A transexualidade e a Rede Globo

Tratar de uma temática pouco abordada e que se refere a um grupo marginalizado pela sociedade e totalmente invisibilizado pela mídia pode produzir um impacto de grande importância, promovendo uma significativa transformação social. Porém, dependendo da abordagem, provocar a representação de um grupo somente pela representação pode ser ainda mais nefasto que o silêncio.

Não temos dúvida de que é preciso falar sobre transexualidade, mas é preciso muito cuidado para não produzir mais desinformação, confusão e preconceito do que referências positivas e conteúdo esclarecedor. Estamos diante desse delicado momento ao vermos a Rede Globo concluir uma série de reportagens sobre a temática trans. Durante o mês de março, a Rede Globo exibiu no Fantástico uma série de quatro episódios sobre pessoas transexuais intitulada “Quem sou eu?”. Agora, começa uma novela que traz, num de seus núcleos centrais, uma personagem que, de acordo com o G1 “é um homem no corpo de uma mulher”.

Queremos, com este texto, dar sequência ao debate, referindo-nos de forma crítica à Rede Globo e acrescentando algumas opiniões e informações sobre o que é ser uma pessoa trans, contribuindo de alguma forma com o combate à transfobia e levantando reflexões neste sentido.

A nova novela da Globo, “Força do Querer”, que estreou em 3 de abril, traz uma personagem que o site da Globo apresenta como “criada como a princesinha dos pais, se revelará trans homem”. Em 26 de abril, foi exibido mais um Profissão Repórter sobre o tema da transexualidade. A Rede Globo já havia abordado o tema anteriormente em programas de sua grade como Profissão Repórter, Na Moral, Encontro, Amor & Sexo, Fantástico e em programas humorísticos de conteúdo questionáveis.

Em geral, quando não são invisibilizadas, as/os LGBTs são motivo de riso e apresentados de maneira caricatural pela mídia. Em regra, a mídia estigmatizou especialmente as pessoas trans, seja ridicularizando-as, seja hipersexualizando seus corpos, não apenas no Carnaval. Esse histórico nos deixa surpresos e apreensivos quando nos chamam a nos vermos nas telas. LGBTs são pessoas frequentemente xingadas, humilhadas, desprezadas, vistas como motivo de chacota ou como exemplo do que não deve ser seguido ou ser. Por consequência, muitas/os são renegadas/os pela família, pelas escolas, pelos amigos, pela maioria das religiões e pela sociedade de modo geral. Se existe algo que contribuiu até hoje para isso, legitimando e incentivando a discriminação, é a TV. Por isso, queremos falar dos principais aspectos da LGBTfobia a partir de uma breve análise da abordagem da Globo sobre o tema.

Para começar, basta citar os programas de humor. A lista poderia ser grande, mas usemos como exemplo a travesti Valéria, do Zorra Total, que era uma representação grotesca e bizarra de uma travesti ridícula e imoral, da qual todos devem rir e que em muito contribui para o ódio, a aversão e a exclusão das pessoas trans.

O Profissão Repórter de 18 de novembro de 2014 foi mais desinformativo do que informativo. De cerca de meia hora de programa, pouco se salvou. Além de fixar termos e expressões clichês do imaginário na mente popular: “virar homem”, “virar mulher”, “cirurgia de mudança de sexo”.

O Programa Na Moral, com o Pedro Bial, fez uma abordagem melhor sobre o tema. Contudo, é um programa que passa num horário em que muitos não têm acesso, com muitas entrevistas apresentadas em pouco espaço de tempo, o que torna o conteúdo superficial. Seria mais produtivo menos pessoas entrevistadas e que tivessem mais tempo para narrarem suas histórias.

