizado em Xapuri (AC) o seminário “Os Desafios para Amazônia no Século XXI – 27 Anos sem Chico Mendes”.

Nesta data completaram-se 27 anos do assassinato do líder seringueiro que morreu nas mãos de pistoleiros. Chico Mendes tombou lutando pela preservação da floresta amazônica e ao lado dos trabalhadores extrativistas por seus direitos.

O seminário foi promovido pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, hoje filiado à CSP-Conlutas, e que no final dos anos 1980 foi presidido por Chico Mendes.

Dercy Teles, diretora do sindicato, explicou para uma plateia de seringueiros a importância de realizar o evento. “Nosso evento é alusivo ao 27 anos do assassinato do Chico Mendes, mas também serve para refletir a partir dos ideais que ele deixou. O Chico Mendes deu a vida pela manutenção da classe trabalhadora do campo na sua terra“, explicou.

Os debates serviram para atualizar o legado da luta política do movimento seringueiro frente aos novos desafios como a imposição do manejo florestal de madeira, que vem beneficiando apenas grandes madeireiros. Também foram realizadas críticas aos sindicalistas que se deixaram cooptar pelo Estado.

Infelizmente são vários os ‘companheiros’ de Chico Mendes que fazem apologia ao famoso desenvolvimento sustentável, porém, quase nenhum deles volta para o seringal para garantir a sua manutenção desenvolvendo uma atividade ligada a esse neo-extrativismo preconizado na propaganda do desenvolvimento sustentável, salvo um ou outro que mora na zona rural, mas que se sustentam de salários oriundos de cargos comissionado no governo, exatamente para fazer o aliciamento de companheiros nas comunidades para aderirem à exploração de madeira, sob a batuta de manejos florestal comunitário“, explica a carta assinada pelo sindicato lida no final do seminário.

Também foram debatidos temas relacionados às políticas da chamada “Economia Verde”, promovida pelo governo petista do Acre, e sua relação com a criminalização das práticas tradicionais dos trabalhadores rurais. Tais medidas vêm beneficiado grandes fazendeiros, como explica a carta apresentada pelo sindicato.

Outro fator preocupante é o retorno dos latifundiários que, atraídos pela política da economia verde estão requerendo judicialmente a reintegração de posses ocupadas por posseiros há muitos anos“, afirma a carta.

Muitos camponeses denunciaram as injustas multas exorbitantes aplicadas por órgãos de fiscalização ambiental, enquanto fazendeiros expulsam famílias de posseiros e destroem grandes áreas de floresta. Alguns seringueiros foram multados em ate R$ 300 mil. 

Outros temas discutidos, como os direitos das populações seringueiras diante dos atuais conflitos, a ameaça de extração de petróleo no Acre por meio do “fracking”, um método de grande impacto social e ambiental, além do resgate da história de luta do movimento seringueiro e dos sindicatos dos trabalhadores rurais que dirigiram os chamados “empates”, nos anos 70-80.

Leia a carta completa

Balanço da realidade dos trabalhadores e trabalhadoras extrativistas do município de Xapuri nos 27 anos sem Chico Mendes

Após 27 anos sem CHICO MENDES, apesar das falácias de que seus sonhos foram realizados, essa assertiva não condiz com a realidade da maioria dos trabalhadores pelo qual ele deu a sua vida.

Primeiro, a RESERVA EXTRATIVISTA – RESEX, que ele ajudou a idealizar, como modelo de REFORMA AGRÁRIA adequada à realidade sócio ambiental da Amazônia e com o objetivo de garantir a sobrevivência e bem estar dos trabalhadores e trabalhadoras que nela habitam, tornou-se um pesadelo: Praticamente tudo é controlado e proibido por uma instituição que infelizmente leva seu nome: o INSTITUTO CHICO MENDES! Este até o momento, pela ação de seus técnicos, não fez outra coisa a não ser coibir as atividades de subsistência que secularmente sempre foram praticadas e nunca causaram nenhuma dano ou alteração negativa ao ambiente florestal.

Não dá para negar que trabalhadores da RESEX desenvolvem a pecuária e outras atividades consideradas ilegais, haja vista o extrativismo ter entrado em declínio desde os anos 70 e, em falência, quase absoluta, a partir da década de 90, estendendo-se até os dias atuais, para se ter uma ideia não existe nenhum comprador de borracha natural em Xapuri.

Até o momento, e são 25 anos da decretação da RESEX, os governantes não apresentaram alternativas de geração de renda que substituam o binômio borracha e castanha que viabilizou a ocupação desta parte da Amazônia a partir da primeira metade do século XIX e a anexação deste território que hoje é o Estado do Acre ao Brasil em 1903.