O programa Amor & Sexo vem sendo um dos pioneiros na TV aberta a abordar temas-tabu, como racismo contra mulheres da periferia, feminismo, sexismo, misoginia, LGBTfobia. No último episódio da temporada passada e num deste ano, o tema foi bem discutido, os termos didaticamente explicados e tudo muito respeitoso. Foi uma forma leve, descontraída e, nem por isso, menos informativa.

O programa Encontro com Fátima Bernardes abordou a transexualidade na infância e comoveu a muitos com a entrevista de crianças trans. Foi algo delicado e de extrema importância por passar durante o período diurno e em horário em que muitos estão almoçando em frente à TV, em bares, restaurantes, shoppings ou em suas casas, um horário em que pais e filhos poderiam, juntos, ver e discutir o tema.

Algumas noções importantes
Pessoas transexuais não se transformam em nada. Já nascem assim. Não são lagartas que viram borboletas, nem Pokémons que evoluem. Muito menos mutantes do tipo X-Men. A transexualidade é uma condição de nascença que nada tem a ver com tornar-se algo. A pessoa passa por um processo de assumir a si mesma, e essa autodescoberta pode vir desde a infância ou apenas mais tarde, na adolescência. Mais importante que isso, a autodescoberta nem sempre culmina em autoaceitação. Muitas vezes, a pessoa esconde para si a sua identidade transexual para se poupar de discriminação e transfobia.

Quanto à expressão “cirurgia de mudança de sexo”, é totalmente equivocada. Com a cirurgia, não se muda o sexo da pessoa, apenas há um reajuste à sua identidade de gênero.

Antes de prosseguirmos, é bom explicar três termos que a população geralmente confunde:

1) Sexo biológico é aquele que é anatômico, fisiológico, gonadal e que pode ser observado pelos órgãos sexuais externos (macho e fêmea, sendo que macho nasce com pênis e testículos e fêmea com vagina);

2) Identidade de gênero é o modo como a pessoa se vê no mundo, como pensa em si mesma, como se sente. Em termos psicanalíticos, seria a sua psique. Em termos subjetivos, sua essência, sua autoconsciência subjetiva. Quando há uma correspondência entre a psique e o sexo biológico, a pessoa é denominada cisgênera, podendo ser homem cisgênero ou mulher cisgênera. Quando não há correspondência entre psique e órgão sexual, esta pessoa é transgênera, transexual, podendo ser uma travesti, uma mulher transexual ou um homem transexual;

3) Orientação Sexual é para quem se dirige o afeto, atração, desejo, as relações afetivo-sexuais e, por isso, a pessoa pode ser heterossexual (quando alguém do gênero masculino se interessa por alguém do gênero feminino ou vice-versa); homossexual (quando se relaciona com o mesmo gênero – gays e lésbicas); bissexuais (quando podem sentir-se atraídas por ambos os gêneros).

Causa ainda confusão, mas uma mulher trans ou travesti que se relaciona com um homem é heterossexual e caso se relacione com outra mulher é lésbica. Um homem trans que se relaciona com uma mulher é heterossexual e se ele se relacionar com outro homem, ele é gay.

Sintetizando: sexo biológico não tem relação com sua identidade de gênero, e identidade de gênero nada tem a ver com orientação sexual.

Dando prosseguimento, a tão mal dita “cirurgia de mudança de sexo” não muda o sexo de ninguém. Apenas readequa a genitália à identidade de gênero. Logo, o termo correto é Cirurgia de Readequação/Redesignação Sexual (CRS).

Quem sou eu?
A série do Fantástico, “Quem sou Eu?”, trouxe uma apresentação mais completa e sensível, além de muitas informações que podem ajudar a superar o preconceito e mudar a mentalidade da população em geral, mas pecou em alguns aspectos. Uma das maiores gafes e falta de respeito às pessoas trans entrevistadas foi a insistência sádica e bizarra em fazer a pessoa trans dizer o nome pelo qual foi designada ao nascer, o nome de registro e que não a representa como ser humano. Isso é de uma brutalidade!

O mesmo ocorre quando exibem fotos anteriores ao processo de transição que causam desconforto naqueles que estão sendo expostos por uma imagem de si que se recusaram a sustentar. Infelizmente, pelo apelo que essas imagens causam, a equipe do Fantástico ignorou o constrangimento e se utilizou destas atitudes insensíveis, comparando fotos e citando nomes de registro. Esse tipo de atitude apenas alimenta uma curiosidade perversa no público.

“Quem sou Eu?” foi bem didático, com boas abordagens. Porém focou numa visão médica, patologizante, em que a condição da pessoa transexual é vista como uma doença pelo Código Internacional de Doenças (CID-10). De acordo com o CID-10, a doença codificada por F:64.0 corresponde à “Disforia de Gênero”. “Disforia” é um sentimento de insatisfação, ansiedade e inquietação. Portanto, pessoas cisgêneras são altamente disfóricas ao não aceitarem seus corpos como são e recorrerem a métodos para alterá-los e torná-los mais próximos do ideal almejado por elas. Academia, malhação, anabolizantes, dietas, shakes, produtos para emagrecimento, cosméticos, apliques para cabelo, lentes de contato são meios que elas usam diariamente para lidarem com suas disforias.

Pessoas transexuais são consideradas disfóricas e patologizadas por quererem se hormonizar e passar por procedimentos cirúrgicos. Precisam dos laudos de psicólogo e psiquiatra para terem a autorização de modificarem seus próprios corpos. Os corpos de pessoas transexuais não pertencem à elas, mas sim, à Medicina, em particular, à psiquiatria e ao Estado.

Pessoas cisgêneras, a toda hora, passam por cirurgias plásticas sem serem patologizadas e sem necessitarem de autorização médica e do Estado para isso. Lipoaspirações, implantes de próteses de silicone em mulheres e homens (para formar seios, peitoral, panturrilha, barriga chapada, bíceps e tríceps), plásticas estéticas vaginais e outros procedimentos batem recorde em nosso país que é um dos que está no topo do mercado consumidor de cosméticos e cirurgias plásticas.

O que diferencia a patologização da disforia de transgêneros para a não-patologização da disforia de cisgêneros?

Ser transexual não implica fazer cirurgias ou intervenções no corpo, afinal, muitas pessoas não têm condições financeiras para isso. No Brasil, atualmente, os custos da cirurgia particular de neovulvocolpoplastia beiram os R$ 50 mil, e o procedimento pelo SUS é abarrotado de pessoas com filas que podem demorar mais de uma década.

Outras transexuais têm diversos problemas de saúde como diabetes, pressão alta, problemas cardíacos ou são alérgicas às anestesias e, por isso, não podem realizar tais procedimentos. Há ainda as que lidam bem com o fato de serem de tal gênero, independentemente dos caracteres biológico-sexuais discordantes. O que estamos dizendo é que não é a genitália que fará de uma mulher trans menos mulher ou que fará um homem trans menos homem.

Embora lutem por assistência às especificidades de suas saúdes, pessoas transexuais lutam, há anos, para que não sejam classificadas como doentes mentais. O mesmo acontecia com os homossexuais que, até 1990, eram considerados doentes pela Organização Mundial da Saúde. A consequência deste tipo de classificação foram as mais nefastas: lobotomias, internações, castrações químicas, desemprego, tratamentos impossíveis e dolorosos para readequação da orientação sexual, “curas gays” e até prisões em manicômios psiquiátricos. Recentemente, em 2013, o movimento LGBT derrotou nas ruas um retrocesso levado adiante pelo então presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputado Marcos Feliciano, que queria aprovar a “cura gay”.

O quadro do Fantástico fez um paralelo com “Alice no País das Maravilhas”. De maneira criativa e interessante, colocou o sonho de Alice como o acesso ao inconsciente, que tem relação com os processos psíquicos que orientam afetos, desejos, identidade e outros elementos constitutivos do sujeito que se manifestam de maneira pouco compreensível na vida consciente e que se expressam na autodescoberta em assumir-se e buscar uma vida mais verdadeira e completa.