Em pleno dia 15 de janeiro de 2009, início das festas do Padroeiro da cidade, dois seringueiros procuram-nos na sede do sindicato para lamentar os seus desencantos com o extrativismo da seringa, dizendo que tinham se esforçado muito para produzir 300 kg de borracha, e tinham rodado toda a cidade e não encontraram comprador para o produto, fruto de seus suados trabalhos. Um deles lamentou: “o pior é que eu trouxe essa borracha pagando frete, como não vendi vou voltar pra casa, vender três bezerros que eu tenho lá, para poder pagar o homem, e o que sobrar vou dar para a mulher vir comprar umas roupinhas para os meninos, pois nos marreteiros (camelôs) é mais barato.”

Trouxemos essa narrativa para dar ciência a quem ler este texto, da real situação dos extrativistas do Estado do Acre, especificamente dos do município de Xapuri, que foram obrigados a aderir à pecuária, com financiamentos concedidos por bancos oficiais para a construção de currais, cercas e outras atividades não extrativas. Muitos trabalhadores e trabalhadoras extrativistas aderem a esses programas governamentais motivados por necessidades de subsistência e não por desrespeito aos ideais de CHICO MENDES, como tem sido divulgado pelos próprios “companheiros” do CHICO, que em Novembro de 2008 solicitaram a intervenção do Ministério Público Federal na RESEX, sem levar em consideração os dez anos de abandono a ela dispensado pelos órgãos responsáveis por sua gestão. O extrativismo deveria ser a única atividade econômica da RESEX caso houvesse políticas que dessem o incentivo devido aos trabalhadores para o exercício dessa prática.

A luta do SINDICATO desde a sua fundação até a morte de CHICO MENDES sempre foi a favor da vida dos trabalhadores e de suas famílias. Defendemos a floresta por meio dos EMPATES porque estávamos ameaçados de perder nosso local de trabalho e moradia e até nossas vidas, com a expansão da pecuária intensiva, e não por sermos ecologistas ou ambientalistas: Nossa LUTA sempre foi e será pela REFORMA AGRÁRIA. É claro que naquela época (década de 80), o extrativismo ainda gerava renda que nos garantia a aquisição do mínimo de nossas necessidades básicas que não era possível produzir na terra.

Entendemos que como cidadãos e cidadãs, em um Estado Democrático, temos o direito de lutar em defesa de nossa sobrevivência. Hoje temos claro quem são nossos principais inimigos: o Estado, suas ONG’s e os pelegos, que se utilizam da confiança que lhes é depositada pela classe trabalhadora, para se autopromoverem negociando o futuro dos trabalhadores em troca de benesses individuais.

Infelizmente são vários os “companheiros” de Chico Mendes que fazem apologia ao famoso desenvolvimento sustentável, porém, quase nenhum deles volta para o seringal para garantir a sua manutenção desenvolvendo uma atividade ligada a esse neo-extrativismo preconizado na propaganda do desenvolvimento sustentável, salvo um ou outro que mora na zona rural, mas que se sustentam de salários oriundos de cargos comissionado no governo, exatamente para fazer o aliciamento de companheiros nas comunidades para aderirem à exploração de madeira, sob a batuta de MANEJO FLORESTAL COMUNITÁRIO, que na verdade é uma cortina de fumaça para a EXPLORAÇÃO MADEIREIRA EMPRESARIAL dentro da RESEX CHICO MENDES. Este tipo de manejo nunca esteve na perspectiva do movimento dos extrativistas que, no máximo, defendeu o aproveitamento de madeiras provenientes dos roçados de subsistência ou derrubadas pelas intempéries, mas seu uso deveria ser para a construção de equipamentos sociais, como escolas e postos de saúde, casas e móveis para os próprios moradores da RESEX.

Outro fator preocupante é o retorno dos latifundiários que, atraídos pela política da economia verde estão requerendo judicialmente a reintegração de posses ocupadas por posseiros há muitos anos. A titulo de exemplo podemos citar a Fazenda Soberana, cujo proprietário já conseguiu a reintegração de nove posses, e mantém 35 famílias ameaçadas de serem expulsas, totalizando 110 pessoas em situação de instabilidade fundiária e ameaça de sobrevivência na atividade extrativista. Algumas dessas famílias já estão com processo de despejo tramitando na Justiça. Vale ressaltar que essa realidade não é apenas na Fazenda Soberana, temos outras áreas em que os posseiros também estão ameaçados, como o Seringal São José, São Miguel, São Pedro, Filipinas e Lua Cheia, portanto, repudiamos esse malfadado Desenvolvimento Sustentável que tira a autonomia das populações em relação a seus territórios e promove o êxodo rural e todo tipo de situação que deprecia e degrada a dignidade humana.

Xapuri-Ac, 22 de Dezembro de 2015

DIRETORIA DO SINDICATO DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS RURAIS DE XAPURI