A “Força do Querer”: protagonismo trans sem protagonista trans
Escrita por Glória Perez, a nova novela das nove traz a personagem Ivana, interpretada por Carol Duarte. Trata-se de uma garota burguesa, que foi criada no mundo da moda e que vive um profundo conflito ao entender-se desencaixada na sociedade, como se ela não pudesse ser ela mesma. O conflito se expressa pelas pressões constantes da mãe, que reproduz o machismo ao exigir que a filha seja fashion, seja bonita, esteja adequada aos padrões de beleza e que, por frustrar-se, tem vergonha da filha, que apenas diz querer ser jogadora de vôlei, enquanto a mãe quer que ela seja um ícone da moda.

Embora a emissora tenha contratado assessoria de pessoas trans para auxiliar alguns atores, a primeira pergunta que nos vem à cabeça é: por que a personagem trans não é um homem trans de verdade? Um ator trans? Sabemos que há um sem número de atores trans que poderiam desempenhar o papel com qualidade. Exemplos não nos faltam.

Chloe Sivigney interpretou uma mulher trans antes e depois da transição na série Hit & Miss. Em Orange is the New Black, Laverne Cox, que também é uma mulher trans, brilha ao interpretar uma trans na cadeia e chegou até a ser indicada ao Emmy Awards. Na série Sense8, Nomi é uma transexual interpretada por Jamie Clayton, atriz e modelo transexual.

Por outro lado, a regra da representatividade é ter uma personagem trans que traz ideias distorcidas sobre o que é ser trans na realidade, excluindo também do universo das telas centenas de excelentes atores por conta da sua identidade de gênero. Tomemos, como exemplo, alguns filmes de grande sucesso nos quais atores cisgêneros eram considerados os mais adequados para interpretar pessoas trans: Meninos Não Choram, Transamérica, Clube de Compras Dallas, Elvis e Madona, A Garota Dinamarquesa e A Glória e a Graça, com Carolina Ferraz interpretando uma travesti, em cartaz nos cinemas nacionais.

Nas telenovelas brasileiras, Ivana não é a primeira personagem trans. A primeira foi Cláudia Celeste, uma travesti obrigada a desaparecer da novela “Espelho Mágico”, de 1977, porque o regime militar proibia tal coisa. Alguns anos depois vieram outras. Merece destaque a personagem Ninete, da novela “Tieta” (1989), que era uma travesti interpretada por Rogéria, que chocou a cidade e questionou os valores morais, trazendo aspectos muito progressivos ao público.

Não só o fato de serem atores/atrizes cisgêneros/as expõem os limites destas representações. É muito presente a fetichização e padronização do corpo feminino. Onde estão as trans neste universo?

Em “Força do Querer”, prestaram consultoria dando entrevistas ao elenco para informá-los sobre algumas questões da vida e sentimentos. Se dizemos que representação importa, temos de nos perguntar que representação é essa na qual um enorme conjunto de atores e atrizes trans ficam de fora? Quais trans estão sendo representadas? A direção, o roteiro e todo o resto deixam a marca de uma visão a ser transmitida que é da perspectiva branca, rica, cisgênera e heteronormativa com a qual já estamos acostumados a nos confrontar quando tentamos nos ver nas telas.

Por enquanto, o drama de Ivana é o grande conflito com a mãe que a quer como uma celebridade do mundo da moda e tem expectativas de que ela encontre um homem interessante para se casar, tal qual fez ela mesma. Assim, as cenas trazem a mãe impondo roupas, maquiagens, saltos e comportamentos, enquanto a jovem vai se mostrando pouco rebelde, mas sofrendo por não se sentir à vontade com essas pressões todas.

Em determinado episódio, ela pede para falar de si com o pai e pede a ele um apartamento para viver mais confortável consigo mesma. Ele sugere a ela um encontro com o espelho no qual ela possa se descobrir e saber o que realmente quer para si. No entanto, ele não está tratando de temas como sexualidade/gênero, mas refletindo sua própria crise com sua carreira profissional.

Há também uma pressão para que Ivana arrume um namorado. Isso se desenrola num breve e frustrado relacionamento que leva Ivana a questionar sua orientação sexual. Ela, tendo condições, vai ter apoio profissional para seus dramas e vai descobrindo-se em consultas com uma psicóloga. Não precisa dizer que Ivana é muito rica e tem todo o acesso à informação e a espaços que são negados às jovens negras e pobres.

O que vai acontecer com ela nos próximos capítulos ainda está em aberto. Mas, vale lembrar que seu destino é refém de uma opinião pública que está aí para ser formada: que imagem os patrocinadores querem associar às suas marcas e aos índices de audiência?

Profissão Repórter: sensacionalismo e barbárie
A edição de 26 de abril teve basicamente dois eixos: violência transfóbica e relação das pessoas trans com suas famílias. São dois temas importantes e que poderiam, a depender da abordagem, sensibilizar o público e denunciar a realidade, contribuindo para o combate à transfobia. No entanto, o conteúdo mostrou que essa estava longe de ser a escolha do Profissão Repórter.

O que assistimos foi um espetáculo da violência e do bizarro, além da instigação da curiosidade grotesca. O programa mostrou cenas fortíssimas e reais de violência repetidas vezes, intercaladas pelo drama familiar que envolve a aceitação ou não de LGBTs pelas suas famílias, resultando em expulsão de casa ou não. Durante todo o programa, os nomes sociais e as identidades de gênero não foram respeitadas. Em alguns casos, isso foi justificado pela reportagem, mas na maioria deles não. Sequer do ponto de vista informativo o programa teve o que somar. A identidade de gênero e a orientação sexual foram misturadas o tempo todo, gerando ainda mais confusão para o telespectador.

As/os transexuais foram expostas/os mesmo depois de mortas/os, vítimas de transfobia, sendo tratadas/os pelo nome de registro, com exibição de imagens anteriores à transição e relatos de familiares. As cenas da tortura de Dandara foram exibidas incansavelmente, bem como a imagem de seu corpo após o assassinato.

Foi mais um programa policialesco, sensacionalista e apelativo que alimenta um universo de insegurança e crueldade, banalizando crimes horrendos. Foi um programa, enfim, com a tônica da barbárie que não pode legitimar-se. A liberdade e o direito à informação não justificam um jornalismo que viole a dignidade humana pelo puro sensacionalismo.

O que é ser uma pessoa trans hoje em dia?
De acordo com pesquisa do IBGE de 2013, a expectativa de vida desse grupo social não passa dos 35 anos, menos da metade da média nacional de 74,9 anos da população em geral. Em relação à violência, em 2016, foram registradas 144 mortes motivadas por transfobia. Cabe lembrar que estes dados são subestimados, pois baseiam-se apenas em notícias da mídia em que a motivação do crime nem sempre é explicitada. Assim, o Brasil é o país do mundo que mais mata pessoas trans.

Segundo a Rede Trans Brasil, 94% das vítimas estão solteiras; 50,6 são profissionais do sexo, e, em cada 24 homicídios, o assassino era cliente da pessoa trans. De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e outras organizações de travestis e transexuais, o preconceito no trabalho é tanto que a porcentagem de pessoas trans que precisa se prostituir para sobreviver é de cerca de 95%.

Ser uma pessoa trans significa ter até mesmo o direito de realizar suas necessidades fisiológicas ameaçado e negado constantemente. Um exemplo é o caso da própria Frida Pascio Monteiro, uma das autoras deste artigo, que, durante sua vida escolar, era impedida e ameaçada de agressões se entrasse nos banheiros femininos ou masculinos na escola onde estudou e, para lidar com a situação, passou a deixar de se hidratar e conter a vontade de fazer xixi durante o tempo na escola. Isso resultou, além de todos os traumas psicológicos imagináveis, num comprometimento das funções renais que carrega até hoje, aos 30 anos de idade.

Esse tipo de situação serve para pensar que o tal do bullying nas escolas é tão perverso que muitas trans não conseguem suportar e têm sua formação profissional prejudicada, sendo obrigadas a seguir para o mundo da prostituição, somado à rejeição da família e de todos os espaços de sociabilidade. Vale frisar que o ambiente escolar, por meio de todos os seus sujeitos provoca a expulsão das pessoas trans.

Há raras exceções de empregos precarizados, como telemarketing (onde não se vê quem está do outro lado da linha) ou salões de beleza. É raríssimo encontrar professoras, médicas, advogadas etc. que sejam trans. Até mesmo no comércio, em que os donos dos estabelecimentos querem passar uma determinada imagem de seus produtos e de seu atendimento, não servem às pessoas trans, porque estão estigmatizadas.

Já nas ruas escuras do nosso mundo hipócrita, elas podem estar a serviço do lucro dos cafetões e cafetinas, expostas a todo tipo de violência e relações marginais, realizando um dos trabalhos mais opressivos que se criou: a prostituição. Afinal, a pessoa que se prostituiu não presta um serviço ou vende sua força de trabalho com direitos regulamentados. Ela vende a si mesma, sem garantia de nada, correndo o risco de ser espancada e morta.

“O capitalismo assimila de tudo e reserva um lugar a cada um de nós”
Há pouco tempo, diante de grandes eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, quiseram aprovar a Lei Gabriela Leite que legalizaria a prostituição. Infelizmente, a defesa e a proteção daquelas/es que se prostituem não passa por essa iniciativa nefasta, que aprofunda as relações de desigualdade de identidade de gênero, de raça e de classe social. É assim porque regulamentaria, na realidade, a cafetinagem, permitindo que 50% do valor do serviço prestado pudesse ser apropriado por quem agenciasse as pessoas travestis/trans e que, além de outros motivos, negaria a possibilidade de estupro, o qual seria entendido como negação da oferta do serviço e estimulando o que há de mais degenerado no que toca às relações humanas, transformando pessoas em mercadoria.

Ainda sobre a assimilação pelo capitalismo, há todo um mercado de adequação ao corpo e autotratamento desenvolvido para que as mulheres travestis/trans tenham corpos mais próximos daqueles que desejam ou que procuram os clientes. Assim, de maneira arriscada, muitas dessas mulheres compram hormônios no mercado informal e/ou aplicam silicone industrial em seus corpos com as “bombadeiras” (mulheres que injetam o silicone industrial). Como consequência, o silicone industrial pode causar trombose, gangrena e até amputação. Em alguns casos, provoca a morte.

Toda essa vida difícil e exclusão sofrida pelas pessoas trans provoca, não raro, situações de envolvimento com a marginalidade e a fuga para suportar a dor causada por tamanhas dificuldades e rejeição, levando ao envolvimento com o tráfico de drogas, ao adoecimento, à depressão, a tentativas de suicídio e ao uso de drogas para anestesiar tanta dor.

É necessário exigir iniciativas urgentes dos governos, como aquelas concernentes ao uso do nome social sem burocracia e amplo acesso à saúde pública e de qualidade, incluindo tratamento respeitoso e humano. E também estamos atentos/as às demais instituições, como a mídia, que tem enorme responsabilidade sobre a dinâmica social.

Por Babi Borges, da Secretaria Nacional LGBT do PSTU, e Frida Pascio Monteiro, ativista trans, mestranda em Educação Sexual e militante do PSTU de Fernandópolis (SP)